23 de jul de 2014

Devagar. Soberba passando...

Tem dias em que tudo o que a gente precisa ouvir é um pedido de desculpas. E isso está cada dia mais difícil de acontecer. Os motivos são vários, mas acredito que o principal é o crescimento da soberba no ambiente social. O cenário em que isso é mais visível é o trânsito. Não é à toa que motoristas param os carros para promover acaloradas discussões que, em momentos extremos, levam a verdadeiros campeonatos de UFC, ou duelos de faroeste em que apenas um carrega arma de fogo, cujo final trágico já é previsível.

Observe ao redor, e observe em si mesmo. O que acontece quando você quase bate o carro, em um momento de distração? Primeiro, você culpa o outro motorista. Dificilmente você irá avaliar quem está errado. De imediato, você é quem está certo, e o outro errado. A razão não importa mais no trânsito.

Ontem estacionei um instante em frente à Catedral da cidade. Enquanto colocava o cartão de EstaR sobre o painel, senti o carro sacudir e descobri que um senhor que estacionava à minha frente acabava de esbarrar no pára-choque de meu automóvel. Gesticulei, dei uma buzinada, saí do carro e esperei ele terminar de estacionar para conversarmos. Na realidade, eu só queria ouvir um pedido de desculpas, pois o dia já estava sendo suficientemente difícil.

A vaga em que ele estacionava era a vaga de idoso. Totalmente justo, considerando sua idade e o cartão de identificação no painel de seu carro. O detalhe é que o carro dele era um compacto, e na vaga caberia uma camionete dessas que obrigam a gente a pegar impulso para entrar. Havia um metro sobrando à frente e, ainda assim, o cidadão bate no meu para-choque.

Ao invés de se desculpar, ele atentou para o fato de que meu para-choque havia "invadido" seu espaço de idoso, o que lhe dava o direito de colidir com meu carro. De fato, meu carro tinha adentrado cerca de 30 centímetros na vaga de idoso. Pelo tom de voz e estupidez com que o cidadão me respondeu, acabei por dizer que ele era grosseiro [odeio esse hábito de não ter bons palavrões à disposição].

Ele foi embora abandonando o que poderia ter sido uma discussão longa e infrutífera. Em seguida refleti, ao ver que o carro dele estava cheio de marcas e arranhões, que sua idade já não permitia que ele dirigisse com a destreza de outras épocas, talvez. Ponderei que o dia dele podia estar sendo pior que o meu. E terminei por recuar um pouco meu carro, dando ao compacto do idoso todo o espaço que ele precisasse para sair da vaga depois.

Todavia, o desenrolar do diálogo poderia ter sido outro, se ele apenas se desculpasse por ter encostado em meu carro. Como ele mesmo disse em tom de desaforo, "nem tinha ofendido" meu automóvel. Então, qual seria o problema de apenas pedir desculpas pela atitude? Se ele tivesse feito isso, eu pediria desculpas também, pois acabava de notar que tinha avançado um pouco na sua vaga. Nos cumprimentaríamos, eu recuaria um pouco meu carro, feliz pelo desfecho da conversa na qual ambos notariam suas falhas. Ao invés disso, cada um quis provar que estava certo.

O pedido de desculpas é cada vez mais raro, não simplesmente porque as pessoas estão mal educadas, mas porque estão se achando superiores. E pedir perdão, ainda que em situações pequenas como essa, seria um atestado de inferioridade, quando deveria ser de igualdade. Todos erramos.

É por isso que há quem dirija em meio a duas faixas da via, quem acelera para passar no sinal amarelo, quem ultrapassa pela direita etc. O trânsito é o maior exemplo de como umas pessoas se sentem, cada vez mais, superiores às outras. Se elas são, então que saibam agir como tais. Mas, quem vai começar a mudança de atitude? Quem terá a coragem de ser superior, parecendo inferior aos olhos dos demais? Dar prioridade ao pedestre irá mudar alguma coisa? Tenho esperança que sim, mas com cada vez menos convicção, infelizmente.

21 de jul de 2014

Entrando numa [água] fria

É verdade que ainda sou um grande fã do simples ato de, no fim de semana, ficar em casa vendo um filme e comendo um pacote de Doritos. Mas, com uma certa frequência e um pouco de dinheiro no bolso, minha esposa acaba me convencendo a fazer pequenas ou médias viagens, muitas delas desbravadoras. Quase todas acarretam uma grande descoberta ou aventura inesquecível. Como da última vez, em que mal chegamos ao local, no Distrito de Entre Rios, em Guarapuava, e tive as pernas abocanhadas por um cachorro dos infernos.

Dessa vez, decidido a nos oferecer um passeio mais tranquilo, fiz uma busca na internet, e optei por uma pousada chamada Recanto da Dora, na região de Tibagi. Um passeio de um dia. Sairíamos na manhã de domingo, para voltar no final da tarde. O site mostrava trilhas para caminhadas, que terminavam em belas cachoeiras. Se gostássemos, podíamos agendar para uma próxima oportunidade um passeio mais extenso, com cavalgadas ou caminhadas acompanhadas de guia. Até mesmo as cachoeiras não poderiam ser muito aproveitadas desta vez, por estarmos em pleno inverno. A manhã de domingo previa iniciar com apenas 3ºC.


Feita a reserva por e-mail, partimos rumo a Tibagi, em deslocamento sossegado que desembocou na rodovia PR-340, quando chegamos ao portal de entrada do Parque Estadual do Guartelá.

Os planos mudam na chegada

Ali, um guia chamado Manoel acabou nos convencendo a não passar pelo portal. É que ele próprio tinha uma série de atrativos no entorno da região, e acabei achando que o Recanto não exerceria tanto fascínio quanto alguns dos roteiros que ele nos apresentou.

Assim, optamos por seguir duas de suas sugestões. A primeira delas era uma trilha que começava ali mesmo, não exigia a presença de guia, e dava a possibilidade de uma boa caminhada a dois. A segunda era denominada "Trilha da Fenda", e prometia a visualização de um cenário fantástico, a julgar pelas fotos que mostravam grande paredões de pedra.

Munidos de uma garrafa de água e um pacote de Ruffles [o Doritos não coube na mochila], eu e a Pri iniciamos o trajeto, que circundava lavoura para, ao final, levar a belas cachoeiras. Apesar de eu não ter planejado caminhar sobre as águas geladas naquela manhã fria, Manoel avisou que, em pelo menos um trecho, teríamos que molhar os pés para atravessar. Como [quase] diz o ditado: "quem está na trilha é pra se molhar". Só não pensei que seria logo no começo.

Pra que complicar?

Assim que chegamos à primeira bifurcação, a Pri quis passar por um banhado do lado esquerdo, enquanto eu acreditava que a trilha devia seguir pela bela estrada do lado direito. Houve uma pequena discussão, e devíamos ter disputado no palito, pois talvez eu tivesse alguma chance. Como não deixamos a escolha a cargo da sorte, acabei cedendo a sugestão de minha companheira, ao considerar o comentário do guia, que havia alertado para a necessidade de molhar os pés.

Acho que eu não estava com as roupas mais adequadas...
Na cara e coragem, Priscila enfiou as botas na lama [aqui vale um adendo: esse par de botas foi levado, certa vez, para que um sapateiro arrumasse a sola que estava soltando. O sapateiro quase se recusou a fazer o conserto, dizendo que, em dias úmidos, era preferível que a Pri andasse descalça, tal era a qualidade do material]... Como eu dizia, a Pri enfiou as botas na lama, e logo sentiu a água gelada. Caminhou por cerca de 10 metros, e me esperou do outro lado, em terra firme.

Ainda parado, eu criava coragem para a caminhada sobre aquele lodo congelante. Então, decidi congelar meus pensamentos, indo em frente, e fazendo de conta que aquilo era a coisa mais natural, e que casais do mundo inteiro sempre escolhiam aproveitar domingos de inverno enchendo os sapatos de água gelada. Palavras não serão capazes de descrever a experiência. Basta dizer que eu cheguei do outro lado e, ao encontrar a Pri, tive que ouvi-la dizer. "É... acho que não é por aqui". E assim, voltamos por aquele lodo, para enfim seguirmos pelo trajeto seco que eu antes havia sugerido. Que sirva de lição... preciso confiar mais em meus palpites.

A beleza das Sete Quedas

A partir dali, a coisa foi mais tranquila. Trilhas abertas, solo de rocha, placas sinalizando, paisagem deslumbrante. Na parte mais alta, curiosas formações de pedra. Na parte mais baixa, a água que escorria formando belas cachoeiras, que dão nome à "Trilha das Sete Quedas". Aliás, no verão seria ótimo retornar ao local. Em dia quente, certamente um dinheiro bem gasto. Há pequenas "piscinas" de água cristalina, com a opção de chão de pedra ou de areia. Lugar limpo que, espero, permaneça com pouca intervenção negativa do homem.

Verão, venha logo...
Após cerca de duas horas de caminhada, por entre as águas limpas dos córregos, subimos novamente o relevo acidentado e voltamos ao ponto de partida. Um breve descanso no local revelou que o passeio pela Trilha da Fenda teria mais turistas. Um grupo de Maringá e uma moradora de Tibagi nos acompanhariam. Até mesmo um guia local chamado Zezinho iria conosco, pois ainda não tinha visto a tal fenda.

Soubemos, então, que aquele passeio era algo recente na região. Poucas pessoas haviam conhecido a beleza que estávamos para registrar com nossos olhos. De carro, voltamos pela rodovia por cerca de 15 quilômetros e entramos em propriedade particular. A empresa de turismo de Manoel tem autorização do proprietário para a visitação, mediante documento entregue na entrada. Segundo Manoel, foi preciso convencer o homem a permitir as visitas, o que só aconteceu há cerca de quatro meses.

Um cenário de Hollywood

Deixamos os carros diante de uma plantação, e adentramos a mata por uma trilha de dificuldade mediana. Após cerca de sete minutos, com a temperatura caindo gradativamente, chegamos ao que parecia ser a entrada de uma gruta. Um portal de pedra, se abria diante de nós. Ao chão, uma pedra chata parecia ser uma porta recém derrubada. E, passando ao lado desta rocha, o que se via era um cenário comparável somente a grandes produções de cinema.

Lembrei das paredes rochosas do final do filme 'Indiana Jones e a Última Cruzada'. Só que estava ali, bem diante de nós, em linha reta. O solo era arenoso e as paredes de rocha vertical, com cerca de 10 a 12 metros de altura. Entre essas paredes, não havia mais do que um metro e meio. No alto, grandes rochas se equilibravam, suspensas, como que desafiando a coragem dos "desbravadores".

E nós? A maravilha da visão contrastava com o frio que sentíamos. Frio esse que só aumentaria nos próximo minutos. A fenda por onde caminhávamos se estendia por diversos metros, em uma visão extraordinária. Infelizmente, minha câmera não era das melhores para aquele registro, pois a luminosidade era reduzida e já era final de tarde.

Avançando pelo estreito caminho, chegamos às parte parcialmente inundadas pelas águas que escorriam dos paredões. A cada centena de metros, havia como que um degrau que nos fazia descer e a água subir. Por entre as pedras escorregadias, o lodo do fundo do córrego e os galhos e cipós que se entrelaçavam à nossa frente, nós seguíamos pelo túnel. Admirados pela maestria com que a natureza havia "construído" aquele cenário, certamente há milhões de anos, nós nos equilibrávamos já sem sentir os pés.

No trecho mais profundo, a água chegou às minhas coxas, e a Pri subiu as minhas costas. A dificuldade de descer as pedras que formavam degraus era cada vez maior, até que chegamos a um local em que a trilha se afunilava e conduzia os caminhantes à escuridão. O guia explicou que o trajeto ali era um pouco mais exigente. Ali, a Pri preferiu voltar (pois a saída era pelo mesmo trajeto). Foi quando me dei conta de que o regresso era um pouco mais desafiador do que a entrada.

O guia e os outros turistas seguiram em frente, enquanto eu e a Pri voltávamos pelo caminho de onde tínhamos vindo. Dessa vez, não era possível pular do alto de rochas para as parte inundadas. Era preciso pequenas escaladas na pedra escorregadia. Isso obrigou a colocar a Pri em meus ombros, para que ela pudesse alcançar o degrau mais alto.

Em uma dessas muitas pedras lisas, a Pri não encontrou apoio, e acabou se molhando um pouco mais. Foi mais ou menos deste jeito:



Ela só conseguiu subir quando eu a segurei e gritei: "Se acalme!"

Ainda assim, a volta é sempre mais rápida que a ida. Chegamos ao carro um pouco cansados e muito sujos. Satisfeitos com a beleza do passeio, e do local que tivemos o privilégio de conhecer, mas desejando ter vindo em época mais quente, e talvez com mais algumas roupas no carro.

Dez minutos depois, o guia e os demais turistas tinham voltado. Dali, ainda seguimos até uma cachoeira muito bonita, também dentro da fazenda. Segundo Manoel, as águas da cachoeira marcam a divisa entre Castro e Tibagi.

Regressamos a Ponta Grossa em seguida, vendo o sol se pôr, e deixando para trás uma visão inesquecível das belezas que a região dos Campos Gerais tem a oferecer.

Há quem diga que não é preciso viajar ao exterior para conhecer muitas dos espetaculares cenários do Mundo, pois o Brasil já oferece diversas dessas maravilhas. E não é demagogia. Apenas para citar outro caso, o Acre, um dos estados brasileiros menos conhecidos (talvez devido à distância extrema do litoral), foi tema de reportagem interessante a respeito de extraordinárias figuras descobertas recentemente em seu solo. Os chamados "geolitos" só podem ser vistas do alto, da mesma forma que as linhas de Nazca, no Peru, e ainda são tão misteriosos quanto pouco conhecidos.



Da mesma forma, a Trilha da Fenda é um local que, certamente, poucos conhecem ou ouviram falar. Cenário fantástico localizado a poucos quilômetros de Ponta Grossa, e que vale a pena conhecer.

Mais informações:

Distância aproximada: 85 quilômetros de Ponta Grossa à entrada do Parque Estadual do Guartelá
Melhor época para visitação: verão... certamente o verão
Roupas: Qualquer sapato ficará molhado e cheio de lama. Alguns turistas preferem caminhar trechos descalços, mas os gravetos no fundo do córrego incomodam. Então... leve roupas de banho, roupas leves e calçados apropriados para a caminhada. Água, lanche para trilha, repelente, filtro solar, boné e sacola plástica para armazenar as roupas de banho.
Taxa de visitação: R$ 25 por pessoa na primeira trilha, sem guia. A Trilha da Fenda exige R$ 50 por pessoa, o que inclui a presença do guia e a autorização do proprietário para entrar na fazenda. *Valores em julho de 2014
Empresa que conduziu a visitação: Itaimbé do Guartelá Ecoturismo