10 de out de 2011

O que mantém o mundo um bom lugar

Um dos poucos privilégios que tenho como jornalista da seção cultural / entretenimento / social do jornal é que de vez em quando surge a possibilidade de acompanhar eventos que, normalmente, eu não poderia.

Foi assim que nesse domingo pude assistir, no Cine-Teatro Ópera de Ponta Grossa, à bela apresentação da Orquestra Sinfônica Philips, que iniciou aqui sua breve turnê pelo Brasil (segue depois para Curitiba e São Paulo). O grupo de dezenas de músicos veio da Holanda, numa parceria com a Associação Parque Histórico de Carambeí, e tive acesso a dois convites que me permitiram ver o show ao lado de minha namorada Priscila.

Sempre fico com receio quando a levo para algum evento cultural. Nem sempre a atração agrada, e às vezes nem eu me sinto satisfeito com algumas coisas. Estou me recusando temporariamente a ir ao cinema devido ao grande número de decepções, por exemplo.

Mas, dessa vez, posso dizer que o espetáculo valeu o tempo investido. Enquanto via e ouvia tudo, me vieram pensamentos filosóficos. É que eu observava com atenção a beleza da melodia e a elegância dos músicos. E, ao mesmo tempo, recordava a grande quantidade de desgraças que ouço todos os dias, trabalhando no jornal. São mortes, assassinatos, estupros, assaltos. Tudo provocado por pessoas não muito diferentes daquelas que ouviam a música, ou a apresentavam naquele instante.

Poderia um assassinato ser orquestrado por um daqueles que estava no palco, apresentado o que há de mais belo no ser humano: a criação artística? E teria eu o direito de apreciar aquela beleza toda, sabendo que tanta coisa ruim acontece no restante do mundo, ou mesmo do lado de fora do teatro?

Mas a minha mão estava sobre a mão da Pri. E a música insistia em tocar. Então a melodia e o momento bom prevaleceram, e esqueci do resto. É preciso esquecer o que há de ruim, de vez em quando, para perceber o que ainda há de bom. Espero poder sempre me concentrar no que há de bom, para não cair no erro de me tornar tão ruim quanto tudo que mais detesto. E a música segue.