18 de ago de 2007

O simples, o complicado e o aeroporto de Carambeí

Nas últimas semanas estive trabalhando em Castro, num jornal chamado Jornal de Castro. Ironicamente, quando digo que estou trabalhando no Jornal de Castro, as pessoas perguntam “qual deles?” E eu tenho que repetir... “Jornal de Castro, ora”. Quando as coisas são simples demais, acabam se complicando.

Portanto, viajei com freqüência para a cidade vizinha a fim de realizar entrevistas, para depois escrever as matérias que iriam compor o 3º número jornal, que é quinzenal. Considerando que eu pegava o ônibus metropolitano (também conhecido como pinga-pinga, porque pára em diversas localidades até atingir seu destino final), o deslocamento foi um pouco cansativo, mas também foi interessante. Acredito que o ônibus é o maior símbolo da sociedade urbana, pois cada situação que se vê ali dentro serve como indicativo do momento que vivemos.

Exemplo:
Há duas ou três semanas, numa dessas viagens, o ônibus fazia sua habitual parada no terminal rodoviário de Carambeí, antes de seguir até Castro. No banco à frente, uma mulher viajava com seu filho. O garoto, com cerca de quatro anos, não parava quieto um instante. Comentava algo sempre que via um caminhão, um cavalo no pasto, ou rebanho de ovelhas. Mas, quando o ônibus entrou na área de estacionamento da rodoviária de Carambeí, o garoto ficou visivelmente transtornado. Depois de um instante de silêncio, com ares de choro, virou-se para a mãe e disse: “Ah, não... Aeroporto não, mãe... Aeroporto não!” A mulher levou algum tempo para entender o que o garoto dizia. Finalmente corrigiu: “Que aeroporto, moleque? Aqui é a rodoviária!”

Não sei se o menino tinha medo de que seu avião caísse, ou de ficar retido no aeroporto por horas inteiras. O fato é que as crianças vêem o telejornal. Antigamente as mães, para assustar seus filhos, diziam que o “homem do saco” ia levá-los embora. Aí as crianças se comportavam. Agora, aqui vai a dica: é só dizer que a criança vai pro aeroporto, que ela treme de medo.

Mas é impressionante como sempre tenho dificuldades na hora de fazer o pedido numa lanchonete! Às vezes é um baita interrogatório para servir um simples café! Em outras ocasiões, a dificuldade é o recheio do risoles. No outro dia havia dois pratos com risoles na vitrine. Perguntei do que era o recheio, e a funcionário disse que só tinha recheio de frango, porque as cozinheiras esqueceram de fazer risoles com carne moída. Comprei um, e era de carne moída.

E nessa semana fui fazer um lanche perto da universidade. Dessa vez, pedi uma coisa diferente, pra ver se não dava problema. Pedi um pão de batata. Aí a funcionária perguntou se eu ia querer molho. Eu disse que sim. Aí ela perguntou se eu ia querer mostarda. Não sei em que momento começou a confusão. De repente a moça teve um chilique, dizendo que o pessoal ia lá e recusava os sachês de mostarda, e que “jogavam” os sachês de volta no balcão... (dizendo isso, jogou o sache na minha frente) Peguei meu pão de batata e fugi para a mesa mais distante do estabelecimento. Cada uma que me acontece...

Então, neste momento, para fazer um lanche qualquer, o diálogo que preciso desenvolver é mais ou menos este:

_Oi! Me dá um risoles.
_De carne ou de frango?
(Frango não é carne?, penso)
_Frango.
_Vai querer molho?
_Sim.
_Mostarda?
_Pode passar pra cá.
_Mais alguma coisa?
_Um café.
_Pequeno ou médio?
(Não vai me oferecer grande?, me pergunto)
_Médio.
_Com leite?
_Ahn... sim. Com leite.
_Açúcar ou adoçante?
_Açúcar.
_Mais alguma coisa?
_Não. Obrigado.

Então, na próxima vez, direi:

_Oi! Eu quero um risolis de frango. Vou querer molho também: dois sachês de catchup, dois de mostarda e dois de maionese. Também quero um café tamanho médio com leite. Vou adoçar com açúcar. Obrigado.

O diacho vai ser se a funcionária olhar bem pra mim e disser: “Pode repetir?”