27 de jul de 2008

Bem no fundo do copo de Coca-Cola

Quando finalmente deixei o trabalho, no sábado, já estava escuro. Caminhei em direção ao terminal central de ônibus, pela Avenida Vicente Machado, pisando na areia deixada pelos operários que fazem obras de revitalização, mas que para isso precisam quebrar todas as calçadas.

Quando passava em frente a uma lanchonete, pensei em como fazia tempos que não entrava naquele lugar. E que naquele momento não tinha pretexto algum para tornar a entrar ali. Foi quando vi dois sujeitos tirando de um caminhão caixotes cheios de verduras, ou batatas (estava escuro). Eles conversavam algo sobre um amigo chamado “Eziquiel”, e faziam piada.

Ao ouvir o nome, lembrei de meu amigo Eziquiel, único que conheço com esse nome. Por um segundo pensei que poderiam estar falando dele. “Bobagem, o Universo não é tão pequeno”, refleti, no exato momento em que vi o próprio Eziquiel dobrando a esquina, vindo em minha direção.

Ele ainda não tinha me visto, provavelmente por causa da touca preta que me fazia parecer um assaltante de banco, bem ao lado da Caixa Econômica, e que me deu inspiração para imitar um assaltante. Claro que não sei como se faz isso, então simplesmente imitei um batedor de carteiras, colidindo contra o ombro do colega. Foi o suficiente para que Eziquiel arregalasse os olhos, quase me entregando o celular. Depois eu ficaria com pena de tê-lo assustado. Mas não naquela hora, enquanto esperava que ele me reconhecesse com o gorro preto.

Eziquiel estava indo fazer um lanche, justo naquela lanchonete, e decidi não desperdiçar mais uma bizarra coincidência. Assim, pedi um X-Salada. Tomávamos uma Coca-Cola e conversávamos, quando ouvimos alguém chamando o Eziquiel. Ele olhou para o lado, e viu que o sujeito não falava com ele, e sim com um menino de aproximadamente cinco anos. Incrível... era o terceiro Eziquiel em menos de cinco minutos.

A TV exibia um comercial em que aparecia o Rolando Boldrin segurando um violão. A visão inspirou (ou deprimiu) Eziquiel: “Eu queria ser esse cara”, ele disse. O comentário me fez reparar nas unhas compridas da mão que segurava o copo de Coca-Cola. Evidência da prática musical que ele vinha adquirindo nas aulas iniciadas há poucos meses. “Se eu não puder ser ele, chegando perto do Almir Sater está bom”, completou.

“Eu gostaria de ser o Superman, já que entramos nesse papo”, comentei.
Ele riu: “Acho o Superman muito solitário”, disse, como quem dá um conselho.
“Mas se eu fosse o Superman, não seria solitário”, argumentei.
“Ah... então você não queria ser o Superman. Você queria ter os poderes dele!”, disse.
“E você... Queria ser o Almir Sater, ou queria ter os poderes dele?”

Um curto silêncio de reflexão, um olhar para o fundo do copo de Coca-Cola, e a conclusão:
“É... acho que, bem no fundo, quando a gente diz que quer ser alguém... só quer mesmo poder fazer o que aquela pessoa faz”, concluiu Eziquiel, mais ou menos com essas palavras.

Olhei ao redor. As paredes da lanchonete tinham velhos tijolos à vista. Um banner desbotado mostrava a foto de um prato com arroz, carne e batata-frita. O teto tinha uma porção de bandeirinhas de festa junina (ou julina). Esses e outros elementos me fizeram lembrar da última vez que tinha estado ali, e concluir... Que lugarzinho mais feio.