30 de set de 2007

A tranqüila semana de PG

A primavera chegou, e com ela vieram... os ventos congelantes. Ponta Grossa voltou a ficar mais cinzenta e fria nesta semana repleta de pequenas histórias confusas, tristes, engraçadas ou simplesmente curiosas. Os fatos foram notas de rodapé, trechos de parágrafos ou mesmo linhas, perdidas entre as páginas do jornal. Por que não reunir tudo isso em um único texto curto?

A nova rodoviária de Ponta Grossa, por exemplo, voltou a ser comentário no jornal. O governo do Estado anunciou a entrega das obras para o fim de novembro. Notícia boa, que partiu do secretário do Desenvolvimento Urbano, Forte Netto. Chama a atenção, no entanto, uma parte específica da fala do secretário: “O estilo arquitetônico [da nova rodoviária] segue as tendências do brutalismo de Le Corbusier, deixando à mostra todos os materiais da construção, como o concreto bruto, a estrutura metálica, os vidros e as pedras do piso”. Pode até ser verdade. Mas, pra quem não entende nada de arquitetura, parece mais piada.

Também parece piada uma ocorrência policial registrada na quinta-feira. Numa das ruas do Núcleo Santa Paula, uma menina conversava com o namorado, quando apareceu um sujeito que exigiu que ela entregasse o celular. O rapaz aparentemente nem estava armado, mas gritou que, se ela não entregasse o aparelho, ele “iria ficar muito louco”. A menina não quis saber o que aquela ameaça significava, e entregou logo o telefone. Com o celular nas mãos, o sujeito se embrenhou num matagal e desapareceu.

Mais dramática foi uma prisão efetuada no início da semana. Tudo começou na sexta-feira retrasada, quando um rapaz, de nome Rone, deixava o Presídio Hildebrando de Souza, graças a um alvará de soltura. Não ficou nem uma semana livre. Foi preso outra vez na última quarta-feira, depois de furtar um cobertor e um edredom para se proteger do frio. Ele alegou que só tinha pego emprestado, e que devolveria em seguida. Mas, não teve jeito. Voltou pro xadrez, autuado por furto, ainda que motivado pelo frio.

A semana também foi marcada por alguns recordes. Ou quase. O jovem atleta Felipe Leal, de 16 anos, ganhou destaque na pista de atletismo do Campus de Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Por um centésimo de segundo ele teria ultrapassado o recorde mundial nos 100 metros rasos. Sua marca de 9s75 causou euforia. Ele quase tinha chegado ao recorde mundial do atleta jamaicano Asafa Powell.

Depois que já tinham tirado até fotos da marca histórica registrada no cronômetro, os árbitros disseram ter se equivocado, e corrigiram para 10s10. O técnico do rapaz considerou o resultado ótimo, mas continuou achando que tinha algo errado na marcação da arbitragem. “É um tempo excepcional, mas impossível”, lamentou. O novo tempo ainda ficou entre os melhores registrados no país.

Outro número que pareceu recorde foi atingido no sábado. Ponta Grossa realizou, em apenas um mês, quatro desfiles na Avenida Vicente Machado. O primeiro foi no dia 7 de setembro (Independência do Brasil), depois foi no dia 15 (aniversário da cidade), em seguida mais um desfile que trancou a avenida em plena tarde de terça-feira, dia 25 (com a abertura do Festival de Arte da Rede Estudantil – o Fera). E, ontem, dia 29, novo desfile com a abertura do Festival Regional de Teatro.

A semana teria sido tranqüila, se não fosse pela PM prendendo Rone, um atleta ponta-grossense quase atingindo recorde mundial, um ladrão muito louco, e a Vicente Machado sendo interditada pela quarta vez em setembro. Coisas de Ponta Grossa.

18 de ago de 2007

O simples, o complicado e o aeroporto de Carambeí

Nas últimas semanas estive trabalhando em Castro, num jornal chamado Jornal de Castro. Ironicamente, quando digo que estou trabalhando no Jornal de Castro, as pessoas perguntam “qual deles?” E eu tenho que repetir... “Jornal de Castro, ora”. Quando as coisas são simples demais, acabam se complicando.

Portanto, viajei com freqüência para a cidade vizinha a fim de realizar entrevistas, para depois escrever as matérias que iriam compor o 3º número jornal, que é quinzenal. Considerando que eu pegava o ônibus metropolitano (também conhecido como pinga-pinga, porque pára em diversas localidades até atingir seu destino final), o deslocamento foi um pouco cansativo, mas também foi interessante. Acredito que o ônibus é o maior símbolo da sociedade urbana, pois cada situação que se vê ali dentro serve como indicativo do momento que vivemos.

Exemplo:
Há duas ou três semanas, numa dessas viagens, o ônibus fazia sua habitual parada no terminal rodoviário de Carambeí, antes de seguir até Castro. No banco à frente, uma mulher viajava com seu filho. O garoto, com cerca de quatro anos, não parava quieto um instante. Comentava algo sempre que via um caminhão, um cavalo no pasto, ou rebanho de ovelhas. Mas, quando o ônibus entrou na área de estacionamento da rodoviária de Carambeí, o garoto ficou visivelmente transtornado. Depois de um instante de silêncio, com ares de choro, virou-se para a mãe e disse: “Ah, não... Aeroporto não, mãe... Aeroporto não!” A mulher levou algum tempo para entender o que o garoto dizia. Finalmente corrigiu: “Que aeroporto, moleque? Aqui é a rodoviária!”

Não sei se o menino tinha medo de que seu avião caísse, ou de ficar retido no aeroporto por horas inteiras. O fato é que as crianças vêem o telejornal. Antigamente as mães, para assustar seus filhos, diziam que o “homem do saco” ia levá-los embora. Aí as crianças se comportavam. Agora, aqui vai a dica: é só dizer que a criança vai pro aeroporto, que ela treme de medo.

Mas é impressionante como sempre tenho dificuldades na hora de fazer o pedido numa lanchonete! Às vezes é um baita interrogatório para servir um simples café! Em outras ocasiões, a dificuldade é o recheio do risoles. No outro dia havia dois pratos com risoles na vitrine. Perguntei do que era o recheio, e a funcionário disse que só tinha recheio de frango, porque as cozinheiras esqueceram de fazer risoles com carne moída. Comprei um, e era de carne moída.

E nessa semana fui fazer um lanche perto da universidade. Dessa vez, pedi uma coisa diferente, pra ver se não dava problema. Pedi um pão de batata. Aí a funcionária perguntou se eu ia querer molho. Eu disse que sim. Aí ela perguntou se eu ia querer mostarda. Não sei em que momento começou a confusão. De repente a moça teve um chilique, dizendo que o pessoal ia lá e recusava os sachês de mostarda, e que “jogavam” os sachês de volta no balcão... (dizendo isso, jogou o sache na minha frente) Peguei meu pão de batata e fugi para a mesa mais distante do estabelecimento. Cada uma que me acontece...

Então, neste momento, para fazer um lanche qualquer, o diálogo que preciso desenvolver é mais ou menos este:

_Oi! Me dá um risoles.
_De carne ou de frango?
(Frango não é carne?, penso)
_Frango.
_Vai querer molho?
_Sim.
_Mostarda?
_Pode passar pra cá.
_Mais alguma coisa?
_Um café.
_Pequeno ou médio?
(Não vai me oferecer grande?, me pergunto)
_Médio.
_Com leite?
_Ahn... sim. Com leite.
_Açúcar ou adoçante?
_Açúcar.
_Mais alguma coisa?
_Não. Obrigado.

Então, na próxima vez, direi:

_Oi! Eu quero um risolis de frango. Vou querer molho também: dois sachês de catchup, dois de mostarda e dois de maionese. Também quero um café tamanho médio com leite. Vou adoçar com açúcar. Obrigado.

O diacho vai ser se a funcionária olhar bem pra mim e disser: “Pode repetir?”

21 de jul de 2007

Três dias em Curitiba

Impressões de um ponta-grossense na capital do Paraná

PARTE 1

A poltrona número 23 ficava à janela. Então, procurei não demorar muito para entrar no ônibus, assim não obrigaria alguém a encolher as pernas para que eu chegasse até meu assento. Eu estava indo para Curitiba, sob os pretextos de conhecer um pouco da capital paranaense, procurar um emprego, e visitar meu amigo Glaydson.
Imaginei que seria bom se uma pessoa disposta a conversar sentasse ao meu lado. Poderíamos ir falando o tempo todo, trocando idéias. Sempre surgem boas histórias em conversas assim. Mas o sujeito que parou ao meu lado pareceu carrancudo, e seu cumprimento foi um leve movimento de cabeça, quase imperceptível. Tive a impressão de que seria impossível desenvolver qualquer diálogo com aquele tipo. Minha suspeita se confirmou assim que ele se sentou, e abriu uma revista cheia de fotos, textos, e figuras, que o mantiveram ocupado durante metade da viagem. A outra metade foi ocupada por um cochilo.
Certa vez, durante outra viagem de ônibus, reparei em duas pessoas – um homem e uma mulher – que nunca tinham se encontrado antes. Mas iniciaram uma conversa que se estendeu por toda a viagem. Apesar de terem falado sobre alguns assuntos pouco agradáveis (como acidentes na estrada e pessoas que morreram em decorrência disso), senti uma pequena inveja. É difícil acontecer esse tipo de coisa. O acaso unindo duas pessoas desconhecidas, dispostas a conversar, durante uma viagem de ônibus. A maioria pega uma revista ou dorme, ignorando a pessoa ao lado. Foi o que me aconteceu naquela manhã de domingo.
Mas a distância entre Ponta Grossa e Curitiba não é tão grande assim. Cerca de 100 quilômetros percorridos em pouco menos de duas horas. A gente descobre que está chegando em Curitiba por causa de anúncios publicitários em outdoors, a palavra Curitiba vista em algumas placas de estabelecimentos comerciais, e devido à repentina aparição de grandes prédios, que criam um horizonte diferente daquele ao qual os ponta-grossenses estão acostumados.

Durante a viagem decidi adotar a postura de um curioso que visita uma cidade que lhe é pouco conhecida. Em resumo, seria eu mesmo. O olhar estrangeiro costuma ser mais elucidativo, ou mais provocativo, diante do que está ao redor. As primeiras imagens, acredito, são as que ficam por mais tempo na memória, mesmo que em nível subconsciente.
Enquanto o ônibus cruzava a cidade, vi um homem (um pai, provavelmente) tomar o skate de um menino, em frente ao estacionamento de um condomínio. Ele parecia brigar com o garoto de cerca de sete anos, que ouvia tudo calado. Vi duas mulheres que passeavam com seus cachorrinhos, que se encontravam, e conversavam, talvez sobre o tempo, que estava bom, mas que, segundo os jornais, teria chuva e frio nos próximos dias. E vi um casal de anões que caminhavam na calçada. Aquelas três visões poderiam ser um indício e um resumo de tudo o que eu encontraria nos próximos três dias que passaria na capital.

Três dias é pouco tempo, mas já é alguma coisa. Já tinha ido até a cidade em outras ocasiões, mas não tinham sido boas oportunidades para prestar atenção a esse mundo paralelo que sempre caracteriza a cidade vizinha. A gente tem a impressão de estar mais longe do que realmente está.
Na rodoviária, músicas calmas e sem anúncios publicitários me fizeram esquecer do Terminal Central de ônibus de Ponta Grossa, conhecido pelo rádio com som alto, muita publicidade e músicas estressantes. Ali fiquei esperando até que Glaydson viesse me encontrar, já que eu não sabia chegar até sua casa. “Mas qual é o endereço?”, perguntei ao telefone. “Ah, é perto da rodoviária... Mas nem adianta, você não vai achar”. Não sei se ele pensava no fato de eu não conhecer as ruas da cidade, ou se julgava ser realmente difícil de encontrar seu endereço. Provavelmente as duas coisas.

Quando ele chegou, e começamos a caminhar, minha mala com rodinhas pareceu fácil de ser carregada. Mas bastou que saíssemos da rodoviária, para que a coisa se tornasse mais complicada. As calçadas são bem menos irregulares que as de Ponta Grossa, mas também não foram feitas para essas malas com rodinhas, de modo que a melhor maneira era mesmo segurar a alça. Descobri que a mala era pesada, e que a casa de Glaydson não era tão perto assim da rodoviária.
O conceito de perto e longe, eu logo comprovaria isso, é bem diferente quando se está numa cidade com mais de um milhão de habitantes. Glaydson enumerava alguns dos pontos que, julgava, eu deveria me lembrar. “Tur número 1: O Mercado Municipal”, ele disse, apontando para um estabelecimento em frente à rodoviária. “A gente vem aí, às vezes, para passear. É como um shopping ou uma feira. Tem uma porção de coisas, mas é caro”, explicou. “Nossa...”, eu disse “Vocês fazem compras no Mercado Municipal?”, ironizei, lembrando do Mercado Municipal de Ponta Grossa, praticamente abandonado.

Glaydson ajudou a carregar a mala e, quando viramos uma esquina, chegando à rua em que ele morava, tive uma surpresa. Alguma coisa ali, naquele quarteirão, me fazia lembrar de minha cidade. A disposição dos prédios, uma árvore, os fios de luz ou a calçada. O sentido de movimento dos automóveis ou a largura da rua. Talvez tudo isso junto. O fato é que o ambiente me fazia lembrar um trecho do centro de Ponta Grossa. Mas ali nós estávamos na Rua Marechal Deodoro, no coração, ou numa das principais artérias, de Curitiba.
Em frente ao seu prédio, já vi coisa diferente. Ele encostava o chaveiro em um visor eletrônico, e o portão se abria. Não era magia, era tecnologia. Mas não encarei isso como novidade da capital. Julguei que deveria freqüentar mais prédios, isso sim.
O apartamento de Glaydson, no 5º andar, nº 502, também me fazia lembrar seu antigo apartamento em Ponta Grossa, na Avenida München. Provavelmente a semelhança se devia ao fato de os decoradores serem basicamente os mesmos. Ali também moravam Ericsson (Lelo) e Alisson (Gesuis), irmãos de Glaydson. E havia um quarto elemento, de quem em nunca ouvira falar. Um tal de “Nif”. Seus apelidos renderiam um estudo à parte.
Havia um barzinho no canto da sala, adornado com aquário preenchido por uma lagosta, um camarão, três peixinhos e, é claro, água. Por mais tranqüilo que um aquário possa parecer, ele sempre traz alguma história interessante. Mais tarde soube de alguns desses “causos”. Dizem que, certa noite, a lagosta saiu do aquário (de um jeito que ainda não foi descoberto) e, caminhando pela escuridão, sobre o carpete, quase foi confundida com um escorpião e esmagada pelo Glaydson, com a ajuda de um chinelo.
Outra história afirma que o camarão fez o mesmo, e se deslocou por todo o apartamento até o quarto de um dos moradores. Depois voltou ao aquário, como se nada tivesse acontecido. Mas isso pode ser uma lenda.
A parede da sala exibia o desenho, feito com tinta preta, de uma mulher seminua em atividades de stripper. A obra artística tinha sido feita por um amigo, ex-morador do apartamento, que não quis assinar embaixo. “É a personagem dos quadrinhos Sin City, tá ligado?”, explicou Gesuis. A TV a cabo ficava ligada, normalmente, desde o momento em que o Glaydson acordava. “Não consigo ficar no mais completo silêncio por muito tempo”, disse. Atrás da TV, uma grande janela ocupava quase toda a parede. Tinha uma boa visão da rua, e dos prédios.
“Olha! Um avião!”, exclamei. Glaydson e Gesuis esperavam que tivesse algo errado com o avião. Que estivesse caindo ou pegando fogo, a julgar pelo meu espanto. Mas era só um avião pousando no aeroporto. Visão comum naquela parte do mundo, e estranha se fosse em Ponta Grossa. Em PG, se um avião começa a fazer muito barulho ou voar muito baixo, os vizinhos começam a sair de suas casas, acreditando que o piloto está perdido e a aeronave pode cair a qualquer instante.
Na cozinha senti falta de duas coisas: um lugar para pendurar o pano-de-prato, e gavetas. “No meu guarda-roupa também não tem gaveta. É uma bosta pra guardar cuecas!”, disse Gesuis.
Enquanto eu ainda estava na sala, um barulho medonho pareceu vir da cozinha. Era como se alguém estivesse preso em uma caixa metálica. E essa pessoa batia desesperadamente, tentando se livrar da prisão. “É a lavadora de roupas”, explicou Glaydson.
A torneira da pia da cozinha tinha dois registros. A da pia do banheiro tinha outros dois. E o chuveiro tinha quatro. Aos poucos fui aprendendo aquele modo de vida peculiar. “Fique à vontade na cozinha”, falou Glaydson, como se dissesse “o que você achar é seu”. Mais tarde Nif surgiria à porta da cozinha, perguntando: “Pô... quem foi que tomou meu guaraná?” Meio sem jeito, ergui a mão, enquanto Gesuis e Glaydson mantinham o silêncio. E eu sem entender por que Glaydson tinha me oferecido sua Coca-Cola, quando eu pegava o Guaraná da geladeira. Só o tempo ensina esse tipo de coisa.

*****

PARTE 2

Ainda na manhã de domingo, Glaydson e eu fomos até a casa do Márcio para combinar algum breve passeio à tarde. Enquanto eles conversavam na cozinha, olhei da janela da sala e vi, lá embaixo, uma japonesa em trajes vermelhos típicos, meias brancas e sandálias de sola de madeira, que cruzava a rua. Curitiba é assim, um lugar onde a gente finge que não se surpreende com nada.
À tarde, Márcio dirigia um Ford Ka. Ao seu lado estava seu amigo Rudiney. Atrás íamos eu e Glaydson, joelhos espremidos contra os bancos da frente. O objetivo era encontrar a casa da Heloísa. Márcio tinha o nome da rua, Glaydson lembrava que tinha uma porção de palmeiras em frente ao prédio onde ela morava.
Um pouco antes disso, um automóvel fez um movimento errado e quase foi responsável por uma batida com nosso carro. O motorista tinha invadido uma área exclusiva de táxis. Márcio não poupou a buzina, nem as advertências verbais. Procurei defender o desconhecido: “Coitado do cara... vai ver que ele é ponta-grossense e não conhece Curitiba direito”, comentei.
A verdade é que não é à toa que sobram relatos de visitantes que entraram na canaleta dos ônibus. A capital paranaense tem um trânsito bastante singular. E estar no banco do carona, tendo o Márcio como motorista, servia como uma aula para quem nunca dirigiu no centro daquela metrópole.

A buzina é acessório indispensável. Márcio usou diversas vezes, embora eu não tenha entendido bem suas razões. Às vezes parecia querer apenas dizer aos outros motoristas “olhem, também faço parte do trânsito, e não se esqueçam disso”.
É também importante ter em mente que existem ruas por onde só trafegam ônibus, ruas onde só ficam táxis, e ruas onde só caminham pessoas. E tudo isso não é assimilado imediatamente pelo cérebro comum.
Ser pedestre também é diferente. Glaydson lembrou que pesquisas mostram que o curitibano está entre aqueles que caminham mais rápido no mundo, perdendo apenas para os habitantes de Tóquio. Em Ponta Grossa estou acostumado a ultrapassar pessoas que caminham devagar para meu padrão de velocidade. Em Curitiba só precisei fazer isso duas ou três vezes.
Tenho uma teoria... Talvez a velocidade dos pedestres seja proporcional à largura das ruas, e à quantidade de carros. Por mais que a maioria das esquinas no centro de Curitiba tenha semáforo para pedestres, ninguém fica totalmente seguro enquanto está no meio da rua. Sendo as ruas mais largas (às vezes com cinco vias), essas pessoas sentem a necessidade de cruzar para o outro lado mais rápido, e transferem essa velocidade também para as calçadas. Ou, talvez, só tenham pressa.

Depois de alguma procura encontramos o endereço de Heloísa, e juntos decidimos ir até o shopping Curitiba. Ao entrar na garagem, Márcio apertou o botão de uma máquina, que emitiu ticket com a inscrição “ROTATIVO”. Em seguida iniciou a procura por uma vaga. O estacionamento em espiral descendente parecia nos levar ao centro da Terra. “Já estou me sentindo como Júlio Verne”, disse Glaydson. Perguntei ao Márcio se o estacionamento se chamava “rotativo” porque ficaríamos rodando até que a gasolina acabasse. “Espero que não”, respondeu.
Finalmente surgiram algumas vagas, e o carro pôde ser estacionado ainda com um pouco de combustível.

Enquanto subíamos as escadas rolantes, perguntei à Heloísa o que aquele shopping tinha, que o shopping de Ponta Grossa não tinha. “Sei lá, Danilo, que pergunta...” Na praça de alimentação, encontrei algo diferente. Quem comprasse um copo de refrigerante na lanchonete Burger King poderia enchê-lo quantas vezes quisesse na máquina ao lado. E no banheiro, depois de lavar as mãos, a gente secava com um aparelho que soprava. Mas nada disso era grande novidade. Diferente mesmo era a porta que abria sozinha, que dava acesso ao estacionamento. Heloísa achou que eu estava brincando, mas julguei ser algo diferente, já que em Ponta Grossa só vi tal tecnologia em um dos hotéis da cidade. Depois eu descobriria que aquelas portas eram bem mais comuns em Curitiba.
Ficamos pouco tempo no shopping. Apenas o suficiente para conversar um pouco e engolir um hambúrguer. Márcio precisou sair logo. Heloísa ficou mais um pouco, e foi pegar ônibus numa das estações-tubo, depois que saímos. Quando eu e Glaydson voltávamos para casa, vimos um tumulto uma ou duas quadras adiante. Dezenas de adolescentes corriam em grupos de um lado para o outro, em um movimento que me lembrava cardumes de peixes fugindo de um golfinho.
Um rapaz, que não estava muito longe de nós, foi até uma caçamba cheia de entulhos, e apanhou de lá de dentro uma pedra. Em seguida avançou em direção ao tumulto. Uns vinham em nossa direção, outros seguiam na direção oposta. Logo percebi que se tratava de alguma briga de gangues. “Se não sobrar uma bala perdida pra gente, tá bom”, disse Glaydson. Mais tarde ele sugeriria uma explicação. No domingo, o grupo dos skatistas se encontra com o grupo dos emos e o dos góticos. Um não concorda com o outro, e surgem essas disputas.
Passávamos em frente do Shopping Estação, e resolvemos entrar até que os ânimos se acalmassem lá fora. Ali, no passado, foi a estação de trem da cidade. Hoje, transformada em shopping, a construção abriga uma espécie de museu com parte da história do lugar. Além disso, inspira a decoração do shopping. Há uma locomotiva no saguão, salas e bilheterias preservadas, o antigo horário dos trens, e bonecos engraçados usando as vestimentas da época em que aquele ambiente devia ser, proporcionalmente, tão ou mais movimentado que a atual rodoviária.
Passeando por esse museu, chegamos diante de uma vitrine com várias peças que pareciam pequenos livros em seu formato, mas que na realidade eram amostras de madeira, de diferentes tipos. Cada pedacinho de madeira tinha um número. E junto havia uma lista com a correspondente identificação do tipo de madeira ao qual as peças pertenciam.
Havia dezenas delas. Cem ou mais. Apenas uma chamou minha atenção. Era uma madeira escura e brilhante. Parecia mais bonita que as outras. Seu número: 37. Fui até a lista. Curiosamente, era o único pedaço de madeira cuja espécie não estava catalogada. Lá, no lugar do nome, três asteriscos fazem com que o pequeno (e talvez insignificante) mistério permaneça por diversas décadas.
Depois que a aparente tranqüilidade voltou às ruas em torno do shopping, retomamos o trajeto de volta para a casa do Glaydson, dessa vez sem tumultos. Já era noite. Glaydson quis fazer uma sopa. Juntou batatas, sopa de pacotinho e quatro tipos de restos de macarrão. Eu estava prestando atenção, pra ver se aprendia a cozinhar alguma coisa. Ao final, ele colocou mais um pó para deixar a sopa cremosa, e mexeu mais lentamente com a colher. Depois parou, ergueu a colher, e disse: “Ih... empelotou tudo”. Aprendi que aquele pó deve ser colocado em água fria, nunca em água já quente.

*****

PARTE 3

Ponta Grossa não me parece fraca no que se refere a lojas de livros usados. Tem pelo menos quatro sebos que merecem destaque, e onde costumo encontrar livros, discos e revistas interessantes. Ainda assim, há coisas que procuro e não encontro, até porque meu nível de exigência às vezes se torna elevado.
Sendo assim, achei que em Curitiba seria pertinente visitar alguns sebos também. Na segunda-feira, pela manhã, Glaydson foi me mostrar onde ficavam algumas dessas lojas que eu poderia conhecer. À tarde ele estaria trabalhando, então a idéia era me mostrar onde ficavam os sebos, para que depois eu fosse sozinho em cada um deles. A pesquisa em sebos exige tempo.
Saímos do prédio e, depois de caminharmos algumas quadras, comecei a olhar para trás. Glaydson percebeu: “Você tá tentando memorizar o caminho de volta?” Confirmei com a cabeça. “Mas a gente tá andando em linha reta. É só seguir pela mesma rua!” E, de fato, estávamos caminhando há diversos minutos, mas continuávamos na Rua Marechal Deodoro, que parecia não acabar mais.
O primeiro sebo que Glaydson apontou consistia em uma pequena porta pouco convidativa: “Eu estive ali uma vez, mas não gostei do atendimento”, falou. Em seguida fomos para outro, não muito longe dali. Os demais eram visualmente mais interessantes. Apenas ali, nos arredores, Glaydson apontou cinco sebos. E foram aqueles que voltei a visitar, com mais atenção, à tarde.

O primeiro sebo marcava seus livros com signos zodiacais, através de carimbos. Cada símbolo do zodíaco, encontrado na última página do livro, correspondia a um preço identificado em tabelas afixadas nas estantes. Não encontrei nada de muito interessante para comprar. Mas achei curioso que uma cliente muito falante, que procurava livros também, comentou com o atendente: “Esse sebo é melhor do que o outro que tem ali na esquina. Lá o funcionário é tão mal-encarado...” Curiosamente, ela estava criticando o mesmo sebo que Glaydson disse ser ruim. Decidi que aquele seria o último lugar no qual poria os pés.
Eu estava procurando alguns títulos bastante específicos e, justamente por isso, corria o risco de não encontrar nada que me agradasse. Diante de um funcionário atencioso, que aos poucos ia perdendo a paciência comigo, expliquei o que procurava:
“O título do filme é ‘Minha Vida é Um Inferno’. É um pouco antigo, deve existir apenas em VHS. O personagem principal é interpretado por um cara chamado Steve Oedekerk. Jim Carrey é ator coadjuvante, e não era famoso na época em que fez o filme. Esse Steve passou a dirigir alguns filmes do Jim Carrey, depois...”
“Nunca ouvi falar”, respondeu.
“E Nick Raider... procuro uma coleção de gibis com o personagem, que é um detetive em Nova York. É um desenho criado na Itália. A Editora Bonnelli estava publicando suas histórias recentemente aqui no Brasil. E a Record publicou dez números na década de 1990. Eu tenho sete edições, faltam três para fechar a coleção...”
“Não...”
“Spirou e Fantasio... são dois personagens de quadrinhos europeus. Apenas um álbum deles foi publicado aqui no Brasil...”
O funcionário agora se limitava a balançar a cabeça de um lado para o outro. Acho que começava a suspeitar que eu tinha inventado todos aqueles nomes. Outra vez na rua, continuei a peregrinação, e aproveitei para observar alguns detalhes que, desde que eu tinha chegado, chamavam minha atenção em Curitiba. Por exemplo, o número de muros e prédios pichados. No centro da cidade, você dificilmente encontra um lugar de onde não seja possível visualizar ao menos uma dessas manifestações de vandalismo. E, muitas vezes, os estranhos hieróglifos (feitos com spray, pincel, ou rolo de tinta) são encontrados em lugares de difícil acesso, como a sacada do terceiro andar de um prédio, ou mesmo a parte mais alta do edifício.

Quanto às pessoas, é interessante fazer comparações com Ponta Grossa. Em PG é difícil cumprimentar alguém na rua, mesmo sendo conhecido. Excetuando pessoas muito amigas, ou senhoras bastante falantes, a maioria se cumprimenta de um modo tão discreto que, na maioria das vezes, nem se percebe. Um leve movimento de cabeça, ou de sobrancelha. As pessoas não são muito sociáveis, e parecem ter medo de cumprimentar de uma maneira excessivamente visível, e receberem depois um semblante carrancudo ou, pior, o silêncio como resposta.
Já em Curitiba, é ainda mais curioso. As pessoas não olham umas para as outras. Tudo o que vêem são carros, prédios e calçadas. Às vezes sapatos. Mas não dá pra dizer que o curitibano seja “fechado”. Assim como tal generalização não deve ser feita acerca do ponta-grossense ou de qualquer habitante de outra cidade. Uma mulher no supermercado aceitou desenvolver breve conversa sobre o tamanho da fila. E o porteiro do prédio até disse um simpático “Seja bem-vindo a Curitiba”, quando soube que eu não era dali.
Talvez essa seja uma das razões que fazem Ericsson, o irmão de Glaydson, querer morar ali mesmo. Ele até já passou a torcer pelo Coritiba, ficando realmente indignado quando o time perde uma partida.

Mas é verdade que o ambiente influencia o ser humano (assim como o contrário também acontece), e a explicação para o distanciamento entre as pessoas pode estar num detalhe facilmente perceptível: o centro da capital possui elevado número de mendigos. Não é possível caminhar dois quarteirões sem que um deles venha pedir uma moeda. E todos se parecem uns com os outros. Pior, muitos deles estão caídos em becos e esquinas, bêbados, drogados, doentes ou mortos. Como se vai saber? O fato é que o curitibano habituou-se a desviar deles, ou a ignorá-los. Talvez essa seja uma das explicações para o fato de as pessoas não olharem umas para as outras, enquanto caminham pelas calçadas ou esperam que o semáforo permita a travessia da rua.
Enquanto estive na rodoviária de Curitiba, notei que o rádio servia para outras coisas, além de anunciar a chegada e partida dos ônibus. Servia também para dar uma série de avisos de utilidade pública e serviços. Entre esses avisos está o “Não dê esmolas”. A recomendação é que as pessoas façam doações a entidades beneficentes, caso queiram fazer uma boa-ação.

Eu já tinha passado por todos os sebos que o Glaydson tinha mostrado. Só restava um. Aquele que ele tinha criticado logo no início. Descobri que era um dos maiores. Curioso que as estantes tinham os mesmos símbolos do zodíaco que eu tinha encontrado no primeiro sebo. Como as duas lojas ficavam praticamente em frente uma da outra, deduzi (e acho que não estou errado) que pertencem ao mesmo proprietário. A mulher que falava mal do atendimento podia estar fazendo uma reclamação ao próprio dono, talvez, sem o saber.
Ao fundo, na sessão de quadrinhos, foi que encontrei algumas coisas interessantes. Entre elas, um livro com tiras do personagem Hagar, e outro com a história de um detetive chamado Jack Palmer, publicada em Portugal, o que dava um efeito especialmente cômico à sua leitura (devido às diferenças entre nosso português e o lusitano). Foi lá que acabei comprando os livros. Por mais que aceitemos a opinião dos outros, é sempre bom esperar até termos a nossa.

*****

PARTE 4

Algumas experiências vividas em Curitiba fizeram com que eu chegasse à seguinte conclusão: se eu realmente tenho o poder de atrair estranhas coincidências, isso com certeza é uma habilidade que não se restringe aos limites de Ponta Grossa.
Pouco antes de viajar à capital, encontrei na Internet informações a respeito de uma empresa, chamada Estúdio Openthedoor, especializada em criações publicitárias com desenhos e animações. Enviei um currículo para a empresa, e pensei em visitar o endereço quando estivesse em Curitiba.
Na manhã de terça-feira, Glaydson sugeriu que fôssemos ver os quadros artísticos expostos no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (o MAC), que fica não muito longe do prédio onde o Glaydson mora, e na mesma rua. Aceitei a idéia imediatamente, e saímos.
Não tínhamos caminhado nem mesmo uma quadra, quando um carro parou por alguns instantes diante de nós, na preferencial, antes de atravessar o cruzamento. Chamou minha atenção o rapaz que estava no banco do carona. Parecia ser... “Glaydson”, eu disse “Aquele não é o irmão do Márcio?”, perguntei enquanto o carro se distanciava. Mas o Glaydson não tinha visto. De qualquer modo, não devia ser. Eu só conhecia o sujeito porque tinha visto uma foto sua na casa do Márcio um dia antes, num porta-retrato. Mas, se fosse ele... seria uma grande coincidência. A primeira de uma série...

Enquanto caminhávamos rumo ao museu, lembrei de minha intenção de visitar o Estúdio Openthedoor. Mas percebi, um pouco contrariado, que tinha esquecido de anotar o endereço da empresa. Não era um grande problema, afinal. Bastaria acessar o site na Internet, como eu havia feito na primeira vez.
Ainda me concentrava nesses pensamentos, quando vi uma menina sair de dentro de um prédio, e caminhar ao nosso lado, carregando alguns envelopes de correspondência. Paramos na esquina, esperando que o semáforo ficasse verde.
Acontece que a menina era bonita, e fiquei tentando imaginar qual seria seu nome. Talvez, se eu desse uma espiada no envelope em sua mão, poderia descobrir... Bem, a idéia era válida. Mas impossível de ser realizada. De onde eu estava, só podia ler a etiqueta que continha nome e endereço do destinatário. Para meu espanto, a inscrição era a seguinte: “Estúdio Openthedoor, Rua Presidente Faria, nº 51”.
“Glaydson...”, falei “Você sabe onde fica a Rua Presidente Farias?”
“Por quê? Você leu na correspondência da moça?”
Depois de quatro anos estudando juntos na mesma universidade, Glaydson me conhece um bocado...

Mas ele não sabia onde ficava o endereço. De qualquer modo, aquela estranha coincidência, dadas as dimensões daquela cidade estranha com pessoas e lugares ainda desconhecidos, aumentou meu desejo de conhecer o tal estúdio.
No museu, vimos muitos quadros estranhos, cujo significado original não pudemos identificar. Muitos eram interessantes. Mas teve um que chamou minha atenção e, querendo ou não, esse é que ficou na minha memória. Era uma reprodução do famoso quadro de Monalisa, de Leonardo Da Vinci. Mas havia uma particularidade curiosa: um raio vermelho saía dos olhos de Monalisa. O título era “Passado”. Mas poderia ser “Monalisa With Lasers”, caso o artista fosse assíduo freqüentador do Orkut.

Depois de sairmos do museu, Glaydson disse que precisava pagar uma conta em uma loja de roupas ali perto. A loja era mais uma, entre muitas, onde a porta abria automaticamente com a aproximação do cliente. Todavia, seu sistema de pagamentos era menos eficiente. Devia ter pelos menos cinqüenta pessoas naquela fila, e Glaydson preferiu caminhar mais alguns quarteirões, até o Shopping Müller, onde, segundo ele, havia outra filial daquela loja.
Assim fiquei conhecendo um pouco mais do centro da cidade. Descobri onde ficava a Igreja Matriz, por onde passamos enquanto seus sinos badalavam. Encontrei a popular “Praça do Homem Nu”, e mais tarde conheci o caminho para o Passeio Público. Duas pessoas passeavam pelo lago artificial com um daqueles pedalinhos flutuantes. “Aqui nós temos esportes radicais”, ironizou Glaydson. “Afinal, se você mergulhar seu dedo nessa água, tira apenas o ossinho depois. É ácido”. O sorriso em seu rosto denunciava a brincadeira em suas palavras, mas a aparência da água confirmava a verdade nelas.
Quando chegamos ao Shopping Müller, encontramos uma fila bem menor. Menos de dez pessoas, talvez. E uma funcionária simpática mostrou que toda a operação de pagamento poderia ser feita em um dos terminais de auto-atendimento da loja. Isso reduziu ainda mais nosso tempo de espera.

Na hora do almoço, enquanto Sandra Annemberg anunciava no telejornal o “Dia da Pizza”, eu coincidentemente estava comendo uma pizza. Enquanto isso, explicava ao Glaydson minha intenção de procurar o estúdio Openthedoor naquela tarde. Glaydson estaria no trabalho, enquanto eu iria me aventurar mais um pouco pelas ruas de Curitiba.
Conforme planejado, à tarde procurei um mapa de Curitiba no apartamento de Glaydson. Não foi difícil achar. Estava no barzinho. Gesuis, mais tarde, se admiraria ao saber que encontrei um mapa ali. Talvez fosse mais difícil que achar o endereço do Estúdio Openthedoor. Mas ali eu localizei a Rua Presidente Faria. Ficava mais perto do que eu imaginava. A cerca de sete quadras de distância. Peguei um papel e anotei a seqüência de ruas pelas quais deveria passar, até chegar ao endereço final. E lá fui eu...

As indicações me levaram até um grande prédio. Mais um com portas automáticas. O porteiro olhou para mim como quem diz “desembucha!” “Estou procurando o Estúdio Openthedoor”, desembuchei.
“Mudou-se”, ele disse.
Então senti uma grande decepção. Achava que o acaso estava me incentivando, por algum motivo, a conhecer o tal estúdio. Mas essa inesperada alteração nos planos me fazia duvidar das intenções do acaso.
“Eu tenho o novo endereço aqui...”, falou o porteiro, enquanto colocava um papel e uma caneta sobre o balcão, para que eu copiasse a informação. Anotei, mas tinha certeza de que aquilo não ia adiantar muito. Eu praticamente não conhecia nada de Curitiba. Encontrar o novo local seria bem mais complexo, sem pontos de referência.
“Fica perto?”, perguntei.
“Sim... fica perto do Shopping Müller”.
Salvo! Eu estava salvo! Por coincidência, eu tinha conhecido o Shopping Müller há poucas horas. Bastaria lembrar do caminho que tinha feito com Glaydson, e eu chegaria ao local. Outra vez passei pela Igreja Matriz (que, outra vez, tocou seus sinos, como se confirmasse sua existência), depois pela Praça do Homem Nu, e poucos minutos depois eu chegava ao shopping. Seguindo a indicação do porteiro, caminhei mais algumas quadras. Mas imaginei que não seria fácil encontrar a tal Rua Senador Xavier da Silva.
Mas foi fácil! A rua simplesmente surgiu diante de mim. E eu, inclusive, já estava no quarteirão certo. Só que era tarde de terça-feira, e por pouco ninguém me atende, pois a equipe do Estúdio Openthedoor estava atolada em trabalho. Grupos em computadores, outros ao telefone, outros na forma mais rudimentar do desenho (lápis e papel).
Felizmente, Marli, para quem eu tinha enviado o currículo uma semana antes, me recebeu e dedicou cinco minutos de seu tempo e simpatia para mostrar o ambiente de trabalho, e alguns dos produtos que tinham desenvolvido recentemente.
O acaso me levou até lá, mas não foi ali que consegui trabalho. Pelo menos não dessa vez. Ao final, agradeci e caminhei de volta em direção à casa de Glaydson, passando outra vez pelo Passeio Público, onde um velhinho fazia movimentos e ruídos engraçados, provocando um pelicano. Quando me viu, ficou um pouco sem jeito. “Que bicho mais feio, não é?”, perguntou, rindo. Talvez o objetivo do acaso fosse apenas me levar até aquela cena, curiosa e bizarra, de um velhinho imitando um pelicano.

*****

PARTE 5

Mas, quando chegou a manhã seguinte, achei que já estava na hora de voltar para casa. Tinha saído de Ponta Grossa com a idéia de voltar na quarta-feira, e eu dificilmente mudo meus planos.
Evitei pedir desculpas por causa do guaraná alheio que retirei da geladeira. Dei uma última olhada na TV a cabo (onde assisti, pela primeira vez, a uma luta de sumô), e falei “até mais” para Gesuis e Ericsson. Ergui minha mala com rodinhas e voltei para a rodoviária, em companhia de Glaydson. Alguns minutos depois, eu estava na fila para subir no ônibus que me levaria outra vez para minha cidade.
Um rapaz e uma moça, que estavam logo à minha frente, não paravam de conversar. Pelo tom do diálogo pude perceber que já se conheciam antes, e que tinham se encontrado por acaso na rodoviária.
A moça sentou ao meu lado, na poltrona número 10. O rapaz, do outro lado do corredor, um pouco para trás, na poltrona 15. Apesar disso, continuavam conversando, até o momento em que o ônibus começou a deixar a rodoviária. Então, finalmente, ambos tiveram que ficar em silêncio. Não seria elegante ficarem gritando através do corredor. Como o acaso não os tinha colocado lado a lado, resolvi dar um empurrãozinho.
“Moça, será que ele não quer sentar aqui?”, perguntei. “Não sei”, ela disse.
“Ei, você quer se sentar aqui?”, perguntei ao rapaz do outro lado do ônibus.
“Se não tiver problema”, ele respondeu.
Foi assim que troquei a poltrona número 9 pela número 15. Pra mim não fez grande diferença. Quanto àqueles dois... Foram conversando de Curitiba até Ponta Grossa, durante duas horas, com quase nenhum intervalo. Achei que tinha feito uma boa-ação. E só me arrependi do favor quando a moça começou a contar histórias sobre pessoas ensangüentadas. Descobri que ela era enfermeira, e que falava alto demais.

O fato é que naquela quarta-feira, quando eu saía de Curitiba, uma frente fria chegava a esta região do Paraná. A prova disso era a garoa fina que começava a cair na capital. As janelas do ônibus estavam embaçadas, e foi essa a fonte de diversão das crianças que viajavam no mesmo veículo, fazendo desenhos e escrevendo no vidro úmido. Quando chegava a Ponta Grossa, decidi que tentaria assumir a mesma estratégia usada quando cheguei a Curitiba. Seria um curioso numa cidade pouco conhecida. Quais seriam as minhas impressões, ao ver a cidade pela primeira vez? Quais seriam as primeiras imagens?
Esfreguei o vidro com a mão. Não tinha jeito... a primeira coisa que vi foi algo que não encontrei em nenhuma esquina de Curitiba. De uma só vez, três cachorros sentados na calçada, como que para dar as boas vindas a quem passava de ônibus por ali. Ruas menores no centro da cidade. Pessoas encasacadas, e em menor número. O chuvisco constante obrigava algumas senhoras a usar guarda-chuvas. Finalmente, quando o ônibus ainda cruzava o centro da cidade, vi o primeiro rosto conhecido. Sim, eu estava de volta à cidade de pouco mais de 300 mil habitantes, onde vivia há mais de vinte anos. Na rodoviária, ou no galpão que servia de rodoviária provisória, enquanto a nova rodoviária é erguida, encontrei meu pai:
“Bem-vindo à capital do frio!”, disse, rindo, e devolvendo as mãos aos bolsos.


A Rua Marechal Deodoro, em Curitiba

7 de jul de 2007

Transtornos trazidos por três letras extraviadas
Tenho pouco dinheiro no banco. Talvez por isso tenha ficado tantos meses sem comparecer diante de um caixa-eletrônico. Ou talvez porque eu seja econômico. Uma economia compatível com o pouco dinheiro que tenho no banco.

O fato é que, depois de cerca de quatro meses sem ver a máquina da caixa econômica, precisei tirar um extrato, e não pude. O computador pediu a senha numérica. Eu digitei. Depois pediu a senha de 3 letras. E eu... Senha de 3 letras? Eu não lembrava. Recordava apenas que, quando criei a conta, tinha a senha numérica e uma palavra-chave. A palavra foi fácil de memorizar: SIRENE.

Mas, de fato, na última vez em que tinha utilizado o terminal de auto-atendimento, a máquina tinha trocado a palavra-chave por uma seqüência de 3 letras. Eu lembrava de ver a máquina emitindo um papel amarelo que continha as tais letras.

Procurei pelo papel em minhas gavetas, no meio da agenda, dentro da mala e entre os livros. Não encontrei. Numa tentativa com poucas chances de sucesso, digitei qualquer coisa e, claro, a máquina não aceitou. Não tive escolha senão falar com o gerente.

Não foi difícil. Eu ainda lembrava a senha numérica. Ele apenas conferiu minha identidade, digitou algo num computador ao seu lado, e disse: “Pronto! Da próxima vez em que for usar o caixa-eletrônico, a máquina vai criar uma nova senha de acesso para você”.

Agradeci. Voltei ao caixa-eletrônico, não sem antes reclamar com o gerente, dizendo que era mais fácil memorizar a palavra SIRENE do que uma seqüência de letras aleatórias.

A máquina cuspiu nova seqüência de letras. Tirei o extrato e fui para casa, prometendo me esforçar mais para guardar na memória as letras da senha.

Menos de uma semana se passou, fui à biblioteca municipal, onde não ia desde o começo do ano. Queria emprestar “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (ótima leitura, por sinal). Já estava saindo com o livro nas mãos, quando a bibliotecária chamou. Algo tinha caído do meio da carteirinha. Um pequeno papel amarelo contendo três letras: ZLU.
Era a senha antiga.

Possível moral da história: Se estiver procurando algo, desista de procurar, que você acha.

Paralelamente... Contei os fatos para um amigo, que começou a rir ao meu lado:
“Imagine só...” – ele disse “Imagine se você fosse seqüestrado por assaltantes, que te obrigassem a sacar o dinheiro do banco. Você diria ‘Eu esqueci a senha... Era mais fácil lembrar de SIRENE’. Será que eles iriam entender?”

15 de jun de 2007

As razões do jogo, e do fogo...

Certa vez, quando eu ainda trabalhava no Super OW!, chegou ao escritório um parente (primo, acho) do Sr. Flávio. Eu estava atualizando o site, e ele perguntou para que time de futebol eu torcia. Respondi que não torcia por time nenhum, e ele me olhou como se eu fosse um alienígena que acabava de se materializar diante de seus olhos.
“Por quê?”, ele perguntou.
Respondi que nem todo o brasileiro era fanático por futebol, apesar de reconhecer que a maioria, realmente, era.

Agora, pensando naquela situação, cheguei à conclusão que a melhor resposta seria a devolução da pergunta, só que invertida.
“Eu é que pergunto: Por que você torce por um time de futebol?”

Seria para ter um assunto sobre o qual conversar? Um motivo para brigar? Uma razão para encher a cara?
Eu assisto futebol para ver belas jogadas, mas isso não exige que eu torça por um time específico. Isso só muda na Copa do Mundo, quando torço pelo Brasil, por razões óbvias...

Mas o ato de defender um time não se explica pelo país, estado ou cidade onde a gente vive. Se os paranaenses torcessem pelo time do Paraná, eu entenderia. Mas tá cheio de paranaense que torce pelo São Paulo, ou Corinthians... Não é, portanto, uma exaltação ao lugar de origem.

Por falar em exaltação, outra coisa que não entendo, é como o hino de alguns times consegue fazer sucesso, mesmo com uma letra um tanto quanto dúbia.

SÃO PAULO: “Salve o tricolor paulista...” [quer dizer que o time precisa de salvação? Os jogadores que se virem! É o trabalho deles...]

CORINTHIANS: “Salve o Corinthians...” [a mesma chorumela...]

SANTOS: “Agora quem dá a bola é o Santos!” [como assim? Pensei que o objetivo do jogo fosse tomar a bola, não dar a bola...]

Mas tem gente que, em lugar de futebol, prefere tênis-de-mesa, xadrez ou bilhar. Foi notícia aqui ontem... Um sujeito furtou uma mesa de bilhar, com tacos e bolas. Enquanto uns roubam no jogo, esse aí está tão viciado que rouba “o jogo” inteiro.

Acho engraçado quando essas coisas aparentemente impossíveis de acontecer... acontecem. No domingo, por exemplo, meu pai chegou em casa, depois de uma pescaria, e disse ter encontrado um grupo de amigos que teve a pescaria desgraçada. E não apenas porque não conseguiram pegar peixe algum...

É que, enquanto se preparavam para pescar, de algum modo, o Fusca que eles tinham deixado estacionado acabou pegando fogo! Por alguma razão, o motor ficou em chamas. E houve toda uma preocupação em apagar o fogo (até com areia) e chamar um guincho. Situação que tirou a alegria dos pescadores.

E na segunda-feira, ouvindo o noticiário no rádio, descobri que, no mesmo dia, outros dois veículos pegaram fogo aqui na cidade. Parece que foi um Gol, e um outro importado cuja marca não lembro. “Alguma falha elétrica”, sugeriu o radialista. Curioso que algo tão incomum aconteça com três carros no mesmo dia! Quando perguntam se acredito em coincidências, respondo que sim. Mas que, algumas, são mais coincidência que outras.

7 de jun de 2007

Saiu o resultado do “Concurso Maravilha Bizarra PG”!!

Com um pequeno atraso, o Universo e Afins divulga o resultado do concurso que elegeu o “Cocozão” como sendo o monumento mais bizarro da cidade de Ponta Grossa. Os jurados foram bastante exigentes, e a vitória foi disputada! É verdade que foram poucos participantes. Mas a opinião de cada um teve real importância aqui, e o Universo agradece a presença de vocês.

Alguns publicaram os comentários na página do regulamento do concurso, ao invés de escreverem no blog. Mas os comentários foram considerados válidos, e participaram da disputa. Entre os comentaristas, estiveram pessoas que eu conheço de longa data, e outras que eu fiquei feliz em conhecer.

Os comentários foram avaliados por três jurados em quatro categorias: clareza, criatividade, humor e informação.

Sem mais atrasos, aqui estão os vencedores...

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1º Lugar: LÍDIA PAMPANA BASOLI

(Foi merecido, Lídia! Fez referência à história local, ao citar rapidamente a lenda das pombas que deram origem ao nome da cidade. Comentou algumas das coisas curiosas que podemos encontrar em PGcity. Compartilhou conosco a história da caneta Bic com quibe, que eu não conhecia. Usou a ironia que lhe é particular. Falou também do Parque Ambiental com poucas árvores. O prefeito até resolveu plantar novas mudas por lá... Será que ele freqüenta o Universo e Afins? Parabéns, Lídia! Vai receber o livro “Dias de Cachorro Louco – Trinta História de Nova York”, de Edney Silvestre.)

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2º Lugar: ALCEU BORTOLANZA

(Eu queria ter um vocabulário extenso como o seu, e escrever esse parágrafo aqui apenas usando palavras com a letra “C”! O Alceu escreveu um comentário extenso apenas com palavras começadas com a letra C! Eu fiquei de cara! Mais impressionado eu fiquei, quando percebi que ele contava a história resumida da construção da Catedral. Só que ele se enganou de endereço, e publicou o comentário na página do regulamento do concurso, e não no blog. Quase que seu comentário passa batido! Mas eu vi, os jurados avaliaram, e você vai levar pra casa – ou pro sebo, no caso dá na mesma – um exemplar de “O mistério do fiscal de canos”, de Glauco Rodrigues Corrêa. Espero que ainda não tenha lido esse.)

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3º Lugar: ALINE PIGATTO

(Aline exteriorizou toda sua indignação no comentário! Concentrou a observação no comportamento dos ponta-grossenses diante dos monumentos bizarros da cidade. E citou um que eu nem tinha percebido: a “coxinha de frente à rodoviária”! Registrou a constante ameaça que o Cocozão parece oferecer, com sua aparência bizarra-inocente. E é mais uma a suspeitar que Casseta & Planeta vêm à cidade para mostrar o que temos aqui, de mais esquisito. Aline fica com o livro “Cronistas do Estadão”, organizado por Moacir Amâncio.)

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Os vencedores serão contatados por e-mail, orkut, MSN, telefone ou sinal de fumaça nos próximos dias, para receberem os livros.

30 de mai de 2007

Uestóóópe!

"Concurso Maravilhas Bizarras"! Participações encerradas!
O Universo e Afins divulga os resultados nos próximos dias...

29 de abr de 2007

Concurso "Maravilha Bizarra PG"!!!

O Universo e Afins promove o concurso humorístico-reflexivo “Maravilha Bizarra PG”. Para participar, conheça abaixo alguns dos monumentos mais curiosos da cidade de Ponta Grossa, escolha qual é a “maravilha bizarra” mais marcante, e deixe isso claro em um comentário. Não esqueça de deixar também seu e-mail junto ao texto. Os participantes concorrem a livros. (Confira o regulamento completo clicando aqui!)


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1 – O Cocozão Suspenso de Uvaranas

Desde sua criação o monumento já recebeu vários apelidos da comunidade ponta-grossense. Apesar de também ter sido chamado de “quibe”, o apelido de “cocozão” foi aquele que predominou. Localizado em frente ao campus da Universidade Estadual de Ponta Grossa, a formação está bem no meio de uma rotatória no bairro de Uvaranas.

Há várias versões sobre o projeto inicial. Uma delas diz que o objetivo era que o monumento lembrasse um dos maiores símbolos paranaenses – a araucária. Por outro lado, o objeto deveria ficar girando no alto da haste metálica, o que torna menos plausível tal explicação. Além disso, há quem afirme que a idéia original era que jatos esguichassem água de baixo para cima, em direção ao objeto, ocultando assim a haste metálica, fazendo parecer que o “cocozão” estivesse flutuando. Escolha sua versão preferida.

2 – A Casa com Três Esquinas

Um escritor certa vez disse que, quando criança, morar em casa de esquina era sinônimo de status para o morador, pois significava viver em duas ruas diferentes. Em Ponta Grossa existe uma casa que ocupa um quarteirão. Ou seria um “quarteirinho”? O fato é que a casa possui três esquinas, formadas pelo encontro entre a Rua Dr. João Cecy Filho com a Rua Oliveira Lima e a Avenida General Carlos Cavalcanti. Se casa com três esquinas confere status, tem coisa errada aqui. Atualmente, ninguém mora na casa.


3 – O Mercadão Municipal

Inaugurado em 1969, o Mercado Municipal fica na região central de PG, e deveria servir como centro comercial. Entretanto, o edifício foi e está praticamente abandonado. Uma pena, pois a arquitetura é interessante. Em seu interior, uma rampa substitui as escadas, e uma clarabóia ilumina uma espécie de altar montado logo abaixo.
É verdade que ali ainda funcionam algumas empresas, uma lanchonete, e um açougue que emite o característico ruído de lâmina elétrica cortando carne. Mas a ausência de iluminação e a falta de segurança afugentam a clientela. Atrativo ali é o almoço oferecido na lanchonete. A comida é simples, mas custa apenas R$ 2, 50, com direito a cafezinho servido em copo de vidro.

4 – O Obelisco do Ponto Azul

O Ponto Azul é um espaço na Praça Barão do Rio Branco onde funciona um pequeno café, uma loja de flores e uma banca de revistas (que já fechou). O lugar foi construído em 2004 para lembrar que ali, no passado, existiu um ponto de encontro onde os ônibus paravam e a juventude se reunia.
Mas a construção de um obelisco exatamente no lugar onde estava um módulo policial causou polêmica. Se o espaço ficou mais bonito, em compensação ficou menos seguro. Na parte de cima do café foi colocado um painel decorado com desenhos que representam o passado de Ponta Grossa. Também foi pregada uma placa metálica contendo um texto do cronista Vieira Filho. Mas vândalos arrancaram a placa e picharam o painel. Ao menos o Ponto Azul voltou a ser referência como ponto de encontro durante o dia.

5 – O Monumento ao Nada

Um dos mais misteriosos monumentos de PG quase não é notado pelos transeuntes. Instalada atrás do Ponto Azul, na Praça Barão do Rio Branco, uma placa de concreto se ergue na vertical e ocupa posição de destaque na praça, sobre dois degraus. Mas não há, e parece que nunca houve, placa indicando a razão de sua existência.
Seria uma homenagem a alguém? Homenagem que acabou sendo esquecida com o tempo? Ou talvez um relógio de sol? Seu formato parece ter um propósito, pois a base é um pouco irregular se comparada com o topo. Hoje é um local onde velhinhos sentam-se ao final da tarde para chupar picolé de groselha.

6 – A Catedral Inacabada

A atual Catedral de Ponta Grossa veio substituir a antiga, que ficava no mesmo local, no ponto mais alto do centro da cidade. Mas o início de sua construção começou em 1979.
Vinte e oito anos depois, ainda não está terminada.
Apenas agora, em 2007, começaram os trabalhos de revestimento das torres da Catedral. Sua arquitetura também foi bastante criticada. Há quem ache linda, e existe quem diga que ela não se enquadra em nenhum estilo, constituindo assim uma aberração arquitetônica. A esperança é que ela esteja terminada até o próximo aniversário da cidade, em 15 de setembro de 2007.

7 – As Ruínas da Rodoviária

Durante muito tempo o terminal rodoviário de Ponta Grossa foi alvo de críticas. As paredes descascadas, o teto cheio de goteiras, a fiação elétrica ameaçadora e a calçada cheia de buracos são apenas alguns dos itens que tornaram a rodoviária pouco admirada por ponta-grossenses e viajantes que por ali passaram.
Atualmente, a antiga rodoviária está sendo demolida para a construção de outra. O que existe é um pedaço do prédio, onde os ônibus transitam. Antes a fachada trazia a inscrição “Rodoviária”. A ironia do acaso fez com que a demolição deixasse intacta apenas a inscrição “ria”. Mas seu significado é uma questão de interpretação.

8 – O Espelho D’água

O Parque Ambiental Manoel Ribas é conhecido por possuir poucas árvores. Mas, é preciso admitir, existem algumas árvores de romãs em volta... Curioso mesmo é encontrar o espelho d’água sempre seco.
Nos fins de semana o espaço é ocupado por dezenas de cães de rua, ou por crianças que encontram ali o melhor espaço para andar de bicicleta. Já que o excesso de ladeiras e a ausência de espaços adequados tornam difícil a prática de ciclismo, o espelho d’água serve de ciclovia.

9 – A Rua Invertida

Ponta Grossa não tem muito em comum com a cidade de Londres. Mas existe um trecho de rua onde os veículos dirigem no sentido inverso: vão pela esquerda e vêm pela direita. Trata-se de uma via criada especialmente para os ônibus que entram e saem do terminal central.Fora isso, Ponta Grossa e Londres têm pouco em comum...
A pontualidade de seus habitantes é a mesma do restante dos brasileiros. Os táxis são brancos. A última cabine telefônica era azul, e foi retirada há cerca de quatro anos. E o mais próximo de um Big Ben seria o relógio da Biblioteca Pública Municipal, que fica na antiga estação de trem... Mas seus ponteiros estão parados há tempos.
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18 de abr de 2007

Boato causa rebuliço no supermercado

Possível reciclagem de leite confunde consumidores

A boa Teoria da Conspiração é aquela que não pode ser provada, nem desmentida com facilidade. Mas, muitas dessas Teorias começam com simples boatos, que se espalham com velocidade assustadora, e nem dão tempo para serem desmentidos.

Há pouco mais de um mês fui ao supermercado e, quando ia apanhar uma caixa de leite, tive que esperar a indecisão do sujeito que estava à minha frente. A maioria das pessoas simplesmente olha a marca e o preço do produto. Outros, mais atentos, reparam na data de validade. Mas esse cidadão fazia mais que isso... tirava uma das caixinhas de leite de dentro do pacote ainda lacrado, e olhava com extrema atenção o fundo da embalagem.
Quando me viu ao seu lado, procurou justificar a atitude:

_Está vendo esse número aqui embaixo da caixa de leite? – perguntou, apontando para um número 5 – Significa que o leite voltou para a fábrica 5 vezes, foi reciclado, e trazido de volta até a prateleira do mercado.

E, depois da explicação, devolveu o leite com número 5, e levou outro que tinha número 2 embaixo da embalagem.

Eu jamais tinha ouvido falar naquela história. Leite reciclado? Seria possível? Só mesmo falando com um técnico para saber se era verdade. Mas, desde então, comecei a reparar que as caixas de leite traziam sempre um número (entre 1 e 5) no fundo da embalagem. Podia ser verdade. Eu podia estar bebendo leite “velho” sem saber.

O fato é que essa informação foi se espalhando depressa. Tão rapidamente, que deve ter chegado até a gerência da empresa que fabrica embalagens de leite longa-vida. E, nos últimos dias, as caixas de leite começaram a ser vendidas junto com um folheto que desmente, de forma quase irritante, o boato que se espalhou pelos supermercados.


O panfleto explica que a numeração contida na embalagem serve apenas para identificar de qual trecho da bobina de papel saiu a caixa que o consumidor tem nas mãos. Seria um meio para garantir o controle de qualidade das embalagens.

O folheto termina dizendo que “O Leite Longa Vida é inspecionado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e pela Vigilância Sanitária e NÃO pode, por lei, ser reprocessado”.

Continuei desconfiado e, para sanar a dúvida, tive que ver pessoalmente uma dessas bobinas de papel, de onde saem as embalagens. E, não é que é verdade! Cada bobina possui vários números que, aparentemente, não têm relação com o conteúdo da caixa.

Essa história me fez lembrar de outra Teoria, surgida no final da década de 1980. Quando lançaram o videogame Atari, alguém espalhou o boato de que o brinquedo estragava o aparelho de televisão.

Não fiquei sabendo de nenhum televisor que pifasse por causa do videogame. Mas sei de inúmeros jovens que só puderam jogar pacman em televisores antigos, porque “na TV nova da sala, nem pensar”, diziam os pais.

Também existe a teoria que diz que a tecnologia do Atari foi trazida do espaço por alienígenas. Mas essa ainda não foi desmentida.

31 de mar de 2007

Há mais mistérios entre o céu e a terra...

Não muito longe do centro da cidade de Ponta Grossa fica a Rua Padre Nóbrega, que se estende por diversos quarteirões, desde o colégio Instituto de Educação, passando em frente ao Estádio Germano Krüger – o Operário, para terminar diante do Colégio Professor Colares, numa região conhecida popularmente como “Curva do diabo”.

Se medíssemos a distância entre uma extremidade e outra da rua, minha casa estaria localizada aproximadamente na metade desse trajeto. Gosto de viver aqui. Não é região muito movimentada, nem monótona demais – o ônibus passa em frente. Não é rua de asfalto, mas também não é de terra – é de calçamento. E, de vez em quando, o lugar não foge à regra e, como no resto da cidade de Ponta Grossa, coisas estranhas acontecem.

Aliás, assim como este local da rua pode ser considerado ponto de encontro entre suas duas extremidades; do mesmo modo a região serve como ponto de encontro de outros extremos. Daqui posso ver a creche administrada por irmãs religiosas, e também uma casa suspeita onde a polícia já esteve diversas vezes fazendo apreensões e verificando denúncias.

Foi aqui que vi uma gaiota se desprender de um carro, e quase atropelar duas mulheres e uma criança parada na esquina. Aqui, ao alcance da vista estão árvores altíssimas e, por trás delas, acho que existe um heliporto, porque já vi uma dessas aeronaves pousando naquela direção. Há crianças brincando de bicicleta, marrecos gritando e (até pouco tempo) galos brigando.

Aqui já teve incêndio, suicídio, atropelamento, macumba, briga. Já acompanhei shows pirotécnicos, explosão de transformador em poste da rede elétrica, já vi neve caindo. Também foi daqui, de meu quintal, que acompanhei o movimento de pelos menos três OVNIs, um dos quais ficou planando em cima da casa de minha vizinha.

Ainda assim, nada me preparou para aquilo que presenciei ontem à noite...

Aproveitando o pretexto do calor que fazia à noite, fiquei em frente de casa olhando as estrelas (hábito antigo), no local exato em que dois postes servem para encobrir a claridade das lâmpadas de outros dois postes. Único ponto em que as luzes artificiais permitem que eu veja melhor as estrelas.

Então, um barulho distante começou a aumentar. Um ronco. À medida que o som se tornava mais intenso, também o chão começava a tremer. “Um caminhão se aproxima”, pensei. Mas o ronco foi ficando mais forte. “Um trator”, pensei de novo. Mas aumentou o barulho. “Um tanque de guerra?”, pensei, chegando mais perto.

Então surgiu uma camionete saveiro branca. Calma... não era ela que fazia esse barulho, e sim o veículo que vinha logo atrás. Com cerca de três metros de altura (quase encostando na fiação elétrica) e ocupando os dois lados da Rua Padre Nóbrega, o monstro passou lentamente diante de meus olhos. Nada menos do que uma colheitadeira!

Fiquei bobo. Devo ter ficado de boca aberta por um tempo, até decidir ir ao portão e rever aquilo, para ter certeza de que meus olhos não se enganavam. E ainda estava lá.

A máquina agrícola foi se afastando em direção à avenida que dá acesso às rodovias, e devagar o ruído foi desaparecendo. Olhei ao redor. Nenhum vizinho com quem eu pudesse comentar o assunto mais tarde. Até agora fico me perguntando, o que, em nome de Deus, uma colheitadeira fazia aqui? De onde ela veio e para onde iria? É isso o que me perturba. Não moro assim tão perto da área rural, apesar das galinhas e marrecos.

O vulto de três metros se afastava, a traseira sinalizada apenas por duas pequenas luzes vermelhas perto da cabine. Aquele rolo que parecia um bobs gigante atravessando os dois lados da rua e, não sei como, sem tocar as laterais do meio-fio.

Minutos depois, passava o ônibus, vindo da direção oposta. Teriam se encontrado os dois veículos? Qual dos dois teria recuado? Mais de dez anos vivendo nesta região, e eu já vi algumas coisas estranhas. Entretanto, esquisito mesmo é perceber que acreditei mais na visão dos três OVNIs do que na visão da colheitadeira.

22 de fev de 2007

Borboletas com três asas

As coincidências me perseguem. Pelo menos é nisso que acreditam alguns de meus amigos. Pessoalmente, acho que sofro de uma capacidade anormal para observar detalhes que a maioria não percebe. As coincidências estão sempre lá, só falta alguém para enxergá-las.

Por exemplo, aluguei um filme para assistir no domingo: “Efeito Borboleta”. Várias pessoas já tinham dito para eu assistir, então resolvi obedecer. O filme começa enunciando a Teoria do Caos. Segundo essa teoria, o menor detalhe pode determinar grandes acontecimentos. Não lembro da frase de forma exata, mas o exemplo do filme diz que o vôo de uma borboleta pode causar uma tempestade do outro lado do mundo. Ou algo parecido.

Eu já tinha ouvido falar na idéia. Mas meu irmão, que via o filme junto comigo, disse que nunca soubera de tal teoria. Vimos o filme pela manhã e, à tarde, fomos assistir “Jurassic Park”, que estava sendo exibido na TV Globo. E não é que o personagem do filme de dinossauros cita, e explica, a mesma teoria?!

Muita coincidência. Eu já tinha visto Jurassic Park, mas não lembrava disso.

Outra... Como não sou fã de carnaval, passei esses dias lendo um livro: “007 – Cassino Royale”. Quis ler o livro para comparar com o filme que foi lançado no cinema há mais de um mês. Descobri que havia várias diferenças em relação ao filme. Mas, é claro, assim como no filme, o espião James Bond também passa boa parte do tempo jogando cartas, mais precisamente um jogo chamado “bacarat”.

Eu não gosto muito de jogar cartas e, pra falar a verdade, nem sei jogar. Mas achei muito interessante a explicação que o livro traz, sobre como funciona o jogo. O fato é que agora, quando fui iniciar esse texto para o Universo e Afins, descobri, meio que por acaso, que meu carnaval de 2007 não foi muito diferente da mesma época em 2006.

No período de carnaval do ano passado (e isso eu sei porque escrevi neste blog) eu estava na casa de um amigo assistindo TV a cabo. E adivinha o que eu estava assistindo? Um campeonato de pôquer! Portanto, passei os dois últimos carnavais envolvido em jogos de cartas.

Quem vê pensa que sou viciado no jogo.

*****

E continuam acontecendo coisas bizarras na sala 36 do Edifício Dr. Elizeu, onde funciona a modesta redação do site Super OW! Ontem, logo após a chuva que caiu à tarde, eu estava sozinho na sala, publicando mais uma matéria e ouvindo o som da TV, que apresentava a votação das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Houve uma queda de energia, meu computador apagou, a TV desligou e a energia estava de volta um segundo depois. Mas não consegui religar o CPU. Tive receio de que o aparelho tivesse queimado algum circuito.

Entretanto, o que realmente me deixou intrigado foi o comportamento do televisor. Quando a energia voltou ele ligou outra vez, e permaneceu fora do ar, com aquele chiado irritante. Fui reduzir o volume do áudio, mas o botão não funcionava. Tentei mudar de canal, e nada. Tentei mexer na antena, nenhuma mudança. Aí veio o mais assustador...

Apertei a tecla on/off... e o aparelho não desligava! Peguei o controle remoto, tentei a mesma coisa, e nada. Fui desligar da tomada e... Ah, aí sim... Se não desligasse, aí seria algo realmente extraordinário.

Liguei de novo à tomada, e o aparelho continuava com os mesmo sintomas estranhos. Então, deixei desconectado da tomada. Quando Seu Flávio chegou ao escritório, expliquei a ele o comportamento dos aparelhos. O CPU ele conseguiu reativar por meio de uma chave que tinha na parte de trás do equipamento. Tudo bem...

E a TV... ele só ligou na tomada e o televisor funcionou normalmente. Depois do expediente, quando eu saía da sala, fui desligar o televisor. Apertei a tecla, e o aparelho desligou, normalmente.

Por isso é que eu não duvido de mais nada. Já vi maçaneta dando choque, televisor que não desligava, água virando cachaça e descarga de banheiro funcionando sozinha. Que tipo de borboleta pode ser responsável por esse tipo de coisa?

13 de fev de 2007

Do alambique ou do Ribeirão?

Parem as prensas!
Não sei se algum jornalista já gritou isso de verdade, ou se é apenas coisa de Hollywood. Afinal, Sherlock Holmes também nunca disse “elementar, meu caro Watson”. A expressão só existe em filmes e desenhos animados.

No meu caso, ordenar que parem as prensas está ainda mais complicado. Trabalhando num site de notícias, no início do século XXI, nem há prensa. Na verdade, até mesmo os furos de reportagem de antigamente estão difíceis de serem descobertos, ficando difícil achar um pretexto para o grito.

Mas uma coisa continua igual... “Parem as prensas” continua sendo uma frase genuinamente jornalística, mesmo que os filmes tenham sido os responsáveis por isso. E sendo assim, me sinto no direito de berrar essa exclamação quando coisas absolutamente anormais acontecem diante dos meus olhos ou, no caso, de meu olfato e paladar.

Sim, porque ontem algo estranho aconteceu. Não renderia furo de reportagem, a menos que fosse no antigo Programa do Ratinho (não no novo “Jornal da Massa”, apresentado no SBT por um tal de Carlos Massa). Se fosse num desses programas sensacionalistas, o Padre Quevedo seria chamado para dizer que “Esto nô ecxiste!”

Na ausência do desmistificador do paranormal, a coisa toda permanece obscura. O fato é que ontem, ao chegar na redação, depois de alguns minutos de conversa com o Rodolfo, programador do site, ele veio com o comentário:
_Nossa... e esses dias, que eu fui tomar um gole d’água ali e senti gosto de cachaça!

Ralph estava na sala também. Nós dois olhamos para o filtro de água, com sua aparência azul-inocente, e soltamos uma boa gargalhada.

O filtro de água é novidade para mim. Na semana passada eu não conseguia tirar água dali. Comecei a pensar que era exigido algum tipo de técnica especial, como para ordenhar vacas. Na ocasião, Seu Flávio deu risada: “Mas vocês jornalistas, tá louco viu... Só sabem escrever, mesmo! Tem que dar uma sacudida no filtro. A água foi trocada há pouco tempo, deve ter entrado ar, ou algo assim”.

E, realmente, bastou uma sacudida e a água voltou a escorrer para o copo de plástico. Aos poucos comecei a perceber que o filtro de água, assim como um computador, um carro ou um grampeador, possui suas esquisitices e particularidades. Mas nada comparado ao que aconteceu no início da tarde de ontem.

Depois do almoço, eu e Ralph voltamos à redação. E resolvi tomar um pouco d’água. Mas só depois do primeiro gole é que eu senti que algo estava errado. Porque na escola a gente aprende que a água é insípida, incolor e inodora. E aquela ali só estava incolor. Cheiro e sabor estavam muito mais próximos da aguardente. Sim, cachaça!

De imediato pensei em algum tipo de sabotagem. Alguém devia ter misturado cachaça à água mineral. Mas parecia não haver como. Colocar aquele filtro já é complicado, porque alguém se daria ao trabalho de fazer isso? E com que objetivo?

Depois pensei que algum produto na água poderia tê-la feito fermentar durante estes sete dias. Mas, que produto? Estamos falando de água... engarrafada.

Sendo assim, o mistério permanece, ao menos por enquanto. Como a água pôde virar cachaça? Milagre? O fato é que cheiro e sabor parecem ficar mais fortes a cada momento. Fica registrado apenas o comentário de Ralph: “Esperar mais alguns dias, daí a gente vai dar uma festinha...”

*****

...Depois de terminada esta crônica, estava me preparando para publicá-la, quando Seu Flávio entrou na sala, e aproveitei para falar a ele a respeito do fenômeno da transmutação da água em cachaça:

_Seu Flávio, já viu o que aconteceu com a água?
Ele olhou em direção ao filtro:
_Não vi nada. O que aconteceu?
_Tá com um gosto meio estranho... – falei
_Ah, é...? Ah, sim, claro... Deve ser porque eu lavei o filtro com álcool na semana passada, antes de trocar o garrafão.
_Lavou com álcool?
_Foi. A água deve ter pego o gosto e o cheiro.
_Mas, então porque o gosto demorou tanto pra chegar à água? Na semana passada a água ainda estava boa.
_Ah, bom... aí já é outro mistério...


7 de fev de 2007

Me recuso a respirar menos

Essa história de aquecimento global já está enchendo... e não estou me referindo ao aumento do nível dos oceanos. Todos os dias os jornais bombardeando informações catastróficas sobre ilhas que vão desaparecer, animais que vão entrar em extinção, calor abrasador e geleiras derretendo.

Dizendo assim, parece que não ligo a mínima, e que nem acredito em tais previsões. Mas minha indignação tem outra razão. Não tenho nem dinheiro pra ficar gastando com desodorante aerossol, então nem posso liberar muito CFC. Não tenho o suficiente para comprar um automóvel movido a energia solar ou biodiesel e, se tivesse a grana, seria uma complicação encontrar tal veículo. Não é qualquer concessionária que exibe esses carros nas vitrines. E a maior parte do gás carbônico que jogo na atmosfera vem de minha respiração.

Aí vem o noticiário e fica dizendo que a culpa é minha, que eu – o homem – libero muito gás carbônico, que fico fazendo queimadas na floresta, que não respeito o meio ambiente e blá blá blá...

Raios... Essas informações deviam sair do relatório e ir direto para o legislativo de cada país. Deveria obrigar os fabricantes a reduzir a poluição liberada pelos automóveis, tornando as fontes de energia alternativa uma alternativa, de verdade. Porque até agora são uma alternativa inalcançável.

Minha cidade só possui ônibus que liberam fumaça preta altamente poluidora. De que adianta saber quais são os combustíveis menos prejudiciais?

O noticiário, nesse sentido, só está servindo para espalhar o terror na mente de pessoas mais simples. Minha vizinha, há poucos dias, revelou sua preocupação com a segurança da filha. “Ela vai morar em Blumenau, e eu vi no jornal que a cidade vai ser inundada com o aumento do nível do mar”, disse.

E quanto tempo vai durar essa insistência no tema? Um mês? Dois meses, no máximo. Depois os jornais param de falar a respeito. Os presidentes que nunca fizeram muito sobre o meio ambiente, vão continuar fazendo pouco. Não é agora que vão mudar de atitude. Num tempo em que guerras são provocadas por causa de petróleo, quem vai se preocupar com a emissão de poluentes pela queima de derivados desse produto?

Quando eu estava na escola fiquei feliz ao saber que o petróleo era uma fonte de energia não-renovável. Significava que logo acabaria, e todos estariam obrigados a usar carros movidos a água (tenho certeza que já ouvi falar sobre isso, não é ficção). Mas, admitindo o acerto do relatório das catástrofes, o planeta vai acabar antes do petróleo.

Não é conformismo... só estou numa situação que pouco pode melhorar na preservação ambiental. O terreno de minha casa tem mais árvores que a maioria da vizinhança. Nosso carro fica a maior parte do tempo na garagem, porque combustível também não é barato. O escritório onde trabalho nem tem ar-condicionado.

Enquanto isso, mesmo com a instalação de lixeiras novas no centro da cidade, muitas pessoas preferem jogar o lixo nas ruas. Sobre isso, que é bem mais simples, não se fala, nem se faz muita coisa. Raios...

15 de jan de 2007

Sorte que não apostei!

Na semana passada muita gente falou a respeito da mega-sena acumulada. E muita gente participou do sorteio. Eu, mesmo sabendo que não tinha participado sequer com um bilhete, dei graças a Deus porque não ganhei.

É verdade que, por duas ou três vezes, já me senti atraído por bingos, especialmente quando o prêmio era um carro. Mas, ainda assim, os jogos nunca exerceram sobre mim aquele fascínio que consegue motivar as pessoas a fazerem volume nas filas de lotéricas em véspera de sorteio de mega-sena.

Mas, dessa vez, um fato específico me fez ficar ainda mais longe das filas: o sujeito que ganhou o segundo maior prêmio da mega-sena foi assassinado no domingo, dia 7 de janeiro. E até quem não costuma fazer jogos pode apostar que o motivo foi o dinheiro. Por coincidência, o prêmio que o cidadão havia conquistado (em 2005) era de cerca de R$ 52 milhões, um valor muito próximo daquele que foi o prêmio da semana passada.

Agora surgem várias reportagens na televisão a respeito do homem assassinado. Por acaso, ou não, o nome da vítima era René Sena. Teria ele mudado o sobrenome depois de receber o prêmio, ou era coisa do destino?

O fato é que os jornais passaram a semana inteira divulgando que a mega-sena estava acumulada. Os telejornais me faziam perder tempo com suas reportagens, nas quais os entrevistados falavam sobre suas esperanças de ganhar todo aquele dinheiro. Um dizia que sempre apostava no número do próprio sapato, outro falaria sobre a data do aniversário... Outro dizia que, com mais de cinqüenta milhões, compraria uma casa. Um ótimo exemplo de como a entrevista pode ser desprovida de informação útil.

O Jornal Nacional trouxe a reportagem sobre René Sena. Mas a história só foi exibida no dia 10 ou 11, não lembro bem. Por que será que o jornal demorou tanto para divulgar a notícia? O jornal mais assistido no país aguardou quatro dias para noticiar um assassinato!? Mais uma estranha coincidência: a matéria sobre René foi ao ar justamente depois que o prêmio da mega-sena foi conferido a um apostador de Goiás que, sozinho, ganhou a fortuna.

Teorias da Conspiração à parte, só sei de uma coisa: cinqüenta milhões é muito dinheiro. Ganhar um carro já é motivo para o surgimento de muita inveja, imagine uma quantia como essa. Eu queria ver um repórter perguntando a um apostador se ele não tinha medo de ser morto depois de ganhar na mega-sena. Se ele não tinha receio de ser perseguido pelos próprios familiares, por causa do dinheiro. Eu devia ter feito tal reportagem, mas às vezes idéias como essa só surgem num momento em que não podem mais ser colocadas em prática. Mas, outras mega-senas acumuladas virão, aguardem...

Na terça-feira meu pai veio me dizendo que queria um favor: “faça pra mim uma aposta na mega-sena”, disse. E completou: “...o problema é ter coragem de enfrentar a fila”.
“O problema é ter coragem de jogar”, respondi. Pode ser maluquice, mas eu realmente tinha receio de ganhar o maldito sorteio, e não fiz a aposta.

No dia seguinte fui ao supermercado e, como tinha recebido uns cupons para sorteio de prêmios, participei de um pequeno jogo. Consistia em enfiar a mão numa máquina, e retirar de lá um bilhete que traria uma inscrição qualquer. E não é que ganhei uma batedeira de bolo?!

Recebi o prêmio e fui pra casa. Só algum tempo depois é que pensei: puxa vida, sorte que não apostei na mega-sena...

2 de jan de 2007

Meia culpa

Continuo achando que a vida é mais interessante graças a alguns pequenos mistérios que teimam em existir. Coisas que, boas ou ruins, insistem em acontecer por razões aparentemente inexplicáveis. Um elemento, por exemplo, é praticamente imutável: a cada ano, no período do Natal, fatalmente alguém me presenteia com meias.

Fico me perguntando por que, raios, isso é uma constante. Aliás... Se for analisar meu histórico, não será difícil descobrir que já ganhei meias durante aniversários e, num passado um pouco mais distante, no Dia da Criança. Talvez venha dessas épocas mais longínquas essa minha aversão às roupas, como presente.

Mas, por que meias? Lembro de quando era ainda criança e esperava ganhar um carrinho ou video-game. Mas abri uma caixa de papelão e dei de cara com uma camisa verde-escura linda, mas desinteressante. Na ocasião eu nem queria usar o presente, nem saber se servia ou não. Por insistência de meus pais, acabei vestindo a camisa, para satisfação das visitas que tinham se preocupado em comprar a peça de vestuário. Hoje, observando aquele dia com o olhar crítico e exterior do cientista (que não sou), acredito que minha conduta deveria ter sido outra.

Talvez a culpa seja minha, ao menos em parte. Quem sabe, se eu tivesse recusado o presente e dissesse, com todas as letras, que esperava ganhar algo bem mais simples, barato, com o que eu pudesse brincar... Bem, talvez assim eu parasse de ganhar meias. Eu devo ter cara de quem precisa de meias. Será que alguém já me viu usando uma meia furada, ou suja, ou velha?

Só que depois que a gente cresce, percebe que o presente tem outro significado, além daquele que conhecemos como crianças. É mais do que um item utilitário ou divertido. É um símbolo, uma indicação de que aquela pessoa gosta de você, e lembrou de comprar alguma coisa para te agradar. Ainda assim, sempre tive certo receio quando essa pessoa opta por comprar uma roupa.

Por dois motivos principais: primeiro, porque é um risco. A gente nunca sabe ao certo a preferência da pessoa, o tamanho da calça, a cor da camisa, a marca da meia. Segundo, porque há muitas outras coisas mais originais, e que tornam mais interessante a tarefa de adivinhar o conteúdo do embrulho colorido.

A época de Natal pode ser um período de muitos risos. Mas boa parte deles, tenho certeza, são amarelos e forçados, devido a um pacote bonito com um presente pouco interessante. Nesse sentido, as festas de amigo-secreto são o exemplo perfeito. Servem para demonstrar o quanto uma pessoa pode desconhecer totalmente a outra, ou reduzi-la a apenas uma informação.

Entre colegas de trabalho, amigos de universidade ou parentes a coisa é sempre muito parecida. Uma vez, numa dessas brincadeiras, eu tinha a difícil tarefa de presentear um amigo, gente-fina, mas com quem eu raramente conversava. Por acaso, descobri que ele gostava de jazz. Comprei um livro em cuja história tinha um sujeito que tocava jazz. Pronto! Uma pessoa e um presente, reunidos por uma única informação. Nunca soube se ele gostou de verdade.

Dia desses, conversando com colegas, chegamos à conclusão de que nós homens gostamos basicamente de ganhar aparelhos eletrônicos e seus derivados: CDs, DVDs, MP3 e coisas parecidas. Mas, independente disso, é preciso conhecer um pouco sobre a pessoa.

Eu gosto muito de ler e escrever. Mas poucas foram as pessoas, até hoje, que parecem ter percebido isso. Quase posso apontar nos dedos de apenas uma mão o número de pessoas que me presentearam com livros. A maioria também não sabe que eu gosto de ganhar coisas simples e baratas, como revistas em quadrinhos.

Mas o Natal já passou, chegou o ano de 2007 e, por que devo me preocupar com isso? Ora, porque daqui a pouco é Natal de novo... E eu vou ganhar meias outra vez! Me dá um gibi com 14 páginas, ao custo de um real (na verdade, se parar pra pensar, os gibis estão cada vez mais caros), e eu vou sorrir que nem o Sílvio Santos.

Justiça seja feita, já ganhei roupas muito boas. Mas justamente de pessoas que não precisavam dar presente nenhum. Pessoas cuja presença já é um presente, ideal, com a cor e a medida certa. Felizmente, essas pessoas existem.

Quanto às meias... Puxa vida, até a palavra parece estar pela metade!