6 de nov de 2013

O Especialista

Semana passada acordei e, ao sentar na cama, percebi uma sensação incômoda no ouvido direito. Reparei que o sintoma surgia cada vez que eu me levantava ou abaixava. Comecei a recuperar meu histórico de enfermidades que, felizmente, [ainda] é reduzido, e julguei que poderia ser indicativo de que minha sinusite alérgica estava de volta.

É que, há quase dois meses, peguei um resfriado nos primeiros dias de minhas férias. Tratei com xaropes e ignorância, e acabei julgando estar curado. Mas, agora, observando sintomas, notei outros problemas. A começar pelo número exagerado de vezes que passei a assoar o nariz, crises de espirro diárias e sensação de congestão nasal.

Somado a isso, meus óculos pareciam comprimir os seios (ui!) da face na região do nariz, justo o local normalmente afetado pela sinusite. E imaginei que estava um pouco inchado, indicando inflamação.

Sem alternativa, e tendo adiado isso por quase 60 dias, precisei ir ao médico nessa terça-feira. Mas, diante de um dos melhores especialistas em pneumologia da cidade (o mesmo que diagnosticou minha sinusite dois anos antes) me senti ainda mais ignorante. Na verdade, a consulta foi humilhante, aviltante, degradante.

O médico perguntou quais sintomas eu tinha, e narrei basicamente o que está descrito aqui nos primeiros parágrafos. Foi quando ele iniciou os exames. O primeiro deles, no ouvido. Primeiro o esquerdo, depois o direito. "Aqui você não tem nada. Só um pouco mais de cerume no ouvido direito", disse, sendo educado para não falar que meu ouvido estava quase entupido de cera.

Depois, sobre os óculos estarem apertando a região do meu nariz, ele disse: "Me empresta seus óculos". Pegou e, entortando a peça que apoia o óculos sobre o nariz [chamada "ponte"], abriu um pouco, deixando mais folgada. "Melhorou?"

Claro que depois, ele receitou um hemograma e um raio-x dos seios da face. E é muito provável que depois disso venha a apresentar um diagnóstico bastante preciso, como ocorreu dois anos atrás. 

Mas saí do consultório me sentindo bastante tolo, e duzentos reais mais pobre.

Às vezes eu queria ser mais especialista e menos ignorante no que tange à medicina.

1 de nov de 2013

A música que nos toca

"Quem canta seus males espanta", diz um ditado antigo, que já deve ter virado canção algum dia. Talvez por isso eu cantarole música velhas ou antigas, jingles ou músicas religiosas, trilha sonora de desenho animado ou videogame, logo pela manhã, logo depois de levantar da cama.

O filósofo Clóvis de Barros Filho, em uma brilhante entrevista que concedeu ao apresentador Jô Soares, demonstrava que a felicidade consiste em momentos, e que cada um capta essa felicidade de formas diferentes. Em tom de brincadeira, disse que pessoas que acordam cantando "são pessoas do mal" e que é preciso ter cuidado com elas. Afinal, ele próprio levanta da cama com preguiça e dificuldade, diante de um dia inteiro que ainda está por acontecer.

Mas é a música que no move, às vezes, mesmo que não notemos. Tenho por costume dirigir em meio ao trânsito de minha cidade ouvindo um dos CDs lançados por meu amigo pianista Newton Schner Jr.. Sinto-me transportado à calma que não possuo e à tranquilidade que não faz parte do tráfego intenso dos horários de pico. É minha trilha sonora entre a casa e o trabalho em 80% dos meus "dias úteis".

Só que tem vezes em é preciso ouvir algo diferente. Hoje, por exemplo, contrariando minha própria crença de que ouvir música em volume alto no carro é para imbecis, troquei o CD para um da banda Pedra Letícia, e coloquei o som no 23, tomando o cuidado de fechar os vidros nos semáforos, para não irritar os demais motoristas, que certamente dirigem com uma arma de fogo no porta-luvas.

Tem dias em que a irritação ou descontentamento não pode ser suprimida pela música de piano. Em lugar disso, temos que aliar a música à sensação que já está presa à nossa mente. Colocar uma batida mais violenta, como aquela que aflige o coração. Tem dias em que não dá pra vencer... é preciso juntar-se a esses sentimentos. Daí vem o som alto, que outros preferem manter nesse volume alto sempre. Talvez porque já cansaram, ou nunca tiveram coragem de tentar lutar.