5 de fev de 2008

A mulher de meias cinzentas

O ônibus segue seu trajeto diário do bairro até o terminal do centro da cidade. De segunda a sexta-feira, entre as 7h30 e 8h, eu estou no mesmo ônibus – o 807, se não me engano. E, assim como a maior parte dos passageiros, também estou indo para o trabalho.

A maioria deles evita conversar, e pretende permanecer imóvel, em uma espécie de semi-consciência, até chegar ao ponto em que desce do ônibus. É claro que existe uma loira esguia, de nariz pontudo, que passa a maior parte do tempo retirando cabelos que caíram em sua roupa. Ainda assim, o restante se refugia apenas em pensamentos, a atenção presa à música do MP3 player ou à paisagem que se move do lado de fora.

Mas então, na metade do caminho, algo ocorre para mudar isso. Depois de uma ladeira em descida e uma curva à esquerda, o ônibus pára diante de outro ponto de ônibus, e um pequeno alvoroço se forma no interior do coletivo. Tal movimento não é tão evidente assim. Apenas um olhar treinado, ou já habituado à essas “viagens” diárias, pode perceber. Uma ou duas senhoras levantam do lado direito do ônibus e sentam-se do lado esquerdo. Os olhos de outras pessoas voltam-se em direção à porta da frente, aguardando a entrada de mais um passageiro. E é quase possível ouvir o pensamento de alguns dos que permanecem sentados, fingindo indiferença.

Uma frase escapa da boca de uma das senhoras menos satisfeitas: “Lá vem a sarna!” E a frase coincide com a entrada da passageira a quem a indignação, os olhares, pensamentos e troca de lugares é dirigida.

Ela está sempre com o cabelo preso, usa óculos de aros grossos, tem movimentos irregulares, e equilíbrio pouco coordenado. A boca quase não se move e, quando se move, não mostra dentes. Costuma vestir uma blusa, e uma saia que vai até as canelas, deixando à mostra suas meias cinzentas, e pés inchados metidos em sapatos sem salto. Sua entrada no ônibus demora mais do que a maioria. E sua passagem pela roleta é sempre mais complicada.

Difícil definir sua idade, pois poderia ter entre 20 e 40 anos. Difícil ser mais preciso. Talvez ninguém saiba seu nome, mas poucos são os que já não conhecem seu comportamento. Eu a vi pela primeira vez há alguns meses, quando entrou desse mesmo jeito no ônibus e sentou ao lado de uma jovem morena. A julgar pelos cabelos ainda úmidos da jovem, ela devia ter acabado de tomar banho e, provavelmente, tinha passado um desses produtos para deixar os cabelos enrolados.

Acontece que a senhora de meias cinzentas sentou-se ao lado da moça, na lateral direita do ônibus, e começou a dizer, com sua voz alta, lenta e um pouco fanhosa: “Que cabelo bonito você tem”. Enquanto repetia várias vezes essas palavras, passava a mão no cabelo da moça. Como o trajeto até o centro leva alguns minutos, e a senhora ficou “empaçocando” o cabelo da moça o tempo inteiro, dá pra calcular como ficou o penteado da coitada.

Aquela situação me fez achar tudo engraçado. Até que percebi que a tal mulher pegava sempre o mesmo ônibus, e agia sempre assim, trazendo algum tipo de incômodo aos demais, falando alto, ou dizendo coisas com pouco sentido. Em resumo, não demorou para que seus hábitos fossem reconhecidos, e ela fosse considerada louca. E, aquilo que me pareceu engraçado em um momento, hoje é uma das coisas mais tristes que presencio diariamente.

Ela entra no ônibus sob os olhares de reprovação. As pessoas já sabem que ela costuma sentar-se do lado direito do ônibus e, ao vê-la, levantam-se para ficar do lado esquerdo. E a mulher de meias cinzentas atravessa a roleta e senta-se, aparentemente, ignorando tudo isso. Certa vez, ficou ao lado de outra moça, e pude ouvir a voz fanhosa dizer algo que me fez ter medo: “Quando não gosto de uma pessoa, eu deixo careca e banguela”. Aquilo podia ser uma ameaça, ou não ter significado algum.

Por outro lado, já notei ao menos um indicativo de boa educação em seus modos. Ela sempre sobe no ônibus, num ponto que fica em uma rua inclinada, que faz com que o ônibus permaneça desnivelado. Um dia, passou a roleta e, sem equilíbrio, praticamente caiu sobre mim, que normalmente fico em pé. “Desculpe, moço”, ela disse.

Quase todos os dias ela sobe no ônibus para despertar, já pela manhã, os mais variados sentimentos, em um mundo particular formado por assentos e passageiros, motorista e trocador: preconceito, pena, medo, repulsa, compaixão, surpresa, riso. E o que me incomoda sou eu mesmo, pois nunca sei exatamente qual desses sentimentos é o que prevalece em mim. Um dos meus maiores defeitos é acreditar, com freqüência, que estou sempre na posição de observador, esquecendo que faço parte do Universo que observo.

Cada um desses sentimentos eu já experimentei, apenas vendo ela entrar e sair do ônibus. E a única certeza que tenho, todos os dias, notando o comportamento dos demais passageiros, é que nenhum de nós pode se dizer melhor do que ela. E que não são todos que pedem desculpas, quando tropeçam nos pés do vizinho.