15 de jan de 2007

Sorte que não apostei!

Na semana passada muita gente falou a respeito da mega-sena acumulada. E muita gente participou do sorteio. Eu, mesmo sabendo que não tinha participado sequer com um bilhete, dei graças a Deus porque não ganhei.

É verdade que, por duas ou três vezes, já me senti atraído por bingos, especialmente quando o prêmio era um carro. Mas, ainda assim, os jogos nunca exerceram sobre mim aquele fascínio que consegue motivar as pessoas a fazerem volume nas filas de lotéricas em véspera de sorteio de mega-sena.

Mas, dessa vez, um fato específico me fez ficar ainda mais longe das filas: o sujeito que ganhou o segundo maior prêmio da mega-sena foi assassinado no domingo, dia 7 de janeiro. E até quem não costuma fazer jogos pode apostar que o motivo foi o dinheiro. Por coincidência, o prêmio que o cidadão havia conquistado (em 2005) era de cerca de R$ 52 milhões, um valor muito próximo daquele que foi o prêmio da semana passada.

Agora surgem várias reportagens na televisão a respeito do homem assassinado. Por acaso, ou não, o nome da vítima era René Sena. Teria ele mudado o sobrenome depois de receber o prêmio, ou era coisa do destino?

O fato é que os jornais passaram a semana inteira divulgando que a mega-sena estava acumulada. Os telejornais me faziam perder tempo com suas reportagens, nas quais os entrevistados falavam sobre suas esperanças de ganhar todo aquele dinheiro. Um dizia que sempre apostava no número do próprio sapato, outro falaria sobre a data do aniversário... Outro dizia que, com mais de cinqüenta milhões, compraria uma casa. Um ótimo exemplo de como a entrevista pode ser desprovida de informação útil.

O Jornal Nacional trouxe a reportagem sobre René Sena. Mas a história só foi exibida no dia 10 ou 11, não lembro bem. Por que será que o jornal demorou tanto para divulgar a notícia? O jornal mais assistido no país aguardou quatro dias para noticiar um assassinato!? Mais uma estranha coincidência: a matéria sobre René foi ao ar justamente depois que o prêmio da mega-sena foi conferido a um apostador de Goiás que, sozinho, ganhou a fortuna.

Teorias da Conspiração à parte, só sei de uma coisa: cinqüenta milhões é muito dinheiro. Ganhar um carro já é motivo para o surgimento de muita inveja, imagine uma quantia como essa. Eu queria ver um repórter perguntando a um apostador se ele não tinha medo de ser morto depois de ganhar na mega-sena. Se ele não tinha receio de ser perseguido pelos próprios familiares, por causa do dinheiro. Eu devia ter feito tal reportagem, mas às vezes idéias como essa só surgem num momento em que não podem mais ser colocadas em prática. Mas, outras mega-senas acumuladas virão, aguardem...

Na terça-feira meu pai veio me dizendo que queria um favor: “faça pra mim uma aposta na mega-sena”, disse. E completou: “...o problema é ter coragem de enfrentar a fila”.
“O problema é ter coragem de jogar”, respondi. Pode ser maluquice, mas eu realmente tinha receio de ganhar o maldito sorteio, e não fiz a aposta.

No dia seguinte fui ao supermercado e, como tinha recebido uns cupons para sorteio de prêmios, participei de um pequeno jogo. Consistia em enfiar a mão numa máquina, e retirar de lá um bilhete que traria uma inscrição qualquer. E não é que ganhei uma batedeira de bolo?!

Recebi o prêmio e fui pra casa. Só algum tempo depois é que pensei: puxa vida, sorte que não apostei na mega-sena...

2 de jan de 2007

Meia culpa

Continuo achando que a vida é mais interessante graças a alguns pequenos mistérios que teimam em existir. Coisas que, boas ou ruins, insistem em acontecer por razões aparentemente inexplicáveis. Um elemento, por exemplo, é praticamente imutável: a cada ano, no período do Natal, fatalmente alguém me presenteia com meias.

Fico me perguntando por que, raios, isso é uma constante. Aliás... Se for analisar meu histórico, não será difícil descobrir que já ganhei meias durante aniversários e, num passado um pouco mais distante, no Dia da Criança. Talvez venha dessas épocas mais longínquas essa minha aversão às roupas, como presente.

Mas, por que meias? Lembro de quando era ainda criança e esperava ganhar um carrinho ou video-game. Mas abri uma caixa de papelão e dei de cara com uma camisa verde-escura linda, mas desinteressante. Na ocasião eu nem queria usar o presente, nem saber se servia ou não. Por insistência de meus pais, acabei vestindo a camisa, para satisfação das visitas que tinham se preocupado em comprar a peça de vestuário. Hoje, observando aquele dia com o olhar crítico e exterior do cientista (que não sou), acredito que minha conduta deveria ter sido outra.

Talvez a culpa seja minha, ao menos em parte. Quem sabe, se eu tivesse recusado o presente e dissesse, com todas as letras, que esperava ganhar algo bem mais simples, barato, com o que eu pudesse brincar... Bem, talvez assim eu parasse de ganhar meias. Eu devo ter cara de quem precisa de meias. Será que alguém já me viu usando uma meia furada, ou suja, ou velha?

Só que depois que a gente cresce, percebe que o presente tem outro significado, além daquele que conhecemos como crianças. É mais do que um item utilitário ou divertido. É um símbolo, uma indicação de que aquela pessoa gosta de você, e lembrou de comprar alguma coisa para te agradar. Ainda assim, sempre tive certo receio quando essa pessoa opta por comprar uma roupa.

Por dois motivos principais: primeiro, porque é um risco. A gente nunca sabe ao certo a preferência da pessoa, o tamanho da calça, a cor da camisa, a marca da meia. Segundo, porque há muitas outras coisas mais originais, e que tornam mais interessante a tarefa de adivinhar o conteúdo do embrulho colorido.

A época de Natal pode ser um período de muitos risos. Mas boa parte deles, tenho certeza, são amarelos e forçados, devido a um pacote bonito com um presente pouco interessante. Nesse sentido, as festas de amigo-secreto são o exemplo perfeito. Servem para demonstrar o quanto uma pessoa pode desconhecer totalmente a outra, ou reduzi-la a apenas uma informação.

Entre colegas de trabalho, amigos de universidade ou parentes a coisa é sempre muito parecida. Uma vez, numa dessas brincadeiras, eu tinha a difícil tarefa de presentear um amigo, gente-fina, mas com quem eu raramente conversava. Por acaso, descobri que ele gostava de jazz. Comprei um livro em cuja história tinha um sujeito que tocava jazz. Pronto! Uma pessoa e um presente, reunidos por uma única informação. Nunca soube se ele gostou de verdade.

Dia desses, conversando com colegas, chegamos à conclusão de que nós homens gostamos basicamente de ganhar aparelhos eletrônicos e seus derivados: CDs, DVDs, MP3 e coisas parecidas. Mas, independente disso, é preciso conhecer um pouco sobre a pessoa.

Eu gosto muito de ler e escrever. Mas poucas foram as pessoas, até hoje, que parecem ter percebido isso. Quase posso apontar nos dedos de apenas uma mão o número de pessoas que me presentearam com livros. A maioria também não sabe que eu gosto de ganhar coisas simples e baratas, como revistas em quadrinhos.

Mas o Natal já passou, chegou o ano de 2007 e, por que devo me preocupar com isso? Ora, porque daqui a pouco é Natal de novo... E eu vou ganhar meias outra vez! Me dá um gibi com 14 páginas, ao custo de um real (na verdade, se parar pra pensar, os gibis estão cada vez mais caros), e eu vou sorrir que nem o Sílvio Santos.

Justiça seja feita, já ganhei roupas muito boas. Mas justamente de pessoas que não precisavam dar presente nenhum. Pessoas cuja presença já é um presente, ideal, com a cor e a medida certa. Felizmente, essas pessoas existem.

Quanto às meias... Puxa vida, até a palavra parece estar pela metade!