19 de jan de 2008

Um mal entendido vale um desconto

No intervalo do almoço aproveitei para ir à relojoaria. Há algumas semanas a pulseira de meu relógio estava arrebentando, e eu temia perdê-lo enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Logo, precisava comprar uma pulseira nova. Mas algo muito estranho aconteceu.

Tirei o relógio e coloquei sobre o balcão da relojoaria, dizendo à funcionária: “Vim trocar a pulseira”. Ela apanhou o relógio e observou atentamente a pulseira. Seu olhar estava concentrado no ponto em que a pulseira se rasgava. Fiquei sem entender sua reação. Ela estava demorando muito naquela análise. Então me perguntou: “Há quanto tempo você colocou esta pulseira?”

Não entendi a relevância da pergunta, mas respondi: “Não sei... mas faz meses”. Ela se deslocou para o lado, onde seu pai (dono da loja) conversava com outro cliente. Mostrou o relógio a ele e disse: “Olha... ele quer trocar a pulseira”. E ele perguntou: “Há quanto tempo ele colocou essa pulseira?” E ela respondeu: “Há dois meses”. O homem olhou para mim e perguntou: “Você comprou essa pulseira aqui?” “Sim”, respondi.

E eu não estava compreendendo onde estava a complicação. Era só colocar outra pulseira. Aí ele disse. “Então vou te dar um desconto. Você pagou dez reais nessa pulseira, pode levar uma nova por cinco reais”. E eu, muito surpreso, disse “Claro... afinal, só rasgou metade”.

Fiquei realmente impressionado. Era a primeira vez que um comerciante me oferecia um desconto sem que eu pedisse. Comecei a tentar formular teorias para aquele fenômeno. Enquanto a funcionária fazia a operação nos fundos da loja, suspeitei que aquela pulseira antiga fazia parte de um lote defeituoso, e que por isso o vendedor achou que eu merecia um desconto.

Foi outra moça quem veio me entregar o relógio com a nova pulseira. Agradeci, paguei os cinco reais, e fui embora. Quando cheguei no trabalho, relatei toda a situação a meu colega Ismael. Descrevi o fato como sobrenatural. Não é todo dia que alguém oferece o desconto de 50% quando você está disposto a pagar o valor integral. Afinal, fazia vários meses que eu usava aquela pulseira.

Mas Ismael parece ter solucionado o mistério. “Sabe o que foi isso? Foi o poder da palavra”, ele disse. “Você disse que queria ‘trocar’ a pulseira. Não disse que queria ‘comprar’ uma nova pulseira”. E, pensando desse modo, acho que foi o que realmente aconteceu. A funcionária achou que eu estava reivindicando uma nova pulseira, de graça.

Se tem uma coisa que me deixa realmente indignado, é quando sou mal compreendido. Ainda estou pensando em ir até lá pagar os outros cinco reais, e desfazer o engano. Mas, todos, inclusive eu mesmo, me achariam um idiota. Vamos apenas buscar maior clareza com as palavras, numa próxima oportunidade.

Obs.: No final das contas, o dono da loja me concedeu apenas metade do que eu reivindiquei.