30 de nov. de 2010

Conspiração ‘Tropa de Elite’

“Eu não sei o que é... mas alguma coisa está errada”. As palavras são de um cidadão acostumado a ver as ruas da área do Morro do Alemão, antes atulhadas de gente, agora vazias. Os olhos dele não demonstravam tranquilidade, paz ou satisfação com a repentina proteção da polícia e do exército. Era um ar de incredulidade e indignação.

O sujeito foi apenas um dos muitos entrevistados pelas inúmeras reportagens exibidas na televisão desde que um exército tomou conta daquele que agora é apontado como o maior abrigo da criminalidade no Rio de Janeiro. Antes, era apenas um lugar sobre o qual se evitava falar.

Me identifiquei com o sujeito entrevistado. Se é verdade que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, terei de ser canonizado um dia, tal é o nível de meu desconfiômetro neste momento.

Tenho nojo quando vejo qualquer reportagem sobre o tema na televisão ou onde quer que seja. Enviaram os repórteres para onde as balas estão sendo disparadas, para testar até que ponto eles demonstram sua competência ou pavor. Enquanto isso, continuam perguntas que irão demorar muito tempo para serem respondidas, pois as respostas não estão na linha do front.

“Por que só agora levar o policiamento a um lugar que, aparentemente, todos sabiam ser um covil de ‘marginais’”?

“Como, com tantas equipes cercando o Morro, os maiores traficantes são justamente os que fogem?”

E, uma boa observação feita por Eugênio Bucci no site Observatório da Imprensa: “Como os traficantes têm tantas granadas, e nenhuma camisa?”

Tem algo de muito errado em tudo isso. E aqui eu aponto mais uma teoria da conspiração, porque estou inclinado a não acreditar em coincidências. As hipóteses explicativas envolvem futebol, cinema e política.


1º ponto: O futebol, como todos sabem, é uma máfia tão grande quando a fórmula 1. Esta foi desmascarada por Rubinho Barrichello, há vários anos. Os imbecis de plantão continuam acompanhando as corridas, como se fosse possível para um piloto chegar ao topo do pódio graças apenas à performance na pista.

Assim como os vencedores de cada campeonato de corrida são conhecidos antes mesmo de começar a competição, no futebol não é diferente. Sendo assim, vamos admitir como verdade que FIFA e governo já sabiam que o Brasil seria escolhido como país sede da Copa do Mundo de 2014. E que o governo precisaria tomar medidas para garantir o sucesso na realização do evento.


2º ponto: Todos sabem que o Rio de Janeiro jamais ofereceu a segurança para a realização de um evento dessa magnitude. Mas era preciso mostrar ao mundo que não há o que temer vindo ao Brasil. Assim, foi iniciada a maior campanha publicitária antecipada da história. ‘Nunca antes nesse País’ se viu melhor produção cinematográfica do que Tropa de Elite. O primeiro filme apresentou ao mundo aquilo que muitos acreditavam [alguns ainda acreditam] não existir: policiais honestos e incorruptíveis.

A sequência do filme, lançada há poucos meses, se estendeu para a política, revelando a forma como candidatos se elegem para importantes cargos tendo o apoio de traficantes do Rio de Janeiro. Neste segundo filme, um maior policiamento consegue acabar com os traficantes, mostrando que, sim, a segurança existe. O problema agora é a corrupção na política. Ao fazer isso, os filmes procuram mostrar que é possível confiar na polícia brasileira, e que o Rio de Janeiro pode ser um lugar seguro, embora governado por ladrões.


3º ponto: O policial Rodrigo Pimentel, cuja história deu origem ao personagem Capitão Nascimento no filme Tropa de Elite, é largamente entrevistado, atestando como verdadeiras muitas das coisas que são mostradas pela ficção. Ao mesmo tempo, defende o governo do Rio, assegurando que o governador Sérgio Cabral tem feito o possível para melhorar a segurança, mas que ainda há muito para fazer.

Poucas semanas depois, é dada a ordem para invasão do Morro do Alemão. Mesmo com toda a megaoperação montada, justamente os maiores traficantes escapam, a pé, ainda que filmados e perseguidos até mesmo com helicópteros. A mídia colabora, apontando a possibilidade de terem escapado pelo esgoto, e trazendo textos poéticos que inspiram paz e harmonia, mas que não esclarecem nada. Apenas uma grande publicidade sobre o sucesso da operação.


HIPÓTESE: Tudo isso faz parte apenas de um grande teatro montado para exibir ao mundo o que está sendo feito para que o Rio de Janeiro esteja seguro para a realização da Copa de 2014. Certamente foi feito um acordo com os traficantes, que saíram muito antes de começar qualquer operação. Quantos policiais morreram? Quantos traficantes morreram? Quantos foram presos? Segundo o site IG de notícias, apenas 20 pessoas foram detidas no domingo. Vinte, dos 600 ligados ao tráfico que se esperava encontrar. O que demonstra que houve um acordo para que os "peixes grandes" pudessem escapar.

Enquanto a população assiste um reality show tão falso quanto qualquer outro reality show, os traficantes escaparam [sozinhos?], se espalhando por aí. E agora, é só aguardar Tropa de Elite 3.

18 de nov. de 2010

A insuperável RED original










Nesta semana pude ir ver no cinema o filme “RED”, traduzido para o português como “Aposentados e Perigosos”. Mais uma adaptação dos quadrinhos para a sétima arte. Considerando alguns trabalhos interessantes feitos recentemente, a exemplo de Batman (‘Begins’ e ‘Dark Knight’) e Watchmen, fui com a cara e a coragem ver a produção. Não sem antes procurar pela HQ que deu origem ao filme.

Embora tenha ficado sabendo que a história (de 2003) foi relançada, a um preço simbólico, por ocasião do filme, não encontrei livraria ou banca de revista que comercializasse a obra. Terminei encontrando o material para download nessa inacreditável fonte de conhecimento e total desrespeito aos direitos autorais que é a internet.

Se por um lado a internet é vilã, ao oferecer de graça algo que mereceria ser pago, por outro ela auxilia pessoas como eu, que não têm acesso ao produto por questões puramente logísticas.

A HQ “RED” é dividida em três capítulos, curtos, para serem lidos de uma vez só. Mas com uma impressionante riqueza nos diálogos, nos traços e no uso das cores, aplicadas sem excessos,
combinando assim com a narrativa sem piadas e que apresenta algumas horas na vida do ex-agente da CIA, Paul Moses. Aposentado, ele vive sozinho tentando esquecer atitudes suas das quais não se orgulha, mas que foram necessárias ao seu país (EUA) em épocas passadas. A nova direção da CIA passa a considerá-lo uma ameaça, devido às informações que possui, e aí se inicia uma caçada ao “herói”.

Seus perseguidores não têm nenhuma chance. Mais ou menos ao estilo “Rambo” (de forma, talvez, mais convincente), ele se livra de todos, um por um, contando com pouquíssima ajuda. Tudo o que ele queria era tranquilidade em sua aposentadoria. A partir da sua caça, ele só quer alcançar aqueles que ordenaram sua perseguição.

Sem poupar sangue entre os quadrinhos, a narrativa é extremamente movimentada, mas boa parte da história é mostrada com silêncios, e grandes sacadas. Entre elas, um flashback no qual Moses recorda de algumas das suas missões, incluindo a participação no dia do assassinato do então presidente John F. Kennedy.

A história termina sem uma conclusão fechada, embora o final implícito seja praticamente evidente ao leitor. Mas, bem poderia ter uma continuação. Além disso, em meio à roteirização, vários fatos são apresentados, sendo compreendidos, mas não totalmente explicados. Por essa razão, criei uma expectativa em torno do filme homônimo, que poderia preencher as lacunas deixadas pela HQ.

Mas o que aconteceu no cinema foi uma decepção. Em Watchem, a adaptação para o cinema fez com que todo o aspecto visual e vários trechos de diálogos fossem reaproveitados. Com isso, pode não ser a perfeita adaptação da HQ para o cinema, mas... quem quer isso? O que se espera é o mínimo.

Os dois últimos filmes de Batman, por exemplo, souberam explorar o que torna o personagem mais realista: como o uso da tecnologia, de sua condição de milionário, e sua habilidade na luta corporal.

Enquanto isso, “RED” nada tem da história em quadrinhos tão bem elaborada por Warren Ellis no roteiro e Cully Hammer nos desenhos. A começar pelo título. Nos quadrinhos, “RED” se refere ao código vermelho originado com as reações de Moses em sua perseguição. No filme, não passa de uma sigla boba para “Retired Extremely Dangerous” (Aposentados Extremamente Perigosos). O nome Moses é trocado, e de Paul ele passa a ser Frank. Sua amiga Sally, que tem participação reduzida na HQ, no filme passa a se chamar Sarah, e protagonizar em excesso a história.

O roteiro e desenho da HQ trazem o drama vivido por Moses, que não consegue esquecer seu passado, e ainda precisa lidar com o fato de ser perseguido. No filme, ele encontra com antigos colegas de trabalho, um dos quais participa da trama quase que exclusivamente para fazer piadas. O próprio Moses, que é um sujeito durão, que fala entre dentes e quase não sorri nos quadrinhos, no filme é interpretado por um Bruce Willis que lembra em muito o policial de “Duro de Matar”, e apaixonado por uma funcionária do “INSS”. Isso anula por completo a personalidade criada no roteiro original.

Pra finalizar, as cenas de ação perdem em muito para as apresentadas pela história original. Há pouquíssimas semelhanças entre os dois trabalhos e, se não fosse o mesmo nome dado ao filme, dificilmente haveria um processo por plágio ou algo assim. Algumas ideias são utilizadas mas, quem não conheceu a HQ, indiscutivelmente irá aproveitar melhor a sessão no cinema. Do contrário, é provável que fique uma sensação de vazio, a esperança inútil de uma guinada em meio à exibição da película, e a certeza de que “RED” é, de fato, uma obra-prima das HQs.

Download RED - capítulo 1

Donwload RED - capítulo 2

Download RED - capítulo 3