13 de fev de 2010

A melhor quinta-feira que posso lembrar

Essa quinta-feira, dia 11, foi um dos dias mais felizes de minha vida, em razão de um evento marcado há pelo menos dois meses. Mas só fui perceber o quão importante o evento era, no instante em que ele se tornou realidade.

Na quinta-feira, meu irmão, Dalton, recebeu a colação de grau do curso de Licenciatura Português-Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grosa. Depois de quatro anos estudando pra caramba, ele enfim é professor.

Muita gente conquista a formatura a cada ano. Muitos celebram a finalização de um período longo de estudos e leitura, gastos financeiros e psicológicos. Mas meu irmão não comemora apenas a vitória nesses últimos quatro anos.
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Dalton é um vencedor porque nasceu com uma deficiência que exigiu uma cirurgia quando ainda era pequeno. E um erro, nessa cirurgia, gerou um problema no cerebelo, parte do cérebro que determina, basicamente, o equilíbrio do corpo e a coordenação motora.

Por consequência, ele hoje escreve com lentidão e diversas atividades exigem maior concentração e esforço. Não caminha sem que alguém esteja ao seu lado dando apoio e auxiliando no equilíbrio. Mas, superando dificuldades, ele se adaptou bem às suas limitações e, em inúmeros aspectos, Dalton é muito melhor do que muitos que se acham melhores.

Sua capacidade intelectual o levou a partir de um ensino especial, nos primeiros anos escolares, para o ensino regular. Passou pelo ensino médio e decidiu que queria fazer vestibular. Conseguiu o que eu, certa vez, não consegui: passou no vestibular estudando sozinho, em casa. Adquiriu incrível poder de memorização. Como hobby, Dalton chegou a memorizar, certa vez, todos os nomes de países do mundo e suas respectivas capitais. Comprou pelo correio um dicionário de alemão, e pouco tempo depois já estava falando as primeiras frases no idioma.

Na Universidade, ele se dedicou pra valer, e venceu cada dificuldade. Desde o preconceito de colegas até perseguição de professor. O andador que ele usou para caminhar pelos corredores chegou a sumir por algum tempo, devido à irresponsabilidade de quem o pegou sem pedir permissão.

Foram inúmeras fotocópias feitas e lidas. Foram fins de semana de estudo intenso. E cada trabalho que ele fazia, eu sabia, exigia muito mais esforço do que o empregado por qualquer acadêmico que pode contar com a rapidez ao escrever no caderno ou no teclado.

Eu o ajudei no que pude no primeiro ano de seus estudos na Universidade. Nos anos seguintes, meu pai o levou e trouxe para as aulas todos os dias, e minha mãe deu maior apoio. Mas cada curso é cada curso. Eu não podia ajudar mais do que sabia, e o conhecimento que ele adquiria pertencia somente a ele. O mesmo valendo para meus pais. Sendo assim, a participação da família foi fundamental, mas não o principal.

Vendo meu irmão vestindo a beca, na noite dessa quinta-feira, em meio a outras dezenas de formandos, não tenho vergonha de dizer, eu chorei. Chorei de orgulho e satisfação quando gritei seu nome, enquanto ele recebia o canudo das mãos do reitor João Carlos Gomes, recebendo mais aplausos do que qualquer outro que ali estava.

Esse diploma, Dalton, não é só a conquista de uma profissão. Não é a prova de quatro anos bem aplicados em estudos. Esse diploma é a prova de que você é um vencedor na vida, e continua sendo. Deste lado, você tem um irmão com muito orgulho, e que diz para quem quiser ouvir, que minha admiração por você é imensa.

E te desejo todo o sucesso no curso de mestrado que você começa em breve.