31 de out de 2010

Viagem a Rio Azul – parte 3

"O Michelângelo de Rio Azul"

Gostaria de ter escrito sobre a conclusão de nossa viagem a Rio Azul no mesmo dia em que eu e minha namorada retornamos para Ponta Grossa. No entanto, vários dias se passaram, voltamos ao trabalho logo após o feriado prolongado do Dia da Padroeira do Brasil. E tivemos uma semana de apenas três dias para fazer, no jornal, o que fazemos em cinco. Chegamos a um novo final de semana exaustos e a uma nova semana repleta de tarefas. Agora, enfim, posso narrar o que houve no último dia de nossa estada no pequeno município de Rio Azul.

“Vocês atravessam a rodovia na saída da cidade, reto, em direção a uma estrada de cascalho. Dirija por cerca de nove quilômetros, e você irá chegar a um vilarejo. Ali você vai ver um boteco e uma rua mais estreita que leva à igreja. Se as portas da igreja estiverem fechadas, voltem para falar com o dono do boteco, que ele entrega a vocês as chaves. Digam que foi a Regina, minha esposa, quem sugeriu que vocês fossem conhecer o lugar”.

Minutos depois, iniciávamos o percurso rumo ao tal vilarejo, cujo nome esqueci de perguntar. A estrada não era tão ruim, mas descobri que havia várias pequenas aglomerações de casas, o que me levava a questionar se já não teríamos deixado para trás o tal vilarejo. Decidi perguntar.

Vi um galpão nos fundos de um terreno, e estacionei ao notar dois sujeitos no local. Saí do carro e cumprimentei os dois de longe, perguntando se eles sabiam onde ficava a tal igreja. Estranhamente, os dois vieram em minha direção, fazendo com que a Pri, ainda no carro, julgasse que eu seria imobilizado. Especialmente considerando que um deles veio enrolando uma blusa nas mãos. Mas, se limitaram a dar a informação. Ainda devíamos seguir em frente por mais alguns quilômetros. O nome do lugar para o qual nos dirigíamos era “Cachoeira dos Paulistas”.

Dirigindo um pouco mais, chegamos até um boteco que parecia ser aquele descrito por Marcos, o dono da pousada. Virando à direita, a rua estreita levou não apenas até uma, mas a duas igrejas. Uma antiga, de madeira, e outra nova, feita de tijolos, e ainda em cimento cru.

Não víamos quase ninguém nas ruas. Fomos até a frente da igreja, e descobrimos que as portas estavam fechadas. Então, de fato, voltamos para falar com o dono do boteco, que atendia a alguns clientes em uma janela, já que o estabelecimento estava fechado naquele feriado de 12 de outubro.

O cidadão pareceu indiferente, mas nos entregou um molho de chaves, dizendo “esta aqui abre a porta lateral”. Enfim, voltamos até a igreja e giramos a chave para encontrar algo bem diferente do que eu imaginava.

A igreja era inteira erguida em madeira. E as paredes e o teto tinham sido todos pintados de forma ricamente detalhista, e em cores fortes. Nas paredes laterais, uma pintura feita a pincel dava a ilusão de que a tinta havia escorrido. Nas paredes de trás. O pincel tinha sido tocado repetidas vezes com tinta azul, criando vários pontos, em meio a ilustrações de flores, algo que me fez lembrar de Van Gogh. As colunas que sustentavam a igreja receberam vários desenhos que, feitos em sucessão, lembravam azulejos. E nas partes superiores, mais perto do teto, ilustrações ricas em detalhes mostravam cenas descritas pela Bíblia. Entre elas, a Santa Ceia. No teto, desenhos simétricos impressionavam por sua precisão.

Tudo isso maravilhou a Pri e eu, que não parávamos de tirar fotos. Eu com meu celular, ela com a câmera. Havia vários papéis picados no chão, talvez por conta de algum evento recente. Ali ficamos por cerca de dez minutos. Jamais pensei que pinturas como aquelas seriam encontradas em paredes de madeira.

Depois, trancamos novamente as portas, e retornamos até o boteco. O proprietário estava em frente à casa dele, quando paramos para entregar as chaves. “Uma parte da população quer derrubar a igreja, para dar lugar à nova. Espero que isso não aconteça”, nos disse. “E, onde está o homem que fez essas pinturas?”, perguntei. “Mora aí em Rio Azul, mas não tem família. E acho que está vivendo no asilo, já está bem velho”. “E onde fica o asilo?”, perguntei. “Perto da pousada”, ele disse.

- O que acha, Pri... Vamos procurar o velhinho?

- Vamos. – ela disse.

Assim, seguimos de volta até a pousada. Ali perto encontramos o tal asilo. Um interfone coberto por teias de aranha parecia dizer para não entrarmos, enquanto dezenas de velhinhos tomavam sol diante do asilo, que ficava no alto de uma espécie de colina. “Podem subir, o interfone não funciona!!”, alguém gritou.

Subimos uma escadaria. No topo, duas mulheres junto da janela pareciam as cozinheiras do lugar. Ou talvez eu tenha pensado isso por estar perto da hora do almoço. Os fogos de artifício tinham acabado de ser lançados, como acontece tradicionalmente ao meio-dia, no Dia da Padroeira do Brasil.

Não sabia o nome do pintor. Mas, quando citei a igreja decorada, uma das funcionárias logo disse “Ah, eles
estão falando do Petreski!”. Nos levaram até um senhor em uma cadeira de rodas. Os lábios não se moviam direito enquanto ele falava bem baixinho conosco. Antonio Petreski tem cerca de 90 anos. Está no asilo há alguns meses. Sua memória está fraca, mas quando perguntamos se foi ele quem fez a pintura da igreja, não teve dúvidas. “Mas, é claro!”.

Surpreso eu fiquei quando a funcionária nos perguntou: “Qual das igrejas vocês conheceram?” Só então soubemos que Petreski não decorou apenas uma igreja, mas várias da região. Ela nos mostrou o topo de uma outra igreja, vista dali no centro da cidade. Apenas mais uma das que ele havia pintado.

Em meio a um discurso confuso, Petreski deu a entender que ainda queria concluir a obra iniciada em outra igreja, e que precisava corrigir uma pintura que fez e que não ficou perfeita como ele esperava. Mas então voltava a divagar, e dizia coisas difíceis de serem entendidas.

“Ele costumava pintar as igrejas à noite. Quando terminava a obra, deixava tinta e pincéis, tudo no local”, contou a funcionária. Foi triste saber que ele estava lá, ignorado em um asilo. O “Michelangelo de Rio Azul” corre o risco de ser esquecido. A esposa de Marcos, segundo ele nos explicou, tenta através de um videodocumentário mostrar a importância do trabalho de Petreski. Para que, ao menos a igreja que conhecemos, não seja derrubada.

Fomos embora sabendo que tivemos uma experiência única. O saldo da viagem: um simpático agricultor dedicado às amoras. Um parque com cachoeira que vale a pena conhecer. E uma obra de arte escondida em um vilarejo desconhecido... perto de onde vive seu autor... num asilo, em uma cadeira de rodas. Fica no blog Universo e Afins a homenagem e registro a Antonio Petreski. Certamente um dos maiores artistas que existem e, como costuma acontecer, vive sem o sucesso e reconhecimento merecidos. Quem for a Rio Azul, visite os locais e pessoas aqui mencionadas. Descobrirá que viagens interessantes não se resumem à praia ou a grandes pontos turísticos. Às vezes as descobertas mais interessantes estão onde a maioria não procura. Em pequenos lugares como Rio Azul ou... ‘Cachoeira dos Paulistas’.

11 de out de 2010

Viagem a Rio Azul - parte 2

Conhecendo a produção de amoras

Para fazer uso da internet wireless aqui da pousada, precisei de ajuda. Inicialmente, acreditei que poderia fazer isso sozinho, peguei o telefone e liguei para o Marcos. “É bem simples...”, ele disse. Mas a rede não foi detectada, e precisei levar o netbook até o sujeito para que ele configurasse. Enquanto caminhava pela trilha de pedrinhas que conduzia à casa do cidadão, notei que a rede tinha, enfim, sido detectada. Mas aí o Marcos já estava vindo ao encontro, então aproveitei para pedir a ele um “T” emprestado.


Foi assim que pude recarregar a bateria do computador...

Bom, isso foi ontem. Hoje, o plano era irmos até a tal fábrica de framboesas que existe na cidade. Ao pedir informação ao Marcos sobre como chegar lá, o início da resposta foi “É bem simples”. Aí vi que podia ser um pouco mais complicado. Mas, segundo ele explicou, não ficava longe. Bastava seguir o asfalto até o trevo na saída do município, e então seguir por outros seis quilômetros por uma estrada de cascalho.

Íamos entrar no carro, quando notei que um passarinho saía voando rapidamente, da frente do espelho lateral do Palio. No dia anterior, havíamos percebido que o pardal gostava de ficar se olhando no espelho, e parecia acreditar estar vendo outro animal da mesma espécie. Ontem dissemos “que bonitinho...” Hoje dissemos “que cagada!” O bichinho riscou o espelho, parte da lataria e ainda cagou em toda a parte superior do retrovisor!

Deixando o pardal para lá, seguimos rumo ao caminho indicado por Marcos. Chegamos ao trevo e pegamos a primeira estrada de cascalho que encontramos pela frente. A Pri ficou com medo depois que vimos que a estrada levava apenas a um pequeno barracão, com uma fornalha acesa.

Voltamos, e somente então encontramos outra estrada de cascalho. Um casal que empurrava carrinho com bebê nos informou... era realmente aquele o caminho para a indústria Framora. Cerca de seis quilômetros depois, em uma estrada com alguns buracos, chegamos a um local onde uma placa, à direita, anunciava: “FRAMORA”.

Entrando com o carro, vimos que um senhor estava na varanda da casa, e imaginamos que deveria ser o proprietário. Guilherme Gurski é descendente de poloneses, e natural de Rio Azul. A sua fazenda, no lugar onde está hoje, ele possui há cerca de 30 anos. Há cerca de 15, depois de levar um prejuízo de cerca de R$ 200 mil com a plantação de batatas, decidiu investir em outra coisa. Optou pelas frutas vermelhas: framboesas, amoras e morangos.

O início, ele conta, foi difícil. Mas depois de cerca de dois anos pegou o jeito do novo trabalho, mesmo com muita gente dizendo que não daria certo. “Aqui em Rio Azul a grande maioria das pessoas planta fumo. Mas eu já disse que é um erro, porque vai chegar um momento em que vai ser proibido. E aí os agricultores precisam estar preparados, tendo uma cultura diferente para o sustento”, comenta.

De fato, Guilherme é um homem à frente de sua época. Enquanto todos diziam que as amoras não dariam retorno, ele arriscou e obteve êxito. Em cerca de um hectare, ele produz aproximadamente 12 toneladas de amoras por ano. Ainda tenta formar uma cooperativa. Com 200 toneladas seria possível exportar a produção. Por ora, serve para gerar renda para a família, e para pagar cerca de quatro funcionários contratados por ele na época da colheita.

Parte das amoras é vendida in natura. Mas muito do que é colhido, Guilherme industrializa em sua propriedade. No lugar onde ele chama de “fabriqueta”, ele nos mostra os equipamentos que adquiriu através de financiamento. São máquinas de fazer sucos e câmaras frias. Numa delas, boa parte da produção de 2009 continua armazenada, entre itens industrializados e amoras em caixas.

“Comecei guardando todas as amoras em freezers. Eram oito freezers e ainda faltava lugar”, explica Guilherme, que não viu saída senão trabalhar com os derivados das frutas. Numa sala ele guarda, em prateleiras, geleias, vinhos e licores das frutas que produz. Tudo cuidadosamente envasado, etiquetado, e já com os preços à mostra, para os visitantes que vêm conhecer sua propriedade e o trabalho com amoras.

No entanto, ele reclama da falta de apoio para o trabalho. A burocracia para manter a propriedade e a produção é muito grande. A venda das amoras se complica para alguns mercados, porque, apesar de ser produto totalmente orgânico, a obtenção do selo que atesta isso também exige burocracia. Ele já buscou apoio também em Curitiba. Verba para isso existe, já que o governo incentiva ao produtor a procura por culturas alternativas ao fumo. Mas, por razões puramente políticas, segundo ele, esse incentivo financeiro não chega.

Quando ele diz isso, não se refere apenas à produção e venda de amoras, mas também ao turismo rural. Depois que seu trabalho ganhou destaque em algumas reportagens na televisão, até mesmo pessoas de outros estados, como do Rio de Janeiro, estiveram em sua fabriqueta. Mas as estradas para chegar ali são ruins, não há sinalização nem propaganda, salvo a parceria com a Pousada Villa Vitória, que nos indicou a visita ao local.

Enquanto isso, a produção de fumo continua em alta na região. Até o momento que, de uma hora para a outra, o plantio de fumo não for mais permitido. “Aí todos vão correndo ter que aprender a plantar outra coisa. Esse é o momento de buscar uma alternativa”, ensina Guilherme Gurski que, além de dar o pontapé inicial no plantio de algo diferente na região (apenas mais um agricultor trabalha com amoras nos arredores), também tem consciência ambiental.

Toda a área onde, no passado, ele desmatou para o plantio de feijão, batata e milho, hoje ele está reflorestando. “Estou quase saldando minha dívida com a natureza”, ele diz, mostrando uma nova mata que se ergue atrás de sua casa, onde antes só havia campo.

Deixando de lado o aspecto mais mercadológico da produção de amoras, Guilherme Gurski vive bem em sua terra. A casa é confortável, e a hospitalidade dos donos (ele e sua esposa, Maria, nos receberam muito bem com um delicioso suco de frutas vermelhas com laranja) é inquestionável. Eles têm vocação para se relacionar com as pessoas.

Mas já passava de 11 horas, e o assunto estava rareando, de modo que compramos dois litros de licor e um pote de geleia, e partimos de volta para a pousada, onde almoçaríamos em seguida.

***


Almoçamos na pousada. Macarrão ao molho branco. Apenas mais um casal no restaurante. Nada do Dedé... talvez ele não tenha vindo para cá. Fomos, enfim, até a tal pedreira. Não fica muito longe também. A entrada não é cobrada. É um lugar até bem cuidado. Talvez porque não tenha tanto público, ou porque estivemos no local em plena tarde de segunda-feira. Caminhamos por uma trilha. Nenhum bicho à vista, a não ser os malditos mosquitinhos “porva”, que insistem em me atacar. Mas não é possível chegar junto da cachoeira. Não há grandes espaços com areia, apenas pedras. A água não é tão cristalina. Fica mais num tom verde, embora não pareça poluída.

A lanchonete do local estava fechada. Ficamos ali por algum tempo, até os ataques de insetos se intensificarem contra a minha pessoa. Depois demos olhada em uma gruta na qual havia uma imagem de Nossa Senhora e algumas velas acesas.

Retornamos à civilização, onde compramos gêneros alimentícios antes de retornar à pousada. Não pude formar uma opinião sobre as pessoas daqui. Marcos e Guilherme são pessoas voltadas para o turismo. Em algumas lojas onde estivemos, as funcionárias me pareceram atenciosas com a clientela. Um bêbado andava pela rua ameaçando assaltar duas mulheres, que faziam piada dele. A principal rua do centro não é muito movimentada. Vi agências do Sicredi, Banco do Brasil e Itaú. Um bom supermercado. Uma carroça. Alguns ciclistas. Parece ser lugar tranquilo. Bom para passar alguns dias, mas não consigo me imaginar vivendo assim. Preciso de barulho, poluição, agito... correria. E cinema... “Tropa de Elite 2” está em cartaz.

Amanhã devemos voltar a Ponta Grossa, e talvez tenhamos tempo de ver o filme. Mas, primeiro, veremos se conseguimos permissão para visitar a tal Igreja do Michelangelo de Rio Azul. Veremos...

10 de out de 2010

Viagem a Rio Azul - parte 1

Conhecendo a região

Vai ser bom quando
todas as tomadas do Brasil forem padronizadas. Quem sabe aí poderei ligar o netbook normalmente, sem me preocupar com o "T" que esqueci de trazer. Sorte que me emprestaram um. Estou em Rio Azul... cidade pequena, mas com banco, posto de gasolina, lanchonetes. Há civilização, enfim. Eu e minha namorada, Pri, decidimos aproveitar o final de semana prolongado viajando a algum lugar próximo de Ponta Grossa. Escolhemos Rio Azul depois que vimos na internet informações sobre uma pousada, que descrevia algumas das atrações locais, entre elas uma pedreira com cachoeira e uma fábrica que trabalha com amoras.

A viagem até aqui foi tranquila. A única surpresa foi quando, já bem perto de nosso destino, três sujeitos montados em cavalos cercavam um automóvel estacionado à beira da rodovia. Eu me concentrei em desviar dos cavalos, e não pude dar atenção ao fato em si. Mas a Pri disse ter visto o momento em que o motorista do carro era obrigado a entregar a carteira. Seria um assalto à diligência, no estilo faroeste? Seria Rio Azul uma terra sem lei??

Algo para descobrir mais tarde. É curioso pensar que a viagem que fazemos hoje, de certo modo, começou a ser planejada há dez anos...

Eram meados do ano 2000, e não era uma “odisseia no espaço”. Eu ainda estava concluindo o ensino médio, e tinha decidido fazer vestibular para o curso de jornalismo. Era a primeira vez que eu fazia uma prova de vestibular, e ainda não sabia que os candidatos eram reunidos nas salas seguindo a ordem alfabética de seus nomes.

Quando me dei conta, eu estava numa fileira de carteiras que reunia quatro Danilos. Bem perto estava um outro Danilo, sujeito que parecia despreocupado. Faria prova para Direito, mas estava bastante calmo. Numa rápida conversa antes de iniciar as provas, ele disse que não era de Ponta Grossa. Era de uma pequena cidade chamada “Rio Azul”. Ninguém que estava ali tinha ouvido falar antes na localidade. “É... ninguém conhece mesmo...”, ele disse.

Eu não consegui uma vaga na universidade naquela edição do vestibular. Então, precisei fazer nova prova, dessa vez no campus central da universidade. Na entrada, quem eu encontro é o mesmo Danilo, que também não tinha conseguido passar no primeiro vestibular. Novamente, estávamos na mesma sala.

Antes de fazer as provas, cada um dos candidatos precisava se apresentar à frente e assinar um documento. Quando meu colega Danilo foi chamado, aconteceu algo impressionante. Sua mão tremia tanto, que ele não conseguia assinar o próprio nome. “Fique calmo”, disse a monitora. “É que dessa vez eu estudei”, ele respondeu. Uma narrativa para ilustrar o quanto um vestibular pode atacar os nervos até mesmo do mais tranquilo candidato, desde que ele realmente esteja se dedicando para ser aprovado.

Sempre associei essa história ao nome da cidade de Rio Azul. Por isso achei que seria interessante conhecer o lugar, quando olhava o mapa do Paraná, nesta semana, em busca de um destino para este domingo...

Depois de cerca de duas horas de viagem, chegamos facilmente ao local. Ambiente agradável. Pousada Villa Vitória. O Diogo, que trabalha conosco no jornal, estava saindo com sua namorada da pousada, para um passeio, naquela hora. Ele soube que vínhamos para cá, e decidiu vir também...

O dono da pousada, Marcos, é um sujeito simpático, como deve ser o proprietário de qualquer pousada. Nos mostrou os chalés, e ficamos no de número sete. Segundo ele, estamos com uma celebridade como nosso vizinho. Dedé, o humorista que fez parte dos saudosos Trapalhões, está hospedado aqui, porque seu circo está na região.

Ele também nos contou que aqui existe uma igreja cujos desenhos da pintura interna foram todos feitos à mão por um único artista. Um homem de cerca de 90 anos, que ocupou pelo menos 20 para concluir sua obra. É o Michelangelo de Rio Azul. Se o encontrássemos poderia ser algo interessante. Ou talvez pudéssemos apenas visitar a igreja, embora tenham nos dito que o acesso é restrito.

Neste momento a Pri está tirando um cochilo. Cansou da viagem. Curioso, pois eu que dirigi não cansei desta vez. Acho que o simples fato de me afastar um pouco do trabalho já fez com que me sentisse mais descansado. O plano para amanhã é visitarmos a tal pedreira e, talvez, a fábrica de produtos de amoras e framboesas.

Já estamos planejando almoçar por lá. O Marcos nos disse que a proprietária do lugar é descendente de italianos, e excelente cozinheira...

5 de out de 2010

A megalópole princesina no 'Observatório'

Às vezes eu gostaria de ter mais tempo para refletir sobre a profissão dos jornalistas. Mas, como sou um deles, não tenho tal tempo.

A maioria dessas reflexões são breves, normalmente relacionadas a fatos curtos ou, às vezes, apenas imagens. E um item que sempre acho interessante no jornal, e especificamente no Jornal da Manhã, onde trabalho como repórter (de cultura, agronegócios, comportamento, saúde, além de editar colunas sociais e textos sobre automóveis) é uma seção chamada "Observatório".

Assim como os blogs foram se simplificando até se transformarem no que é hoje o Twitter, o Observatório é a inevitável evolução [?] de algo que tínhamos entre 2007 e 2008 chamado "Ensaio".

O Ensaio era um espaço dedicado exclusivamente aos fotógrafos do JM, onde um tema era escolhido e as imagens buscavam ilustrar esse assunto. Várias imagens interessantes chegaram a ser publicadas, sempre aos domingos.

Depois que o Ensaio deixou de fazer parte dessas edições, chegou um momento em que surgiu o "Observatório". Ao invés de várias imagens publicadas em uma página de domingo, o Observatório publica uma única imagem a cada edição diária.

A beleza disso reside no fato de essa imagem ser extremamente atual e reveladora, ao sintetizar muitas vezes um contexto histórico, cultural, social ou econômico. Muitas vezes, seu real significado passa até mesmo despercebido.

Dia desses, o fotógrafo Rodrigo Czekalski fez o registro de um morador de rua, dormindo na escadaria da igreja. Ao seu lado, apenas um cachorro. Moradores de rua sempre têm ao menos um cachorro.

O clique era a perfeita junção de uma série de elementos, que poderiam ser elencados da seguinte forma: religiosidade, miséria, abandono, cansaço ou fidelidade (no caso do cão). Mas foi mais que isso.

Um ou dois dias depois, Rodrigo recebeu um telefonema no jornal. Uma mulher queria saber mais detalhes acerca da foto. O morador de rua era seu parente, pelo qual há tempos ela procurava.

Rodrigo não pode ajudar muito no sentido de encontrar o cidadão. Apenas disse a ela que, como morador de rua, ele deveria estar na rua. E que seria preciso circular pela cidade para encontrá-lo.

Foi quando ele desligou o telefone que percebeu o alcance daquela imagem. O que era para ser apenas um exemplo, uma curiosidade, acabou se tornando uma pista. E, quem sabe, uma forma de auxiliar a família a encontrar um ente querido.

Essa percepção demorou um pouco demais. Quando nosso editor-chefe [Mário Martins] perguntou ao Rodrigo o nome e telefone da mulher, ele não sabia. Por conta disso, não pudemos realizar o reencontro dos familiares, tal qual um programa do Gugu, talvez menos sensacionalista. Mas, tudo bem... Basta saber que a imagem, em toda a sua síntese e aparente inocência, teve um poder maior do que aquele que supunha até mesmo seu autor.

Uma imagem, às vezes, parece ter um grande significado e não passa de um registro factual. E, em outras ocasiões, quando parece ser apenas um registro, pode estar carregada de intensa importância.

Hoje, uma dentadura foi encontrada ao lado da sede do Jornal da Manhã, bem no centro da megalópole princesina, Ponta Grossa. Rodrigo não perdeu tempo. Apanhou a câmera para fazer o registro. Uma dentadura em plena avenida.

Houve quem tirasse uma onda com o fato. Que importância poderia ter uma dentadura jogada ao chão? Talvez nenhuma. Por outro lado, por que a dentadura não está com o dono? Disseram que ele atirou o objeto, extensão do próprio corpo, de um carro em movimento.

Em Ponta Grossa, cidade onde o possível esquece de acontecer, isso pode ser nada. Ou pode ser alguma coisa.

Vai saber...