28 de set de 2008

O dia depois da “Semana da Árvore”

Não sei exatamente em que dia tudo começou... Talvez no dia 16 de setembro, logo depois do aniversário da cidade. Ou talvez na última segunda-feira, 22. O fato é que era perto do meio-dia quando um caminhão do Corpo de Bombeiros parou na rua que fica perto de minha casa. Da varanda pude ver o movimento de pessoas que se aglomeravam no local, e fui até lá para ver do que se tratava. Descobri que uma árvore não muito pequena havia caído, quase derrubando o muro de um morador da vizinhança.

Os bombeiros estavam lá para cortar os galhos, liberando o local para o trabalho da companhia de energia elétrica, uma vez que a queda da árvore tinha atingido um poste, deixando os moradores sem eletricidade.

Uma vizinha se queixava com o bombeiro, dizendo que isso já era previsto, e que por diversas vezes pretenderam cortar a árvore, mas ninguém tomava providências. Foi então que apontou para uma outra árvore ainda maior, que se erguia ao lado, e disse que aquela também deveria ser cortada antes que caísse em uma casa.

Era uma nogueira, e uma pequena discussão se formou entre os próprios bombeiros.
-É... parece que já está morta, veja como está seca. – disse um.
-Está seca por causa das pragas presas ao tronco. Só precisa de uma limpeza. – falou o segundo.
-Tinha mesmo que derrubar, antes que caia. – replicou o primeiro.
-O Ibama nunca vai liberar a derrubada desta árvore. – tornou o segundo – aquela outra sim poderia ser derrubada – disse, agora apontando para um eucalipto.
-Mas o eucalipto é árvore nativa.
-Nativa da Austrália...

Aquela discussão só me fez perceber o desconhecimento e falta de concordância entre os que estavam ali. O fato é que a tal nogueira estava lá há muito tempo. Alguns moradores mais antigos falavam em oitenta anos. Mas só estavam cortando a árvore que tinha caído, e não a nogueira. Isso me fez voltar para casa aliviado, porque se cortassem a nogueira... meu pai ficaria possesso.

Não sei como explicar, mas ele nutria verdadeira paixão por aquela nogueira. Algumas vezes já tinha ido ficar debaixo da árvore para apanhar alguns de seus frutos que tinham caído no chão. Sempre defendeu a nogueira, de modo insistente e até irritante. Quem o ouvisse falando daquela árvore iria pensar que fazia parte do Greenpeace ou alguma outra instituição semelhante. Mas aquele comportamento estava quase que totalmente restrito à nogueira, que ele chamava de “castanheira”.

Por isso eu sabia que no dia em que alguém resolvesse cortar aquela grande árvore, o comportamento de meu pai seria preocupante. Por que digo isso? Porque enquanto escrevo estas palavras, ouço ao fundo o som da moto-serra que derrubou, nesta manhã e início de tarde de domingo (28 de setembro de 2008), a enorme nogueira. Desde as 9h ouço este maldito barulho. Ruído que sempre odiei e sempre irei odiar. Também não sou nenhum ativista, mas gostaria muito que um princípio básico funcionasse: derrube uma árvore e plante duas. Infelizmente é algo que parece longe da realidade.

A manhã de hoje foi extremamente tensa. Quando meu pai notou o que acontecia, ficou completamente desnorteado. Primeiro quis ligar para o Grupo Fauna. Eu o lembrei que o Grupo Fauna se propunha a proteger animais, não plantas. Depois conseguiu um 0800 do Ibama, para o qual ligou, e recebeu a resposta de que estavam a caminho. Nada aconteceu e, até a hora do almoço, meu pai já tinha telefonado para o tal 0800 uma dezena de vezes.
-O senhor já não ligou para cá hoje?
-Liguei. E vocês já mandaram a viatura?

Durante o almoço, lembrando do número de ligações que tinha feito, sem obter resposta satisfatória, meu pai comentou: “Se tiverem que fazer uma guerra contra o Brasil, terão que escolher um domingo. Dia em que ninguém faz nada”.

No início da tarde, meu pai perdeu o controle, mais ainda, e gritou para o vizinho, avisando que tinha chamado a polícia. E chamou a polícia. A viatura chegou, e meu pai pôs o chapéu de palha e foi até junto da árvore, ou o que restava dela. A polícia ouviu uma discussão entre vizinhos. Mas havia dois detalhes que complicavam a história: meu pai tinha bebido algumas cervejas, e o sujeito que estava cortando a árvore era policial.

Assim fiquei sabendo, pois não fui participar de um briga que, certamente (desculpem o termo) seria infrutífera. Vi quando meu pai voltou e disse “fui derrotado, de novo”. Tive pena. De meu pai, da árvore, da situação como um todo.

Acho que não vai sobrar muito da árvore e, neste e nos próximos anos, é provável que as crianças não encontrem mais nozes nesta parte da cidade. E haverá menos sombra para deixar o carro. Ali, naquele mesmo lugar, existe um córrego de águas poluídas, porque pessoas resolveram construir casas ao redor e, não bastando isso, jogaram e jogam seus dejetos onde antes se praticava a pesca. Não é invenção minha, encontrei um velhinho no ponto de ônibus que me contou isso e, refletindo sobre a derrubada cada dia maior das árvores nesta região, concluiu: “é o progresso”. E se mostrou favorável à derrubada de todas, para minha incrédula surpresa.

Quem vier pela Rua Padre Nóbrega, na região da Vila Estrela, e estiver com algum tempo sobrando, desça a Rua A. “A”, de “árvore”, e encontrará, lá embaixo, parte do que já foi uma árvore enorme. Não poderão arrancar tudo, porque as raízes certamente já foram muito longe. Então haverá algo do que se lembrar. Uns lembrarão do perigo de uma grande árvore caindo sobre o telhado de casa. Outros, no entanto, lembrarão do sabor de seus frutos. Eu lembrarei que tudo isso aconteceu no dia imediatamente após o que se convencionou denominar “Semana da Árvore”.

*Esclarecimento: a árvore até agora não foi derrubada. Talvez só fique sem galho nenhum.