4 de ago de 2016

Veio o pokémon!

Hoje aconteceu algo bem estranho aqui neste País... Foi disponibilizado um aplicativo de smartphone
chamado Pokémon Go. É uma espécie de game interativo, baseado num jogo já relativamente antigo e que deu nome ao desenho animado Pokémon.

Bom, o jogo já estava meio esquecido, mas aí veio esse aplicativo que, pelo que entendi, disponibiliza uma espécie de mapa via satélite que mostra onde você está e exibe, no local, uma criatura. Certo... acho que não consegui explicar direito.

Funciona assim... aquele que tem o aplicativo instalado em seu celular é avisado quando há um pokémon por perto. A câmera é acionada, e mostra o exato local onde o bicho virtual está. Aí, o cidadão precisa atirar bolas virtuais na criatura, até acertar e ganhar pontos.

Essa loucura tomou conta de muita gente, que está caminhando de olho no celular à procura desses seres. É tipo um vício... pior que whatsapp. E dá margem a frases absolutamente surreais, do tipo:

- A Prefeitura é um Centro de Treinamento Pokémon!
- Legal! Vou descer pelas escadas, pra ver se encontro um.
- Ontem eu fui dormir com um na minha cama. Acordei com outros dois. E agora... onde eu pego os ovos?!

Estou relutando a instalar isso em meu celular, até porque... um velho smartphone com sistema Symbian provavelmente não permite a instalação desse app. Mas sei que não posso ficar sem entender e interagir com essa novidade, porque hoje tenho uma filha com sete meses mas, daqui a pouco, ela cresce e a tecnologia à qual ela terá acesso será muito mais avançada que isso.

Então, é melhor ir aprendendo um pouco sobre tudo que vem surgindo, antes que as inovações evoluam mais rápido que minha compreensão acerca delas. Seguem os downloads...

10 de fev de 2016

Velhinhas sequestradoras

Na segunda-feira, saí com minha esposa Priscila e nossa filha Melissa. A pequena, então com apenas um mês e dezessete dias, estava bem nervosinha e chorando bastante, talvez por causa do calor que fazia naquele dia. Quando a colocamos no carro, ela logo se acalmou... Dizem que o movimento e som do veículo lembram bastante o ambiente do útero, o que traz bastante calma a crianças pequenas.

Portanto, foi com tranquilidade que chegamos ao estacionamento do Shopping Antartica, pegamos o elevador, e descemos até o primeiro piso do edifício. O elevador abriu suas portas diante de uma cafeteria que eu não sabia que havia sido instalada ali [nossos passeios diminuíram bastante durante a gestação da Pri e, mais recentemente, com o nascimento da Mel].

Passamos ao lado das mesas de madeira onde algumas poucas pessoas lanchavam e saímos no saguão, entre as Lojas Americanas e o setor de moda masculina da C&A. Em meu colo, a pequena Melissa dormia tranquilamente, aparentemente sem se incomodar com a profusão de sons e cheiros totalmente inéditos que emanavam do Centro da cidade.

Ainda não tínhamos deixado o saguão do prédio, quando ouvi uma senhora já bem velhinha dizer algo como "Ah, meu Deus! Que pequenininha, que gracinha!" Tentei ignorar o comentário e acelerei o passo, mas então senti a mão da mulher em meu ombro, dizendo "deixa eu ver ela!". Eu nem tinha visto o rosto da mulher, mas reagi instantaneamente e respondi, sem pensar: "Não, não, não!", enquanto acelerava o passo, em tom de brincadeira. Só depois virei para encarar a velhinha que falou, de modo recriminatório, mas ainda sorrindo: "Malvado..."

Imediatamente compreendi que era uma dessas senhoras que não podem ver uma criança recém chegada ao mundo, e precisam olhar o bebê bem de perto, por uma razão que me escapa. Esse tipo de situação é quase sempre vista com simpatia ou indulgência, mas pode assustar um pouco. Ela arregalou os olhos diante da Melissa, que ainda dormia profundamente. Disse as coisas que todo mundo diz para minha filha (que ela é linda, perfeita, puxou aos pais etc) e, então, soltou essa confissão:

- Eu nunca tenho vontade de roubar nada na minha vida. Mas, criancinha pequena eu tenho vontade de roubar!

E aí quem arregalou os olhos fui eu! Como assim?! A mulher diz que quer roubar minha filha! Sorrisos amarelos surgiram, a senhora finalizou o encontro com um "Deus abençoe", e nós encerramos com um "amém" pronunciado simultaneamente por mim e minha esposa. A senhora seguiu seu rumo, nós seguimos o nosso. Tudo voltou ao normal.

Mas tenho apertado a Mel mais forte contra o peito, depois desse encontro bizarro, misto de benção sincera com ameaça de sequestro.

#SaiNazaré

22 de dez de 2014

A importância do Chester Perdigão



A família está toda reunida. Estão todos diante de uma farta mesa: o filho, o pai, o avô, os tios, os primos... Eles manifestam a alegria de celebrar mais um Natal juntos. Então, entra na sala de jantar a última, e não menos importante, integrante da família: a mãe. Traz nas mãos o último item a compor a ceia: um frango assado.

Os demais querem saber, perplexos:"Onde está o chester?" A mãe responde que, desta vez, preferiu preparar um "frangão". O filho, de cerca de oito anos de idade, inventa uma desculpa. Diz que lembrou que tem um "campeonato de par ou ímpar" para participar na internet, e deixa seu lugar à mesa vazio.

Em seguida, o pai diz que lembrou que precisa ir a um evento de amigo secreto. "Que amigo secreto?", pergunta a mãe. "É secreto", diz, saindo da mesa, de um modo furtivo que se propõe cômico.

No momento seguinte, todos os outros vão embora e o último a deixar a casa, para surpresa da mãe que ainda segura o frango assado, é o Papai Noel. "Papai Noel... até você?", pergunta a mulher, não surpresa por ele estar ali, mas surpresa de estar indo embora. "Não, eu sou a Fada do Dente", responde o velhinho barbudo, antes de desaparecer diante de seus olhos.

Esse comercial ridículo termina com uma justificativa simplório e pouco criativa: "Natal tem que ter Chester que só a Perdigão tem". Ou, em outras palavras: "Natal não é Natal sem chester".

Não sou publicitário, mas sou um dos milhões de brasileiros que, muito provavelmente, já assistiu a esse comercial na televisão, desde que começou a ser veiculado na semana passada. E, como um humilde telespectador e potencial consumidor, me vejo obrigado a apontar quão estúpida é a ideia utilizada em sua formatação.

Natal é, atualmente, algo comercial. Não há como fugir disso. Claro que, historicamente, a proposta é recordar o nascimento de Jesus Cristo. Mas, no mundo contemporâneo, as lojas ficam muito mais lotadas do que as igrejas. Então, não serei hipócrita a ponto de dizer que esse comercial não deveria existir.

O chester em questão é da marca Perdigão. E a empresa tem todo o direito de dizer aos consumidores: "Ei, já que é tempo de reunir a família, saibam que existe nas gôndolas do supermercado o delicioso chester Perdigão". Em última análise, essa é a mensagem. Uma mensagem boa e útil, praticamente uma prestação de serviço. No entanto, esse comercial consegue fazer com que o chester se torne o vilão natalino.

A mãe, que provavelmente cuidou de toda a ceia, é quem fica sozinha ao final. A ausência do chester é motivo de dissolução familiar. E pai e filho optam por serem os primeiros a abandoná-la na noite que deveria ser de especial união.

Certamente, as pessoas que criaram essa peça publicitária estão dizendo que o chester da Perdigão é mais importante do que a família unida. E que a família espera pelo chester, e não pela mãe, que ainda não ocupou seu lugar à mesa.

Esse desastre da publicidade brasileira consegue inverter todos os valores que ainda restam nesta época do ano. O que é um chester perto da oportunidade de estar com a família reunida e feliz, diante de uma mesa já repleta de alimentos? Por vários anos passei o Natal ao lado de meus pais e meu irmão, tendo como principal item da refeição um frango assado. E eu jamais trocaria esse franguinho por um chester, se isso me custasse a presença dos três.

Por essa razão, fica aqui meu protesto contra um comercial que eu gostaria de esquecer, mas que acabo vendo, agora, todas as noites, em algum intervalo da programação da TV. E segue a solução para que seus criadores possam se redimir por desenvolverem essa aberração que, mesmo em tempos de elevado consumismo, consegue ser nojenta...

***

A mãe entra na sala de jantar trazendo nas mãos um frango assado.
- Ué mãe... cadê o chester? - pergunta o filho
- Neste ano, preferi fazer um frango assado. - diz a mãe, triste, porque obviamente também queria ter oferecido um chester.
Não vemos a expressão do restante da família, porque, no momento seguinte, toca a campainha. O pai abre a porta e encontra o Papai Noel. Nas mãos, o velhinho traz o Chester Perdigão.
Ao final, o Noel junta-se à família feliz, que compartilha o chester, e vemos o frango assado, também, sobre a mesa.
A frase final seria a seguinte: "O Natal fica muito melhor com o Chester Perdigão".

***

Percebe a diferença? Ninguém diz que o chester é mais importante que a união familiar, nem diminui a importância e dedicação da mãe por ter preparado um frango assado. O Chester é mostrado como um item importante, que tornará o Natal em família melhor, uma ideia que é endossada pela presença do Papai Noel à mesa.

Viu? O Natal sempre será comercial. Mas não precisa ser estúpido.

P.S.: Abram o vídeo na página do Youtube, e você verá que não sou o único indignado.

21 de out de 2014

Resenha: 'O Fim da Infância'

Muitas pessoas tentam me convencer a ver filmes ou ler livros que dizem ser muito bons. No entanto, sou pouco influenciável nesse sentido. Evito ao máximo seguir os conselhos de meus amigos, e acabo fazendo pesquisas por conta própria, antes de me decidir por acatar o conselho de quem quer que seja. Quase sempre.

Isso faz com que eu seja um dos poucos caras em meu círculo social que não conhece, pessoalmente, obras populares entre os minimamente nerds, como é o caso de "2001: Uma Odisseia no Espaço". Até hoje não assisti ao filme, mas acho que agora terei que vê-lo. Meu amigo Ben-Hur Demeneck emprestou outro livro do mesmo autor, Arthur Clarke, e me convenceu de que o sujeito, que morreu há poucos anos, era um gênio.

A obra "O Fim da Infância", cuja leitura encerrei há poucos dias, é única. Depois dela, muitas outras surgiram, certamente tendo se baseado, ao menos em parte, em seu conteúdo. Impossível iniciar a leitura da descrição da chegada de gigantes naves alienígenas à Terra, sem relacionar a história ao filme "Independence Day". Não há como acompanhar a interferência, aparentemente, benéfica dos invasores sem lembrar do seriado "V", que há pouco era exibido na televisão.

Essas referências diminuiriam o impacto da obra de Clarke, se não considerássemos que ele escreveu seu livro no início da década de 1950. Nem sequer o primeiro satélite artificial estava em órbita ainda. O homem só pisaria sobre solo lunar na década seguinte. Por isso, ler "O Fim da Infância" é como ter a oportunidade de encontrar com uma das primeiras obras de real influência em toda a safra de obras de ficção científica relacionada a ETs que veio nos anos seguintes.

Muito mais que isso, o livro faz uma brilhante abordagem filosófica a respeito do homem, daquilo que o faz sentir-se importante e único no Universo. A narrativa mostra uma raça de seres - "Senhores Supremos" - que vem à Terra oferecendo prosperidade, avanços tecnológicos e de conhecimento. Aparentemente, nunca fazem o mal, mas despertam a curiosidade de muitos. Isso porque jamais mostram sua aparência física, nem revelam os reais motivos que os trouxeram ao planeta azul.

Cinqüenta anos após estarem no convívio do homem, conforme prometido, eles mostram seus rostos. Geram dúvidas devido à sua aparência bizarra (se bem que familiar), mas todos os homens já estão bastante habituados com sua presença, e acostumados à interferência benéfica que exerceram nos últimos anos.

Em paralelo, um homem consegue viajar clandestinamente na nave alienígena, até o planeta de origem dos visitantes, para tentar saber mais a respeito deles. Ao voltar, viajando na velocidade da luz, encontra uma Terra 80 anos mais velha, e totalmente mudada.

Seria um grande erro revelar aqui os detalhes minuciosos que tornam o livro tão espetacular. Mas basta saber que ele é convincente. Que tudo que parece acaso, ao final, se revela repleto de sentido. Que a viagem pelo espaço descrita na obra obedece ao que se sabe a respeito da física astronômica, e se mantém atual, mais de 60 anos após sua publicação.

E que, em determinado momento, nos surpreende saber que a cozinha descrita como do futuro teria um item bastante popular chamado "forno de radar". O que significa que Clarke previu até mesmo a popularização dos fornos microondas, que só se tornaram realmente utilizáveis após década de 1970. Ler "O Fim da Infância" faz pensar sobre tecnologia, humanidade e até paranormalidade. E nos mostra que muita coisa evoluiu em nosso mundinho, mas a boa ficção científica atual engatinha, quando a comparamos com a obra de Arthur C. Clarke.

17 de ago de 2014

Um furo de 20 mil livros

Estava aqui relembrando uma matéria que escrevi há alguns anos, e que foi uma das que mais tiveram repercussão. Em conversa com uma funcionária do Departamento de Cultura da Prefeitura de Ponta Grossa, soube que uma porção de livros da biblioteca pública precisariam ser incinerados, porque tinham sido contaminados por fungos, devido ao armazenamento inadequado.

"Quantos livros?", perguntei. Mas não esperava que a resposta seria tão bombástica. "Vinte mil."

Foi um grande furo, nenhum outro veículo de comunicação sabia daquela informação, que ganhou a capa do Jornal da Manhã e, no dia seguinte, começou a ser replicada em todos os importantes sites, jornais e emissoras de TV.

Mais tarde, ainda suitei a matéria, com a surpreendente informação de que os livros contaminados haviam sido armazenados no mesmo galpão com os alimentos do Programa Mercado da Família, enquanto esperavam para serem queimados. Me infiltrei nesse galpão e levei o fotógrafo até o local onde os livros estava armazenados. Dessa vez, tivemos uma foto exclusiva, e reportagens exemplares cobrando ações mais cuidadosas com itens de uso geral da população.

[A matéria original pode ser lida na íntegra, clicando aqui]


23 de jul de 2014

Devagar. Soberba passando...

Tem dias em que tudo o que a gente precisa ouvir é um pedido de desculpas. E isso está cada dia mais difícil de acontecer. Os motivos são vários, mas acredito que o principal é o crescimento da soberba no ambiente social. O cenário em que isso é mais visível é o trânsito. Não é à toa que motoristas param os carros para promover acaloradas discussões que, em momentos extremos, levam a verdadeiros campeonatos de UFC, ou duelos de faroeste em que apenas um carrega arma de fogo, cujo final trágico já é previsível.

Observe ao redor, e observe em si mesmo. O que acontece quando você quase bate o carro, em um momento de distração? Primeiro, você culpa o outro motorista. Dificilmente você irá avaliar quem está errado. De imediato, você é quem está certo, e o outro errado. A razão não importa mais no trânsito.

Ontem estacionei um instante em frente à Catedral da cidade. Enquanto colocava o cartão de EstaR sobre o painel, senti o carro sacudir e descobri que um senhor que estacionava à minha frente acabava de esbarrar no pára-choque de meu automóvel. Gesticulei, dei uma buzinada, saí do carro e esperei ele terminar de estacionar para conversarmos. Na realidade, eu só queria ouvir um pedido de desculpas, pois o dia já estava sendo suficientemente difícil.

A vaga em que ele estacionava era a vaga de idoso. Totalmente justo, considerando sua idade e o cartão de identificação no painel de seu carro. O detalhe é que o carro dele era um compacto, e na vaga caberia uma camionete dessas que obrigam a gente a pegar impulso para entrar. Havia um metro sobrando à frente e, ainda assim, o cidadão bate no meu para-choque.

Ao invés de se desculpar, ele atentou para o fato de que meu para-choque havia "invadido" seu espaço de idoso, o que lhe dava o direito de colidir com meu carro. De fato, meu carro tinha adentrado cerca de 30 centímetros na vaga de idoso. Pelo tom de voz e estupidez com que o cidadão me respondeu, acabei por dizer que ele era grosseiro [odeio esse hábito de não ter bons palavrões à disposição].

Ele foi embora abandonando o que poderia ter sido uma discussão longa e infrutífera. Em seguida refleti, ao ver que o carro dele estava cheio de marcas e arranhões, que sua idade já não permitia que ele dirigisse com a destreza de outras épocas, talvez. Ponderei que o dia dele podia estar sendo pior que o meu. E terminei por recuar um pouco meu carro, dando ao compacto do idoso todo o espaço que ele precisasse para sair da vaga depois.

Todavia, o desenrolar do diálogo poderia ter sido outro, se ele apenas se desculpasse por ter encostado em meu carro. Como ele mesmo disse em tom de desaforo, "nem tinha ofendido" meu automóvel. Então, qual seria o problema de apenas pedir desculpas pela atitude? Se ele tivesse feito isso, eu pediria desculpas também, pois acabava de notar que tinha avançado um pouco na sua vaga. Nos cumprimentaríamos, eu recuaria um pouco meu carro, feliz pelo desfecho da conversa na qual ambos notariam suas falhas. Ao invés disso, cada um quis provar que estava certo.

O pedido de desculpas é cada vez mais raro, não simplesmente porque as pessoas estão mal educadas, mas porque estão se achando superiores. E pedir perdão, ainda que em situações pequenas como essa, seria um atestado de inferioridade, quando deveria ser de igualdade. Todos erramos.

É por isso que há quem dirija em meio a duas faixas da via, quem acelera para passar no sinal amarelo, quem ultrapassa pela direita etc. O trânsito é o maior exemplo de como umas pessoas se sentem, cada vez mais, superiores às outras. Se elas são, então que saibam agir como tais. Mas, quem vai começar a mudança de atitude? Quem terá a coragem de ser superior, parecendo inferior aos olhos dos demais? Dar prioridade ao pedestre irá mudar alguma coisa? Tenho esperança que sim, mas com cada vez menos convicção, infelizmente.

21 de jul de 2014

Entrando numa [água] fria

É verdade que ainda sou um grande fã do simples ato de, no fim de semana, ficar em casa vendo um filme e comendo um pacote de Doritos. Mas, com uma certa frequência e um pouco de dinheiro no bolso, minha esposa acaba me convencendo a fazer pequenas ou médias viagens, muitas delas desbravadoras. Quase todas acarretam uma grande descoberta ou aventura inesquecível. Como da última vez, em que mal chegamos ao local, no Distrito de Entre Rios, em Guarapuava, e tive as pernas abocanhadas por um cachorro dos infernos.

Dessa vez, decidido a nos oferecer um passeio mais tranquilo, fiz uma busca na internet, e optei por uma pousada chamada Recanto da Dora, na região de Tibagi. Um passeio de um dia. Sairíamos na manhã de domingo, para voltar no final da tarde. O site mostrava trilhas para caminhadas, que terminavam em belas cachoeiras. Se gostássemos, podíamos agendar para uma próxima oportunidade um passeio mais extenso, com cavalgadas ou caminhadas acompanhadas de guia. Até mesmo as cachoeiras não poderiam ser muito aproveitadas desta vez, por estarmos em pleno inverno. A manhã de domingo previa iniciar com apenas 3ºC.


Feita a reserva por e-mail, partimos rumo a Tibagi, em deslocamento sossegado que desembocou na rodovia PR-340, quando chegamos ao portal de entrada do Parque Estadual do Guartelá.

Os planos mudam na chegada

Ali, um guia chamado Manoel acabou nos convencendo a não passar pelo portal. É que ele próprio tinha uma série de atrativos no entorno da região, e acabei achando que o Recanto não exerceria tanto fascínio quanto alguns dos roteiros que ele nos apresentou.

Assim, optamos por seguir duas de suas sugestões. A primeira delas era uma trilha que começava ali mesmo, não exigia a presença de guia, e dava a possibilidade de uma boa caminhada a dois. A segunda era denominada "Trilha da Fenda", e prometia a visualização de um cenário fantástico, a julgar pelas fotos que mostravam grande paredões de pedra.

Munidos de uma garrafa de água e um pacote de Ruffles [o Doritos não coube na mochila], eu e a Pri iniciamos o trajeto, que circundava lavoura para, ao final, levar a belas cachoeiras. Apesar de eu não ter planejado caminhar sobre as águas geladas naquela manhã fria, Manoel avisou que, em pelo menos um trecho, teríamos que molhar os pés para atravessar. Como [quase] diz o ditado: "quem está na trilha é pra se molhar". Só não pensei que seria logo no começo.

Pra que complicar?

Assim que chegamos à primeira bifurcação, a Pri quis passar por um banhado do lado esquerdo, enquanto eu acreditava que a trilha devia seguir pela bela estrada do lado direito. Houve uma pequena discussão, e devíamos ter disputado no palito, pois talvez eu tivesse alguma chance. Como não deixamos a escolha a cargo da sorte, acabei cedendo a sugestão de minha companheira, ao considerar o comentário do guia, que havia alertado para a necessidade de molhar os pés.

Acho que eu não estava com as roupas mais adequadas...
Na cara e coragem, Priscila enfiou as botas na lama [aqui vale um adendo: esse par de botas foi levado, certa vez, para que um sapateiro arrumasse a sola que estava soltando. O sapateiro quase se recusou a fazer o conserto, dizendo que, em dias úmidos, era preferível que a Pri andasse descalça, tal era a qualidade do material]... Como eu dizia, a Pri enfiou as botas na lama, e logo sentiu a água gelada. Caminhou por cerca de 10 metros, e me esperou do outro lado, em terra firme.

Ainda parado, eu criava coragem para a caminhada sobre aquele lodo congelante. Então, decidi congelar meus pensamentos, indo em frente, e fazendo de conta que aquilo era a coisa mais natural, e que casais do mundo inteiro sempre escolhiam aproveitar domingos de inverno enchendo os sapatos de água gelada. Palavras não serão capazes de descrever a experiência. Basta dizer que eu cheguei do outro lado e, ao encontrar a Pri, tive que ouvi-la dizer. "É... acho que não é por aqui". E assim, voltamos por aquele lodo, para enfim seguirmos pelo trajeto seco que eu antes havia sugerido. Que sirva de lição... preciso confiar mais em meus palpites.

A beleza das Sete Quedas

A partir dali, a coisa foi mais tranquila. Trilhas abertas, solo de rocha, placas sinalizando, paisagem deslumbrante. Na parte mais alta, curiosas formações de pedra. Na parte mais baixa, a água que escorria formando belas cachoeiras, que dão nome à "Trilha das Sete Quedas". Aliás, no verão seria ótimo retornar ao local. Em dia quente, certamente um dinheiro bem gasto. Há pequenas "piscinas" de água cristalina, com a opção de chão de pedra ou de areia. Lugar limpo que, espero, permaneça com pouca intervenção negativa do homem.

Verão, venha logo...
Após cerca de duas horas de caminhada, por entre as águas limpas dos córregos, subimos novamente o relevo acidentado e voltamos ao ponto de partida. Um breve descanso no local revelou que o passeio pela Trilha da Fenda teria mais turistas. Um grupo de Maringá e uma moradora de Tibagi nos acompanhariam. Até mesmo um guia local chamado Zezinho iria conosco, pois ainda não tinha visto a tal fenda.

Soubemos, então, que aquele passeio era algo recente na região. Poucas pessoas haviam conhecido a beleza que estávamos para registrar com nossos olhos. De carro, voltamos pela rodovia por cerca de 15 quilômetros e entramos em propriedade particular. A empresa de turismo de Manoel tem autorização do proprietário para a visitação, mediante documento entregue na entrada. Segundo Manoel, foi preciso convencer o homem a permitir as visitas, o que só aconteceu há cerca de quatro meses.

Um cenário de Hollywood

Deixamos os carros diante de uma plantação, e adentramos a mata por uma trilha de dificuldade mediana. Após cerca de sete minutos, com a temperatura caindo gradativamente, chegamos ao que parecia ser a entrada de uma gruta. Um portal de pedra, se abria diante de nós. Ao chão, uma pedra chata parecia ser uma porta recém derrubada. E, passando ao lado desta rocha, o que se via era um cenário comparável somente a grandes produções de cinema.

Lembrei das paredes rochosas do final do filme 'Indiana Jones e a Última Cruzada'. Só que estava ali, bem diante de nós, em linha reta. O solo era arenoso e as paredes de rocha vertical, com cerca de 10 a 12 metros de altura. Entre essas paredes, não havia mais do que um metro e meio. No alto, grandes rochas se equilibravam, suspensas, como que desafiando a coragem dos "desbravadores".

E nós? A maravilha da visão contrastava com o frio que sentíamos. Frio esse que só aumentaria nos próximo minutos. A fenda por onde caminhávamos se estendia por diversos metros, em uma visão extraordinária. Infelizmente, minha câmera não era das melhores para aquele registro, pois a luminosidade era reduzida e já era final de tarde.

Avançando pelo estreito caminho, chegamos às parte parcialmente inundadas pelas águas que escorriam dos paredões. A cada centena de metros, havia como que um degrau que nos fazia descer e a água subir. Por entre as pedras escorregadias, o lodo do fundo do córrego e os galhos e cipós que se entrelaçavam à nossa frente, nós seguíamos pelo túnel. Admirados pela maestria com que a natureza havia "construído" aquele cenário, certamente há milhões de anos, nós nos equilibrávamos já sem sentir os pés.

No trecho mais profundo, a água chegou às minhas coxas, e a Pri subiu as minhas costas. A dificuldade de descer as pedras que formavam degraus era cada vez maior, até que chegamos a um local em que a trilha se afunilava e conduzia os caminhantes à escuridão. O guia explicou que o trajeto ali era um pouco mais exigente. Ali, a Pri preferiu voltar (pois a saída era pelo mesmo trajeto). Foi quando me dei conta de que o regresso era um pouco mais desafiador do que a entrada.

O guia e os outros turistas seguiram em frente, enquanto eu e a Pri voltávamos pelo caminho de onde tínhamos vindo. Dessa vez, não era possível pular do alto de rochas para as parte inundadas. Era preciso pequenas escaladas na pedra escorregadia. Isso obrigou a colocar a Pri em meus ombros, para que ela pudesse alcançar o degrau mais alto.

Em uma dessas muitas pedras lisas, a Pri não encontrou apoio, e acabou se molhando um pouco mais. Foi mais ou menos deste jeito:



Ela só conseguiu subir quando eu a segurei e gritei: "Se acalme!"

Ainda assim, a volta é sempre mais rápida que a ida. Chegamos ao carro um pouco cansados e muito sujos. Satisfeitos com a beleza do passeio, e do local que tivemos o privilégio de conhecer, mas desejando ter vindo em época mais quente, e talvez com mais algumas roupas no carro.

Dez minutos depois, o guia e os demais turistas tinham voltado. Dali, ainda seguimos até uma cachoeira muito bonita, também dentro da fazenda. Segundo Manoel, as águas da cachoeira marcam a divisa entre Castro e Tibagi.

Regressamos a Ponta Grossa em seguida, vendo o sol se pôr, e deixando para trás uma visão inesquecível das belezas que a região dos Campos Gerais tem a oferecer.

Há quem diga que não é preciso viajar ao exterior para conhecer muitas dos espetaculares cenários do Mundo, pois o Brasil já oferece diversas dessas maravilhas. E não é demagogia. Apenas para citar outro caso, o Acre, um dos estados brasileiros menos conhecidos (talvez devido à distância extrema do litoral), foi tema de reportagem interessante a respeito de extraordinárias figuras descobertas recentemente em seu solo. Os chamados "geolitos" só podem ser vistas do alto, da mesma forma que as linhas de Nazca, no Peru, e ainda são tão misteriosos quanto pouco conhecidos.



Da mesma forma, a Trilha da Fenda é um local que, certamente, poucos conhecem ou ouviram falar. Cenário fantástico localizado a poucos quilômetros de Ponta Grossa, e que vale a pena conhecer.

Mais informações:

Distância aproximada: 85 quilômetros de Ponta Grossa à entrada do Parque Estadual do Guartelá
Melhor época para visitação: verão... certamente o verão
Roupas: Qualquer sapato ficará molhado e cheio de lama. Alguns turistas preferem caminhar trechos descalços, mas os gravetos no fundo do córrego incomodam. Então... leve roupas de banho, roupas leves e calçados apropriados para a caminhada. Água, lanche para trilha, repelente, filtro solar, boné e sacola plástica para armazenar as roupas de banho.
Taxa de visitação: R$ 25 por pessoa na primeira trilha, sem guia. A Trilha da Fenda exige R$ 50 por pessoa, o que inclui a presença do guia e a autorização do proprietário para entrar na fazenda. *Valores em julho de 2014
Empresa que conduziu a visitação: Itaimbé do Guartelá Ecoturismo

17 de jun de 2014

Voluntários na Copa

A manhã é de neblina em Ponta Grossa. Os automóveis passam com faróis acesos e bandeirinhas do Brasil tremulando. É o anúncio de mais um dia de jogo do Brasil em meio a uma Copa do Mundo realizada no País. A névoa vai se dissipando, e o centro da cidade começa a ficar povoado. Menos do que nos outros dias, pois dia de Brasil na Copa é feriado para muitas pessoas.

O café também tem movimentação reduzida, o que é bom para garantir conforto a quem tem o hábito de frequentar o lugar. Basicamente duas mesas circulares para duas pessoas, e três ou quatro banquetas junto ao balcão. Uma clientela um pouco maior exigiria que os visitantes excedentes ficassem em pé equilibrando xícara e pires.

Dois advogados entram. Um deles pede um café e um salgado qualquer. O outro, mais baixo e mais falante, pede um café com leite e um pão de queijo. Sentam-se à mesa. O televisor exibe as notícias do dia. O nevoeiro também cobriu toda a cidade do Rio de Janeiro. A bela paisagem também significou o cancelamento de pousos e decolagens lá e em outros pontos do País.

Assim que as nuvens baixas deixam de ser foco principal da reportagem, a Copa do Mundo, assunto do momento em todos os lugares, volta a ser o destaque no programa. E aí o advogado mais baixo começa a falar:

"Sabe o que eu fico mais impressionado? O País precisando de investimentos em saúde e educação, e milhões sendo investidos nesta Copa. Até aí tudo bem... Mas eu não entendo como é que tem um monte de brasileiro que aceita ser voluntário na Copa. Voluntário! Trabalhar de graça por isso?"

Penso a respeito. E recordo que muitos brasileiros só queriam estar perto desses eventos, assistir a um jogo no estádio, ver a movimentação de estrangeiros, poder dizer que fizeram parte de tudo isso um dia. Talvez alguns brasileiros se deixem explorar, ao perceber que essa é a única forma de conseguirem atingir determinados sonhos. Justifica? Não sei, mas com certeza explica como muita coisa acontece.

5 de jan de 2014

Viagem a Treze Tílias - SC

A Pri na Praça central de Treze Tílias
Nos últimos dias de 2013, eu e minha esposa Priscila concordamos em fazer nova viagem, recarregar as baterias conhecendo novos lugares. Dessa vez, a escolha do destino aconteceu após a visita à casa de uma amiga, que narrou uma viagem incrível que tinha feito até um lugar chamado Treze Tílias, em Santa Catarina.

O nome pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas trata-se de uma cidade com um potencial turístico impressionante, que é aplicado na prática de forma exemplar. O passeio, que ainda incluiria passagem pela Serra do Rio do Rastro (uma impressionante estrada que atravessa montanhas) e finalizaria no litoral, em Balneário Camboriú.

A Pri começava a selecionar hotéis e pousadas, quando tivemos a ideia de convidar nossos amigos Robison e Soraya para que nos acompanhassem. Aceitaram a sugestão, e partimos na manhã de domingo, dia 29 de dezembro de 2013, planejando passar o Réveillon na praia.
Flores que decoram a praça da cidade
Seguimos pela rodovia que corta o Distrito de Guaragi, cada casal em seu veículo, em direção a Teixeira Soares, Irati e Mallet, até cruzarmos a divisa com Santa Catarina. Após algumas horas paramos em uma lanchonete à beira da estrada, que acabava de abrir suas portas para os clientes. Tomamos um café, e comemos salgados que estavam muito bons.

De volta à rodovia, seguíamos o carro do Robison e Soraya, que estava com um equipamento de GPS aparentemente mais aprimorado que o modesto aplicativo de meu celular. O tempo variava entre sol, chuvisco e neblina. Passava das 13 horas quando nos vimos em uma rodovia sem qualquer indicação confiável da chegada a Treze Tílias. Sabíamos estar perto, mas tudo que víamos eram morros e campos, sem nenhum sinal de habitação.

Finalmente, por volta das 13h30, surgiu a cidade, como num passe de mágica, por detrás dos morros verdes. O momento coincidia com o surgimento mais intenso do sol, e nos fez ver ruas limpas, casas de arquitetura característica europeia, jardins bem cuidados e a tranquilidade de um município com
aproximadamente 6 mil habitantes.

Cascata artificial que corta a praça da igreja matriz
Treze Tílias é uma cidadezinha simpática e acolhedora, fundada por imigrantes austríacos. Isso fica evidente na arquitetura, na decoração de hotéis, ruas e restaurantes, nos gentílicos, que gostam de falar em alemão entre si. Os funcionários de alguns restaurantes usam roupas típicas, e os nomes de ruas e estabelecimentos, com frequência, têm mais consoantes que vogais.

O nome da cidade é uma referência a um poema de mesmo nome (Die Dreizehnlinden), do poeta alemão Wilhelm Weber. A Tília é uma árvore de origem do Hemisfério Norte, que foi posteriormente trazida e plantada no município. Inclusive, há um parque que possui caminho com treze tílias saudando a passagem do visitante.

Outra marca do município, talvez a principal, é a Edelweiss. Uma flor branca existente nos Alpes, apelidada
de "Flor do Amor", pois diz a tradição que a flor nunca morre ou mancha, mesmo após colhida. Em quiosques de souvenires há várias dessas flores, em vários tamanhos, colocadas em molduras para venda.

'Castelino' - museu da imigração
Quando chegamos, precisamos ignorar o GPS, que não tinha informação a respeito da rua onde ficava nossa pousada. Mas, bastou circular um pouco de carro para encontrarmos um ponto de informações turísticas. No local, soubemos que as esculturas de madeira são outra marca do município, que tem diversos artesãos. A recepcionista, atenciosa, ofereceu alguns panfletos e mapas, informou como chegar à pousada e a restaurantes, deu ao Robison um almanaque muito bonito com várias informações sobre o município, e nos convidou a assistir a um vídeo de sete minutos que conta um pouco do que a cidade tem a oferecer aos visitantes.

De lá, seguimos a um restaurante para almoçar, e depois fomos à pousada. No caminho, nos maravilhávamos com a arquitetura nas ruas principais. A Pousada Adler é, talvez, uma das mais simples que existem no lugar. A estrutura é razoável, mas o atendimento deixou a desejar. A recepcionista foi bastante brusca, ao informar que o local só abriria às 14 horas. Mais tarde, disse não ter recebido o comprovante de pagamento via e-mail (o qual enviamos com bastante antecedência, além de ter feito o pagamento na íntegra, quando era solicitado apenas 50%).

A cidade é representada em maquete
O Robison e a Soraya ficaram hospedados num quarto que ficava ao lado de uma cama elástica, onde crianças pularam até altas horas da noite. A piscina estava cheia de insetos no fundo (o que não nos impediu de tomar um banho hehehehe) e o café da manhã não impressionou.

Apesar disso, a cidade toda é bonita demais, de tem dezenas de atrativos turísticos. Tivemos que escolher alguns, já que ficaríamos apenas um dia. Visitamos o Museu da Imigração Austríaca, mais conhecido como "Castelinho", que foi a residência do fundador da cidade. Fomos ao Parque Lindendorf, que tem um lago com grandes peixes coloridos, uma trilha com pequeno zoológico, a cidade de Treze Tílias representada em miniatura, além de um restaurante muito agradável. Em um quiosque, compramos algumas lembranças. Ao sairmos, um músico tocava acordeom animadamente.

O tempo colaborava bastante conosco. Fazia um sol de rachar e, de vez em quando, para amenizar o calor, caía uma garoa. Em Treze Tílias também fomos ao Parque dos Sonhos, onde nos divertimos em um labirinto de árvores, cujo objetivo era chegar ao centro. Mas não nos aventuramos em uma fila enorme de pessoas para comprar sorvete.

Gente simpática e música típica no Parque Lindendorf
Mas nada no município se compara à praça central, habilmente ornamentada com flores e uma cascata artificial que desce por degraus desde a Catedral até a um pequeno lago. A Praça foi, nitidamente, planejada para ser o cartão postal no centro da cidade. Por ser época de Natal, o local também estava cheio de enfeites, com luzes que tornavam o espaço especialmente importante para visitação à noite.

Ainda na manhã de segunda-feira, dia 30, partimos de Treze Tílias, guiados pelo GPS rumo ao lar do lendário Corvo Albino. Mas essa é outra parte da história...

6 de nov de 2013

O Especialista

Semana passada acordei e, ao sentar na cama, percebi uma sensação incômoda no ouvido direito. Reparei que o sintoma surgia cada vez que eu me levantava ou abaixava. Comecei a recuperar meu histórico de enfermidades que, felizmente, [ainda] é reduzido, e julguei que poderia ser indicativo de que minha sinusite alérgica estava de volta.

É que, há quase dois meses, peguei um resfriado nos primeiros dias de minhas férias. Tratei com xaropes e ignorância, e acabei julgando estar curado. Mas, agora, observando sintomas, notei outros problemas. A começar pelo número exagerado de vezes que passei a assoar o nariz, crises de espirro diárias e sensação de congestão nasal.

Somado a isso, meus óculos pareciam comprimir os seios (ui!) da face na região do nariz, justo o local normalmente afetado pela sinusite. E imaginei que estava um pouco inchado, indicando inflamação.

Sem alternativa, e tendo adiado isso por quase 60 dias, precisei ir ao médico nessa terça-feira. Mas, diante de um dos melhores especialistas em pneumologia da cidade (o mesmo que diagnosticou minha sinusite dois anos antes) me senti ainda mais ignorante. Na verdade, a consulta foi humilhante, aviltante, degradante.

O médico perguntou quais sintomas eu tinha, e narrei basicamente o que está descrito aqui nos primeiros parágrafos. Foi quando ele iniciou os exames. O primeiro deles, no ouvido. Primeiro o esquerdo, depois o direito. "Aqui você não tem nada. Só um pouco mais de cerume no ouvido direito", disse, sendo educado para não falar que meu ouvido estava quase entupido de cera.

Depois, sobre os óculos estarem apertando a região do meu nariz, ele disse: "Me empresta seus óculos". Pegou e, entortando a peça que apoia o óculos sobre o nariz [chamada "ponte"], abriu um pouco, deixando mais folgada. "Melhorou?"

Claro que depois, ele receitou um hemograma e um raio-x dos seios da face. E é muito provável que depois disso venha a apresentar um diagnóstico bastante preciso, como ocorreu dois anos atrás. 

Mas saí do consultório me sentindo bastante tolo, e duzentos reais mais pobre.

Às vezes eu queria ser mais especialista e menos ignorante no que tange à medicina.

1 de nov de 2013

A música que nos toca

"Quem canta seus males espanta", diz um ditado antigo, que já deve ter virado canção algum dia. Talvez por isso eu cantarole música velhas ou antigas, jingles ou músicas religiosas, trilha sonora de desenho animado ou videogame, logo pela manhã, logo depois de levantar da cama.

O filósofo Clóvis de Barros Filho, em uma brilhante entrevista que concedeu ao apresentador Jô Soares, demonstrava que a felicidade consiste em momentos, e que cada um capta essa felicidade de formas diferentes. Em tom de brincadeira, disse que pessoas que acordam cantando "são pessoas do mal" e que é preciso ter cuidado com elas. Afinal, ele próprio levanta da cama com preguiça e dificuldade, diante de um dia inteiro que ainda está por acontecer.

Mas é a música que no move, às vezes, mesmo que não notemos. Tenho por costume dirigir em meio ao trânsito de minha cidade ouvindo um dos CDs lançados por meu amigo pianista Newton Schner Jr.. Sinto-me transportado à calma que não possuo e à tranquilidade que não faz parte do tráfego intenso dos horários de pico. É minha trilha sonora entre a casa e o trabalho em 80% dos meus "dias úteis".

Só que tem vezes em é preciso ouvir algo diferente. Hoje, por exemplo, contrariando minha própria crença de que ouvir música em volume alto no carro é para imbecis, troquei o CD para um da banda Pedra Letícia, e coloquei o som no 23, tomando o cuidado de fechar os vidros nos semáforos, para não irritar os demais motoristas, que certamente dirigem com uma arma de fogo no porta-luvas.

Tem dias em que a irritação ou descontentamento não pode ser suprimida pela música de piano. Em lugar disso, temos que aliar a música à sensação que já está presa à nossa mente. Colocar uma batida mais violenta, como aquela que aflige o coração. Tem dias em que não dá pra vencer... é preciso juntar-se a esses sentimentos. Daí vem o som alto, que outros preferem manter nesse volume alto sempre. Talvez porque já cansaram, ou nunca tiveram coragem de tentar lutar.

18 de set de 2013

Colesterol ruim

Uma reportagem exibida ontem pelo Jornal Nacional informava a respeito da redução do limite de LDL (colesterol ruim) no sangue. Até agora o nível tolerável era de 100, mas uma nova diretriz da Sociedade Brasileira da Cardiologia coloca como 70 o máximo recomendado pela medicina.

Com isso, muitas pessoas até então consideradas nos níveis normais de LDL, passam a fazer parte do grupo que necessita de medicamentos e cuidados na alimentação para garantirem saúde ideal. A notícia foi dada um dia antes de minha esposa, Priscila, buscar o resultado de um exame de sangue completo. No resultado, ela está dentro dos níveis toleráveis antigos, e passou raspando pela nova diretriz... Está com 69.9 de LDL no sangue.

Conversamos com um especialista que nos revelou existir uma linha da medicina que contesta essa redução nos limites toleráveis de LDL. Diz uma teoria da conspiração que a redução tem como objetivo aumentar a venda de medicamentos específicos para o problema. Há mesmo pesquisas que apontam a importância da manutenção dos níveis de LDL para colaborar com a produção ideal de hormônios, especialmente em mulheres.

Enfim, é o tipo de coisa que dificilmente será publicado na mídia mais conservadora. Até porque, difícil é encontrar um especialista que fale abertamente, ao grande público, que o resto do mundo está errado. Mas, vale a pena questionar até que ponto o colesterol ruim é ruim, ou até que ponto ele é bom... para a economia mundial.

17 de set de 2013

Gato? Onde?!

Sempre preferi cães em lugar de gatos. Mas os tempos são outros... Antigamente, eu não me via morando em uma casa sem quintal, por exemplo. Mas, agora, vivo com minha esposa em uma dessas residências contemporâneas desenvolvidas para serem úteis para todo mundo, mas com pouquíssimo espaço ocioso. Ter um cão se tornou impossível. Mas um gato...

Bom, a ideia de ter um gato não me agradava. Mas minha esposa, Priscila insistiu tanto nessa ideia,que acabou conseguindo me convencer. E aqui estou eu, com um filhote de gato persa cochilando ao meu lado. Por algum motivo, ele percorreu os cômodos da casa pela primeira vez, e foi gostar justamente dos cantos mais escuros da casa. Ou mais quentes...

Ele estava passando um pouco de frio na loja quando o vi pela primeira vez. Acho que mesmo aqui em casa ele sentiu um pouco de frio. Por isso, preferiu três lugares na casa. O primeiro, foi a parte de trás do sofá, meio enrolado nas cortinas. O segundo foi a parte de trás da geladeira [de onde voltou com um pouco de poeira]. O terceiro foi ao meu lado, no sofá.

Fico tentando imaginar o que ele pensa quando me observa caminhar pela casa. Ele olha os cantos e objetos com curiosidade. Pode ser que seja uma boa fonte de ideias para minhas tiras em quadrinhos. Mas também há o risco de me aproximar de trabalhos como de Jim Davis, ou Simon Tofield... Ou não.

Veremos...

30 de ago de 2013

Dia histórico em PG - o destino de Ana Maria

Hoje é um dia histórico... e redundante. Qual dia não é histórico?

O fato é que hoje devemos saber qual será o destino da vereadora de Ponta Grossa Ana Maria de Holleben (hoje sem partido, antes PT), cujos relatórios apontam ter forjado o próprio sequestro no primeiro dia do ano, quando começou a novela que completa, depois de amanhã, oito meses.

Depois que a Comissão Parlamentar Processante (CPP), instalada para analisar o caso, concluiu que houve quebra de decoro, a votação - não secreta - dos vereadores municipais irá definir se Ana Maria tem, ou não, seu mandato cassado.

No meio político, é um debate incômodo. No popular, é motivo de indignação. No jornalístico, é cansativo. Oito meses acompanhando, direta ou indiretamente, relatórios, conversas e acusações que pareciam não levar a lugar algum. Em meio a problemas de saúde apontados pela vereadora como justificativa para seu súbito desaparecimento em um dia em que seu voto ajudaria a definir o nome do presidente da Câmara, os repórteres das editorias de Política e Polícia se viram em dúvida sobre quem iria cobrir a pauta, naqueles primeiros dias de 2012.

E até o repórter de Cotidiano [yo] se viu entrevistando o investigador de polícia em plena Câmara dos Vereadores. Sim... a história era complexa.

A votação de hoje, na Câmara Municipal de Ponta Grossa, promete ser um final digno dessa história confusa, que ganhou repercussão nacional e deu o pontapé inicial para a sequência de fatos bizarros, cômicos, incomuns ou apenas inéditos deste ano.

A saber, por aqui: um banheiro transparente, um ganhador da mega-sena (e cadê ele?), uma visita da presidente Dilma, uma manhã com neve, o lançamento de meu primeiro livro [sendo preparado desde 2008].

A saber, no mundo: um papa renunciando, um meteorito caindo na Rússia, um novo papa argentino [!], a visita do próprio papa ao Brasil, em meio a ventos solares e protestos com multidões pipocando em inúmeros cantos (e até em PG) do planeta.

16 de jul de 2013

Dilma visita Ponta Grossa

A cidade de Ponta Grossa amanheceu com neblina e, até onde pude ver, sem a geada que o serviço meteorológico ameaçava existir nos telhados. Mas nem a geada, nem a neblina, são o assunto do momento na cidade. Nesta terça-feira não se fala de outra coisa, senão da vinda da presidente da República, Dilma Rousseff, que deve chegar de helicóptero ao município, nas próximas horas.

A presidente vem até aqui, juntamente com uma porção de ministros, para realizar a entrega oficial de 1.438 casas populares inscritas no projeto Minha Casa Minha Vida e, também, para entregar 42 máquinas retroescavadeiras aos municípios do Paraná. Garantia de habitação e de deslocamento pelas estradas vicinais do Estado.

Essa solenidade causa grande alvoroço em Ponta Grossa. Especialmente no meio político, empresarial e das comunicações. Ontem pela manhã, saí de casa para levar a Pri ao trabalho e já alertei minha esposa de que o expediente de segunda-feira na redação, muito provavelmente, iria até mais tarde, em razão da vinda da Dilma. Ela não entendeu... Por que eu ficaria no trabalho até mais tarde, se a Dilma só viria à cidade no dia seguinte? Bom, eu também não sabia direito. Mas, intuitivamente, eu sabia.

E, na tarde de ontem, o Jornal decidiu fazer duas páginas só sobre a vinda da presidente. O que ela vinha fazer? Qual trajeto ela faria? A que horas chegava? Até que horas ficava? Quantas casas seriam entregues? Que ministros estariam junto com ela? O que as entidades representativas da cidade achavam de tudo isso? Quem foram os presidentes que já vieram à cidade? Temos fotos de quando eles vieram?

Juntamente com os amigos Daniel Petroski e Fernando Rogala, passei a tarde tentando responder a essas e outras perguntas, o que me fez ficar, pelo menos, três horas a mais na redação. Mas, o que eu realmente queria responder, eu não podia.

Desde ontem me pergunto, afinal, o que importa para a Dilma Rousseff vir a Ponta Grossa? E o que ela sabe a respeito da cidade? De certa maneira... esse foi o mote da tirinha que esbocei, ontem, em um pedaço de papel.

O que eu quero dizer é... o que se passa na mente da autoridade máxima de um país com o tamanho do Brasil? Imagino que tornar-se presidente deve ser algo fantástico, e deve haver quem até goste disso. Mas Dilma tem dado mostras de que não parece ser uma dessas pessoas. E ainda tem agido de forma estranha, ao menos para quem a observa somente a partir de noticiários. Recentemente demonstrou tolerância, e até compaixão, com manifestantes que quebraram patrimônio público no País todo. Manifestantes misturados a baderneiros [ou vice-e-versa]. Disse que aquilo era democracia, determinou redução de mais impostos. Governos estaduais e municipais recuaram em reajustes de tarifas e até reduziram preço dos transportes públicos, em favor do que as massas pediam.

Poucos dias depois, caminhoneiros se manifestavam em rodovias de todos o País. Não quebraram nada, só pediam mais segurança e preços mais baixos nas tarifas de pedágio. E a presidente só faltou xingar os profissionais. Pouco depois, ocorreu a Marcha dos Prefeitos. Governantes de vários municípios foram a Brasília pedir mais verba e Dilma foi vaiada por muitos deles, quando disse que não havia mágica para governar.

Então, baderna acabou sendo elogiada como democracia. Enquanto que melhores condições de trabalho e a reivindicação formal de mais recursos pelos prefeitos foram criticadas pela presidente.

Dilma chega a Ponta Grossa logo após esses acontecimentos. Com a popularidade mais baixa do que nunca. E com uma porção de críticas ao modo de governar o País. É bom que se diga que os protestos não levaram em consideração avanços conquistados nos últimos anos, primeiro com o Plano Real, depois com o Governo Lula, que deu estabilidade internacional ao Brasil. Enquanto crises pipocaram em diversos países, o Brasil se manteve firme. E, mesmo agora, os problema são bastante pontuais: a saúde pública está em colapso e a corrupção em todas as esferas políticas estão extremamente visíveis.

O Minha Casa Minha Vida é a menina dos olhos do Governo Federal. Nem o tal Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) conseguiu avançar da forma que se esperava. Por isso, a vinda da presidente tem um motivo claro... enaltecer o único programa federal cujos resultados são visíveis, especialmente em Ponta Grossa, onde, proporcionalmente, o número de casa entregues foi um dos recordes nacionais.

No entanto, numa análise fora da política, mesmo essa entrega recorde de casas está longe de cumprir tudo o que se espera. De acordo com a Companhia Nacional de Habitação (Prolar) de Ponta Grossa, 17 mil famílias ainda aguardam uma casa própria na cidade. Significaria distribuir senhas para 100 pessoas por dia, até outubro, nas palavras do presidente da Entidade, Dino Schrutt. O Governo Federal pretender entregar 3 milhões de residências, e já passou das 2 milhões. Se chegarem à meta no final do ano que vem, conforme o previsto, ainda assim estará longe de acabar com o déficit de moradias.

O que quero dizer é que, ao que parece, o antecessor da presidente Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu iniciar programas, e seu desenvolvimento. Mas cabe à Dilma sua finalização, e as dificuldades dessa empreitada estão visíveis em seu rosto habilmente remodelado nas últimas eleições. Dilma demonstra preocupação, irritabilidade, e não parece motivada. Em suas aparições na TV, o que se vê é uma presidente que cumpre obrigação. E, em qualquer função, é preciso que exista mais que isso. É preciso vontade, entusiasmo, e até prazer.

Em parte, acredito que isso ocorra devido à sucessão dos acontecimentos inesperados... os protestos pelo País. Eles desequilibraram o Governo Federal, que até então só precisava se preocupar em dar respostas evasivas para os problemas e enaltecer conquistas. Agora, mesmo tendo a Copa do Mundo no Brasil, não é possível comemorar. É como fazer aniversário no mesmo dia em que um parente próximo fica muito doente.

Por outro lado, creio que até a extensão territorial do País prejudica. Dilma está chegando em Ponta Grossa. O que isso significa para ela, além de uma chance de destacar um Programa Federal? Do que ela sabe? Sabe de um aeroporto que não tem sequer rádio para comunicação? Viu um monumento em forma de quibe [para ser politicamente correto] na internet? Assistiu no noticiário a um banheiro transparente ou a uma [ex]colega de partido sequestrar-se a si mesma? Viu um vídeo no Youtube onde aparecia Vila Velha? Leu as tirinhas do Catraca alguma vez? Conhece o passado da cidade ligado às ferrovias, a velha Estação Saudade e a locomotiva do Parque Ambiental que estão sendo deterioradas pelo tempo e pelos vândalos? Caminhou pelas calçadas irregulares e tropicou em uma pedra solta de petit-pavé no centro da cidade?

Enfim, são só reflexões lançadas aqui... No final das contas, o que quero dizer é... a presidente está aqui hoje, após 22 anos sem que um presidente pisasse nessas terras. Qual importância isso tem, além da política? Acredito que nenhuma. Prova disso é que tive que passar metade da tarde de ontem procurando informações sobre a vinda de Getúlio Vargas, Ernesto Geisel e Fernando Collor de Mello à cidade, em épocas remotas.

Amanhã, tudo isso será passado e, se demorar 22 anos para que outro presidente venha à cidade, é provável que seja igualmente difícil saber como foi esse dia. Com um pouco de sorte, o Google [se ainda existir no futuro] levará a este texto. E o pesquisador descobrirá que nesta terça-feira, dia 16 de julho de 2013, Ponta Grossa amanheceu com neblina.

1 de jul de 2013

Um gato. Será?

Minha amada Priscila está pensando em ter um gato... há quatro anos. É o tempo que ela levou para me convencer da ideia. Afinal de contas, minha família nunca foi muito fã de gatos. A preferência é por cães. A única vez em que lembro de ter criado gatos foi quando uma ninhada surgiu dentro da churrasqueira, e a "responsável" pela prole desapareceu. Os que sobreviveram aos nossos cuidados (leite de vaca oferecido em conta-gotas) foram levados para uma indústria onde meu pai trabalhava, e e colocados para caçar ratos.

Enfim, pela primeira vez estou pensando em permitir um gato nessa casa. Mas teria que ser um desses gatos felpudos que não colocariam as patas na rua. Aqui é condomínio, e a vizinha de parede tem uma calopsita. Ainda não falamos com ela e os demais vizinhos, para saber o que acham da ideia de um felino. Eu disse para a Pri que, por mim, tudo bem. Desde que o bicho não fique no telhado miando às três da madrugada.

Talvez eu tenha sido influenciado pelos vídeos do gato Maru, que não parece atrapalhar a vida de ninguém. Ou, quem sabe, a obra de animação de Simon Tofield, "Simon's Cat" tenha feito com que os gatos aparentem, aos meus olhos, menos aborrecimento. E, talvez, também sirva de inspiração para minhas tiras. Vamos ver se os condôminos concordam com essa perspectiva. A calopsita não vota.

9 de jun de 2013

Atrasado para o café

O dia a dia corrido do trabalho como repórter do Jornal da Manhã, às vezes, me impede de dar 10 passos além de onde costumo ir. Quase colado ao prédio do JM está o Boteco do Seu Rui. Há meses eu não ia até ali tomar um café, o que é uma pena. Afinal, por várias vezes despertou meu riso ouvir Seu Rui gritando "Dae, Catraca!", ao me encontrar, casualmente, nas imediações do jornal.

De fato, o conhecimento dele acerca de meu principal personagem de tiras em quadrinhos, o Catraca, era sempre uma surpresa. A gente sempre acha que ninguém vê nosso trabalho e, na maioria das vezes, acredita que os poucos que veem são os que nos conhecem. Mas Rui, com quem só conversei, realmente, uma vez, não apenas demonstrava conhecer meu trabalho, como também mencionava a tira mais recente, a cada encontro casual.

Certa vez fui com o colega de traços, o chargista J. Robson (Sádico) até o boteco. Era para uma entrevista com ele, em uma reportagem sobre o humor na cidade. Sentamos a uma mesa no canto. O próprio Rui nos serviu, nos deixou à vontade, mas depois perguntou o que cada um de nós fazia. Creio que foi naquele momento que ele soube que eu era autor das tirinhas dominicais. Imediatamente, elogiou meu trabalho, e as charges do Sádico, também observadas a cada publicação no jornal.

"As pessoas ditas intelectuais não valorizam nosso trabalho. Aí vem o tiozinho do bar, e mostra que acompanha as publicações, e comenta... Isso é que faz a diferença!", comentamos eu e o Sádico, pouco antes de nos despedirmos, naquela manhã.

Ontem, passei no Boteco do Seu Rui. Pedi um café com leite, e perguntei por ele. Queria entregar um exemplar do livro "Traços de PG", com coletânea de minhas tiras e das charges do Sádico. A esposa, atrás do balcão, contou que Rui havia falecido. Tinha problemas no coração. Não perguntei quando aconteceu. Podia calcular que fazia muito tempo desde que o havia visto pela última vez. 

Os últimos goles do café tiveram menos sabor. O livro demorou a ser publicado. Eu demorei mais ainda para voltar a tomar um café naquele balcão.

Leia também o post "O boteco de Seu Rui"

11 de mai de 2013

Saga épica para compra de ingressos


Deve haver uma conspiração cujo objetivo é fazer com que o show do Capital Inicial, que acontece no próximo dia 18 de maio, em Ponta Grossa, seja um fiasco. Não sei qual é o motivo, mas como é difícil adquirir um mísero ingresso!!

Minha amada esposa, Priscila, decidiu que iria a esse show de qualquer forma. Portanto, ficou a meu cargo ir até um ponto de venda, adquirir o par de ingressos, e viver feliz para sempre. Claro que não poderia ser tão fácil...

Primeiramente, mantive a tranqüilidade ao notar, em um anúncio publicado no jornal para o qual trabalho, que o próprio jornal estava listado entre os pontos de venda. Sendo assim, bastaria descer um ou, no máximo, dois lances de escada para adquirir os tais ingressos. Aguardei mais alguns dias, até ter certeza de que a Pri desejava, realmente ir ao show. Seu nível de insistência me fez crer que sim. Portanto, no final do expediente em um dos dias desta semana, perguntei a uma colega do jornal que trabalha na recepção a respeito dos ingressos. Para minha surpresa, ela disse não saber nada a respeito. Inclusive, ficou ainda mais surpresa ao saber que o jornal era apontado como ponto de venda oficial. Em suma, o anúncio estava equivocado.

É claro que a Pri não gostou nada de saber disso. A cobrança aumentou e fomos até outro ponto listado no anúncio. Afinal, não podiam ser todas as informações falsas. Seguimos até o Shopping Antartica. Não havia quiosque para comércio dos ingressos, que eram vendidos em uma loja de trajes sensuais (ulalá!). Tudo bem, só que os ingressos eram vendidos a mais de R$ 50! E queríamos adquirir as entradas que custavam R$ 30, pois não queríamos prejudicar nosso orçamento tanto assim.

Saímos de lá e fomos a outro ponto de venda citado, a lanchonete Au-Au, no interior do Shopping Palladium. Chegamos lá e aguardamos que a atendente resolvesse largar o telefone. Após alguns minutos sendo completamente ignorados, ela foi nos dizer que, sim, eles vendiam ingressos, e custavam R$ 32 (os dois reais são de taxas, sabe Deus para pagar o quê). Mas que, não, o sistema não estava funcionando, e não poderiam vender naquele momento.

Na saída, só por farra, ainda passamos nas Lojas MM para perguntar a respeito da venda de ingressos para outro show, o do Skank, marcado para o final do mês. Para nossa surpresa, o funcionário não tinha nem ideia do que estávamos falando. Disse que só tinham convites, provavelmente se referindo a panfletos. E o lugar era apontado como ponto de venda oficial para este outro show...

Em seguida, ainda sugeri que fôssemos até a Play, casa de shows apontada como principal ponto de vendas de ingressos para o Capital Inicial na cidade. Mas a Pri já estava indignada de ter que peregrinar tanto. Não insisti mais.

Mas a Pri insistiu, no dia seguinte. Voltamos ao shopping para comprar o tal ingresso no Au-Au e, pasmem, depois que atendente desligou o telefone (ela deveria trabalhar em um call center), revelou que o sistema ainda não funcionava. E ainda aplicou um terrorismo, sugerindo que isso ocorria porque o preço ia subir.

No dia seguinte, quando achei que ela já acreditava que o destino não nos queria neste show, a Pri mais uma vez lembrou dos ingressos. Seguimos até o Posto BV, onde, segundo prometia o famigerado anúncio, estava outro ponto de venda. Lá, uma funcionária com cara de deboche nos disse que, sim, eles vendiam ingressos. Mas, não naquele momento. Só após as 14 horas.

Eram 13 horas e, como estávamos saindo para uma breve viagem ao Distrito de Guaragi, não havia possibilidade de esperarmos. Eu via a indignação impressa em 3D na face de minha esposa, quando lembrei que a Play ficava, justamente, no trajeto para a saída da cidade, por onde obrigatoriamente passaríamos.

Chegamos à Play. A atendente disse que, sim, vendiam ingressos. Sim, custavam R$ 32. Eu já ia pagar, quando ela informou que não aceitavam cartão. Precisamos nos deslocar até o supermercado para tirar dinheiro vivo em um caixa eletrônico e, só depois, conseguimos os tais ingressos.

Ao fim, após toda essa saga épica em busca dos ingressos do Capital Inicial, fico me perguntando: se para comprar ingressos já foi essa desorganização... imagina no dia do show. Senhor, livrai-me do pessimismo...

13 de mar de 2013

Ataque de animal


O ano 2013 tem sido o ano do ineditismo e da singularidade. Desde o dia 1º de janeiro, parece não passar sequer um dia, sem que algo extremamente novo, bizarro ou improvável aconteça. Isso ocorre em todos os níveis: do local ao universal, do coletivo ao pessoal.

Ponta Grossa viu, e compartilhou com outros países, inclusive, o surgimento do banheiro transparente no recém-inaugurado Centro da Música. Antes disso, o País ficou bobo, e a cidade parece não ter se recuperado até hoje, da história da vereadora que sequestrou a si mesma, criando o verbo ainda inexistente “autossequestrar”.

No mundo, um meteorito caiu na Rússia e feriu mais de mil pessoas, justamente à época em que um asteroide passava, mais perto do que nunca, da Terra. Pouco depois, o Papa Bento XVI surpreendeu a todos, renunciando ao cargo máximo da Igreja Católica, e quebrando uma tradição que se insistiu para que não fosse anulada na época do anterior Papa João Paulo II.

No Brasil, crimes que, há anos, aguardavam julgamento, vieram em enxurrada aos tribunais. Gil Rugai, acusado de matar os pais; o goleiro Bruno, acusado de matar a ex-amante; Mizael Bispo, acusado de matar a ex-namorada. Este último, marca história sendo o primeiro julgamento brasileiro transmitido ao vivo pela televisão e pela internet.

Outros fatos menores, alguns deles de importância apenas pessoal, não são registrados. Mas, veja, ontem estive na Vila Madureira para fazer reportagem sobre uma cratera que está engolindo uma rua inteira. No carro do jornal estávamos eu, o motorista China, o fotógrafo Clebert e o repórter Michael. Antes de irmos ao local da cratera, fomos em outro endereço, não muito longe daquele, para verificar um “ataque de animal”. Esse é o termo genérico que os bombeiros dão, normalmente, a um ataque de cachorro contra uma pessoa.

Não havia ninguém no tal endereço e, então, seguimos até o endereço de minha pauta. A cratera era enorme, e já tomava metade da rua. A prefeitura havia feito barreiras de concreto para evitar a passagem de veículos pelo local, postergando, assim, o aumento da erosão.

Enquanto Clebert fazia as fotos do local, eu procurava algum morador local que pudesse falar comigo sobre o problema. O chamado “personagem” não apareceu. Em todas as casas, as portas, vidros, cortinas e cadeados estavam fechados. Bati palmas, sem ser atendido. Quando fui fazer a tentativa diante de uma funilaria, onde havia apenas um rapaz trabalhando, um cachorro branco rosnou para mim.

Não liguei para o fato porque, em toda minha vida, sempre acreditei (e sempre funcionou) que se ignorasse o animal, ele não atacaria. Pelo menos, no meio da rua, como era o caso. Mas, e não é que o cão me ataca e morde a minha perna? Pois e mordeu, mesmo!

Devo ter dito algo como “não acredito que esse cachorro me mordeu!”. Enquanto o Clebert ria, de longe, o cachorro parecia meio encabulado. Porque eu estava com minha calça jeans mais grossa, e os dentes não conseguiram chegar até minha perna. Apenas deixaram uma marca bem definida do jeans. Enquanto eu me recuperava do sentimento de incredulidade com o acontecimento, o rapaz saiu da funilaria e, ainda por cima, não quis dar entrevista.

Voltei para o carro ouvindo piadas de que, eu só tinha sido mordido por um cão, porque o Michael veio junto justamente para fazer a tal reportagem do “ataque de animal”. Para mim, foi apenas a primeira vez que fui mordido por um cachorro desconhecido, no meio da rua. Mas, já aviso... daqui pra frente estarei mais esperto, e o próximo vai levar bicuda!

27 de jan de 2013

Passeio por São Luiz do Purunã

Mais uma aventura em local desconhecido
A manhã deste domingo iniciou com o céu nublado mas, aos poucos, o tempo foi abrindo. No final da manhã, eu e a Pri ficamos animados para mais uma pequena viagem. Optamos por São Luiz do Purunã, distrito de Balsa Nova, região metropolitana de Curitiba.

Ir de Ponta Grossa até São Luiz do Purunã é uma experiência que, logo de cara, traz um incrível sentimento de paz interior, antes mesmo de passar pelo portal de entrada do Distrito. Isso porque, indo pela rodovia, rumo a Curitiba, o viajante passa por apenas um dos três pedágios que levam à capital. E como o pedágio da concessionária do referido trecho de rodovia é uma verdadeira forca, não existe sensação melhor do que ver o segundo pedágio a poucos metros, e fazer o retorno. É como encontrar dinheiro no bolso da calça esquecido no guarda-roupa.



A Pri no portal de entrada. Pose para a foto...
















Passado esse momento de euforia, seguimos a placa e estacionamos no portal de entrada de São Luiz. Algumas placas fazem alusão ao local como antiga passagem de tropeiros. Vimos um mirante. Mas, o mapa pareceu um pouco confuso, além de parcialmente desbotado pela ação do tempo. Do mirante, a visão é de muito verde, mas poucas edificações. Isso porque São Luiz do Purunã é lugar formado por diversas localidades, ligadas por estradas entre si, mas com largos espaços vazios, como costumava ser em antigas freguesias.

Vista do mirante na entrada de São Luiz do Purunã
















Do mirante, o que mais me surpreendeu foi o cheiro de mel. Seguimos a estrada inicial de calçamento e chegamos ao vilarejo. Uma lanchonete, alguns pontos de comércio, a maior parte relacionada com a atividade agropecuária. Seguimos por uma das estradas, vendo moradores locais e admirando as residências, algumas de muito bela arquitetura, contrastando com a simplicidade do ambiente.

Belas araucárias marcam o caminho

A estrada foi piorando, o calçamento deu lugar à terra, a terra deu lugar à poeira, e a poeira deu lugar às pedras e buracos. Depois de chegarmos ao tope de uma subida, sem notarmos nenhum destino especial, retornamos pelo mesmo caminho, de volta à entrada do vilarejo, e optamos por seguir outra estrada. Chegamos a uma placa com diversas indicações de pousadas, restaurante, café colonial, chocolate artesanal. Mas, boa parte dessas atrações era indicada como se estivesse para trás, do ponto de onde tínhamos acabado de vir. Não tínhamos visto, anteriormente, qualquer indicativo desses atrativos, ou teríamos parado.

Estranhando esse fato, decidimos seguir a indicação de uma das pousadas e, surpreendentemente, a placa nos levou de volta à rodovia, nos obrigando a sair da paisagem campestre que tanto nos havia fascinado. Indignados, voltamos da rodovia para a tal placa, e seguimos por outra estrada, que a placa indicava como se tivesse restaurante. Já era perto da hora do almoço.


A estrada foi, também, piorando a qualidade, e foram surgindo buracos e valetas, momento em que agradeci a Deus pelo tempo seco deste domingo. Passamos por outra pousada, onde não se via viva alma, e todas as portas e janelas estavam fechadas. Em frente, uma grande faixa dizia: "Estamos atendendo". Passamos por ela, e continuamos procurando o tal restaurante, até que, sem nenhuma placa indicativa de distância ou direção, e tendo a impressão de que todos os estabelecimentos comerciais ali estavam fechados, optamos por  ir embora.
Chalé e animais pastando: paisagem bucólica
















Decidimos voltar rumo a Palmeira, e almoçar no Restaurante e Lanchonete Girassol, lugar famoso à beira da rodovia. Mas apreciamos muito a paisagem de São Luiz do Purunã, lamentando apenas a falta de mais placas que orientem os visitantes, uma vez que os atrativos estão bem espalhados pelo lugarejo. Na memória ficaram as belas casas, as velhas araucárias, os bois pastando no alto de morros, e o cheiro de mel logo à entrada.