20 de abr de 2012

De volta à estrada: um passeio a Witmarsum

Nós em frente à placa que explica a
existência das 'estrias glaciais'
Depois de um período sem fazer as viagens que eu e a Pri tanto apreciamos, no último domingo finalmente encontramos tempo e um pouco de dinheiro para deixar a cidade em busca de novos lugares, pessoas e histórias. Eu já me sentia um viajante “enferrujado” e, se não fosse a insistência dela, é provável que tivéssemos ficado em casa assistindo a um filme de ação que meu sogro emprestou. Mas, às vezes, é bom sermos protagonistas dessa ação. Além disso, todas as vezes que eu não queria viajar e a Pri me convenceu, acabei retornando com a impressão real de que percorrer alguns quilômetros faz um enorme bem ao cérebro.

Há uma localidade chamada Witmarsum na Alemanha. Há outra Witmarsum em Santa Catarina. Optamos pela terceira Witmarsum, em Palmeira (PR), na região dos Campos Gerais. A colônia de descendentes europeus (em especial alemães) foi fundada em 1951, e lembra um pouco o município de Carambeí, mais próximo de Ponta Grossa, também nos Campos Gerais.

Do ponto A (Ponta Grossa) ao ponto B (Witmarsum) devo ter dirigido um pouco mais de uma hora. Sem pressa, entramos primeiro em Palmeira, imaginando que a colônia ficasse colada à cidade. Era perto da hora do almoço e demos início à uma busca por restaurante. Estacionei nosso Palio (quase promovido a Adventure após a viagem a Guaraqueçaba) e percorremos a pé uma das principais ruas do centro da cidade. Todas fechadas. Caminhamos cinco ou seis quarteirões, notando que estavam abertas apenas uma banca de revista, um boteco e a igreja, em frente da qual um grande grupo de jovens visitantes entoava canções religiosas, ao som de dezenas de violões e alguns pandeiros.

Quando regressamos, pela mesma rua, somente o boteco estava aberto. Os funcionários do estabelecimento nos informou que, seguindo pela rodovia, em direção a Curitiba, deveríamos percorrer mais 20 quilômetros até chegar à Colônia de Witmarsum. E assim fizemos.
Gaivotas em um banheiro masculino

Antes, porém, uma parada na rodovia para almoçar em um lugar chamado Girassol. Restaurante e lanchonete bastante agradável. Há um restaurante com pratos mais caros e, um pouco antes, em recinto separado, a lanchonete, onde são servidos doces e salgados e (depois descobri) também almoço. E o banheiro masculino (só o masculino) é decorado com desenhos de gaivotas (!).

Foram exatos 20 quilômetros até que avistássemos a placa que indicava Witmarsum. Entrando à esquerda em um trevo, seguimos por uma estrada asfaltada e muito bonita. As árvores altas se abraçavam no topo, formando um túnel de folhagens que tornava a simples passagem por ali marcante. Era como um portal para outro mundo e, de fato, sentimos que até a temperatura caiu, imediatamente depois que entramos nessa estrada.

Paisagem bucólica das margens da
rodovia principal da Colônia
Um pouco distantes umas das outras, as residências exibiam a arquitetura característica trazida pelos alemães, que em muito lembrava a dos holandeses vista em Carambeí. Havia vacas em quase todos os terrenos, e vimos apenas da raça holandesa. Mas aqui e ali surgiam exemplos de ovelhas, gansos, e um bando de quero-queros fez questão de se mostrar, para a indignação da Pri. Ela odeia quero-queros... acredita que eles estão sempre pedindo chuva, o que não costuma ser muito bom em nossos passeios. Felizmente, nesse domingo a previsão do tempo errou feio, e o sol foi predominante.

A estrada de asfalto por onde seguíamos era, na verdade, a avenida principal da localidade. E talvez a única avenida, pois não vi nenhuma rua secundária significativa. Para acalmar os exploradores urbanoides, algumas placas indicavam que ali havia um ou dois cafés onde poderíamos fazer uma refeição.

Nosso Palio Economy, promovido a
'Adventure' após a viagem
a Guaraqueçaba
Percorridos alguns quilômetros, uma grande placa anunciava atrativo turístico. De fato, tratava-se de algo curioso que eu já tinha lido na internet, e fiquei surpreso de nunca ter ouvido falar sobre tal coisa até a presente data.  É que a rodovia passa ao lado de uma rocha mais ou menos plana, à altura do chão, com riscos apontando todos em uma mesma direção. São as tais “estrias glaciais”. Segundo os especialistas, formadas pelo movimento de grandes massas de gelo que existiram na região há 300 milhões de anos, numa época em que os continentes ainda eram unidos.

Feito o registro, seguimos novamente até a estrada, até quase chegarmos novamente à rodovia de acesso a BR. Regressei para entrar numa estrada de terra onde iríamos conhecer uma pousada que a Pri tinha visto na internet. No caminho, nada de agência bancária, correios ou farmácia, nada de supermercado, lan house ou casa lotérica. Pra compensar, há sinal de celular, e a torre de telefonia fica justo diante dessa estrada em que entramos à procura da pousada. Placas indicavam também um restaurante, seguindo por uma bifurcação. Mantendo nosso caminho, chegamos à tal pousada, onde fomos atendidos por uma moça com forte sotaque, que nos mostrou as instalações.
Estrias glaciais

Valores entre R$ 220 e R$ 260 a diária (de acordo com o tipo de quarto), com direito a café da manhã e fondue de queijo e chocolate à noite, mais cavalgada com passeio até uma cachoeira da região. Tem acesso à internet para quem quiser atualizar o blog ou a rede social.

Não era intenção ficar na pousada. Não tínhamos tempo nem dinheiro para isso, então regressamos para gastar o que havíamos previsto num café que vimos no trajeto de entrada. Distraído, passei pelo café e decidimos parar, alguns metros à frente, no Museu de Witmarsum, que fica ao lado da cooperativa de mesmo nome.

Entramos na casa de madeira, com o chão estalando sob nossos pés. Não havia viva alma à vista e foi se criando uma atmosfera de suspense, na qual sabíamos que, em algum momento, alguém surgiria em meio às antiquidades. Os objetos, em si, não me surpreenderam muito. Não era muito diferente de todo museu que já visitamos. Um destaque maior para as fotos, já que a localidade mesmo não é das mais antigas.

Igreja menonita local
Tínhamos caminhado por quase todos os cômodos quando um senhor passou pelo corredor principal e, ao nos ver, procurou demonstrar simpatia: “Ah, já estão se achando aí?”. E, em seguida, apareceu novamente para dizer que: “Se precisarem de alguma coisa, fiquem à vontade.”

Estávamos indo embora, só precisávamos pagar a taxa de entrada. Mas chegou um casal no mesmo momento, e o funcionário do museu começou a dar uma explanação a respeito dos imigrantes na colônia, sua história e formação. Heinz Egon Philippsen, como se chama o historiador que atende no Museu de Witmarsum, ele sim é a principal atração do museu. A Pri, que não é muito de ficar parada ouvindo aula de História, sentou-se para escutá-lo explicando de que forma e em que condições os imigrantes vieram para os Campos Gerais.

Diante de um mapa posto sobre a mesa, Philippsen falou sobre a miséria de seus antepassados, de alemães, holandeses e ucranianos, as razões que levaram todos a vir para outros países incluindo o Brasil. Ao mesmo tempo, narrou parte da própria história, falou de seus quatro filhos, de sua esposa e mencionou como hoje ele é historiador, e trabalha na mesma residência onde nasceu em 1955. A casa onde hoje funciona o museu, no passado foi a principal da fazenda que deu origem à colônia e cooperativa Witmarsum, mais tarde se tornou hospital (onde Philippsen vinha ao mundo) e hoje é o local onde ele trabalha.
Museu de Witmarsum

A narrativa de Philippsen é clara, cronológica, interessante e elucidativa. Vale a pena parar no museu por alguns instantes se for para ouvi-lo dando vida às coisas que ali são apenas objetos. Mas sem o casal que ali estava. O homem era daquele tipo chato que fica repetindo tudo o que o professor dizia, e a mulher era do tipo que se antecipava em duas ou três palavras o que ele ia dizer, só para mostrar que podia ser culta. Saber ouvir é uma virtude para poucos.

Dali, regressamos ao café, e comi uma torta de amora muito boa, enquanto a Pri comeu um bolo de Prestígio. Partimos em seguida, voltando a Ponta Grossa. Na saída de Witmarsum, nos preparamos para fazer uma foto bem legal do portal formado pelas altas copas das árvores. Estranhamente, passamos pelo lugar e não o vimos. Quase quis voltar imediatamente, mas decidi deixar para outra oportunidade. Porque o lugar pede outra oportunidade.