21 de jul de 2007

Três dias em Curitiba

Impressões de um ponta-grossense na capital do Paraná

PARTE 1

A poltrona número 23 ficava à janela. Então, procurei não demorar muito para entrar no ônibus, assim não obrigaria alguém a encolher as pernas para que eu chegasse até meu assento. Eu estava indo para Curitiba, sob os pretextos de conhecer um pouco da capital paranaense, procurar um emprego, e visitar meu amigo Glaydson.
Imaginei que seria bom se uma pessoa disposta a conversar sentasse ao meu lado. Poderíamos ir falando o tempo todo, trocando idéias. Sempre surgem boas histórias em conversas assim. Mas o sujeito que parou ao meu lado pareceu carrancudo, e seu cumprimento foi um leve movimento de cabeça, quase imperceptível. Tive a impressão de que seria impossível desenvolver qualquer diálogo com aquele tipo. Minha suspeita se confirmou assim que ele se sentou, e abriu uma revista cheia de fotos, textos, e figuras, que o mantiveram ocupado durante metade da viagem. A outra metade foi ocupada por um cochilo.
Certa vez, durante outra viagem de ônibus, reparei em duas pessoas – um homem e uma mulher – que nunca tinham se encontrado antes. Mas iniciaram uma conversa que se estendeu por toda a viagem. Apesar de terem falado sobre alguns assuntos pouco agradáveis (como acidentes na estrada e pessoas que morreram em decorrência disso), senti uma pequena inveja. É difícil acontecer esse tipo de coisa. O acaso unindo duas pessoas desconhecidas, dispostas a conversar, durante uma viagem de ônibus. A maioria pega uma revista ou dorme, ignorando a pessoa ao lado. Foi o que me aconteceu naquela manhã de domingo.
Mas a distância entre Ponta Grossa e Curitiba não é tão grande assim. Cerca de 100 quilômetros percorridos em pouco menos de duas horas. A gente descobre que está chegando em Curitiba por causa de anúncios publicitários em outdoors, a palavra Curitiba vista em algumas placas de estabelecimentos comerciais, e devido à repentina aparição de grandes prédios, que criam um horizonte diferente daquele ao qual os ponta-grossenses estão acostumados.

Durante a viagem decidi adotar a postura de um curioso que visita uma cidade que lhe é pouco conhecida. Em resumo, seria eu mesmo. O olhar estrangeiro costuma ser mais elucidativo, ou mais provocativo, diante do que está ao redor. As primeiras imagens, acredito, são as que ficam por mais tempo na memória, mesmo que em nível subconsciente.
Enquanto o ônibus cruzava a cidade, vi um homem (um pai, provavelmente) tomar o skate de um menino, em frente ao estacionamento de um condomínio. Ele parecia brigar com o garoto de cerca de sete anos, que ouvia tudo calado. Vi duas mulheres que passeavam com seus cachorrinhos, que se encontravam, e conversavam, talvez sobre o tempo, que estava bom, mas que, segundo os jornais, teria chuva e frio nos próximos dias. E vi um casal de anões que caminhavam na calçada. Aquelas três visões poderiam ser um indício e um resumo de tudo o que eu encontraria nos próximos três dias que passaria na capital.

Três dias é pouco tempo, mas já é alguma coisa. Já tinha ido até a cidade em outras ocasiões, mas não tinham sido boas oportunidades para prestar atenção a esse mundo paralelo que sempre caracteriza a cidade vizinha. A gente tem a impressão de estar mais longe do que realmente está.
Na rodoviária, músicas calmas e sem anúncios publicitários me fizeram esquecer do Terminal Central de ônibus de Ponta Grossa, conhecido pelo rádio com som alto, muita publicidade e músicas estressantes. Ali fiquei esperando até que Glaydson viesse me encontrar, já que eu não sabia chegar até sua casa. “Mas qual é o endereço?”, perguntei ao telefone. “Ah, é perto da rodoviária... Mas nem adianta, você não vai achar”. Não sei se ele pensava no fato de eu não conhecer as ruas da cidade, ou se julgava ser realmente difícil de encontrar seu endereço. Provavelmente as duas coisas.

Quando ele chegou, e começamos a caminhar, minha mala com rodinhas pareceu fácil de ser carregada. Mas bastou que saíssemos da rodoviária, para que a coisa se tornasse mais complicada. As calçadas são bem menos irregulares que as de Ponta Grossa, mas também não foram feitas para essas malas com rodinhas, de modo que a melhor maneira era mesmo segurar a alça. Descobri que a mala era pesada, e que a casa de Glaydson não era tão perto assim da rodoviária.
O conceito de perto e longe, eu logo comprovaria isso, é bem diferente quando se está numa cidade com mais de um milhão de habitantes. Glaydson enumerava alguns dos pontos que, julgava, eu deveria me lembrar. “Tur número 1: O Mercado Municipal”, ele disse, apontando para um estabelecimento em frente à rodoviária. “A gente vem aí, às vezes, para passear. É como um shopping ou uma feira. Tem uma porção de coisas, mas é caro”, explicou. “Nossa...”, eu disse “Vocês fazem compras no Mercado Municipal?”, ironizei, lembrando do Mercado Municipal de Ponta Grossa, praticamente abandonado.

Glaydson ajudou a carregar a mala e, quando viramos uma esquina, chegando à rua em que ele morava, tive uma surpresa. Alguma coisa ali, naquele quarteirão, me fazia lembrar de minha cidade. A disposição dos prédios, uma árvore, os fios de luz ou a calçada. O sentido de movimento dos automóveis ou a largura da rua. Talvez tudo isso junto. O fato é que o ambiente me fazia lembrar um trecho do centro de Ponta Grossa. Mas ali nós estávamos na Rua Marechal Deodoro, no coração, ou numa das principais artérias, de Curitiba.
Em frente ao seu prédio, já vi coisa diferente. Ele encostava o chaveiro em um visor eletrônico, e o portão se abria. Não era magia, era tecnologia. Mas não encarei isso como novidade da capital. Julguei que deveria freqüentar mais prédios, isso sim.
O apartamento de Glaydson, no 5º andar, nº 502, também me fazia lembrar seu antigo apartamento em Ponta Grossa, na Avenida München. Provavelmente a semelhança se devia ao fato de os decoradores serem basicamente os mesmos. Ali também moravam Ericsson (Lelo) e Alisson (Gesuis), irmãos de Glaydson. E havia um quarto elemento, de quem em nunca ouvira falar. Um tal de “Nif”. Seus apelidos renderiam um estudo à parte.
Havia um barzinho no canto da sala, adornado com aquário preenchido por uma lagosta, um camarão, três peixinhos e, é claro, água. Por mais tranqüilo que um aquário possa parecer, ele sempre traz alguma história interessante. Mais tarde soube de alguns desses “causos”. Dizem que, certa noite, a lagosta saiu do aquário (de um jeito que ainda não foi descoberto) e, caminhando pela escuridão, sobre o carpete, quase foi confundida com um escorpião e esmagada pelo Glaydson, com a ajuda de um chinelo.
Outra história afirma que o camarão fez o mesmo, e se deslocou por todo o apartamento até o quarto de um dos moradores. Depois voltou ao aquário, como se nada tivesse acontecido. Mas isso pode ser uma lenda.
A parede da sala exibia o desenho, feito com tinta preta, de uma mulher seminua em atividades de stripper. A obra artística tinha sido feita por um amigo, ex-morador do apartamento, que não quis assinar embaixo. “É a personagem dos quadrinhos Sin City, tá ligado?”, explicou Gesuis. A TV a cabo ficava ligada, normalmente, desde o momento em que o Glaydson acordava. “Não consigo ficar no mais completo silêncio por muito tempo”, disse. Atrás da TV, uma grande janela ocupava quase toda a parede. Tinha uma boa visão da rua, e dos prédios.
“Olha! Um avião!”, exclamei. Glaydson e Gesuis esperavam que tivesse algo errado com o avião. Que estivesse caindo ou pegando fogo, a julgar pelo meu espanto. Mas era só um avião pousando no aeroporto. Visão comum naquela parte do mundo, e estranha se fosse em Ponta Grossa. Em PG, se um avião começa a fazer muito barulho ou voar muito baixo, os vizinhos começam a sair de suas casas, acreditando que o piloto está perdido e a aeronave pode cair a qualquer instante.
Na cozinha senti falta de duas coisas: um lugar para pendurar o pano-de-prato, e gavetas. “No meu guarda-roupa também não tem gaveta. É uma bosta pra guardar cuecas!”, disse Gesuis.
Enquanto eu ainda estava na sala, um barulho medonho pareceu vir da cozinha. Era como se alguém estivesse preso em uma caixa metálica. E essa pessoa batia desesperadamente, tentando se livrar da prisão. “É a lavadora de roupas”, explicou Glaydson.
A torneira da pia da cozinha tinha dois registros. A da pia do banheiro tinha outros dois. E o chuveiro tinha quatro. Aos poucos fui aprendendo aquele modo de vida peculiar. “Fique à vontade na cozinha”, falou Glaydson, como se dissesse “o que você achar é seu”. Mais tarde Nif surgiria à porta da cozinha, perguntando: “Pô... quem foi que tomou meu guaraná?” Meio sem jeito, ergui a mão, enquanto Gesuis e Glaydson mantinham o silêncio. E eu sem entender por que Glaydson tinha me oferecido sua Coca-Cola, quando eu pegava o Guaraná da geladeira. Só o tempo ensina esse tipo de coisa.

*****

PARTE 2

Ainda na manhã de domingo, Glaydson e eu fomos até a casa do Márcio para combinar algum breve passeio à tarde. Enquanto eles conversavam na cozinha, olhei da janela da sala e vi, lá embaixo, uma japonesa em trajes vermelhos típicos, meias brancas e sandálias de sola de madeira, que cruzava a rua. Curitiba é assim, um lugar onde a gente finge que não se surpreende com nada.
À tarde, Márcio dirigia um Ford Ka. Ao seu lado estava seu amigo Rudiney. Atrás íamos eu e Glaydson, joelhos espremidos contra os bancos da frente. O objetivo era encontrar a casa da Heloísa. Márcio tinha o nome da rua, Glaydson lembrava que tinha uma porção de palmeiras em frente ao prédio onde ela morava.
Um pouco antes disso, um automóvel fez um movimento errado e quase foi responsável por uma batida com nosso carro. O motorista tinha invadido uma área exclusiva de táxis. Márcio não poupou a buzina, nem as advertências verbais. Procurei defender o desconhecido: “Coitado do cara... vai ver que ele é ponta-grossense e não conhece Curitiba direito”, comentei.
A verdade é que não é à toa que sobram relatos de visitantes que entraram na canaleta dos ônibus. A capital paranaense tem um trânsito bastante singular. E estar no banco do carona, tendo o Márcio como motorista, servia como uma aula para quem nunca dirigiu no centro daquela metrópole.

A buzina é acessório indispensável. Márcio usou diversas vezes, embora eu não tenha entendido bem suas razões. Às vezes parecia querer apenas dizer aos outros motoristas “olhem, também faço parte do trânsito, e não se esqueçam disso”.
É também importante ter em mente que existem ruas por onde só trafegam ônibus, ruas onde só ficam táxis, e ruas onde só caminham pessoas. E tudo isso não é assimilado imediatamente pelo cérebro comum.
Ser pedestre também é diferente. Glaydson lembrou que pesquisas mostram que o curitibano está entre aqueles que caminham mais rápido no mundo, perdendo apenas para os habitantes de Tóquio. Em Ponta Grossa estou acostumado a ultrapassar pessoas que caminham devagar para meu padrão de velocidade. Em Curitiba só precisei fazer isso duas ou três vezes.
Tenho uma teoria... Talvez a velocidade dos pedestres seja proporcional à largura das ruas, e à quantidade de carros. Por mais que a maioria das esquinas no centro de Curitiba tenha semáforo para pedestres, ninguém fica totalmente seguro enquanto está no meio da rua. Sendo as ruas mais largas (às vezes com cinco vias), essas pessoas sentem a necessidade de cruzar para o outro lado mais rápido, e transferem essa velocidade também para as calçadas. Ou, talvez, só tenham pressa.

Depois de alguma procura encontramos o endereço de Heloísa, e juntos decidimos ir até o shopping Curitiba. Ao entrar na garagem, Márcio apertou o botão de uma máquina, que emitiu ticket com a inscrição “ROTATIVO”. Em seguida iniciou a procura por uma vaga. O estacionamento em espiral descendente parecia nos levar ao centro da Terra. “Já estou me sentindo como Júlio Verne”, disse Glaydson. Perguntei ao Márcio se o estacionamento se chamava “rotativo” porque ficaríamos rodando até que a gasolina acabasse. “Espero que não”, respondeu.
Finalmente surgiram algumas vagas, e o carro pôde ser estacionado ainda com um pouco de combustível.

Enquanto subíamos as escadas rolantes, perguntei à Heloísa o que aquele shopping tinha, que o shopping de Ponta Grossa não tinha. “Sei lá, Danilo, que pergunta...” Na praça de alimentação, encontrei algo diferente. Quem comprasse um copo de refrigerante na lanchonete Burger King poderia enchê-lo quantas vezes quisesse na máquina ao lado. E no banheiro, depois de lavar as mãos, a gente secava com um aparelho que soprava. Mas nada disso era grande novidade. Diferente mesmo era a porta que abria sozinha, que dava acesso ao estacionamento. Heloísa achou que eu estava brincando, mas julguei ser algo diferente, já que em Ponta Grossa só vi tal tecnologia em um dos hotéis da cidade. Depois eu descobriria que aquelas portas eram bem mais comuns em Curitiba.
Ficamos pouco tempo no shopping. Apenas o suficiente para conversar um pouco e engolir um hambúrguer. Márcio precisou sair logo. Heloísa ficou mais um pouco, e foi pegar ônibus numa das estações-tubo, depois que saímos. Quando eu e Glaydson voltávamos para casa, vimos um tumulto uma ou duas quadras adiante. Dezenas de adolescentes corriam em grupos de um lado para o outro, em um movimento que me lembrava cardumes de peixes fugindo de um golfinho.
Um rapaz, que não estava muito longe de nós, foi até uma caçamba cheia de entulhos, e apanhou de lá de dentro uma pedra. Em seguida avançou em direção ao tumulto. Uns vinham em nossa direção, outros seguiam na direção oposta. Logo percebi que se tratava de alguma briga de gangues. “Se não sobrar uma bala perdida pra gente, tá bom”, disse Glaydson. Mais tarde ele sugeriria uma explicação. No domingo, o grupo dos skatistas se encontra com o grupo dos emos e o dos góticos. Um não concorda com o outro, e surgem essas disputas.
Passávamos em frente do Shopping Estação, e resolvemos entrar até que os ânimos se acalmassem lá fora. Ali, no passado, foi a estação de trem da cidade. Hoje, transformada em shopping, a construção abriga uma espécie de museu com parte da história do lugar. Além disso, inspira a decoração do shopping. Há uma locomotiva no saguão, salas e bilheterias preservadas, o antigo horário dos trens, e bonecos engraçados usando as vestimentas da época em que aquele ambiente devia ser, proporcionalmente, tão ou mais movimentado que a atual rodoviária.
Passeando por esse museu, chegamos diante de uma vitrine com várias peças que pareciam pequenos livros em seu formato, mas que na realidade eram amostras de madeira, de diferentes tipos. Cada pedacinho de madeira tinha um número. E junto havia uma lista com a correspondente identificação do tipo de madeira ao qual as peças pertenciam.
Havia dezenas delas. Cem ou mais. Apenas uma chamou minha atenção. Era uma madeira escura e brilhante. Parecia mais bonita que as outras. Seu número: 37. Fui até a lista. Curiosamente, era o único pedaço de madeira cuja espécie não estava catalogada. Lá, no lugar do nome, três asteriscos fazem com que o pequeno (e talvez insignificante) mistério permaneça por diversas décadas.
Depois que a aparente tranqüilidade voltou às ruas em torno do shopping, retomamos o trajeto de volta para a casa do Glaydson, dessa vez sem tumultos. Já era noite. Glaydson quis fazer uma sopa. Juntou batatas, sopa de pacotinho e quatro tipos de restos de macarrão. Eu estava prestando atenção, pra ver se aprendia a cozinhar alguma coisa. Ao final, ele colocou mais um pó para deixar a sopa cremosa, e mexeu mais lentamente com a colher. Depois parou, ergueu a colher, e disse: “Ih... empelotou tudo”. Aprendi que aquele pó deve ser colocado em água fria, nunca em água já quente.

*****

PARTE 3

Ponta Grossa não me parece fraca no que se refere a lojas de livros usados. Tem pelo menos quatro sebos que merecem destaque, e onde costumo encontrar livros, discos e revistas interessantes. Ainda assim, há coisas que procuro e não encontro, até porque meu nível de exigência às vezes se torna elevado.
Sendo assim, achei que em Curitiba seria pertinente visitar alguns sebos também. Na segunda-feira, pela manhã, Glaydson foi me mostrar onde ficavam algumas dessas lojas que eu poderia conhecer. À tarde ele estaria trabalhando, então a idéia era me mostrar onde ficavam os sebos, para que depois eu fosse sozinho em cada um deles. A pesquisa em sebos exige tempo.
Saímos do prédio e, depois de caminharmos algumas quadras, comecei a olhar para trás. Glaydson percebeu: “Você tá tentando memorizar o caminho de volta?” Confirmei com a cabeça. “Mas a gente tá andando em linha reta. É só seguir pela mesma rua!” E, de fato, estávamos caminhando há diversos minutos, mas continuávamos na Rua Marechal Deodoro, que parecia não acabar mais.
O primeiro sebo que Glaydson apontou consistia em uma pequena porta pouco convidativa: “Eu estive ali uma vez, mas não gostei do atendimento”, falou. Em seguida fomos para outro, não muito longe dali. Os demais eram visualmente mais interessantes. Apenas ali, nos arredores, Glaydson apontou cinco sebos. E foram aqueles que voltei a visitar, com mais atenção, à tarde.

O primeiro sebo marcava seus livros com signos zodiacais, através de carimbos. Cada símbolo do zodíaco, encontrado na última página do livro, correspondia a um preço identificado em tabelas afixadas nas estantes. Não encontrei nada de muito interessante para comprar. Mas achei curioso que uma cliente muito falante, que procurava livros também, comentou com o atendente: “Esse sebo é melhor do que o outro que tem ali na esquina. Lá o funcionário é tão mal-encarado...” Curiosamente, ela estava criticando o mesmo sebo que Glaydson disse ser ruim. Decidi que aquele seria o último lugar no qual poria os pés.
Eu estava procurando alguns títulos bastante específicos e, justamente por isso, corria o risco de não encontrar nada que me agradasse. Diante de um funcionário atencioso, que aos poucos ia perdendo a paciência comigo, expliquei o que procurava:
“O título do filme é ‘Minha Vida é Um Inferno’. É um pouco antigo, deve existir apenas em VHS. O personagem principal é interpretado por um cara chamado Steve Oedekerk. Jim Carrey é ator coadjuvante, e não era famoso na época em que fez o filme. Esse Steve passou a dirigir alguns filmes do Jim Carrey, depois...”
“Nunca ouvi falar”, respondeu.
“E Nick Raider... procuro uma coleção de gibis com o personagem, que é um detetive em Nova York. É um desenho criado na Itália. A Editora Bonnelli estava publicando suas histórias recentemente aqui no Brasil. E a Record publicou dez números na década de 1990. Eu tenho sete edições, faltam três para fechar a coleção...”
“Não...”
“Spirou e Fantasio... são dois personagens de quadrinhos europeus. Apenas um álbum deles foi publicado aqui no Brasil...”
O funcionário agora se limitava a balançar a cabeça de um lado para o outro. Acho que começava a suspeitar que eu tinha inventado todos aqueles nomes. Outra vez na rua, continuei a peregrinação, e aproveitei para observar alguns detalhes que, desde que eu tinha chegado, chamavam minha atenção em Curitiba. Por exemplo, o número de muros e prédios pichados. No centro da cidade, você dificilmente encontra um lugar de onde não seja possível visualizar ao menos uma dessas manifestações de vandalismo. E, muitas vezes, os estranhos hieróglifos (feitos com spray, pincel, ou rolo de tinta) são encontrados em lugares de difícil acesso, como a sacada do terceiro andar de um prédio, ou mesmo a parte mais alta do edifício.

Quanto às pessoas, é interessante fazer comparações com Ponta Grossa. Em PG é difícil cumprimentar alguém na rua, mesmo sendo conhecido. Excetuando pessoas muito amigas, ou senhoras bastante falantes, a maioria se cumprimenta de um modo tão discreto que, na maioria das vezes, nem se percebe. Um leve movimento de cabeça, ou de sobrancelha. As pessoas não são muito sociáveis, e parecem ter medo de cumprimentar de uma maneira excessivamente visível, e receberem depois um semblante carrancudo ou, pior, o silêncio como resposta.
Já em Curitiba, é ainda mais curioso. As pessoas não olham umas para as outras. Tudo o que vêem são carros, prédios e calçadas. Às vezes sapatos. Mas não dá pra dizer que o curitibano seja “fechado”. Assim como tal generalização não deve ser feita acerca do ponta-grossense ou de qualquer habitante de outra cidade. Uma mulher no supermercado aceitou desenvolver breve conversa sobre o tamanho da fila. E o porteiro do prédio até disse um simpático “Seja bem-vindo a Curitiba”, quando soube que eu não era dali.
Talvez essa seja uma das razões que fazem Ericsson, o irmão de Glaydson, querer morar ali mesmo. Ele até já passou a torcer pelo Coritiba, ficando realmente indignado quando o time perde uma partida.

Mas é verdade que o ambiente influencia o ser humano (assim como o contrário também acontece), e a explicação para o distanciamento entre as pessoas pode estar num detalhe facilmente perceptível: o centro da capital possui elevado número de mendigos. Não é possível caminhar dois quarteirões sem que um deles venha pedir uma moeda. E todos se parecem uns com os outros. Pior, muitos deles estão caídos em becos e esquinas, bêbados, drogados, doentes ou mortos. Como se vai saber? O fato é que o curitibano habituou-se a desviar deles, ou a ignorá-los. Talvez essa seja uma das explicações para o fato de as pessoas não olharem umas para as outras, enquanto caminham pelas calçadas ou esperam que o semáforo permita a travessia da rua.
Enquanto estive na rodoviária de Curitiba, notei que o rádio servia para outras coisas, além de anunciar a chegada e partida dos ônibus. Servia também para dar uma série de avisos de utilidade pública e serviços. Entre esses avisos está o “Não dê esmolas”. A recomendação é que as pessoas façam doações a entidades beneficentes, caso queiram fazer uma boa-ação.

Eu já tinha passado por todos os sebos que o Glaydson tinha mostrado. Só restava um. Aquele que ele tinha criticado logo no início. Descobri que era um dos maiores. Curioso que as estantes tinham os mesmos símbolos do zodíaco que eu tinha encontrado no primeiro sebo. Como as duas lojas ficavam praticamente em frente uma da outra, deduzi (e acho que não estou errado) que pertencem ao mesmo proprietário. A mulher que falava mal do atendimento podia estar fazendo uma reclamação ao próprio dono, talvez, sem o saber.
Ao fundo, na sessão de quadrinhos, foi que encontrei algumas coisas interessantes. Entre elas, um livro com tiras do personagem Hagar, e outro com a história de um detetive chamado Jack Palmer, publicada em Portugal, o que dava um efeito especialmente cômico à sua leitura (devido às diferenças entre nosso português e o lusitano). Foi lá que acabei comprando os livros. Por mais que aceitemos a opinião dos outros, é sempre bom esperar até termos a nossa.

*****

PARTE 4

Algumas experiências vividas em Curitiba fizeram com que eu chegasse à seguinte conclusão: se eu realmente tenho o poder de atrair estranhas coincidências, isso com certeza é uma habilidade que não se restringe aos limites de Ponta Grossa.
Pouco antes de viajar à capital, encontrei na Internet informações a respeito de uma empresa, chamada Estúdio Openthedoor, especializada em criações publicitárias com desenhos e animações. Enviei um currículo para a empresa, e pensei em visitar o endereço quando estivesse em Curitiba.
Na manhã de terça-feira, Glaydson sugeriu que fôssemos ver os quadros artísticos expostos no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (o MAC), que fica não muito longe do prédio onde o Glaydson mora, e na mesma rua. Aceitei a idéia imediatamente, e saímos.
Não tínhamos caminhado nem mesmo uma quadra, quando um carro parou por alguns instantes diante de nós, na preferencial, antes de atravessar o cruzamento. Chamou minha atenção o rapaz que estava no banco do carona. Parecia ser... “Glaydson”, eu disse “Aquele não é o irmão do Márcio?”, perguntei enquanto o carro se distanciava. Mas o Glaydson não tinha visto. De qualquer modo, não devia ser. Eu só conhecia o sujeito porque tinha visto uma foto sua na casa do Márcio um dia antes, num porta-retrato. Mas, se fosse ele... seria uma grande coincidência. A primeira de uma série...

Enquanto caminhávamos rumo ao museu, lembrei de minha intenção de visitar o Estúdio Openthedoor. Mas percebi, um pouco contrariado, que tinha esquecido de anotar o endereço da empresa. Não era um grande problema, afinal. Bastaria acessar o site na Internet, como eu havia feito na primeira vez.
Ainda me concentrava nesses pensamentos, quando vi uma menina sair de dentro de um prédio, e caminhar ao nosso lado, carregando alguns envelopes de correspondência. Paramos na esquina, esperando que o semáforo ficasse verde.
Acontece que a menina era bonita, e fiquei tentando imaginar qual seria seu nome. Talvez, se eu desse uma espiada no envelope em sua mão, poderia descobrir... Bem, a idéia era válida. Mas impossível de ser realizada. De onde eu estava, só podia ler a etiqueta que continha nome e endereço do destinatário. Para meu espanto, a inscrição era a seguinte: “Estúdio Openthedoor, Rua Presidente Faria, nº 51”.
“Glaydson...”, falei “Você sabe onde fica a Rua Presidente Farias?”
“Por quê? Você leu na correspondência da moça?”
Depois de quatro anos estudando juntos na mesma universidade, Glaydson me conhece um bocado...

Mas ele não sabia onde ficava o endereço. De qualquer modo, aquela estranha coincidência, dadas as dimensões daquela cidade estranha com pessoas e lugares ainda desconhecidos, aumentou meu desejo de conhecer o tal estúdio.
No museu, vimos muitos quadros estranhos, cujo significado original não pudemos identificar. Muitos eram interessantes. Mas teve um que chamou minha atenção e, querendo ou não, esse é que ficou na minha memória. Era uma reprodução do famoso quadro de Monalisa, de Leonardo Da Vinci. Mas havia uma particularidade curiosa: um raio vermelho saía dos olhos de Monalisa. O título era “Passado”. Mas poderia ser “Monalisa With Lasers”, caso o artista fosse assíduo freqüentador do Orkut.

Depois de sairmos do museu, Glaydson disse que precisava pagar uma conta em uma loja de roupas ali perto. A loja era mais uma, entre muitas, onde a porta abria automaticamente com a aproximação do cliente. Todavia, seu sistema de pagamentos era menos eficiente. Devia ter pelos menos cinqüenta pessoas naquela fila, e Glaydson preferiu caminhar mais alguns quarteirões, até o Shopping Müller, onde, segundo ele, havia outra filial daquela loja.
Assim fiquei conhecendo um pouco mais do centro da cidade. Descobri onde ficava a Igreja Matriz, por onde passamos enquanto seus sinos badalavam. Encontrei a popular “Praça do Homem Nu”, e mais tarde conheci o caminho para o Passeio Público. Duas pessoas passeavam pelo lago artificial com um daqueles pedalinhos flutuantes. “Aqui nós temos esportes radicais”, ironizou Glaydson. “Afinal, se você mergulhar seu dedo nessa água, tira apenas o ossinho depois. É ácido”. O sorriso em seu rosto denunciava a brincadeira em suas palavras, mas a aparência da água confirmava a verdade nelas.
Quando chegamos ao Shopping Müller, encontramos uma fila bem menor. Menos de dez pessoas, talvez. E uma funcionária simpática mostrou que toda a operação de pagamento poderia ser feita em um dos terminais de auto-atendimento da loja. Isso reduziu ainda mais nosso tempo de espera.

Na hora do almoço, enquanto Sandra Annemberg anunciava no telejornal o “Dia da Pizza”, eu coincidentemente estava comendo uma pizza. Enquanto isso, explicava ao Glaydson minha intenção de procurar o estúdio Openthedoor naquela tarde. Glaydson estaria no trabalho, enquanto eu iria me aventurar mais um pouco pelas ruas de Curitiba.
Conforme planejado, à tarde procurei um mapa de Curitiba no apartamento de Glaydson. Não foi difícil achar. Estava no barzinho. Gesuis, mais tarde, se admiraria ao saber que encontrei um mapa ali. Talvez fosse mais difícil que achar o endereço do Estúdio Openthedoor. Mas ali eu localizei a Rua Presidente Faria. Ficava mais perto do que eu imaginava. A cerca de sete quadras de distância. Peguei um papel e anotei a seqüência de ruas pelas quais deveria passar, até chegar ao endereço final. E lá fui eu...

As indicações me levaram até um grande prédio. Mais um com portas automáticas. O porteiro olhou para mim como quem diz “desembucha!” “Estou procurando o Estúdio Openthedoor”, desembuchei.
“Mudou-se”, ele disse.
Então senti uma grande decepção. Achava que o acaso estava me incentivando, por algum motivo, a conhecer o tal estúdio. Mas essa inesperada alteração nos planos me fazia duvidar das intenções do acaso.
“Eu tenho o novo endereço aqui...”, falou o porteiro, enquanto colocava um papel e uma caneta sobre o balcão, para que eu copiasse a informação. Anotei, mas tinha certeza de que aquilo não ia adiantar muito. Eu praticamente não conhecia nada de Curitiba. Encontrar o novo local seria bem mais complexo, sem pontos de referência.
“Fica perto?”, perguntei.
“Sim... fica perto do Shopping Müller”.
Salvo! Eu estava salvo! Por coincidência, eu tinha conhecido o Shopping Müller há poucas horas. Bastaria lembrar do caminho que tinha feito com Glaydson, e eu chegaria ao local. Outra vez passei pela Igreja Matriz (que, outra vez, tocou seus sinos, como se confirmasse sua existência), depois pela Praça do Homem Nu, e poucos minutos depois eu chegava ao shopping. Seguindo a indicação do porteiro, caminhei mais algumas quadras. Mas imaginei que não seria fácil encontrar a tal Rua Senador Xavier da Silva.
Mas foi fácil! A rua simplesmente surgiu diante de mim. E eu, inclusive, já estava no quarteirão certo. Só que era tarde de terça-feira, e por pouco ninguém me atende, pois a equipe do Estúdio Openthedoor estava atolada em trabalho. Grupos em computadores, outros ao telefone, outros na forma mais rudimentar do desenho (lápis e papel).
Felizmente, Marli, para quem eu tinha enviado o currículo uma semana antes, me recebeu e dedicou cinco minutos de seu tempo e simpatia para mostrar o ambiente de trabalho, e alguns dos produtos que tinham desenvolvido recentemente.
O acaso me levou até lá, mas não foi ali que consegui trabalho. Pelo menos não dessa vez. Ao final, agradeci e caminhei de volta em direção à casa de Glaydson, passando outra vez pelo Passeio Público, onde um velhinho fazia movimentos e ruídos engraçados, provocando um pelicano. Quando me viu, ficou um pouco sem jeito. “Que bicho mais feio, não é?”, perguntou, rindo. Talvez o objetivo do acaso fosse apenas me levar até aquela cena, curiosa e bizarra, de um velhinho imitando um pelicano.

*****

PARTE 5

Mas, quando chegou a manhã seguinte, achei que já estava na hora de voltar para casa. Tinha saído de Ponta Grossa com a idéia de voltar na quarta-feira, e eu dificilmente mudo meus planos.
Evitei pedir desculpas por causa do guaraná alheio que retirei da geladeira. Dei uma última olhada na TV a cabo (onde assisti, pela primeira vez, a uma luta de sumô), e falei “até mais” para Gesuis e Ericsson. Ergui minha mala com rodinhas e voltei para a rodoviária, em companhia de Glaydson. Alguns minutos depois, eu estava na fila para subir no ônibus que me levaria outra vez para minha cidade.
Um rapaz e uma moça, que estavam logo à minha frente, não paravam de conversar. Pelo tom do diálogo pude perceber que já se conheciam antes, e que tinham se encontrado por acaso na rodoviária.
A moça sentou ao meu lado, na poltrona número 10. O rapaz, do outro lado do corredor, um pouco para trás, na poltrona 15. Apesar disso, continuavam conversando, até o momento em que o ônibus começou a deixar a rodoviária. Então, finalmente, ambos tiveram que ficar em silêncio. Não seria elegante ficarem gritando através do corredor. Como o acaso não os tinha colocado lado a lado, resolvi dar um empurrãozinho.
“Moça, será que ele não quer sentar aqui?”, perguntei. “Não sei”, ela disse.
“Ei, você quer se sentar aqui?”, perguntei ao rapaz do outro lado do ônibus.
“Se não tiver problema”, ele respondeu.
Foi assim que troquei a poltrona número 9 pela número 15. Pra mim não fez grande diferença. Quanto àqueles dois... Foram conversando de Curitiba até Ponta Grossa, durante duas horas, com quase nenhum intervalo. Achei que tinha feito uma boa-ação. E só me arrependi do favor quando a moça começou a contar histórias sobre pessoas ensangüentadas. Descobri que ela era enfermeira, e que falava alto demais.

O fato é que naquela quarta-feira, quando eu saía de Curitiba, uma frente fria chegava a esta região do Paraná. A prova disso era a garoa fina que começava a cair na capital. As janelas do ônibus estavam embaçadas, e foi essa a fonte de diversão das crianças que viajavam no mesmo veículo, fazendo desenhos e escrevendo no vidro úmido. Quando chegava a Ponta Grossa, decidi que tentaria assumir a mesma estratégia usada quando cheguei a Curitiba. Seria um curioso numa cidade pouco conhecida. Quais seriam as minhas impressões, ao ver a cidade pela primeira vez? Quais seriam as primeiras imagens?
Esfreguei o vidro com a mão. Não tinha jeito... a primeira coisa que vi foi algo que não encontrei em nenhuma esquina de Curitiba. De uma só vez, três cachorros sentados na calçada, como que para dar as boas vindas a quem passava de ônibus por ali. Ruas menores no centro da cidade. Pessoas encasacadas, e em menor número. O chuvisco constante obrigava algumas senhoras a usar guarda-chuvas. Finalmente, quando o ônibus ainda cruzava o centro da cidade, vi o primeiro rosto conhecido. Sim, eu estava de volta à cidade de pouco mais de 300 mil habitantes, onde vivia há mais de vinte anos. Na rodoviária, ou no galpão que servia de rodoviária provisória, enquanto a nova rodoviária é erguida, encontrei meu pai:
“Bem-vindo à capital do frio!”, disse, rindo, e devolvendo as mãos aos bolsos.


A Rua Marechal Deodoro, em Curitiba

7 de jul de 2007

Transtornos trazidos por três letras extraviadas
Tenho pouco dinheiro no banco. Talvez por isso tenha ficado tantos meses sem comparecer diante de um caixa-eletrônico. Ou talvez porque eu seja econômico. Uma economia compatível com o pouco dinheiro que tenho no banco.

O fato é que, depois de cerca de quatro meses sem ver a máquina da caixa econômica, precisei tirar um extrato, e não pude. O computador pediu a senha numérica. Eu digitei. Depois pediu a senha de 3 letras. E eu... Senha de 3 letras? Eu não lembrava. Recordava apenas que, quando criei a conta, tinha a senha numérica e uma palavra-chave. A palavra foi fácil de memorizar: SIRENE.

Mas, de fato, na última vez em que tinha utilizado o terminal de auto-atendimento, a máquina tinha trocado a palavra-chave por uma seqüência de 3 letras. Eu lembrava de ver a máquina emitindo um papel amarelo que continha as tais letras.

Procurei pelo papel em minhas gavetas, no meio da agenda, dentro da mala e entre os livros. Não encontrei. Numa tentativa com poucas chances de sucesso, digitei qualquer coisa e, claro, a máquina não aceitou. Não tive escolha senão falar com o gerente.

Não foi difícil. Eu ainda lembrava a senha numérica. Ele apenas conferiu minha identidade, digitou algo num computador ao seu lado, e disse: “Pronto! Da próxima vez em que for usar o caixa-eletrônico, a máquina vai criar uma nova senha de acesso para você”.

Agradeci. Voltei ao caixa-eletrônico, não sem antes reclamar com o gerente, dizendo que era mais fácil memorizar a palavra SIRENE do que uma seqüência de letras aleatórias.

A máquina cuspiu nova seqüência de letras. Tirei o extrato e fui para casa, prometendo me esforçar mais para guardar na memória as letras da senha.

Menos de uma semana se passou, fui à biblioteca municipal, onde não ia desde o começo do ano. Queria emprestar “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (ótima leitura, por sinal). Já estava saindo com o livro nas mãos, quando a bibliotecária chamou. Algo tinha caído do meio da carteirinha. Um pequeno papel amarelo contendo três letras: ZLU.
Era a senha antiga.

Possível moral da história: Se estiver procurando algo, desista de procurar, que você acha.

Paralelamente... Contei os fatos para um amigo, que começou a rir ao meu lado:
“Imagine só...” – ele disse “Imagine se você fosse seqüestrado por assaltantes, que te obrigassem a sacar o dinheiro do banco. Você diria ‘Eu esqueci a senha... Era mais fácil lembrar de SIRENE’. Será que eles iriam entender?”