20 de dez de 2006

Só com os botões

Solidão é uma palavra que está sempre no aumentativo. Há! Pensei nessa frase ontem, e achei bem legal. Mas, como diz meu amigo que não acredita na originalidade, alguém já deve ter pensando nisso. E, pra ser sincero, já devo ter lido isso - ou quase isso - em algum lugar. Meu conceito de solidão é o seguinte... estar entre muitas pessoas, e ainda assim se sentir só.

Acho que o porteiro deve ter uma das profissões mais solitárias do mundo, apesar de sempre haver pessoas entrando e saindo dos prédios. O comportamento deles quase não varia. Lêem o jornal, ouvem rádio, assistem a uma televisão de poucas polegadas, cochilam, desenvolvem hábitos curiosos. Uns são mais simpáticos do que outros, mas é só. Nem consigo imaginar um porteiro com a família. A esposa e os filhos do porteiro...

*****

No Edifício Dr. Elizeu existem dois porteiros, que alternam turnos. Numa tarde de sábado cheguei no prédio e encontrei o porteiro. Parecia tão ansioso por encontrar alguém, que me reteve no saguão para contar uma piada que, disse, ele tinha divulgado numa das diversas rádios da Rua XV. “Vão colocar na internet”, me contou, orgulhoso.

Ouvi a piada, ri, e peguei o elevador. Quando voltei, ele me reteve outra vez para contar pelo menos outras três piadas, que fiz questão de esquecer depois, considerando seu conteúdo obsceno ou preconceituoso. No dia seguinte, antes que eu entrasse no elevador, ele veio outra vez. “Ei, me diga uma coisa, como funciona esse negócio de piada na internet?” Primeiro ele comemora o feito, depois quer saber o que fez.

Ao lado do Edifício Dr. Elizeu existe um outro prédio, e outro porteiro. Costuma sair e ficar ao lado da porta, ele em seu uniforme cinza. Eu só o vi fazendo o gesto uma vez, mas tenho quase certeza de que é um hábito... Ele tem o costume de empurrar a dentadura para fora da boca. Fico pensando se ele sabe que faz isso.

Imagino que seja um tique desenvolvido enquanto permanecia esperando pela próxima pessoa que entraria pela porta.

*****

No outro dia cheguei para o trabalho um pouco cedo demais. Ainda não tinha ninguém na pequena sala que serve de redação. Como chovia do lado de fora, permaneci na entrada do prédio, esperando que a chuva passasse, ou que o chefe chegasse.

Enquanto nenhuma das duas coisas acontecia, percebi que o porteiro esfregava com insistência um guardanapo na lente dos óculos. Finalmente, parou e olhou mais uma vez os óculos contra a luz. Com expressão de assombro, virou para mim e disse: “Parece que tem um número na lente do meu óculos! Veja aqui!!”

Obedeci e, depois de uma rápida inspeção, concordei. Talvez fosse a indicação do ângulo das lentes, ou algo assim, opinei. Mas o porteiro parecia maravilhado. Era como Indiana Jones encontrando a Arca do Pacto. A importância que ele dava ao pequeno detalhe impresso na lente me deixou surpreso. Até a mim, que sou acostumado a dar importância a detalhes.

Por causa disso, há algum tempo, já cheguei a pensar que poderia ser porteiro. Mas não levei a idéia adiante. Por duas razões básicas: primeiro, porque não gosto muito de ficar sozinho. Segundo, porque não me entendo com a classe. Parece que não nos interessamos pelas mesmas coisas.

Dia desses, enquanto estava no elevador, reparei nos botões que ninguém aperta: “P.O.”, “Luz”, “Emergência” e “Alarme”. Quando saí do elevador, não me contive, precisei perguntar ao porteiro:

_Já reparou nesses botões do elevador? O que quer dizer “P.O.”?
_P.O., espere aí, eu já lembro... É... “Parada Obrigatória”.
_Ahn... E quando eu uso isso?
_Ora, quando você tiver uma emergência!
_Ué? Então quando é que eu uso o botão “Emergência”?
_Quando... quando...
_E entre “Alarme” e “Emergência”, qual a diferença?
_É... é... Ah, sei lá! – perdeu a paciência e saiu.

Desde então, não me contou mais piada. E eu fiquei aqui, sozinho, pensando com meus botões.

9 de dez de 2006

Nenhuma certeza aqui também

Na quinta-feira, a praça Duque de Caxias parecia repentinamente suja como nunca foi. Com a terra sobre a calçada, o capim crescendo entre as pedras, a estátua encardida e os bancos vazios. A coisa mais clara ali era uma folha vermelha que caiu do alto de uma das árvores, e que só continuou limpa porque não ficou ali.

Ao longo do final da semana, situações embaraçosas pareciam me perseguir. No banheiro do shopping, dois sujeitos brigavam por algo idiota como uma toalha. Talvez o funcionário da limpeza e um dos clientes. Lavei o rosto e saí rápido, antes de ver como terminaria a discussão.

Na rua, um japonês discutia com uma senhora morena que bateu num menino loiro. O Brasil é um país de união das raças. Onde está a união se todas elas brigam? “Fala pra ele que não bati em você”, disse a mulher para o menino. “Ela não bateu...” balbuciou o garoto, enquanto começava a chorar, sabendo que apanharia mais se dissesse o contrário.

A mulher que entrou no elevador olhava diretamente para o espelho, parecia enxergar a si mesma, mas fingiu não me ver, talvez para evitar um cumprimento cortês. Estava, com certeza, aborrecida.

O porteiro do prédio, um pouco acima do peso, foi até a porta e ficou ali, sem perceber que me aproximava. A porta é estreita. Sua presença interrompia minha passagem. De repente ele se virou, e percebeu que eu esperava a liberação do caminho:

_Opa! Estou trancando a porta! – disse, constrangido.
_É seu trabalho. – respondi, ácido, pra me arrepender depois.

“Quando algo está ruim, o pior vem logo atrás”. Ouvi alguém dizer enquanto passava em frente ao Café XV, logo depois de sair da redação. Aquela frase, proferida lá pela hora do almoço, me fez sentir uma vontade louca de provar o contrário.

Mas, de algum modo, a frase é verdadeira. Não que as coisas realmente piorem quando algo dá errado. Mas, quando algo dá errado, temos a tendência a enxergar outras coisas também erradas. O aborrecimento se expande, e parece atrair situações desagradáveis. Só que o desagradável somos nós mesmos. Do contrário, tenho certeza, nem teria ouvido a frase dita no café.

Porque quando tudo está certo, à noite, a Lua foge à lógica e parece maior e mais brilhante. E quando uma coisa está ruim, o próprio Sol fica súbita e constantemente encoberto, com a explicação científica do tempo nublado. E ao redor as pessoas falam palavras ruins, e acontecem situações chatas.

Tudo isso é porque algo deu errado, lá, no começo do dia, ou no final do dia anterior. Talvez porque não dormi direito ou não jantei quase nada. Talvez porque deixei de ver aquele filme engraçado, ou porque deixei de ver aquele sorriso.

Se acordássemos sempre pensando em algo bom, certamente os dias seriam melhores. E esse texto não seria tão genérico, com pequenas coisas desconexas sem início meio e fim.

Falaria a respeito da praça Barão de Guaraúna, que nunca esteve tão iluminada para o natal e, mesmo em silêncio, parece tocar alguma música. Ou sobre a moça da locadora de vídeo, que vestia um capuz de Papai Noel e disse, simpática, “temos apenas DVDs, as fitas de vídeo nós já vendemos todas”.

Lembraria mais da menina que sorriu para mim, ao entrar no elevador, logo que a mulher aborrecida saiu. Pensaria na risada que deixei escapar, quando o colega me contou como derrubou o celular dentro de uma pia cheia de água.

A observação do que acontece ao nosso redor depende do que acontece dentro de nós. Depende dos diálogos que temos, do filme que vemos ou do livro que lemos. Estou lendo um cujo título é “Nenhuma Certeza”, de um sujeito chamado Michael Larsen.

Ontem li um trecho que dizia assim: “Às vezes uma coisa fica na consciência da gente como uma luzinha incômoda. Em estoque. Pode ser uma coisa que a pessoa diz, ou a maneira como ela se comporta. Os jornalistas se habituam a observar, a ver, a reparar nas coisas. Às vezes, mais do que gostariam”.

Eu devia parar de ler textos que fazem tanto sentido. Eles me obrigam a escrever coisas menos significativas, para os outros. E detesto escrever para mim mesmo.

30 de nov de 2006

Mundo cão!


Existe algo de especialmente estranho no Universo. Talvez só aconteça comigo (é possível...), mas já reparei que muitas vezes surgem situações que guardam, entre si, alguma relação indireta, porém perceptível.

Ontem me aconteceu algo assim. Na reunião de pauta do início dessa semana, eu tinha me proposto a escrever uma matéria sobre como e quando uma criança pode ter um animal de estimação. Se existe uma idade certa para isso, uma raça de cachorro mais adequada, por exemplo...

Pois bem, à tarde marquei uma entrevista com a veterinária, e estava indo para sua clínica. No caminho, pensava na ironia da situação... Estava indo a uma clínica para consultar uma veterinária. Se dissesse isso em voz alta, soaria engraçado.

Mas fui arrancado desse meu pensamento pelo ruído de um carro que freava bruscamente, na Rua do Rosário, ao lado da praça. Quando olhei para a direção de onde vinha o barulho, enxerguei uma cachorrinha bassê, preta, que já tinha se batido contra o pára-choque, e que rolava embaixo do automóvel.

Em seguida, a bichinha já corria outra vez em direção à praça. O carro voltava a entrar em movimento, e outro ruído ganhava destaque... o choro de uma criança. Era um menino, de cerca de cinco anos, que corria sem rumo e berrava com toda a força. Teria se lançado no meio da rua, talvez com o mesmo destino do animal, se eu e um motoqueiro (agora eles preferem ser chamados de motoboys) não tivéssemos barrado a passagem do guri.

Depois, veio a mãe do garoto. Quando chegou perto, perguntou: “Pra onde ela foi, Luizinho?” Entre soluços, a resposta: “Ela foi... atropelada!”

Minutos depois, conversando com a doutora Larissa Garcia, eu soube que não há uma idade certa para que uma criança tenha um animal, desde que ela tenha a noção de que um cachorro é um ser vivo, e não um brinquedo. Também soube que essa história de que cada ano canino equivale a sete anos humanos é mentira. O envelhecimento do cachorro é irregular, e depende, entre outras coisas do tamanho do bicho. Não sei qual a lógica, mas, quanto maior o cachorro, mais cedo ele envelhece.

Mais tarde, quando cheguei em casa, encontrei sobre o sofá um panfleto que tinham deixado na caixa de correio. Dizia: “ADESTRAMENTO DE CÃES - Obediência Básica, Avançada e Guarda”. O papel mostrava a foto de um Pitbull chamado Kiron (disponível para acasalamento), e finalizava com uma frase que me fez rir: “Lembre-se: quem ama, adestra”.

Pra terminar, no final da tarde meu pai chegou do serviço e encontrou nosso cachorro dormindo tranqüilamente à porta da sala. Logo depois, minha mãe prendeu o cão (que só fica solto no quintal de vez em quando), e meu pai resolveu iniciar uma discussão por causa do modo como tratamos o bicho.

Terminou reclamando porque eu estava me omitindo da conversa. Se soubesse que eu estava pensando em cachorros desde o começo da tarde, talvez ele colaborasse falando sobre gatos ou periquitos.

Enfim, se cada dia tivesse um tema, como num seriado de TV, ontem teria sido um dia para falar de cães. Qual será o episódio de hoje?


Existe algo de especialmente estranho no Universo. Talvez só aconteça comigo (é possível...), mas já reparei que muitas vezes surgem situações que guardam, entre si, alguma relação indireta, porém perceptível.

Ontem me aconteceu algo assim. Na reunião de pauta do início dessa semana, eu tinha me proposto a escrever uma matéria sobre como e quando uma criança pode ter um animal de estimação. Se existe uma idade certa para isso, uma raça de cachorro mais adequada, por exemplo...

Pois bem, à tarde marquei uma entrevista com a veterinária, e estava indo para sua clínica. No caminho, pensava na ironia da situação... Estava indo a uma clínica para consultar uma veterinária. Se dissesse isso em voz alta, soaria engraçado.

Mas fui arrancado desse meu pensamento pelo ruído de um carro que freava bruscamente, na Rua do Rosário, ao lado da praça. Quando olhei para a direção de onde vinha o barulho, enxerguei uma cachorrinha bassê, preta, que já tinha se batido contra o pára-choque, e que rolava embaixo do automóvel.

Em seguida, a bichinha já corria outra vez em direção à praça. O carro voltava a entrar em movimento, e outro ruído ganhava destaque... o choro de uma criança. Era um menino, de cerca de cinco anos, que corria sem rumo e berrava com toda a força. Teria se lançado no meio da rua, talvez com o mesmo destino do animal, se eu e um motoqueiro (agora eles preferem ser chamados de motoboys) não tivéssemos barrado a passagem do guri.

Depois, veio a mãe do garoto. Quando chegou perto, perguntou: “Pra onde ela foi, Luizinho?” Entre soluços, a resposta: “Ela foi... atropelada!”

Minutos depois, conversando com a doutora Larissa Garcia, eu soube que não há uma idade certa para que uma criança tenha um animal, desde que ela tenha a noção de que um cachorro é um ser vivo, e não um brinquedo. Também soube que essa história de que cada ano canino equivale a sete anos humanos é mentira. O envelhecimento do cachorro é irregular, e depende, entre outras coisas do tamanho do bicho. Não sei qual a lógica, mas, quanto maior o cachorro, mais cedo ele envelhece.

Mais tarde, quando cheguei em casa, encontrei sobre o sofá um panfleto que tinham deixado na caixa de correio. Dizia: “ADESTRAMENTO DE CÃES - Obediência Básica, Avançada e Guarda”. O papel mostrava a foto de um Pitbull chamado Kiron (disponível para acasalamento), e finalizava com uma frase que me fez rir: “Lembre-se: quem ama, adestra”.

Pra terminar, no final da tarde meu pai chegou do serviço e encontrou nosso cachorro dormindo tranqüilamente à porta da sala. Logo depois, minha mãe prendeu o cão (que só fica solto no quintal de vez em quando), e meu pai resolveu iniciar uma discussão por causa do modo como tratamos o bicho.

Terminou reclamando porque eu estava me omitindo da conversa. Se soubesse que eu estava pensando em cachorros desde o começo da tarde, talvez ele colaborasse falando sobre gatos ou periquitos.

Enfim, se cada dia tivesse um tema, como num seriado de TV, ontem teria sido um dia para falar de cães. Qual será o episódio de hoje?

23 de nov de 2006

A expansão do Universo depende do tempo disponível ao seu criador

Ao longo desses quase dois meses em que o Universo e Afins permaneceu sem atualização, tive a comprovação de que o número de leitores é bem menor do que eu imaginava. Não lembro de ninguém, além de mim, cobrando novos textos. Lembro apenas de uma mensagem no orkut, que perguntava se eu ainda moro nesse planeta.

Resposta: sim, porém com menos tempo. Eis que surgiu um trabalho, e agora escrevo (e também reescrevo) algumas matérias no portal emergente de notícias Super OW! (www.superow.com.br). Não chega a ser o Planeta Diário, mas é realmente diário, talvez até mais.

Se o Universo diminuiu sua expansão, é porque o tempo dedicado às crônicas também foi reduzido. Site de notícias é a maior correria, e dez minutos depois de eu ter publicado uma matéria, ela já está embaixo de uma lista de outras cinco publicadas logo em seguida.

Conseqüências imediatas dessa minha nova empreitada: adquiri o costume de iniciar os parágrafos sem colocar espaço antes da primeira palavra (coisas da internet). Estou me tornando mais amigo do telefone. Passei a acordar mais cedo. E me acostumei a usar elevador!

O edifício Dr. Elizeu, na Rua XV de Novembro, onde está situada a pequena redação do Superow, possui um elevador antiqüíssimo. Não sei se é o mais antigo da cidade, mas há quem diga que é aquele que mais fede. Talvez seja o cheiro do óleo lubrificante que permite que uma máquina tão antiga continue funcionando.

Hoje o elevador fez um barulho estranho na lateral esquerda, ou talvez tenha sido em cima, enquanto eu descia o prédio. Lembrei de um episódio do desenho dos Simpsons, em que o Bart tenta avisar aos colegas que tem um Gremlin sabotando os pneus do ônibus escolar.

Parecia que algo tinha enroscado na parede do elevador. Por um instante fiquei alerta, e pensei em usar a escada com maior freqüência. Mas a escada possui degraus tão estreitos, que o risco pode ser ainda maior.

Portanto, se o Universo e Afins ficou sem novos textos por algumas semanas, não significa que situações bizarras deixaram de acontecer ao meu redor. Continuam acontecendo... só que o registro escrito ficou um pouco comprometido.

Alguns mistérios permanecem sem solução:

Existe um banco (instituição financeira) do centro da cidade, que costuma deixar suas cortinas erguidas durante a noite. Quem olha através das janelas, encontra cada faixa de cortina suspensa por meio de um nó. Alguns dizem tratar-se de superstição.

No meio da Praça Barão do Rio Branco ainda existe um “monumento ao nada”, sem forma definida, sem placa de bronze com indicação de homenagem. Apenas um bloco vertical de concreto, com mais de 2m de altura, onde velhinhos se apóiam para chupar picolés de morango.

Vez por outra podem ser avistadas figuras caricatas no centro da cidade. Como o homem que se parece (bastante) com o Pingüim, vilão do Batman. Inclusive se veste parecido, e caminha de forma semelhante, carregando sua misteriosa bolsa preta de couro. Ele pára numa esquina, e fica olhando ao redor como se procurasse por alguém. Batman, provavelmente.

E ontem fui abordado por um sujeito que se auto-intitulava “Zé-do-pão”. Perguntou se eu já tinha ouvido falar dele. Respondi na mesma hora, pra rimar com o nome: “não”.
“Eu vendo rosquinhas, mas não dou a rosca... entendeu?”, ele disse, rindo sozinho enquanto tirava um pacote de rosquinhas da sacola. Fiquei imaginando se sua tática de vendas era a mesma com homens e mulheres. Acabei comprando as rosquinhas do Zé-do-pão, não graças à sua propaganda, mas porque eu tinha fome naquela hora.

Situações bizarras não faltam. Continuo recebendo choques elétricos na maçaneta da porta da sala. Mas agora chego a ter dois ou três déjà vus por dia. E conheci uma menina que me ensinou uma série de verdades impressionantes: Djavan não canta no grupo Cidade Negra; Mahicari está mais para filosofia do que para religião; e existe protetor-solar em pó!

E o mundo continua girando... talvez ainda mais rápido.

P.S.: Curiosidade retirada do Aurélio... “déjà vu: Neur. Psiq. Ilusão epiléptica durante a qual o indivíduo interpreta mal objetos que, entretanto, vê bem e que passam a ter, para ele, características anormalmente familiares.” Quem lê isso, pensa que eu saio tremendo e desmaiando por aí. Que horror!

4 de out de 2006

Quantas colheres... quantas perguntas!

_Então, na sexta-feira passada resolvi comer uma empadinha. Mas dentro da empadinha tinha uma azeitona, e dentro da azeitona tinha um caroço.
_Uhn... – disse o dentista. – Quebrou o dente?
_Bem, não. Mas trincou. E estou preocupado porque é o dente da frente... Não quero ficar sem ele. É como um cartão de visitas.
_Sim, sim... Vamos dar uma olhada. Qual deles?
_É o da direita. Ahn... você cobra o orçamento?
_Não! Que é isso... você é de casa!
_Ah, então, por que não me serve um cafezinho?
_Com bolachinha? – perguntou enquanto mexia o espelhinho.
_Uhum! E uma escova de dente pra eu não fazer feio, né?
_Hum... hum... Olha só... seu dente tá bem. Só afetou o esmalte.
_Ah! Que alívio. Agora olha o dente da esquerda... porque eu mordi um osso hoje...
_Mas, você, hein!? Tá precisando se benzer!

E talvez eu realmente esteja precisando de algo assim, pois não estou enfrentando apenas problemas com empadinhas. Até porque, me disseram, toda empadinha possui azeitona com caroço. E só eu não sabia disso. Se bem que está ficando bem complicado fazer qualquer lanche no centro da cidade.
Ontem fui comer um risolis e a funcionária me perguntou se eu queria de frango ou de carne. Como se frango, no caso, também não fosse carne. Ela deve pensar como aquelas pessoas que insistem em dizer que passarinho não é animal. Se não é animal, é o quê? Vegetal? Mineral?
E em outra ocasião resolvi pedir uma xícara de café médio, com chantilly por cima. Fiz questão de frisar o “médio”, para restringir o número de perguntas que a garçonete faria, mas não adiantou muito.

_Com leite?
_Ahn... sim. Com leite.
_Vai querer que eu adoce?
_Não... tudo bem, eu mesmo adoço.
_É que... por causa do chantilly, as pessoas costumam adoçar demais.
_Ah... certo. Então, pode adoçar.
_Com açúcar ou adoçante?
_Açúcar.
_Duas ou quatro colheres?
_Pôxa! Mas eu pensei que você soubesse! – falei, ficando vermelho de indignação. _É que uns preferem bem doce, outros nem tanto.
_Eu quero menos doce. Coloque duas colheres de açúcar. Ok?

(Resposta mais adequada: “Mudei de idéia... Me traz um chá de camomila.”)

Acho que preciso começar a carregar no bolso um caderninho com minhas preferências anotadas. Um interrogatório desses só pra tomar um café?! E no domingo fui comer uma pizza. Apesar de estar acompanhado, imaginei que não daria conta da pizza grande. Pedi pizza média. Descobri que a pizza média é enorme. Acho que só tem esse nome porque ninguém agüenta comer mais do que metade.
E na saída da pizzaria, quando fui pagar, o sujeito veio me perguntar se eu tinha tomado vinho no copo ou na taça. Fiquei imaginando qual seria a diferença, mas minha resposta o deixaria bem surpreso:

_Cara... – eu disse – Eu tomei limonada. Hoje é dia de eleição, vocês nem podem servir vinho!
_Ah, é... Onde é que estou com a cabeça?
Era a lei-seca fazendo mais uma vítima.

29 de set de 2006

O melhor do debate

Bons tempos aqueles em que a gente passava horas assistindo a programas como Passa ou Repassa, TV Animal e Torta na Cara. Mas, para quem, como eu, sente falta desse tipo de programação, o debate entre candidatos a Presidente da República, exibido ontem à noite pela TV Globo, até que foi uma diversão e tanto.
Foi bom também para conhecer melhor o modo de pensar e falar de cada presidenciável. Mas, vamos observar o programa sob outro enfoque... Há tempos não se via uma discussão tão divertida, porque nenhum dos três candidatos que compareceram deixou de lançar frases merecedoras de registro. Então, que isso aqui fique para a posteridade.

Começou com Cristovam Buarque. O candidato usou uma frase tão bonita, por que não dizer poética, que eu até esqueci qual era o assunto político em questão no momento. Disse ele: “Quando duas solidões se encontram, elas se anulam.” Foi a frase que me fez saltar do sofá para apanhar o caderno de anotações e prestar maior atenção àquilo que os demais candidatos diziam.
Depois veio a Heloísa Helena que, ao falar sobre corrupção, fez referência a dólares escondidos “nas peças íntimas do vestuário masculino.” Mais tarde ela ainda iria falar a respeito da “estrutura anatomo-fisiológica” do ser-humano. Acho que homens usam cuecas... E alguns seres humanos, com suas estruturas anatomo-fisiológicas, usam peças íntimas do vestuário masculino. Minha nossa! Nunca uma cueca foi tão complicada.

Enquanto faziam perguntas um para o outro, Geraldo Alckmin e Cristovam Buarque perceberam que tinham, em seu discurso, alguns pontos em comum. Geraldo disse que, de certa maneira, eles estavam do mesmo lado. E Cristovam veio com uma ótima pérola filosófica: “Interessante que nós estamos do mesmo lado, e ao mesmo tempo não estamos. Tanto que estamos de lados opostos. Senão seríamos o mesmo candidato.”
Heloísa Helena parecia menos surpresa com a corrupção, do que com a quantidade de riqueza que ainda existe para ser sugada dos cofres públicos (credo! Já estou falando igualzinho a ela...). No meio do debate ela disse: “É inaceitável que no Brasil roubam, roubam, roubam... e o país ainda tenha dinheiro!”

Quando pensei que tinha acabado, veio o ato falho de Geraldo Alckmin. Ele não percebeu, mas quando falava a respeito dos elevados impostos que incidem sobre as mercadorias, declarou que “40% do açúcar é esgoto.” Isso mesmo, esgoto!
Depois que Heloísa começou a criticar, além do Governo Lula, também o Governo FHC, Geraldo veio com a confusa declaração: “É preciso dizer que não estamos discutindo o futuro, estamos discutindo o que vamos fazer nos próximos quatro anos.”

Cristovam e Heloísa estavam com a garganta irritada e na segunda metade do programa a situação se agravou. Quando Heloísa foi fazer uma pergunta a Cristovam, começou dizendo qual seria o tema da questão: “É sobre a saúde... COF! COF!”

Uma novidade interessante nesse debate... Diante da ausência do candidato Lula, os demais participantes poderiam dizer, em quarenta segundos, a pergunta que fariam para o candidato, caso ele estivesse ali. Foi assim que surgiu o seguinte diálogo entre William Bonner e Geraldo Alckmin:

WILLIAM: Candidato, o senhor pode escolher para quem fará a pergunta.
GERALDO: Escolho o candidato Lula.
(Aparece a cadeira vazia)
WILLIAM: O candidato Lula não veio, o senhor tem quarenta segundos.
GERALDO: Minha pergunta é... por que o candidato Lula não veio ao debate?

É de embolar o cérebro!

O debate foi, portanto, um festival de frases e situações curiosas. Só não foi mais engraçado porque Lula não apareceu. Mas vale a pena lembrar da frase que ele proferiu em sua última entrevista exclusiva à TV Globo, no início da campanha: “A única coisa que cai em nosso país é o salário. Ahn... a inflação!”
Fica a certeza: independente de quem seja a próxima pessoa a ocupar o cargo de presidente, não faltarão frases engraçadas a alimentar o riso, mesmo em situações de crise. Que Deus nos ajude!

Por último, é bom lembrar que o cenário do debate também colaborava bastante para que tudo ficasse mais cômico. Como se não bastasse a cadeira vazia de Lula, a produção fez questão de colocar o nome do candidato em uma espécie de palanque. A propósito... o dicionário Aurélio traz uma informação no mínimo curiosa. Sabe o que quer dizer a expressão “de palanque”? Significa “presente à discussão sem, contudo, nela se envolver”. Terá sido coincidência?

15 de set de 2006

Bafômetros e quilômetros

Sabe aquela frase... “Se beber não dirija”? Pois, então... Eu acredito, de verdade, que seja pura retórica. E digo isso não apenas porque o negócio não funciona na prática. Digo isso, principalmente, porque ninguém toma medidas para que funcione.
Vou ainda mais longe... Deve existir alguma espécie de convênio secreto entre as empresas de bebidas alcoólicas e as fabricantes de automóveis. Sim, porque para que mais automóveis sejam vendidos é necessário que:
a) O consumidor melhore sua situação financeira;
b) O número de carros já existente diminua.

Sabemos que está bastante difícil uma melhora considerável na economia, especialmente a brasileira. Agora, pare pra pensar... Quantos automóveis viram sucata por dia? Dezenas? Centenas? Milhares? E a bebida colabora para isso.
Por que a polícia não fica com um bafômetro, à noite, em frente aos bares? Porque sabe que todo motorista sai de lá embriagado, óbvio. Aqui na cidade de Ponta Grossa nós temos, anualmente, um evento chamado Münchenfest. A “festa do shopp escuro”. Pode imaginar como as pessoas ficam na saída? Agora, pense na ironia... Tem um enorme estacionamento do lado. Nem tem tanto bafômetro assim no mundo, pra testar em todo bêbado que sai do evento.

Outra causa de acidentes, dessa vez nas estradas, é o excesso de velocidade. Sempre me perguntei por que não fabricam os carros com velocidade máxima de 100 Km/h. Seria a solução para esse problema. Alguém veio me dizer que era impossível, pois a rotação do motor não permite, blá, blá, blá...
Pois, sabe que meu carro, um Voyage ano 1990, acaba de provar que é possível, sim! Ultimamente eu tenho dirigido bastante no centro da cidade, de modo que a velocidade não ultrapassa os 60 Km/h. Mas no final de semana fui viajar e, na rodovia, descobri que o carro não passava dos cem por hora. Não importava o quanto eu pisasse no acelerador.
Uma consulta com o mecânico revelou que o motor possui dois estágios de rotação. O problema é que, de tanto dirigir no centro da cidade, o segundo estágio do motor de meu carro emperrou, e não estava funcionando.
Parem as prensas! Avisem as revendedoras de carros! Todas elas precisam fazer o maior recall da história. E para salvar uma porção de vidas basta fazer um pequeno ajuste – emperrar o funcionamento do segundo estágio de rotação do motor. Não deve ser muito difícil fazer algo parecido com os automóveis que possuem injeção eletrônica também.
Pra finalizar... já reparou que o número de motocicletas está aumentando de um modo impressionante? Estou aqui fazendo a contagem regressiva... Quanto tempo será que vai demorar, para que lancem a frase “Se beber, não pilote”? Que porre...

8 de set de 2006

Pelos anéis de Saturno

O som de gargalhadas tomou conta do pequeno café. Três amigos estavam reunidos em torno de uma mesa, mas apenas dois riam. O terceiro permanecia sério, e encarava a garçonete para ter certeza de que pelo menos ela não riria. Finalmente, ele colocou a xícara de café outra vez sobre o pires:
_Não tem graça nenhuma... É verdade. Desde que publiquei aquele texto sobre Plutão, minha namorada não quis mais falar comigo e meu computador pifou, em seqüência, o mouse, a internet e o gravador de CD.
Gradualmente, os outros dois diminuem o riso. Élvio é o primeiro a falar:

_Desculpe aí, cara. Mas é muito engraçado... Acredita que Plutão trouxe para você uma maré de azar?
_Não. Plutão, não... O texto que escrevi sobre Plutão.
Nova seqüência de risadas, e é a vez de João:
_Cara, você não pode imaginar que maldições controlam sua vida. Coisas ruins acontecem. Olha só, eu sigo uma filosofia de vida, baseada em três simples sentenças: “Não mexer demais no celular, não mexer demais no carro, não mexer demais no computador.” Você vive instalando porcaria em seu CPU. Até que demorou pra dar problema...
_Com computadores pode ser, mas e quanto a minha namorada?
_Ora... – diz Élvio – com as mulheres também não dá pra mexer muito, não. Há! Há! Aliás, acho que dá pra traçar um link entre computadores e mulheres. Minha teoria é de que os computadores têm a mentalidade de mulheres. Veja, eles foram criados por homens. Mas foram homens nerds que não pegavam mulher. Que nem o Bill Gates! E fizeram com que a mentalidade das máquinas fosse parecida com o que mais desejavam. Assim chegamos à criação do Cpu que sempre dá problema e pelo qual a maioria dos homens é viciado e passa horas e horas em frente. Complicado e viciante, existe melhor definição para a mulher?

_Caracas... Eu acho que você pôs alguma substância ilegal nessa sua xícara de café. Tudo bem... acreditar na influência dos astros pode ser bobagem. Mas inventar uma teoria estúpida que nem essa, é ainda pior!
_Ah, olha aqui, eles têm aqui o jornal da semana passada. Sempre deixam em cima do balcão e demoram a limpar isso aqui. – João pega o jornal da sexta-feira anterior – Olha só... não tem nada demais aqui nesse seu texto. Aliás, você me diz que Plutão tá ferrando com a sua vida, mas você cita todos os planetas do Sistema Solar aqui! Qualquer um deles pode estar te azarando. Olha só: “Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno...”
_Você pulou Saturno.
_Saturno? Aqui não fala de Saturno.
_O quê? Dá aqui esse jornal... – corre os olhos rapidamente pelo texto – Eu esqueci de citar Saturno... Putz!

Levanta da cadeira, sai correndo com o jornal na mão.
_Ei! – grita Élvio – Aonde você vai?
_Preciso dar um pulo no jornal. Escrever uma errata.
O café é tomado outra vez... por gargalhadas.

1 de set de 2006

Os trailers, Click, e Os Jetsons

Na história dos amantes de cinema eu sou uma figura recente. E não sou o tipo do cara que assiste a qualquer filme; nem sou aquele que detesta quase todos eles – duas características comuns a quem realmente “aprecia” a sétima arte. Mesmo com meu pouco conhecimento, tenho a impressão que os trailers estão ficando cada vez melhores. Por conseqüência, os filmes estão se tornando decepcionantes.

Foi o que aconteceu em “O Todo-poderoso”, com Jim Carrey. O filme traz uma comédia legal, na qual o personagem tem os poderes de Deus, mas todas as melhores cenas eram mostradas no trailer, de modo que eu tinha desperdiçado a maioria das minhas risadas na sinopse, e não experimentava a agradável surpresa que é preciso ter no cinema. Afinal, ao longo dos anos, os diretores pararam de fazer pré-estréia dos lançamentos no cinema justamente para que, com a internet e o desenvolvimento dos outros meios de comunicação, o efeito surpresa continuasse a existir.
O mesmo não aconteceu em “Click” – a história de Michael Newman (Adam Sandler), um sujeito que vai comprar um controle remoto universal, e descobre que o aparelhinho “mágico” permite que ele controle a própria vida. Avançando, retrocedendo, colocando na pausa ou no slow motion. Quando vi o trailer, dei boas risadas, e achei que novamente o filme não superaria aquela sensação. Felizmente, me enganei. Ao contrário de Carrey, Adam Sandler usa e abusa dos poderes que tem nas mãos.

A história não é muito original. Na verdade, parece bastante com uma porção de outras histórias. Isso inclui “Uma canção de natal”, escrito por Charles Dickens; o próprio filme “O Todo-poderoso”, a respeito do qual escrevi no parágrafo acima; e um antigo episódio do desenho “Os Jetsons”, no qual George Jetson consegue um controle remoto muito parecido. Só que no desenho o aparelho se chama “repetiola”.
O filme abusa dos efeitos especiais, de um jeito que faz com que a gente esqueça que já tinha visto o trailer. Enquanto o personagem brinca com o controle remoto, o espectador ri se imaginando no lugar dele, podendo sacanear com o chefe sacana, solucionar o problema masculino da perda de memória, e resolver qualquer falta de tempo.

Mas, depois de tanto riso, o filme repentinamente se transforma num grande problema, que chega a assustar alguém como eu, que foi ao cinema para ver uma comédia. Ainda bem que o final clichê (no qual lembramos que a família vem em primeiro lugar) salva a comédia, do contrário a classificação do filme teria que ser alterada para drama.
Recomendo. Mas eu sou suspeito. Sou o cara que gosta de assistir Sessão da Tarde.
E que sabe que o filme Click se baseia num desenho dos Jetsons...

25 de ago de 2006

Plutão e nossas vidas

Ele, trabalhando no jornal, saía sempre mais cedo, quando ela ainda não havia acordado. Ela, trabalhando numa loja de vendas de celular, só precisava levantar uma hora depois. E assim, o momento do reencontro era quase sempre a hora do almoço, em algum restaurante do centro da cidade. Mas, naquele dia, o silêncio da mulher fez com que ficasse preocupado. Finalmente ela falou.
_Hoje tive tempo de ler o seu jornal.
_“Meu jornal”... essa é boa! – ele sorriu.
_Você me entendeu. – ela disse, de cara fechada.
_Ahn... e achou algo interessante?
_Não gostei de seu texto.
_Qual deles?
_Aquele artigo que fala sobre Plutão ter deixado de ser planeta.
_Ora, o que tem de errado?
_Você escreveu que se sente enganado porque no colégio te ensinaram os nomes de nove planetas. E agora só há oito.
_É... foi o que escrevi. Já tentou dizer os nomes dos planetas do Sistema Solar, agora que retiraram Plutão? “Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno e...” Fica sempre um “e” no final. Uma espécie de vácuo na memória. Como se Plutão tivesse explodido como aconteceu com Krypton.
_Você está desviando do assunto.
_Não tô não... Tô falando de Plutão. – ele disse, colocando mais salada no prato. Olhou pra mulher e viu que continuava aborrecida – Ahn... por que não gostou do texto?
_Você disse que a culpa dessa desinformação é dos professores, que ensinaram que o Sistema Solar tem nove planetas, sem deixar qualquer chance de questionamento.
_Não. Eu escrevi que eles têm uma parcela da culpa. Mas, é claro... Com essa mania de considerar a ciência uma coisa exata, sempre me disseram que existem nove planetas. Uma vez até me disseram que, com o tempo, poderiam descobrir outros planetas. Mas nunca disseram que um deles poderia desaparecer. Não falaram que isso podia mudar, de acordo com a vontade dos astrônomos. Os professores deviam deixar claro para os alunos, como uma informação pode mudar com o tempo. E mostrar que devemos desconfiar e duvidar das coisas. Mas não fazem isso.
_Acontece que, se os professores fizessem isso, seria o caos. Os professores colocam a ciência como verdade, para que os alunos consigam se apoiar em alguma coisa. Do contrário, as crianças cresceriam sem acreditar em nada. Desconfiando de tudo, seriam tão chatas quanto você. – ela disse, aumentando o tom de voz na última frase
_Mas... o quê...
_Eu sei disso, porque minha mãe foi professora.
_Ah... agora caiu a ficha! Eu tinha esquecido desse detalhe.
_Esquecido, uma ova! Você escreveu aquele texto de propósito, só porque odeia minha mãe.
_Mas, eu não odeio sua mãe! Eu apenas não vou muito com a cara de minha sogra. – brincou.
_Você fez aquele texto pra me provocar!
_Não... espera aí, eu nem lembrei que sua mãe foi professora... Eu não...
_Pois fique aí comendo sua salada, que eu vou almoçar em outro lugar! – gritou a mulher, enquanto arrastava a cadeira, acompanhada pelo ruído do talher que caía sobre a borda do prato.
O ruído de sapatos femininos foi se distanciando, até que a porta da frente se fechasse. As pessoas, que tinham parado de comer a fim de prestar atenção à cena, voltaram ao almoço tranqüilo.
Ele ficou sem entender muita coisa. Imaginou que a mulher tinha enfrentado um dia ruim no trabalho. “Como eu podia saber?”, pensou.
Um garçom, velho conhecido, saiu da cozinha sem saber o que tinha acontecido. Passou pela mesa do jornalista e parou ali por um instante:
_Ei, como vai?
_Tudo certo... (suspiro)
_Eu li seu texto hoje.
_Qual deles?
_Aquele que fala sobre Plutão.
_Ahn...
_Achei muito bom.
_É mesmo?
_Claro. Gostei mesmo do final... como era mesmo?
_“...afinal, se Plutão é ou deixa de ser um planeta, isso jamais vai afetar nossas vidas aqui na Terra.” – lembrou o jornalista
_Isso! Muito bom. Uma grande verdade.
_Uhn... Pois eu nunca desejei tanto escrever uma errata.
E voltou ao almoço.

22 de ago de 2006

Outro guardamento

De repente eu estava com o carro estacionado diante do cemitério. Aquela manhã era fria para quem estivesse na sombra e quente para quem ficasse no sol. Eu estava na sombra, minha prima estava sentada no banco do carona, ao sol. E nenhum de nós estava satisfeito, principalmente lembrando que estávamos diante do cemitério.
E foi de repente, como costuma ser com qualquer pessoa que se aproxima de um cemitério, sejam quais forem as circunstâncias. Minha prima tinha passado a noite lá em casa e, pela manhã, logo depois de eu ter acordado, o telefone tocou. Enquanto eu ainda tomava minha caneca de café, ela entrou na cozinha e veio trazer a notícia. Algo mais ou menos assim: a madrinha da mãe dela tinha falecido, e eu devia levar minha prima até o cemitério onde, às dez horas, ocorreria o sepultamento.
Assim, chegamos ao local com cerca de dez minutos de antecedência. E minha prima, falante e agitada como sempre foi, começou a contar histórias a respeito do sobrenatural, e me convidou a fazer o mesmo. Felizmente já não sou tão impressionável quanto fui no passado. Depois que a gente vê luzes estranhas no céu, ruídos macabros no teto, fantasmas atravessando a rua, descargas de banheiro funcionando sozinhas... Enfim, a gente se acostuma.
Enquanto conversávamos, apenas uma coisa me deixou realmente intrigado: um homem que estava parado diante do cemitério, ao lado de um automóvel. Ele parecia impaciente. Olhava para o relógio, contemplava o grande eucalipto que já se tornou um símbolo daquela parte da cidade. Depois esticava o pescoço, a fim de olhar ao longe se o cortejo fúnebre já estava chegando. Mas não estava.
E, de fato, havia uma certa demora. Depois de quinze minutos de atraso minha prima já estava se tornando insuportável. Queria que eu a levasse para casa. Parecia querer dizer algo como: “eles não vêm.” Para mim, só havia três explicações possíveis: ou o cortejo tinha se atrasado, ou ela tinha se enganado a respeito do horário, ou estávamos no cemitério errado. E, conhecendo minha prima, eu estava começando a dar excessivo crédito às duas últimas alternativas.
Para solucionar a questão, e mostrar pra ela que eu fazia algo a respeito, telefonei para sua mãe. Bastou que o telefone fosse atendido do outro lado, para que eu visse no espelho retrovisor o cortejo fúnebre que se aproximava. Uma porção de carros foi estacionando nos dois lados da rua.
Minha prima ficou brava comigo. Parece que não estava muito animada para assistir à cerimônia, e esperava que eu já a tivesse levado para casa. Mas essa sua indignação sem motivo não chegou a me preocupar, porque enquanto os vários automóveis estacionavam, eu via o misterioso senhor correr de um lado para outro, denunciando a razão de sua presença no lugar.
Para cada um dos motoristas ele falava alguma coisa, e fazia uma confirmação com a cabeça. E não estava dando seus pêsames. Ele era um guardador de carros. Ou flanelinha, como prefiram chamar.
Jamais gostei de guardadores. Para mim, no quesito chateação, eles estão empatando com distribuidores de panfletos e operadoras de telemarketing. Não tenho nada contra eles, mas sim contra o serviço deles, que várias vezes (senão todas) me pareceu inútil.
Por um pequeno espaço de tempo me concentrei na figura daquele senhor que atravessava de um lado para outro, tentando falar com o maior número de motoristas. Aposto que só conseguiu falar com cinco ou seis daquelas pessoas. Imaginei de que modo ele organizava seu trabalho. Provavelmente ouvia no rádio o horário de sepultamento e corria até o local no horário indicado, a fim de cuidar dos automóveis estacionados. Isso explicava sua impaciência, aguardando pelo cortejo. Devia ter uma agenda com os horários em cada cemitério.
Quando percebi, minha prima já tinha saído do carro e caminhava em direção à pequena multidão que entrava no cemitério. Reclamou sobre não conhecer ninguém. Seria o enterro certo? Não sei quem de nós perguntou, nem lembro se ela respondeu. Enquanto se afastava do veículo, minha prima se virou mais uma vez, fez uma careta pra mim. Talvez tenha mostrado a língua. Me concentrei na direção. Saí com o carro antes de ser detectado pelo flanelinha. Mas, pela primeira vez, desejei que ele ganhasse algumas moedas com o serviço. Sair numa manhã de domingo, para esperar cortejo fúnebre... não é pra qualquer um.

8 de ago de 2006

Sonhos e água benta

7 de agosto de 2006

Certa vez vi num livro uma ilustração. Acho que era de uma pintura surrealista. Mostrava uma mulher nua, sob a mira de uma espingarda que flutuava e saía de dentro da boca de um tigre que, por sua vez, saía da boca de um peixe dourado. Ao fundo existia um elefante cinza com patas finas e muito longas, como as de uma girafa. E tudo isso parecia sair de dentro de uma romã, em torno da qual havia uma abelha. E a legenda era, se bem me lembro: “Sonho causado por uma abelha sobrevoando uma romã, um segundo antes do despertar.” Ou algo parecido.
Era bem mais complexo, na verdade. Mas é isso o que de vez em quando vem à minha memória. E sempre me pergunto se significa exatamente aquilo que penso: que o autor da obra dormiu à sombra de uma árvore de romãs, e foi acordado pelo zunido de uma abelha que voava perto de um dos frutos. Pouco antes de acordar, o artista fixou na memória as imagens que tinha visto em seu sonho, e transportou para a tela aquilo que não teria sentido nenhum na realidade. Mas essa pintura serve, no meu entender, para demonstrar o funcionamento dos sonhos. Funcionamento que, apesar de confuso, segue uma lógica própria, normalmente baseada na realidade de nosso cotidiano.

Digo isso porque hoje, poucos segundos antes de acordar, sonhei que meu carro tinha cinco limpadores de pára-brisa no vidro dianteiro. E, de algum modo, sei que um dos responsáveis por essa visão maluca é um padre. Porque ontem, por ocasião da Festa de São Cristóvão, e a pedido de meu pai, levei o automóvel para a tradicional benção.
Os automóveis passavam ao lado do sacerdote que, após proferir algumas palavras, jogava sobre o carro a tal água benta, usada pela igreja católica desde o século IV, para benzer e exorcizar. (Li isso no dicionário) Depois que passei por essa experiência – que acredito não ter sido um exorcismo – vi que o vidro da frente tinha ficado um pouco molhado e, bem mais por brincadeira do que por necessidade, acionei o limpador de pára-brisa. Mas eu não esperava que faria tamanha sujeira.
Qualquer dia desses vou perguntar a um padre o que eles colocam naquela água benta. Já vi, durante missas dominicais transmitidas pela TV, o padre dizer para colocarmos um copo d’água sobre o televisor, que assim a água se tornará benta. Logo, sempre pensei que a água benta nada mais fosse do que uma água... benta. Mas não pode ser só isso. No mínimo tem sal naquela água, porque depois de secar ela deixou o vidro manchado de branco.

Isso serviu como um pretexto para limpeza, porque há vários dias o carro não via água de nenhum tipo. Assim, ontem à noite fui dormir pensando que hoje, pela manhã, teria que levá-lo até o posto de combustível para fazer uma lavagem. E foi por isso que tive o sonho maluco com os limpadores de pára-brisa.
O engraçado é que, no sonho, logo depois de perceber o milagre da multiplicação dos limpadores, eu também perdia o controle da direção do carro, que caía num barranco e ficava encalhado. Talvez fosse uma referência à frase que meu irmão disse ontem à noite, também a respeito da benção dos carros: “De nada adianta uma benção, se o que o motorista bebe não é água benta.”
Eu quase não bebo. Mas tendo sonhos como esse... preciso?

4 de ago de 2006

Teoria dos noventa e nove

Não é preciso ser jornalista para notar que algumas reportagens são recorrentes nos noticiários. E não estou me referindo à corrupção na política, que de tão recorrente já se tornou comum aos olhos da maioria. Mas, por exemplo, quando chega o momento mais frio do inverno brasileiro, sempre tem uma reportagem na região sul. Aparecem as árvores com orvalho congelado nos galhos, entrevistam um velhinho que diz, em 65 anos, nunca ter visto frio como aquele. Passam a mão no gelo sobre o pára-brisa do carro, quebram o lago congelado, filmam turistas maravilhados, exibem o termômetro da praça. Coisas assim.

O mesmo acontece no Natal. No caso, a data é que determina o conteúdo das reportagens, que vão falar sobre a lenda do Papai Noel, o movimento nas lojas, a escolha dos presentes. Na Páscoa, a fabricação de pêssankas, a história de Jesus Cristo e... a criação de coelhos.
Mas existe uma reportagem que costuma ser repetida a cada ano, e que não tem relação direta com estações climáticas ou datas comemorativas. E esta reportagem eu vi no telejornal de ontem. Trata-se do uso comum (e, por isso mesmo, incomum) de números ímpares nos preços de mercadorias. Produtos que, em lugar de custarem R$10,00 custam R$9,99.
Parece uma coisa à toa. Mas o negócio é mesmo violento. Não acredito muito na utilidade desse procedimento, em termos publicitários. Não acho que deixaria de comprar a mesma mercadoria, se custasse um centavo a mais. Ainda assim, sempre existe a questão do subliminar, coisa que a gente não domina.

O problema é que, de subliminar em subliminar, a realidade é apenas uma: não recebo o troco. Nessa jogada de “noventa e noves” a gente sempre sai perdendo. Tudo bem que é coisa de um ou dois centavos. Só que é isso que me deixa pensando... que fim levou as moedas de um centavo??
Se for parar pra pensar, não sei quando foi a última vez que vi uma. Lembro que, há alguns anos, houve uma espécie de campanha para que as pessoas gastassem as moedinhas de um centavo que, segundo especialistas, ficavam perdidas em gavetas e frestas de sofás. Mas aqui em casa não tem nenhuma! Até fizemos uma reforma no sofá...

Então, aqui vai a teoria da conspiração da semana: Será que o Governo não parou de fabricar as moedas de um centavo, e recolheu as que já existiam, numa espécie de acordo com o comércio nacional, que de centavo em centavo acaba lucrando horrores?
E que fim levou as balinhas de troco? Tá tudo escondido com as notas de cem reais?

28 de jul de 2006

Surge um coqueiro

Manhã de sexta-feira. Entre um gole de café e uma mordida no pedaço de pão com margarina, um coqueiro. Um coqueiro? Não... nada de sardinha no pão com margarina. Acontece que, olhando através da janela da cozinha, vi um coqueiro, ao longe. A árvore se erguia atrás de um prédio onde, há anos, funciona uma creche comandada por freiras. Há tempos costumo ficar olhando naquela direção. Sempre há algo interessante ali.

Houve uma época em que as freiras resolveram criar um carneiro. Daqui de casa eu podia ver o animal pastando, e me sentia como se vivendo numa aldeia distante, onde a tecnologia das máquinas ainda não tinha chegado. E onde as freiras, para poupar o extenso trabalho que seria aparar periodicamente a grama, decidiram criar um carneiro que fizesse o trabalho quase de graça, deixando para trás apenas alguns montes de bolinhas pretas...

Talvez esses montes tenham aumentado gradativamente até que a presença do carneiro passou a ser indesejada. Ou talvez o bicho tenha dado uma cabeçada em uma das crianças que passavam o dia na creche. O fato é que, certo dia, o carneiro não estava mais lá. Sumiu do mesmo modo que apareceu. E deu lugar a um homem com cortador de grama.

Foi também olhando em direção à creche, numa manhã de inverno em que as freiras promoviam sua tradicional festa junina junto às crianças, que eu vi, pasmem, neve. A festa junina seguia com um locutor animando a dança, e colocando as músicas para divertir a criançada. De repente, começou a cair o que parecia ser uma garoa fina, mas que se diferenciava pelo modo como as gotículas caíam, cada uma dançando a seu próprio modo, fazendo ziguezagues no ar. O locutor disse com incredulidade: “Está nevando!? Está nevando aqui na festa junina!” E o fenômeno não durou mais do que trinta segundos. Mas eu vi.

E agora, um coqueiro. Enquanto tomava café, notei aquele coqueiro que eu nunca tinha visto antes. Como era possível? Mágica, como em “João e o pé-de-feijão”? Há anos olhando naquela direção, nunca tinha visto o coqueiro que se erguia por trás do prédio.

_Que estranho... um coqueiro que nunca vi antes. Como pode ser?

Minha mãe veio com a triste suposição:

_Devem ter derrubado uma outra árvore que estava na frente.

Sim, a explicação era plausível. Outra explicação veio em seguida. Percebi que as folhas do coqueiro estavam amareladas, o que o destacava das árvores em redor. Talvez o fato estivesse relacionado à estiagem prolongada.

Pobre natureza... E eu aqui pensando numa mágica em que o coqueiro nasce da noite para o dia. Ou num desenho animado em que trazem o coqueiro na carroceria de um caminhão, para que seja plantado nos fundos da creche.

Lembrei de uma situação bem diferente, mas que deve guardar alguma semelhança. Foi quando, certa manhã, um ladrão entrou na casa de meu amigo e levou o CPU do computador. Quando meu amigo acordou, descobriu o furto. Mas ficou surpreso ao encontrar, junto à porta de entrada, o velho par de sapatos do ladrão.

Naquele dia, eu e meu amigo ficamos imaginando que ladrão engraçado era aquele... Levou o computador e, em troca, deixou seu velho par de sapatos. E essa hipótese permaneceu por algum tempo. Até que descobrimos que o ladrão também tinha levado um par de tênis do meu amigo.

A boa imaginação tem esse defeito. Às vezes oculta o óbvio, fazendo com que a agradável fantasia se sobreponha à realidade implacável. Até que surge um coqueiro.

16 de jul de 2006

Panorâmica

Há anos ela vivia no mesmo lugar. Um espaço não muito grande para a maioria das pessoas, mas suficiente para ela. Vivia na praça. Nem por isso se considerava pobre. Ao contrário, durante toda a sua vida nada lhe faltou. Teve comida, teve bebida, teve amores. Sua existência foi simples desde o nascimento. Pudera, ela não incomodava quase ninguém, e até agradava à maioria. Isso acontecia, já era sabido, porque ela não era gente. Ela era uma pomba.
Sendo pomba, se acostumou a ver cenas desagradáveis, mas corriqueiras. Não era a única a viver na praça. Havia também pessoas que dormiam ao relento, e precisavam mendigar. A pomba nunca se preocupou com isso, pois sempre teve uma casa na copa de uma das árvores, perto do estacionamento dos táxis. Casa erguida ali há várias gerações, pela prefeitura. Mas a mesma sorte não tinham essas pessoas.

Já tinha acompanhado a mudança que a praça sofrera ao longo dos anos. Lembrava de quando havia um módulo policial na esquina. O módulo tinha sido demolido para dar lugar a um grande monumento de significado enigmático. Mas o ambiente belo durante o dia, se tornou duvidoso à noite. Depois disso, a pomba viu como o lugar se tornou mais perigoso, não para ela, mas para pessoas. Sem segurança, viu assaltos e tentativas de assaltos. Jovens se drogando e pichando muros.
Isoladas, essas coisas sempre pareceram normais a ela. Mas algo, um acontecimento novo talvez, alterou seu modo de perceber o mundo. Pode ter sido a idade avançada. Ou algum novo sabor de pipoca que a pomba experimentou. O fato é que, num instante, ela passou a entender a injustiça e desgraça que havia à sua volta. Conseguiu fazer associações. Em uma palavra... ela passou a raciocinar.

Notou que tinha visto tudo aquilo a sua vida inteira, e jamais tinha se dado conta. Lembrou que tinha sido sua espécie a responsável pelas boas novas bíblicas. A mensagem contida num ramo, segundo a qual as águas haviam baixado e um mundo novo se iniciava. Parecia tão bom, no princípio.
Tomada por grande desespero e um sentimento de impotência, a pomba levantou vôo e começou a sobrevoar a praça, de onde raras vezes havia saído. Passou diante da Igreja do Rosário e pensou novamente: “Como posso ser o símbolo do Espírito Santo, se nada faço para melhorar isso tudo?”

Em velocidade cada vez maior, continuou contornando a praça, o desespero crescendo em seu pequeno coração. Em meio a tantas imagens, uma chamou sua atenção: a estátua de um homem, com a corda envolta no pescoço e as algemas prendendo suas mãos. Sob os pés da estátua, a frase que tantas vezes foi lida e só agora parecia fazer sentido para o pássaro. “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria.”
E num movimento, descreveu um vôo rápido e fatal, rumo à estátua. Pouco antes do impacto de seu pequeno corpo contra a estátua, pensou que sua morte não mudaria nada. Mas, raciocinou, sua vida também não.
A pomba morreu porque pensou como ser humano. Os homens só vivem porque pensam como pombos.

7 de jul de 2006

Almas condenadas

Há alguns anos existiu em Ponta Grossa um supermercado chamado Real. Mas isso foi na época em que nossa moeda era o Cruzeiro. Porque agora que nossa moeda é o real, no lugar daquele supermercado está o supermercado BIG, cujo slogan mais recente traz a frase: “É mais que preço baixo. É BIG!”
Ora, se é mais que preço baixo, significa que é preço alto, certo? E se é “BIG”, é um preço altíssimo, certo? Então, será que já despediram o autor desse slogan?
A propaganda é a alma do negócio. Mas algumas dessas almas estariam condenadas, caso as pessoas prestassem maior atenção ao seu conteúdo. Antes eu não ligava a mínima pra isso, mas depois de passar várias horas vendo televisão e escutando a rádio do Terminal Central de ônibus, chega um momento em que a gente percebe o quão estúpidas algumas propagandas conseguem ser.

Mas o pior é uma propaganda que estou vendo na televisão há vários dias. A imagem mostra um menino, cabisbaixo, segurando um ursinho. Não lembro exatamente as palavras, mas o narrador diz algo como: “Por ser mal-criada, essa criança sofreu muito. Aos 5 anos apanhou pela primeira vez, aos 9 anos foi queimada pela primeira vez, aos 11 anos foi violentada pela primeira vez. Denuncie a exploração sexual de crianças.”
Como é que pode? Primeiro, repare que a primeira frase tem duplo sentido. Não dá pra saber se a criança foi mal-educada porque os pais e professores eram incompetentes, ou se foi mal-educada porque a própria criança não respeitou pais e professores.
Depois vem essa seqüência de atrocidades, dentre as quais já fiquei suficientemente chocado com as queimaduras. E o narrador diz pra denunciarem a (e apenas a...) violência sexual, como se as barbaridades anteriores não tivessem importância, e só aos 11 anos a criança precisasse de ajuda.

Devia haver protestos contra essa ausência de lógica que domina, não apenas propagandas e anúncios publicitários, mas também as letras de música. Tudo bem que devemos considerar a licença poética dos músicos. Mas tem uma música que toca há tempos nas rádios FM... Uma parte da letra traz a frase: “Você sempre não quis.” O pior é perceber que a frase só foi feita desse jeito para que a rima funcionasse no final da estrofe, porque “você nunca quis” não daria certo.
Já que comecei falando de supermercado, aqui vai outra pérola do comércio ponta-grossense: “Não tem pra ninguém: supermercado é Armazém!” Ora, se não tem pra ninguém, como é que as pessoas ainda vão até lá comprar? Quem foi que criou esse slogan? Engraçado foi há alguns meses... quando assaltaram o tal supermercado. Quer dizer que tinha pra alguém, afinal!

26 de jun de 2006

O vírus da Copa

O Estádio Germano Krüger não estava lotado. Na verdade, a presença dos torcedores era bem menor que a esperada. Os jornais diziam que a expectativa era de que 8 mil pessoas comparecessem ao jogo entre o Operário e o visitante São José. Mas parece que o São José teve uma crise de identidade, ou de santidade, pois resolveu fazer o trabalho de outro santo: trouxe chuva.
Começou com garoa fina, depois o vento ficou mais forte e, finalmente, a temperatura caiu. Quem não estava com dor de garganta ou com um princípio de gripe preferiu ficar enrolado nos cobertores no sofá da sala, comendo pipoca quentinha e esperando o horário em que começaria mais um jogo da Copa do Mundo (Portugal X Holanda), confortavelmente transmitido pela TV.
No intervalo do jogo do Operário haveria o sorteio de camisetas, rádios, uma bicicleta e dois fuscas (!). Mas esse não foi estratagema suficiente para atrair o público. Uma parcela dos torcedores resolveu ir até a parte mais alta das arquibancadas, onde havia cobertura. Ali, em meio a algumas dezenas de pessoas, estava um sujeito que causaria surpresa, caso fosse reconhecido. Usava um boné marrom, blusa cinza e calça jeans. Dois fones de ouvido conectados a um pequeno rádio de pilha completavam a insólita aparição desse personagem. Não era nenhum ator da TV Globo, nem cantor de funk, nem político. Não era celebridade. Na verdade, estava longe de ser conhecido e, justamente por isso, não era reconhecido. Era, simplesmente, eu, oras bolas. (Decepção?)
Na verdade, minha presença ali explicava a presença da garoa que ameaçava virar chuva de verdade. Quem conhece meus hábitos sabe que não costumo assistir a futebol. Menos ainda num estádio. Menos ainda em tarde gelada como foi nesse domingo. Mas o espírito da Copa tomou conta desse corpo que tremia de frio no cimento das arquibancadas. E, é claro, eu podia ganhar um fusca...
Começou o primeiro tempo. O que não faltou foi falta. Nessa frase, o que não faltou foi “f”. Mas nenhum dos dois times conseguiu mostrar um belo jogo. Destaque para o gandula que, em determinado momento, se atrapalhou com as bolas, e ganhou uma vaia da torcida. E para o menino, de cerca de seis anos, que estava sentado na minha frente. Quando um jogador errou feio o passe, o garoto levantou, apontou para o atleta e soltou uma baita gargalhada. O pai, constrangido, fez sinal para o menino fazer silêncio. “Por que, pai?”, cochichou o moleque. “É que esse jogador é do nosso time...”, explicou o pai, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.
Veio o intervalo. Óbvio que não ganhei um fusca. Nem bicicleta, camiseta ou rádio. Mas ainda tinha a esperança de que o Operário ganhasse a partida. Começou o segundo tempo. A chuva aumentou. As pessoas se espremeram na arquibancada coberta. O São José não tinha muito fôlego para o jogo e dava espaço para o Operário.
O Operário se aproveitava disso. Um dos jogadores conseguiu fazer um drible fantástico, daqueles que merecia replay. Mas deu pra perceber que foi totalmente involuntário. Um cidadão que estava do meu lado resolveu bancar o corvo de Edgar Allan Poe, supondo saber o que se passava na mente do jogador sortudo. “Nunca mais...”, disse o tal rapaz.
A sorte, entretanto, estava longe do time da casa. O comentário era de que haviam enterrado um sapo embaixo do gol onde o Operário devia marcar. Mas, se havia feitiço entre aquelas traves, esse atendia pelo nome de Adir – o goleiro – , que não deixava passar nenhuma bola. Ou seja, fazia seu trabalho.
Apenas por duas vezes a pelota escapou de suas mãos. Numa delas, a bola ainda bateu na trave. O goleiro virou para um repórter que estava ao lado do gol, e disse, em tom filosófico e didático: “Se não tiver sorte, não pode ser goleiro.”
Cartões amarelos. Impedimentos. Machucados. Esse foi o resultado da partida. Porque o placar continuou, como no início, zero a zero. O Operário deixou o campo sob os protestos indignados da torcida, que gritava: “Timinho, timinho, timinho...”
Enquanto voltava para casa pensei que concluiria esse texto assim: “E, pra completar, além de não ganhar o fusca e ver um jogo que terminou sem gols, ainda peguei uma baita gripe.” Mas, que surpresa, não peguei gripe. E ainda cheguei em casa a tempo de ver o Felipão comemorando a vitória de Portugal sobre a Holanda. Que espírito de Copa, que nada. A Copa é um vírus. E, assim como gripe, passa.
Se não virar pneumonia...

8 de jun de 2006

Introdução à estupidez

Houve uma época em que podiam me considerar bonzinho. Eu, inclusive, concordava. Depois, veio um período em que me chamavam de bonzinho e eu detestava, porque era como ser chamado de idiota. Agora, há tempos ninguém diz que sou bonzinho. E, quer saber, não sinto nenhuma falta disso.
O fato é que estou aprendendo a ser ruim. Ruim, palavra monossilábica com acento agudo na vogal “u”. Esse tipo de aprendizado demanda mais tempo para uns do que para outros. Assim como aprender outro idioma é mais fácil para uns do que para outros. E, nesse caso, o idioma chama-se estupidez. A única forma de linguagem que algumas pessoas entendem.

O problema é que nunca sabemos o momento exato para utilizar esse idioma e, na maioria das vezes, usamos na hora errada, ou com a pessoa errada. Por via das dúvidas, boa parte das pessoas usa o tempo todo. E, assim, o efeito que a estupidez devia ter, acaba se perdendo.
Hoje, pela enésima vez, recebi um telefonema indesejado. Na verdade não era pra mim. Era pra minha mãe. Mas, considerando que eu atendi, não faz muita diferença. É sempre a mesma ladainha: Um rapaz de fala mansa (nada a ver com cantor de forró) diz que deseja falar com minha mãe para fazer um agradecimento. E essa palavra, “agradecimento”, me faz ter certeza de que, na realidade, o cara está telefonando da sede de uma entidade beneficente, com a finalidade de arrecadar (aparentemente, sem fins lucrativos) dinheiro.

Eu conheço a peça porque a história é sempre a mesma. Por isso, não me surpreendi quando minha mãe disse que não ia atender. E procurei transmitir o recado para o cara do outro lado da linha:
_Ela não pode atender.
_A que horas eu posso telefonar, então?
_Ahn... Ok, eu me expressei mal... Ela NÃO QUER atender.
_Não quer atender? Mas, por quê? Ela sabe de onde estou ligando?
_Bem... Se vocês já ligaram pra esse número mais de dez vezes nesse ano, então acho que sim.
_De onde você acha que estou falando?
_Deve ser uma dessas entidades beneficentes que dizem ajudar os doentes com câncer de pulmão, problemas de coração e criancinhas sem pai.

Até eu me surpreendi com minha resposta. Porque, dizendo assim, parece que não ligo a mínima para os doentes com câncer de pulmão, problemas no coração e criancinhas órfãs. Mas, realmente, não menti sobre a dezena de telefonemas que já atendi, provenientes da mesma instituição, à qual já ajudamos algumas vezes.
Certa vez perguntei porque ligavam tanto na minha casa. Me disseram que era uma espécie de escolha aleatória feita a partir da lista telefônica. Fiquei pensando por que não faziam sorteios de prêmios em dinheiro nesse mesmo estilo. Mas nããão... o dinheiro só sai, e não entra nenhum.

Então, é isso. Talvez o mesmo rapaz telefone novamente pra cá, esquecendo de minha última resposta. Ou, mais provavelmente, será outro funcionário fazendo o mesmo serviço. Logo, poderia dizer que não fez nenhuma diferença tratá-lo com grosseria. Pra mim fez... me senti momentaneamente ótimo.
Sei o que você (que já é rúim há tempos) está pensando... “Ele nem foi tão grosseiro assim. Eu teria dito alguns palavrões, pelo menos.”
Pessoas... eu ainda tô aprendendo. Tem gente que até me acha legal!

22 de mai de 2006

Cara de um, drive de outro...

Um amigo, certa vez, formulou uma teoria bastante interessante. Dizia que os técnicos de informática pensam como computadores. E, de certo modo, deve ser isso mesmo. Explicaria o fato de entenderem as máquinas. Decerto conversam entre si no mesmo idioma: a linguagem binária. Estou lembrando disso porque tive uma experiência que, talvez, sirva para comprovar tal teoria.
Acontece que eu não entendo os computadores. Talvez por isso eles vivam implicando comigo. Há alguns dias resolvi equipar meu CPU com um gravador de CD. Quase ao mesmo tempo comprei uma máquina fotográfica digital. Instalei os dois periféricos e estava feliz da vida, até descobrir que meu scanner tinha, por alguma razão (ciúmes, talvez...), deixado de funcionar.
Tentei reinstalar o aparelho, desinstalar a câmera, e uma porção de outras coisas, mas nada funcionou. Indignado, fui ligar meu joguinho de corrida de carro (adoro esses simuladores), mas o jogo também não funcionou. O computador avisava que não havia CD no drive. Mas, como não havia? Estava lá, sim! Desinstalei e reinstalei o jogo, e nada. Isso, sim, me deixou revoltado...
Não houve jeito, precisei chamar o técnico.
Contei a ele o que estava acontecendo com o scanner, que não ligava. Enquanto ele vasculhava o sistema, ocasionalmente, falei também sobre o meu jogo de corrida de carros que não funcionava. Expliquei que o computador não identificava o disco. Ele achou estranho, e não soube responder o que estava havendo, nesse caso.
Quando ele foi reinstalar o scanner, ficou subitamente desorientado. O monitor mostrava o drive leitor de CD (representado pela letra E) e o drive gravador de CD (representado pela letra D). Mas o técnico não entendia o que significavam as duas letras, até que olhou para o CPU e disse:
_Ah... você tem duas gavetas de CD.
_Sim! – eu disse – Eu já te falei que tinha colocado um gravador de CD.
_Mas acontece que os computadores agora costumam ter apenas uma gaveta. Porque o mesmo drive que grava também serve para ler o CD. Não há necessidade de ter dois.
_Ahn...

Em pouco tempo, o problema do scanner foi solucionado e o técnico foi embora. E eu fiquei ali, apenas tentando imaginar por que meu joguinho não estava funcionando. Até que lembrei como o técnico tinha ficado perdido, quando percebeu que o CPU tinha duas gavetas. Pensei no modo como ele confundia uma gaveta com a outra, enquanto olhava para o monitor. E foi pensando nisso, que fiz a experiência...
Coloquei o disco do jogo no drive gravador de CD. Bingo! O joguinho funcionou normalmente. O problema era que o computador também não estava entendendo a presença de duas gavetas de CD e procurava o disco na gaveta errada.
Moral da história: “Entenda a mente de um técnico de informática, e você entenderá também o funcionamento de um computador.”
Quanto ao scanner... Só teve uma coisa que o técnico fez, e eu não tinha feito: Desligou o plug do aparelho, e depois tornou a ligar. E mesmo isso, tenho quase certeza, eu também já tinha feito. Vá entender...

9 de mai de 2006

Cuidado com as pedradas

Uma chuva de meteoritos esteve (está?) causando o maior rebuliço aqui no sul do Brasil! Eu não sabia de nenhuma chuva de meteoros se aproximando, de repente ouço a manchete num telejornal regional, dizendo que um objeto estranho foi visto no céu de Curitiba!
Foi no início da semana passada, aproximadamente às dez horas da manhã. Em plena luz do dia, várias pessoas avistaram um objeto luminoso cruzando o céu da capital paranaense. Um dos entrevistados disse que viu o objeto (aparentemente do tamanho de uma bola de futebol) caindo entre dois prédios.
Será que somente depois que o fato chamou a atenção das pessoas o jornal resolveu divulgar o negócio? Eu, pelo menos, não sabia de nenhuma chuva de meteoros se aproximando da Terra. A reportagem concluía dizendo que nenhum objeto foi encontrado no solo, mas que observações como essa estavam sendo comuns na região sul do país. Havia relatos de objetos no céu, explosões e tremores de terra. (!) E os caras falam isso com a maior tranqüilidade...
No mesmo dia o jornal Hoje Centro Sul, com sede em Irati-PR, onde publico semanalmente algumas charges, teve sua impressão atrasada. Houve relatos de um meteorito que caiu numa cidade vizinha e a equipe de reportagem se deslocou até lá, onde também acabou não encontrando nada.
O rádio falou de outras explosões em Santa Catarina. Parece o filme “Guerra dos Mundos”...

A propósito, eu tenho aqui alguns recortes interessantes de jornais. Em 2004 foi identificada uma rocha de 400m que vinha em direção à Terra. Já tinham calculado até a data em que haveria o choque... uma sexta-feira, 13 de abril de 2029. A NASA refez os cálculos e disse que estava descartada a possibilidade de colisão. Também, por que iriam confirmar? Iríamos mudar para a Lua? Quem sabe?
Em 2003, pesquisadores australianos detectaram um asteróide de cerca de 2 Km de diâmetro, vindo em direção à Terra. Seu impacto teria o efeito de 20 milhões de bombas atômicas de Hiroshima. Denominado “2003 QQ47” (os nomes são sempre os melhores), a pedrinha teve a data de colisão calculada. Tchan, tchan, tchan... Anote aí nos lembretes de seu celular... 21 de março de 2014.
Alguém aí faz aniversário nessa data?
Calma... depois de todo esse alarme, nossos amigos cientistas não perdem tempo em dizer que as chances de tal catástrofe acontecer estão na proporção de uma em 909 mil. Talvez seja mais fácil cair um Boeing 747 no telhado de sua casa. Mesmo assim, você pode estar com sorte e ter saído para jantar fora naquele instante. Ou pode estar com azar e ter resolvido viajar... justamente nesse Boeing.

2 de mai de 2006

Quem tem fé acredita no pé grande

Vi uma reportagem na televisão há alguns dias. Era mais um caso de bebê abandonado, dessa vez em Ponta Grossa. Felizmente a criança foi encontrada por uma família de catadores de lixo, que a alimentaram e levaram até o hospital. O impressionante é que depois desses acontecimentos sempre surgem dezenas de pessoas dispostas a adotar a criança. Normalmente quem a encontra deseja cuidar dela. Por isso tenho uma proposta a fazer:
Sei que existem várias instituições que cuidam de crianças em busca de pais adotivos. A todas essas instituições eu faço uma sugestão. Peguem esses bebês que estão esperando por pais adotivos e abandonem nas ruas. Coloquem um na calçada, outro na lixeira, outro numa caixa de areia. Até agora funcionou com todas as crianças que vi em reportagens.
Óbvio que estou sendo extremista – ao extremo. Mas não é estranha essa febre por adotar crianças abandonadas em lixeiras? Tão estranha quanto a febre por abandonar crianças em lixeiras. Talvez os candidatos a pais adotivos estejam em busca de uma situação criada pelo acaso. Talvez estejam esperando que a criança apareça em seu quintal. Portanto, vamos abolir as instituições que procuram pais adotivos... Vamos distribuir crianças aleatoriamente, que o resultado pode ser mais prático. Funcionou com Superman...

Fiz uma pequena viagem nesse feriado. Em pleno Dia do Trabalho, estive passeando. Sei que essa contradição já foi apontada milhares de vezes. Mas, se ela continua existindo, por que devemos fingir que ela não existe? O fato é que acompanhei dois amigos – Ben-Hur e Alceu – até Irati, onde pretendiam tirar algumas fotografias. Eles são bons nisso. Escolhem o melhor ângulo para cada imagem, e conseguem fazer o comum ficar interessante.
Enquanto saíamos em busca das melhores imagens, o céu azul foi tomado por diferentes tipos de nuvens. E uma delas adquiriu o formato de um gigantesco pé. Ficamos impressionados com a perfeição do desenho. Inclusive, tive vontade de estar com uma máquina fotográfica para iniciar um novo projeto: fotografar nuvens em seus diferentes formatos, e assim fazer um álbum. Aposto que seria interessante. Mas em seguida, ainda olhando para as nuvens, percebi a ironia que o trabalho de fotógrafo pode carregar. Quanto mais bela ou inusitada for uma fotografia, maior será a dúvida quanto à sua autenticidade. Com tecnologias como o programa Photoshop, quem garantiria que não fabriquei uma nuvem em formato de pé, usando apenas meu computador? Mais uma vez, depende da fé de cada um.

25 de abr de 2006

O Evangelho segundo a vizinha

Há cerca de uma semana fui até uma loja com minha mãe, onde ela pretendia comprar algumas toalhas. Comprou seis.
Dias depois, na última quinta-feira, nossa casa foi invadida por um ladrão, que entrou à noite, enquanto dormíamos. Nenhum de nós viu ou ouviu coisa alguma. Felizmente, o malandro não passou da garagem, de onde só conseguiu levar um par de chinelos, um de sapatos, e algumas toalhas que estavam no varal. Dou um prêmio para quem adivinhar quantas toalhas o meliante levou...
Naquela manhã, minha mãe ficou indignada com o nosso cachorro, que foi repreendido por ela, e nem ganhou os afagos habituais. O animal já está velhinho e uma amiga, certa vez, ao ouvir seu latido, sugeriu imediatamente que eu o levasse ao veterinário, porque ele estava rouco. Apesar disso, seu latido ainda é nosso alarme e, por causa de seu silêncio (devia estar dormindo também na ocasião), o ladrão teve maior tranqüilidade.
Desde então minha mãe conseguiu ficar mais paranóica do que eu. Dependendo da situação, ela tranca cada porta por onde passa. E meu pai está se empenhando na instalação de um novo sistema de alarme.

Bem, nesse fim de semana foi feito um churrasco aqui perto de casa. Um pretexto criado especialmente para reunir os colegas de meu tempo de universidade (pouco mais de um ano). Aqui em casa ficaram hospedados meus amigos Glaydson, Márcio e Fernanda. Foi bom relembrar alguns de nossos velhos hábitos, como o de estabelecer discussões sobre temas variados. Não foi durante um almoço no restaurante universitário, mas foi igualmente interessante.
Num desses debates, Glaydson lançou a pergunta: “O que acharam do Evangelho de Judas”? Eu disse que não mudaria muita coisa em minha vida, mas o Márcio fez questão de lembrar que... “se Judas não fosse visto como o traidor de Jesus, os fatos seriam outros, e a própria História seria modificada.”

De fato, é curioso observar que para qualquer breve relato existem diversas versões. E a prova disso veio um dia depois do roubo das toalhas. Minha mãe e meu pai espalharam para os vizinhos a notícia de que um ladrão entrara em nossa casa, e que todos deveriam ficar alertas. E a cada vez que os acontecimentos eram relatados, nosso cachorro era apontado, direta ou indiretamente, como um dos principais culpados pelo sucesso do bandido. Mas foi num desses relatos que surgiu uma nova versão para os fatos.
Minha mãe disse à vizinha que o cão não latiu e, provavelmente, estava dormindo enquanto o ladrão agia. E a vizinha surpreendeu ao informar que, naquela fatídica madrugada, ouviu os latidos roucos de nosso cachorro. Na ocasião, ela acordou e chegou a perguntar ao esposo: “Por que será que o cachorro da vizinha tá latindo?” E a resposta teria sido algo como: “Vai dormir, mulher... esses cachorros latem por qualquer coisa!”
Depois disso, minha mãe percebeu a injustiça que cometeu com o cachorro. Aparentemente ele fez seu trabalho, mas nosso sono era pesado demais para ser interrompido pelos seus latidos roucos.
Agora ele voltou a ser tratado pelo título de “amiguinho”. Realmente, diferentes versões para um mesmo fato podem alterar o resultado final da História. E o Márcio já sugeriu algo para amenizar a rouquidão de meu cachorro:
“Dá umas pastilhas Valda pra ele...”

12 de abr de 2006

Mas, será mera coincidência?

Tem gente que não acredita em coincidência. São pessoas que acham que o destino está por trás de tudo. Convido essas pessoas, então, a me ajudarem na tarefa de apontar explicações para aquilo que, aparentemente, é obra do acaso. Eu acredito mais em coincidência do que em destino. Mas admito, por experiências próprias, que há coincidências assustadoras.
Por exemplo, o que a novela Malhação tem em comum com o Jornal Nacional? É incrível, mas existe algo que aproxima essas duas diferentes programações. E como eu assisto a um pouco de tudo, posso dizer o que é... Estou falando de duas personagens que, apesar de habitarem diferentes espaços da programação da TV Globo, são muito parecidas.
A novela Malhação traz a personagem “Dona Vilma”, que é a responsável pela lanchonete Gigabyte. Enérgica, está sempre implicando com funcionários, usando seu tom de voz autoritário.
E o telejornal, quando fala de política, traz “Dona Dilma”. Estou falando de Dilma Rousseff, a ministra da Casa Civil. Alguém já notou a semelhança? Os nomes das duas só sofre alteração na primeira letra! Mas, não basta isso. Visualmente, uma é a cara da outra. Óculos, cabelo, e até a voz! Sim, a voz é parecida! Será que Dona Vilma, personagem da ficção, foi inspirada em Dona Dilma? Ou terá sido o contrário?

E por falar em voz... O que os desenhos animados têm em comum com as músicas mais tocadas nas estações de rádio FM? Bem, eu não aprecio muito a canção, mas o fato é que não dá pra ligar o rádio sem ouvir “Glamurosa”.
Pois então, pare e preste atenção na voz do cantor, no momento do refrão: “Glamurosa... rainha do funk...”, ou algo assim. Reparou como a voz é conhecida? É a voz de um personagem de desenho animado que está fazendo enorme sucesso na televisão brasileira: Bob Esponja!
Sim, tudo indica que Bob Esponja e MC Marcinho são a mesma entidade! A voz é muito parecida... Como se não bastasse isso, os desenhos do primeiro personagem são tão sem-sentido quanto as músicas do segundo. Será coincidência? Ou começa a ganhar significado uma frase de autor desconhecido que diz: “Nós controlamos tudo o que você vê e ouve.”?

Estão dizendo que a viagem do astronauta Marcos Pontes não passa de publicidade brasileira. Outros dizem que as experiências que ele fez no espaço (plantando feijões e observando a capacidade de os vaga-lumes acenderem num ambiente sem gravidade) foi bastante útil. Particularmente, acredito que foi uma injeção de idéias na cabeça dos criativos piadistas brasileiros. E eu aproveito uma coincidência para lançar outra Teoria da Conspiração...

Você deve ter notado que a Globo fez a viagem do astronauta parecer o evento do século. O JN deu destaque especial ao acontecimento espacial (sem trocadilhos). Pois então... E não é uma incrível coincidência que Casseta & Planeta voltou a ser exibido justamente nesse momento?
Acho que a emissora deu todo esse destaque à viagem do astronauta, porque Casseta & Planeta precisava ser exibido, mas o pessoal tava meio sem idéias. Então deram a sugestão de transformar Marcos Pontes em notícia. Assim, não faltariam piadas à turma do Casseta.
Acontece que fugiu ao controle, e as piadas atingiram níveis estratosféricos. Se o astronauta ficasse lá em cima por mais tempo, poderiam ter chegado quase à órbita da Estação Espacial. Proliferaram as charges nos impressos e na TV, aumentaram as ironias no rádio, as conversas em praças e bares ganharam novos toques de humor.
Sei que foram 10 milhões de dólares gastos na viagem do astronauta ao espaço. Mas boa parte desse dinheiro serviu para custear, também, o riso dos brasileiros, já acostumados a rir do próprio ridículo. Quando a gente fica muito tempo de mau jeito... amortece.
Vilma ou Dilma?

7 de abr de 2006

A cada segundo, 70 mil pessoas deixam de ler o Universo e Afins...

Nunca fui muito fã de estatísticas. Poderia simplificar, dizendo que isso ocorre porque matemática não é meu forte. Entretanto, sei que é mais do que isso. A verdade é que nunca acreditei em dados estatísticos, especialmente aqueles que procuram apresentar dados chocantes. Muitas vezes, são informações tristes, desesperadoras ou revoltantes. Mas não consigo me concentrar em nenhuma dessas três características. Quando procuro entender exatamente o que o cálculo diz, ou de que forma foi elaborado, invariavelmente acabo rindo discretamente.
Dado revoltante: ouvi num comercial de TV algo mais ou menos assim... “A cada 15 segundos, uma mulher é vítima de violência praticada pelo próprio marido.” Minha indignação com o fato não durou muito, porque então meu raciocínio lógico tentou adivinhar de que modo tal estatística foi estabelecida.
É óbvio que existem inúmeros casos de violência contra a mulher. Mas todos sabem que pouquíssimos casos de agressão chegam ao conhecimento, por exemplo, da polícia. A mulher raras vezes decide denunciar o esposo. Na maioria das vezes, a informação não passa da casa da vizinha que, meio sem querer, ouviu a briga do casal.
Teria sido uma enquete? “A senhora apanha do marido? Com que freqüência?” Não acredito que tal pergunta tenha sido feita por aí. E se tivesse sido feita, não atingiria dados como esse. Quinze segundos é o tempo, aproximado, que o tal comercial fica no ar. Imagine se isso for verdade! Não sou bom em matemática, já disse. Mas, faça os cálculos...
Uma mulher espancada a cada quinze segundos. Quatro mulheres agredidas por minuto. Duzentas e quarenta mulheres por hora. Cinco mil e setecentas mulheres em 24 horas! Como é que se chega a esses números?

Outro dia eu ouvi um psiquiatra dizendo que 10% da população possui algum tipo de distúrbio psíquico. Acho que ele se referia à população brasileira. Mas dez por cento não é brincadeira! A pacata cidade de Ponta Grossa possui cerca de 300 mil habitantes. Significaria que temos 30 mil pessoas com distúrbios mentais!
Não saia mais de casa, por favor. É pra sua segurança... Sempre achei que tem um pessoal estranho andando pelas ruas. Uns falam sozinhos, outros falam com qualquer um. E outros param em qualquer praça pública e berram para todos os que por ali passam. A porcentagem explicaria muita coisa. O engraçado é que qualquer um pode estar nessa estatística. Não sabemos o nível de distúrbio psíquico que o cálculo leva em consideração. Eu sei que pode incluir, por exemplo, coisas pequenas como medo de altura ou uma leve depressão.
Será que entre esses 10% de desequilibrados não estão alguns dos homens que batem nas esposas? Uhn... Nesse caso até que a estatística dos espancamentos foi modesta. É claro que existe uma possibilidade um tanto curiosa... Entre esses 10% podem estar incluídos os que criam tais estatísticas. E, nesse caso, os cálculos poderiam estar incorretos. E assim, terminamos no paradoxo de sempre. Estatísticas... ou você acredita, ou não. Depende, também, da fé de cada um.

3 de abr de 2006

Aranhas que voam e carros que pulam...

Eu ia escrever sobre isso no dia 1º de abril... Mas achei que o tema já era, por si só, difícil de acreditar. Então vou escrever hoje: Eu vi uma aranha voando. Na verdade, vi uma aranha planando, mas nem por isso fiquei menos chocado.
Saí da cozinha aqui de casa e vi que alguma coisa passou voando em minha frente. Parecia um cisco sendo levado pelo vento. Mas então focalizei o objeto voador, que logo deixou de ser não-identificado. Uma aranha? Acompanhei o bichinho durante cerca de três metros, até que o vi pousar num pequeno muro onde estavam alguns vasos de flor. E então, enquanto via o cisco caminhando próximo às folhagens, confirmei... era mesmo uma aranha! Minúscula, e que conseguia juntar suas patas até que formassem uma espécie de asa.
Então, cuidado... as aranhas aprenderam a voar. Às vezes parece que não falta acontecer mais nada. Mas sempre surge coisa nova.

Acho, inclusive, que vou lançar uma comunidade do orkut, sobre coisas que acontecem aqui em Ponta Grossa. Espero que não interpretem isso como uma espécie de exaltação à minha cidade natal. Mas é que nesse ponto do planeta acontecem algumas coisas, e existem determinadas personagens, dignas de registro.
Hoje, por exemplo, vi no telejornal uma notícia que merece destaque...

Uma mulher dirigia seu automóvel tranqüilamente pelo centro da cidade. Parece que foi na principal avenida – a Vicente Machado.
Eis que ela ouviu um estouro vindo, aparentemente, da parte de baixo do carro. Quando percebeu, seu automóvel tinha levantado do asfalto e subido em um Fusca que estava estacionado na lateral da avenida.
Algumas testemunhas, entre elas o infeliz proprietário do Fusca amassado, dizem ter ouvido o estouro. Quando olharam em direção ao barulho, viram o automóvel se equilibrando em apenas duas rodas, vindo em direção ao velho Volkswagen. A imagem era a mais insólita possível. Um automóvel “rampando” no outro.
Por isso eu penso que Ponta Grossa deve ser uma espécie de Smallville do interior do Brasil. Nossos meteoros de criptonita devem ter caído onde hoje ficam as misteriosas Furnas – três grandes crateras conhecidas também como “Caldeirões do Inferno”, que tanto atraem os turistas.

Mas digo isso sabendo que coisas estranhas acontecem em toda a parte. Os jornais estão aí pra mostrar justamente isso. Agora não começou uma onda de celulares explodindo? Pois é... Escutei o comentário no rádio: parece que o problema é que muitas pessoas não saber usar corretamente os torpedos.
É até irônico... daqui a pouco os fabricantes terão que efetuar o recall dos celulares. Tem como evitar trocadilhos?
A FIFA está proibindo a comercialização de frangos na Alemanha, devido ao perigo de contaminação por gripe aviária, durante a Copa do Mundo. A FIFA proibindo frangos? É claro que Joelmir Beting, no Jornal da Band, não deixou passar o trocadilho, também.
E agora ainda mandaram um astronauta brasileiro pro espaço! Ainda não entendi o que ele vai fazer lá... O mais ridículo que ouvi até agora é que ele vai fazer no espaço uma experiência com plantas. A mesma experiência que crianças farão em escolas aqui na Terra. Ora, então, por que ele não foi fazer a experiência na escola, ao invés de torrar 10 milhões de dólares entre a saída e a reentrada na atmosfera terrestre?
Aliás... tenho quase certeza de que essa experiência sobre crescimento de plantas eu também já fiz quando estudava no primário.

E quer saber... acabo de criar a comunidade no orkut. Por favor, não me deixe sozinho nessa... http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=11183014&refresh=1

27 de mar de 2006

Mentira? Imagine só!

Dias atrás um amigo veio dizer que conheceu minha ex-namorada. Engraçado como eu sempre falava para ele a respeito dela, quando ainda havia o namoro. E ele só foi conhecê-la depois que o namoro tinha chegado ao fim. O comentário dele: “Você sempre falava sobre ela... Mas como eu nunca a tinha visto, pensei que ela não existia. Pensei que ela fosse como um amigo-imaginário...” Fiquei pasmo ao notar que ele falava sério.
Durante muito tempo eu tentei compreender por que, raios, algumas pessoas duvidam de coisas que eu falo. Odeio, por exemplo, quando faço um relato e meu interlocutor pergunta: “Verdade?” Dá vontade de esganar a pessoa. “Mas, você jura?” Eu não juro porcaria nenhuma. Ou você acredita em mim, ou então vá pro inferno! Uhn... é isso o que eu deveria responder...

O fato é que, pensando no comentário de meu amigo sobre minha “namorada imaginária” e olhando para algumas de minhas comunidades no orkut, acho que cheguei a uma explicação.
Uma das minhas comunidades diz: “Eu não sei mentir”. E, de fato, se eu tentar mentir, fatalmente vou me sair pior do que se tivesse dito a verdade. Então, procuro não me arriscar. Outra comunidade anuncia: “Eu já vi Óvnis”. Já notei que essa é a comunidade que mais chama a atenção das pessoas, não sei por que motivo. Mas, pensei, interessante como a comunidade número 1 parece entrar em conflito com a número 2. E, finalmente, reparei em outra comunidade logo abaixo: “Minha imaginação me assusta”.
Certo... Refleti sobre essas três frases e cheguei à conclusão: Apesar de eu não mentir, as pessoas sabem que minha imaginação é fértil. Assim, mesmo sendo completamente sincero, como vão acreditar se eu disser algo como: “Ontem vi outro Óvni.”?

Quando eu era criança, acordava cedo e continuava deitado em minha cama. Ficava olhando para a cortina presa sobre a porta. Havia desenhos de flores na cortina. Mas, naquele estado de semiconsciência, eu via que uma das rosas tinha, em seu desenho, traços que lembravam um dinossauro, e que outras pétalas lembravam um soldado. Quando eu menos esperava, o soldado estava tentando matar o dinossauro e uma espécie de desenho animado surgia, sem que houvesse outro movimento que não fosse o da minha imaginação. Sim, eu vivia praticamente no “Mundo de Bobby”.
De lá pra cá, algumas coisas mudaram... A cortina não é mais a mesma. Agora é sem estampa. Mas existem histórias interessantes nos azulejos do banheiro.
Só sei que imaginar não é o mesmo que mentir. E que, na maioria das vezes, as coisas que imagino revelam mais verdade do que mentira. O engraçado é que, recuperando alguns dados de minha memória, percebo que nunca tive amigo-imaginário. Acho que, apesar do elevado grau imaginativo, sou incapaz de inventar pessoas. A menos, é claro, que eu tenha inventado todo mundo, e ainda esteja olhando para a velha cortina estampada.

20 de mar de 2006

Pelo bem dos manequins

Há poucos dias escutei num anúncio de rádio uma expressão que há tempos não ouvia: “vitrine-viva”.
Na última (e primeira) vez em que escutei a palavra, eu devia ter uns sete anos de idade. Lembro bem, era noite de vésperas de Natal. Eu caminhava pelo Calçadão da Rua Coronel Cláudio – que talvez ainda nem fosse oficialmente um calçadão – junto com meu pai. De repente vi uma multidão de homens reunidos, todos em frente à vitrine de uma loja.
Fiquei curioso. Com tantas vitrines, por que todos resolveram ficar se empurrando diante da mesma? Perguntei ao meu pai sobre o que acontecia ali. Ele esboçou um sorriso e disse apenas “vamos lá também.” Brigando por espaço, pudemos chegar a ver as duas mulheres que, vestindo apenas peças de lingerie, realizavam movimentos robóticos e, em seguida, permaneciam algum tempo paradas, o rosto muito sério, evitando demonstrar reação às cantadas e assobios dos homens ali reunidos. Na ocasião, lembro bem, meu pai explicou que aquilo era uma vitrine-viva.

Mas as pessoas mudam. Umas crescem, outras envelhecem. As mais sortudas conseguem fazer as duas coisas. E agora, conversando com meu pai a respeito, chegamos à conclusão de que a vitrine não é viva. As manequins é que são. Faz sentido.
De lá pra cá eu nunca mais soube que tivesse existido outra vitrine como aquela. Mas eis que na semana passada uma das lojas da cidade anunciou a sua “reinauguração”. Reinauguração é um termo engraçado, também, nesse caso. Afinal, a loja existe há anos e nunca fechou. Já mudou de endereço, mas isso faz tempo. Então, não entendi por que disseram estar reinaugurando.
O fato é que a loja disse que durante a reinauguração haveria uma porção de atrações. Entre elas, uma vitrine-viva! Lembrei de minha experiência quando era criança e pensei: “Hora de rever a vitrine-viva.”
Mas, pra encurtar a história... foi uma grande decepção. As manequins eram bonitas, mas não usavam lingerie. E eu achava que vitrine-viva obrigatoriamente tinha que ter lingerie. Uhn... quem sabe no Natal?

Vitrines são coisas engraçadas. Eu raramente paro a fim de olhar uma delas. Mas, há algumas semanas, um anúncio em uma vitrine me obrigou a parar. Dizia assim: “Vende-se essa vitrine.” Também já vi uma vitrine que anunciava: “Vendem-se manequins.” Parece bem insólito. Como as livrarias que vendem placas de “Aluga-se”.

Coisa estranha são esses manequins. Não há padronização nos modelos. Existem manequins sem pernas, existem os sem-braços, sem pernas e sem braços, e até sem cabeça. Outros têm o corpo bem feito e uma cabeça bem pequena, como se o corpo tivesse sido feito por uma empresa e a cabeça por outra.
Li em algum lugar a respeito de maníacos sexuais que atacam manequins. Fico pensando que talvez esse seja o motivo de muitos desses manequins saírem da fábrica propositalmente mutilados. Talvez haja poucos maníacos dispostos a transar com um manequim sem cabeça. Ou talvez por isso alguns manequins tenham uma cara tão feia. Quem sabe por isso a maioria não tem cabelo? Pelo bem dos manequins. Sei lá, é uma teoria.