20 de dez de 2006

Só com os botões

Solidão é uma palavra que está sempre no aumentativo. Há! Pensei nessa frase ontem, e achei bem legal. Mas, como diz meu amigo que não acredita na originalidade, alguém já deve ter pensando nisso. E, pra ser sincero, já devo ter lido isso - ou quase isso - em algum lugar. Meu conceito de solidão é o seguinte... estar entre muitas pessoas, e ainda assim se sentir só.

Acho que o porteiro deve ter uma das profissões mais solitárias do mundo, apesar de sempre haver pessoas entrando e saindo dos prédios. O comportamento deles quase não varia. Lêem o jornal, ouvem rádio, assistem a uma televisão de poucas polegadas, cochilam, desenvolvem hábitos curiosos. Uns são mais simpáticos do que outros, mas é só. Nem consigo imaginar um porteiro com a família. A esposa e os filhos do porteiro...

*****

No Edifício Dr. Elizeu existem dois porteiros, que alternam turnos. Numa tarde de sábado cheguei no prédio e encontrei o porteiro. Parecia tão ansioso por encontrar alguém, que me reteve no saguão para contar uma piada que, disse, ele tinha divulgado numa das diversas rádios da Rua XV. “Vão colocar na internet”, me contou, orgulhoso.

Ouvi a piada, ri, e peguei o elevador. Quando voltei, ele me reteve outra vez para contar pelo menos outras três piadas, que fiz questão de esquecer depois, considerando seu conteúdo obsceno ou preconceituoso. No dia seguinte, antes que eu entrasse no elevador, ele veio outra vez. “Ei, me diga uma coisa, como funciona esse negócio de piada na internet?” Primeiro ele comemora o feito, depois quer saber o que fez.

Ao lado do Edifício Dr. Elizeu existe um outro prédio, e outro porteiro. Costuma sair e ficar ao lado da porta, ele em seu uniforme cinza. Eu só o vi fazendo o gesto uma vez, mas tenho quase certeza de que é um hábito... Ele tem o costume de empurrar a dentadura para fora da boca. Fico pensando se ele sabe que faz isso.

Imagino que seja um tique desenvolvido enquanto permanecia esperando pela próxima pessoa que entraria pela porta.

*****

No outro dia cheguei para o trabalho um pouco cedo demais. Ainda não tinha ninguém na pequena sala que serve de redação. Como chovia do lado de fora, permaneci na entrada do prédio, esperando que a chuva passasse, ou que o chefe chegasse.

Enquanto nenhuma das duas coisas acontecia, percebi que o porteiro esfregava com insistência um guardanapo na lente dos óculos. Finalmente, parou e olhou mais uma vez os óculos contra a luz. Com expressão de assombro, virou para mim e disse: “Parece que tem um número na lente do meu óculos! Veja aqui!!”

Obedeci e, depois de uma rápida inspeção, concordei. Talvez fosse a indicação do ângulo das lentes, ou algo assim, opinei. Mas o porteiro parecia maravilhado. Era como Indiana Jones encontrando a Arca do Pacto. A importância que ele dava ao pequeno detalhe impresso na lente me deixou surpreso. Até a mim, que sou acostumado a dar importância a detalhes.

Por causa disso, há algum tempo, já cheguei a pensar que poderia ser porteiro. Mas não levei a idéia adiante. Por duas razões básicas: primeiro, porque não gosto muito de ficar sozinho. Segundo, porque não me entendo com a classe. Parece que não nos interessamos pelas mesmas coisas.

Dia desses, enquanto estava no elevador, reparei nos botões que ninguém aperta: “P.O.”, “Luz”, “Emergência” e “Alarme”. Quando saí do elevador, não me contive, precisei perguntar ao porteiro:

_Já reparou nesses botões do elevador? O que quer dizer “P.O.”?
_P.O., espere aí, eu já lembro... É... “Parada Obrigatória”.
_Ahn... E quando eu uso isso?
_Ora, quando você tiver uma emergência!
_Ué? Então quando é que eu uso o botão “Emergência”?
_Quando... quando...
_E entre “Alarme” e “Emergência”, qual a diferença?
_É... é... Ah, sei lá! – perdeu a paciência e saiu.

Desde então, não me contou mais piada. E eu fiquei aqui, sozinho, pensando com meus botões.

9 de dez de 2006

Nenhuma certeza aqui também

Na quinta-feira, a praça Duque de Caxias parecia repentinamente suja como nunca foi. Com a terra sobre a calçada, o capim crescendo entre as pedras, a estátua encardida e os bancos vazios. A coisa mais clara ali era uma folha vermelha que caiu do alto de uma das árvores, e que só continuou limpa porque não ficou ali.

Ao longo do final da semana, situações embaraçosas pareciam me perseguir. No banheiro do shopping, dois sujeitos brigavam por algo idiota como uma toalha. Talvez o funcionário da limpeza e um dos clientes. Lavei o rosto e saí rápido, antes de ver como terminaria a discussão.

Na rua, um japonês discutia com uma senhora morena que bateu num menino loiro. O Brasil é um país de união das raças. Onde está a união se todas elas brigam? “Fala pra ele que não bati em você”, disse a mulher para o menino. “Ela não bateu...” balbuciou o garoto, enquanto começava a chorar, sabendo que apanharia mais se dissesse o contrário.

A mulher que entrou no elevador olhava diretamente para o espelho, parecia enxergar a si mesma, mas fingiu não me ver, talvez para evitar um cumprimento cortês. Estava, com certeza, aborrecida.

O porteiro do prédio, um pouco acima do peso, foi até a porta e ficou ali, sem perceber que me aproximava. A porta é estreita. Sua presença interrompia minha passagem. De repente ele se virou, e percebeu que eu esperava a liberação do caminho:

_Opa! Estou trancando a porta! – disse, constrangido.
_É seu trabalho. – respondi, ácido, pra me arrepender depois.

“Quando algo está ruim, o pior vem logo atrás”. Ouvi alguém dizer enquanto passava em frente ao Café XV, logo depois de sair da redação. Aquela frase, proferida lá pela hora do almoço, me fez sentir uma vontade louca de provar o contrário.

Mas, de algum modo, a frase é verdadeira. Não que as coisas realmente piorem quando algo dá errado. Mas, quando algo dá errado, temos a tendência a enxergar outras coisas também erradas. O aborrecimento se expande, e parece atrair situações desagradáveis. Só que o desagradável somos nós mesmos. Do contrário, tenho certeza, nem teria ouvido a frase dita no café.

Porque quando tudo está certo, à noite, a Lua foge à lógica e parece maior e mais brilhante. E quando uma coisa está ruim, o próprio Sol fica súbita e constantemente encoberto, com a explicação científica do tempo nublado. E ao redor as pessoas falam palavras ruins, e acontecem situações chatas.

Tudo isso é porque algo deu errado, lá, no começo do dia, ou no final do dia anterior. Talvez porque não dormi direito ou não jantei quase nada. Talvez porque deixei de ver aquele filme engraçado, ou porque deixei de ver aquele sorriso.

Se acordássemos sempre pensando em algo bom, certamente os dias seriam melhores. E esse texto não seria tão genérico, com pequenas coisas desconexas sem início meio e fim.

Falaria a respeito da praça Barão de Guaraúna, que nunca esteve tão iluminada para o natal e, mesmo em silêncio, parece tocar alguma música. Ou sobre a moça da locadora de vídeo, que vestia um capuz de Papai Noel e disse, simpática, “temos apenas DVDs, as fitas de vídeo nós já vendemos todas”.

Lembraria mais da menina que sorriu para mim, ao entrar no elevador, logo que a mulher aborrecida saiu. Pensaria na risada que deixei escapar, quando o colega me contou como derrubou o celular dentro de uma pia cheia de água.

A observação do que acontece ao nosso redor depende do que acontece dentro de nós. Depende dos diálogos que temos, do filme que vemos ou do livro que lemos. Estou lendo um cujo título é “Nenhuma Certeza”, de um sujeito chamado Michael Larsen.

Ontem li um trecho que dizia assim: “Às vezes uma coisa fica na consciência da gente como uma luzinha incômoda. Em estoque. Pode ser uma coisa que a pessoa diz, ou a maneira como ela se comporta. Os jornalistas se habituam a observar, a ver, a reparar nas coisas. Às vezes, mais do que gostariam”.

Eu devia parar de ler textos que fazem tanto sentido. Eles me obrigam a escrever coisas menos significativas, para os outros. E detesto escrever para mim mesmo.