12 de jun. de 2012

Onde está a graça?


Enfim, após vários dias de chuvas, confirmamos hoje que o sol ainda está lá em cima. As casas e edifícios em Ponta Grossa ficaram tão úmidos em seus pisos, paredes e janelas, que me obriguei a fazer uma tirinha sobre o tema.

Apesar do tempo pouco convidativo para sair, na semana passada acabei marcando um encontro que, descobri, eu desejava fazer há muito tempo. Por sugestão do editor-chefe do Jornal da Manhã, Mário Martins, escrevi reportagem sobre aqueles que trabalham com humor na cidade.

A ideia surgiu com a visita da cartunista curitibana Pryscila Vieira, que agora está morando em Ponta Grossa, desde que seu esposo assumiu o posto de delegado do Denarc local. Pryscila é a criadora da personagem Amely, um fenômeno dos cartuns. Uma mulher com aparência de boneca inflável (ou seria o contrário?) que critica a sociedade machista e a mulher vista como objeto.

Em conversa com Pryscila, ela apontou que seria mais pertinente fazer uma reportagem com outras personalidades além dela, e mencionou Benett (chargista ponta-grossense que agora trabalha para a Gazeta do Povo e Folha de S. Paulo) e *Fábio Silvestre (humorista de PG que agora está no programa A Praça É Nossa, do SBT).

De acordo, Mário Martins lembrou que James Robson França, vulgo Sádico, não poderia ficar de fora da matéria. Sádico é chargista do Jornal da Manhã, e tem feito excelentes trabalhos com ilustrações e tiras no jornal.

***

O bar, sempre o bar...
O primeiro passo da reportagem foi marcar uma conversa com Sádico. Ofereci duas possibilidades: o café da Panificadora Vila Velha ou o Bar do Seu Rui, ao lado do JM. “O bar. Sempre”, respondeu. Mas, na manhã de quarta-feira, estávamos no bar... tomando café. Precisávamos nos manter lúcidos. Era meio da semana. Mais um dia e teríamos um feriado, aí cada um faria o que bem entendesse.

Foi durante a conversa que Sádico lembrou: eu não podia deixar de mencionar Roque Sponholz, caricaturista e chargista ponta-grossense. Também poderia mencionar Diego Castro, humorista emergente quando se trata de comédia stand up na região.

A sugestão era boa, mas me pareceu improvável... Sádico propunha que eu reunisse a Pryscila, ele, Roque e Diego, e fizesse uma foto de todos juntos para compor a capa do caderno Urbe do JM, onde seria publicada a reportagem. Me despedi prometendo fazer a tentativa de marcar a foto para aquela mesma tarde, embora incrédulo.

***

Mais fácil do que parece
Para minha surpresa Roque Sponholz me atendeu no primeiro telefonema, e topou o encontro no Parque Ambiental. Local escolhido em face da identificação imediata com a cidade, já que o Cocozão, monumento polêmico e insubstituível, não mais existe.

Diego Castro também aceitou a ideia na hora, e combinou estar no Parque Ambiental também às 17 horas. Pryscila estaria chegando de uma viagem a Curitiba, mas disse que daria tempo de fazer a foto, com certeza.

À tarde, o tempo que estava apenas em garoa decidiu assumir sua condição chuvosa e as gotas de água se intensificaram, dobrando de tamanho e volume, e me obrigando a transferir o local da foto para alguns metros adiante. O novo local era a Estação Saudade, antiga estação de trem, hoje biblioteca municipal, também localizada no mesmo Parque.

Mas essa mudança precisou ser articulada após as 16h30, e Roque Sponholz já havia deixado sua casa, rumo ao local original do encontro. Fiel a uma tradição antiga, Roque não carregou celular [aparelho que, aliás, não possui]. Teria que encontrá-lo no local onde havíamos combinado por primeiro e levá-lo à Estação. Os demais foram todos avisados.

Às 17 horas em ponto, Roque exibia seu abrangente bigode [marca caricatural que carrega no semblante] perto das árvores de romã do Parque Ambiental. No carro do JM, eu, o fotógrafo Christopher Eudes, o motorista China e Roque Sponholz seguimos até a Estação Saudade, onde Sádico e Diego Castro já conversavam animadamente.

Só faltava Pryscila. Enviei SMS dizendo que a esperávamos, e ela respondeu que estava perdida. Uma breve conversa e a recém-chegada a Ponta Grossa, minutos depois, encontrava o bizarro estacionamento que fica junto à biblioteca e é dominado por flanelinha de aparência estranha e comportamento inescrupuloso (acho que acabo de descrever todos os flanelinhas do mundo).

***

Autopromoção? É o jeito...
Christopher fotografava os quatro junto ao prédio, usando o que restava da bateria de sua câmera. Ele tinha começado o expediente no jornal cedo, e teve que fazer o trabalho do outro fotógrafo, Clebert, que precisou viajar a trabalho para Curitiba. Com isso, estava nas últimas energias (ele e a câmera). Foi quando os entrevistados reivindicaram minha presença na foto.

De fato, meu trabalho como cartunista criador do Catraca não podia ser desprezado. Mas... escrever sobre mim mesmo na reportagem? Me incluir na fotografia? De início me pareceu inadequado. Mas, em seguida pensei... Por que não? Ao final, estar ali ao lado dos grandes nomes do humor local, alguns dos quais com destaque nacional e internacional, me serviu de incentivo e massagem positiva ao ego.

A reportagem não ficou ruim. Mas esse foi um daqueles casos em que o “fazer a reportagem” foi mais interessante do que vê-la publicada. E ter sido incluído na foto por eles teve, para mim, elevada importância. Talvez eu como cartunista não tenha o destaque que eles já conquistaram, mas rir ao lado deles foi como respirar mais profundamente. Aí está a graça.

*Obs.: Na mesma edição do caderno Urbe (10/06/2012) foi publicada entrevista com Fábio Silvestre. Ainda consegui para aquela edição uma entrevista com o chargista Benett. Mas, sem tempo e espaço adequados, posterguei a publicação para outra ocasião. É um material que merece o devido destaque, e em breve certamente terá. Por hora, eis os links para o caderno Urbe do último domingo - http://www.jmnews.com.br/noticias/urbe/23,21925,10,06,o-humor-em-ponta-grossa.shtml
http://www.vamoslerjornaldamanha.com.br/mail/jm/flip/Urbe/10-06-12/

30 de mai. de 2012

Dia do Desafio


Um radialista disse, no noticiário desta manhã, que hoje é o tal Dia do Desafio. Uma data que, na minha opinião, é ridícula. Ridícula porque sugere que as pessoas pratiquem atividades físicas e, dessa forma, estabelecem uma espécie de competição saudável entre cidades, para ver onde as pessoas mais aderem à prática. No entanto, a verificação disso se dá por meio dos telefonemas feitos pelas pessoas que [supostamente] participam, logo após o ato. Ao final, um cálculo básico sobre o número de pessoas que relatou a prática física irá determinar a cidade vencedora.

Além do fato disso estar condicionado quase sempre a um telefonema [que pode ser mentiroso, ou que pode não acontecer por falta de estrutura telefônica, falta de créditos no celular], Ponta Grossa, localidade onde resido, quase sempre ganha. E eu me pergunto se isso acontece porque gostamos do Dia do Desafio, ou se é porque o pessoal lá fora tem mais noção da realidade, e prefere praticar atividades físicas todos os dias pelo seu bem-estar, ao invés de fazer isso uma vez ao ano buscando vencer uma competição.

Enfim. Hoje a cidade deve bater um recorde de participações, já que os funcionários da Viação Campos Gerais, empresa que administra o transporte público na cidade, entraram em greve. Nenhum ônibus circula e o Terminal Central estava absolutamente estranho, sem ônibus e sem pessoas em seu interior. Só os guardas nas guaritas de entrada e a neblina pairando sobre a estrutura metálica.

Muitas pessoas se obrigaram a ir a pé para o trabalho, ou buscaram a carona com um amigo. Eu levei minha esposa ao trabalho e pude ver um número bem maior de automóveis circulando nas ruas.

“O desafio hoje será chegar ao trabalho”, complementou a outra radialista, fazendo trocadilho. E o meu será aguentar mais um Dia do Desafio, sendo coerente ao meu modo de ser, e mantendo o sedentarismo de sempre. Muito embora eu ainda pretenda mudar isso, em algum momento que não será no Dia do Desafio.

20 de abr. de 2012

De volta à estrada: um passeio a Witmarsum

Nós em frente à placa que explica a
existência das 'estrias glaciais'
Depois de um período sem fazer as viagens que eu e a Pri tanto apreciamos, no último domingo finalmente encontramos tempo e um pouco de dinheiro para deixar a cidade em busca de novos lugares, pessoas e histórias. Eu já me sentia um viajante “enferrujado” e, se não fosse a insistência dela, é provável que tivéssemos ficado em casa assistindo a um filme de ação que meu sogro emprestou. Mas, às vezes, é bom sermos protagonistas dessa ação. Além disso, todas as vezes que eu não queria viajar e a Pri me convenceu, acabei retornando com a impressão real de que percorrer alguns quilômetros faz um enorme bem ao cérebro.

Há uma localidade chamada Witmarsum na Alemanha. Há outra Witmarsum em Santa Catarina. Optamos pela terceira Witmarsum, em Palmeira (PR), na região dos Campos Gerais. A colônia de descendentes europeus (em especial alemães) foi fundada em 1951, e lembra um pouco o município de Carambeí, mais próximo de Ponta Grossa, também nos Campos Gerais.

Do ponto A (Ponta Grossa) ao ponto B (Witmarsum) devo ter dirigido um pouco mais de uma hora. Sem pressa, entramos primeiro em Palmeira, imaginando que a colônia ficasse colada à cidade. Era perto da hora do almoço e demos início à uma busca por restaurante. Estacionei nosso Palio (quase promovido a Adventure após a viagem a Guaraqueçaba) e percorremos a pé uma das principais ruas do centro da cidade. Todas fechadas. Caminhamos cinco ou seis quarteirões, notando que estavam abertas apenas uma banca de revista, um boteco e a igreja, em frente da qual um grande grupo de jovens visitantes entoava canções religiosas, ao som de dezenas de violões e alguns pandeiros.

Quando regressamos, pela mesma rua, somente o boteco estava aberto. Os funcionários do estabelecimento nos informou que, seguindo pela rodovia, em direção a Curitiba, deveríamos percorrer mais 20 quilômetros até chegar à Colônia de Witmarsum. E assim fizemos.
Gaivotas em um banheiro masculino

Antes, porém, uma parada na rodovia para almoçar em um lugar chamado Girassol. Restaurante e lanchonete bastante agradável. Há um restaurante com pratos mais caros e, um pouco antes, em recinto separado, a lanchonete, onde são servidos doces e salgados e (depois descobri) também almoço. E o banheiro masculino (só o masculino) é decorado com desenhos de gaivotas (!).

Foram exatos 20 quilômetros até que avistássemos a placa que indicava Witmarsum. Entrando à esquerda em um trevo, seguimos por uma estrada asfaltada e muito bonita. As árvores altas se abraçavam no topo, formando um túnel de folhagens que tornava a simples passagem por ali marcante. Era como um portal para outro mundo e, de fato, sentimos que até a temperatura caiu, imediatamente depois que entramos nessa estrada.

Paisagem bucólica das margens da
rodovia principal da Colônia
Um pouco distantes umas das outras, as residências exibiam a arquitetura característica trazida pelos alemães, que em muito lembrava a dos holandeses vista em Carambeí. Havia vacas em quase todos os terrenos, e vimos apenas da raça holandesa. Mas aqui e ali surgiam exemplos de ovelhas, gansos, e um bando de quero-queros fez questão de se mostrar, para a indignação da Pri. Ela odeia quero-queros... acredita que eles estão sempre pedindo chuva, o que não costuma ser muito bom em nossos passeios. Felizmente, nesse domingo a previsão do tempo errou feio, e o sol foi predominante.

A estrada de asfalto por onde seguíamos era, na verdade, a avenida principal da localidade. E talvez a única avenida, pois não vi nenhuma rua secundária significativa. Para acalmar os exploradores urbanoides, algumas placas indicavam que ali havia um ou dois cafés onde poderíamos fazer uma refeição.

Nosso Palio Economy, promovido a
'Adventure' após a viagem
a Guaraqueçaba
Percorridos alguns quilômetros, uma grande placa anunciava atrativo turístico. De fato, tratava-se de algo curioso que eu já tinha lido na internet, e fiquei surpreso de nunca ter ouvido falar sobre tal coisa até a presente data.  É que a rodovia passa ao lado de uma rocha mais ou menos plana, à altura do chão, com riscos apontando todos em uma mesma direção. São as tais “estrias glaciais”. Segundo os especialistas, formadas pelo movimento de grandes massas de gelo que existiram na região há 300 milhões de anos, numa época em que os continentes ainda eram unidos.

Feito o registro, seguimos novamente até a estrada, até quase chegarmos novamente à rodovia de acesso a BR. Regressei para entrar numa estrada de terra onde iríamos conhecer uma pousada que a Pri tinha visto na internet. No caminho, nada de agência bancária, correios ou farmácia, nada de supermercado, lan house ou casa lotérica. Pra compensar, há sinal de celular, e a torre de telefonia fica justo diante dessa estrada em que entramos à procura da pousada. Placas indicavam também um restaurante, seguindo por uma bifurcação. Mantendo nosso caminho, chegamos à tal pousada, onde fomos atendidos por uma moça com forte sotaque, que nos mostrou as instalações.
Estrias glaciais

Valores entre R$ 220 e R$ 260 a diária (de acordo com o tipo de quarto), com direito a café da manhã e fondue de queijo e chocolate à noite, mais cavalgada com passeio até uma cachoeira da região. Tem acesso à internet para quem quiser atualizar o blog ou a rede social.

Não era intenção ficar na pousada. Não tínhamos tempo nem dinheiro para isso, então regressamos para gastar o que havíamos previsto num café que vimos no trajeto de entrada. Distraído, passei pelo café e decidimos parar, alguns metros à frente, no Museu de Witmarsum, que fica ao lado da cooperativa de mesmo nome.

Entramos na casa de madeira, com o chão estalando sob nossos pés. Não havia viva alma à vista e foi se criando uma atmosfera de suspense, na qual sabíamos que, em algum momento, alguém surgiria em meio às antiquidades. Os objetos, em si, não me surpreenderam muito. Não era muito diferente de todo museu que já visitamos. Um destaque maior para as fotos, já que a localidade mesmo não é das mais antigas.

Igreja menonita local
Tínhamos caminhado por quase todos os cômodos quando um senhor passou pelo corredor principal e, ao nos ver, procurou demonstrar simpatia: “Ah, já estão se achando aí?”. E, em seguida, apareceu novamente para dizer que: “Se precisarem de alguma coisa, fiquem à vontade.”

Estávamos indo embora, só precisávamos pagar a taxa de entrada. Mas chegou um casal no mesmo momento, e o funcionário do museu começou a dar uma explanação a respeito dos imigrantes na colônia, sua história e formação. Heinz Egon Philippsen, como se chama o historiador que atende no Museu de Witmarsum, ele sim é a principal atração do museu. A Pri, que não é muito de ficar parada ouvindo aula de História, sentou-se para escutá-lo explicando de que forma e em que condições os imigrantes vieram para os Campos Gerais.

Diante de um mapa posto sobre a mesa, Philippsen falou sobre a miséria de seus antepassados, de alemães, holandeses e ucranianos, as razões que levaram todos a vir para outros países incluindo o Brasil. Ao mesmo tempo, narrou parte da própria história, falou de seus quatro filhos, de sua esposa e mencionou como hoje ele é historiador, e trabalha na mesma residência onde nasceu em 1955. A casa onde hoje funciona o museu, no passado foi a principal da fazenda que deu origem à colônia e cooperativa Witmarsum, mais tarde se tornou hospital (onde Philippsen vinha ao mundo) e hoje é o local onde ele trabalha.
Museu de Witmarsum

A narrativa de Philippsen é clara, cronológica, interessante e elucidativa. Vale a pena parar no museu por alguns instantes se for para ouvi-lo dando vida às coisas que ali são apenas objetos. Mas sem o casal que ali estava. O homem era daquele tipo chato que fica repetindo tudo o que o professor dizia, e a mulher era do tipo que se antecipava em duas ou três palavras o que ele ia dizer, só para mostrar que podia ser culta. Saber ouvir é uma virtude para poucos.

Dali, regressamos ao café, e comi uma torta de amora muito boa, enquanto a Pri comeu um bolo de Prestígio. Partimos em seguida, voltando a Ponta Grossa. Na saída de Witmarsum, nos preparamos para fazer uma foto bem legal do portal formado pelas altas copas das árvores. Estranhamente, passamos pelo lugar e não o vimos. Quase quis voltar imediatamente, mas decidi deixar para outra oportunidade. Porque o lugar pede outra oportunidade.

19 de fev. de 2012

Carnaval também é estresse...


Ontem à noite estávamos assistindo à TV, quando a Pri disse que queria pedir um lanche Delivery. Disse a ela que tudo bem, embora eu próprio não estivesse com fome naquele momento. Pediu algumas mini-pizzas (ou esfirras abertas) e informou nosso endereço. Só que disse que a casa ficava perto do Ponto Verde, supermercado que, na verdade, fica na Vila 31 de Março, a uns seis ou sete quarteirões. Às vezes acho que ela, assim como eu, ainda não está totalmente adaptada ao novo endereço. Até o ano passado ela morava na 31 de Março. [Eu, de meu lado, morava na Rua Padre Nóbrega, uma rua de calçamento que só foi asfaltada depois que eu fui embora...].

O motoboy não demorou muito, embora tenha chegado totalmente perdido. Precisei sair e acenar para que voltasse com a moto. Ao descer da moto, tirou o capacete com uma expressão estranha no rosto. Coçou a cabeça bem rápido, denotando nervosismo. Aí reclamou que quase não achou o endereço porque disseram a ele, na central, que a entrega era perto do Ponto Verde.

Pensei em despistar, dizendo que o pessoal da central era sacana. Afinal, motoboy tem fama de ser esquentado. Vai que eu digo que a Pri passou uma informação um pouco equivocada... O cara se revolta, joga as mini-pizzas no chão, pisa, e depois parte para cima de mim, injuriado. [Além do mais, a Pri estava ao meu lado, e não ia gostar nenhum pouco que eu a dedurasse...] Mas nem tive tempo de despistá-lo.

Ele continuou falando, e aí descobri que não estava nervoso por esse motivo. O trânsito no centro da cidade estava infernal por causa do desfile das escolas de carnaval, que acontecia naquele momento. Além disso, um senhor de idade estacionou o carro num local que quase o impediu de sair com a moto do lugar, e o único jeito de fazer isso foi danificando o carro do cidadão. E ainda, o motoboy tinha dupla jornada de trabalho, e era trocador de ônibus no primeiro período do dia. Estava exausto e, como morava também no Jardim Gianna, disse que a vontade era ficar em casa naquele momento.

Tudo isso ficamos sabendo só enquanto ele tirava as mini-pizzas da moto. Uns 30 segundos. Pense num cara indignado, e que precisava desabafar. Me entregou o troco com as mãos tremendo. Quase não acontece, mas dessa vez eu tive pena do motoboy. 

Sem desculpas para não acordar

Sou um sujeito profundamente influenciável. Principalmente pelos sonhos que tenho. Agora há pouco, sonhei que encontrava com meu amigo e colega Sebastião, com quem encontro quase todos os dias. Sebas é um sujeito culto e de opinião forte, que trabalha ao meu lado na redação do Jornal da Manhã. E ontem, manhã de sábado, ele parecia mais motivado que nos outros dias. Fez piadas, trouxe comentários interessantes sobre livros, relembrou histórias e me deu sugestão de pauta para um próximo caderno de agronegócios, que terei que fazer daqui a quinze dias.

É muito bom ver quando alguém está se sentindo bem. Parece que aquela sensação se irradia, e que eu posso captar isso, e até me apropriar um pouco dessa sensação. Talvez por isso tenha sonhado, há pouco, que encontrava o Sebas, e tínhamos um diálogo bem curto, mas fundamental.

- E o seu blog, Danilo? – Sebas perguntou.
- Puxa, está lá. Estou cheio de vontade de escrever, mas...
- Então... escreva. – ele respondeu, antes que eu encontrasse uma desculpa.

Acordei na mesma hora, e não sosseguei, enquanto não vim para o computador.

17 de jan. de 2012

O dia em que nos achar foi Missão Impossível


Talking Heads

Estive no supermercado há pouco e comprei um DVD do Talking Heads. Estava bem baratinho, algo como R$4,35, e fiquei curioso para conhecer as músicas do disco. Quem é Talking Heads? Engraçado você perguntar, pois comprei o DVD justamente para ter uma ideia um pouco mais clara sobre isso.

Há alguns anos eu estava no sebo sem procurar nada muito específico, e com tempo sobrando. E vi um disco de vinil com capa psicodélica desse grupo que eu nunca tinha ouvido falar. Ouvi no toca-discos da loja e achei legal. Consegui, logo depois, uma cópia do álbum em CD. Gostei muito do som do grupo, embora não compreenda suas letras. Não apenas porque estão em inglês e sempre tive dificuldades com o idioma, mas porque me parecem um tanto quanto obscuras em seu significado.

Bem, estou aqui ouvindo o DVD, pois as imagens são péssimas, feitas em 18 de dezembro de 1980, supostamente em Roma. Não dá pra ter certeza, pois a iluminação foi tão ruim que só é possível ver os primeiros componentes da plateia. Isso faz parecer um evento menor que o “Sexta às Seis”, não desmerecendo o programa cultural, apenas procurando uma comparação puramente quantitativa. Mas o som do disco é bacana.

Lembro que, logo que fiz a descoberta sobre o grupo, perguntei a meu amigo Ismael se ele conhecia o grupo.

- Já ouviu falar em Talking Heads?

E ele caiu na gargalhada. Pelo jeito, eu é que devia ter ouvido falar há bem mais tempo. O fato é que as pessoas têm a falsa imagem de que sou um poço de cultura repleto de citações que guardo apenas para mim. Mais tarde ele iria comentar com o nosso amigo Hélcio o fiasco de eu não saber quem era Talking Heads. Hélcio apenas fez silêncio, até hoje não sei se em respeito à minha ignorância, ou se porque ele também não lembrava quem era Talking Heads.

***

Missão Impossível

Fui com a Pri assistir ao filme Missão Impossível 4, ontem, no Shopping Total. Além de nós, apenas mais um sujeito na sala de cinema. Apesar disso, fizemos questão de desligar os celulares, um saudável hábito que temos sempre antes de iniciar o filme. O filme foi divertido, mas o susto veio quando saímos da escuridão do cinema. Meu celular marcava 16 chamadas não atendidas. Ligações do pai, da mãe, da avó da Priscila e um número desconhecido. Com certeza, pensei, algo de muito ruim tinha acontecido enquanto víamos o filme, para todos estarem tentando contato conosco. Pensei nas piores possibilidades, e liguei imediatamente para o pai da Pri, Clementino, antes que mais possibilidades viessem a minha mente.

Para minha surpresa, a mãe da Pri, Inês, só ficou assustada porque ligou em nossos celulares e não conseguiu nos encontrar nesse período. Quase acionaram toda a família na busca, julgando que algum acidente pudesse ter acontecido conosco. E eu que pensava que minha família tinha luxo comigo, agora vejo que a Pri também é o tesouro de sua família. O mais engraçado é que, durante o namoro, isso nunca aconteceu. Agora que moramos juntos, algo parece ter mudado.

16 de jan. de 2012

Que tipo de bêbado você é?


Ontem vi uma reportagem (longa demais até) no Fantástico, falando sobre os riscos do álcool na hora de pilotar motos. De fato, é um risco. Mas, o que ninguém fala nessas matérias, nem em campanhas ou onde quer que seja, é que as pessoas têm organismos diferentes umas das outras. Conheço pessoas que tomam dez latas de cerveja e não ficam sequer alteradas. Outras tomam uma apenas e já estão trançando as pernas. Acho errado dizer que todos ficam embriagados ao beber uma quantidade X de cerveja. Deveria haver uma pesquisa aprofundada verificando essa teoria. Talvez assim, a carteira de motorista de cada pessoa poderia trazer um diferente índice de dosagem alcoólica permitida, de acordo com o organismo. Imagino que tal medição seria possível. Deveria, então, haver uma campanha para que as pessoas soubessem seus próprios limites. Quem sabe fosse mais coerente que a tolerância zero, e mais eficaz que tentar proibir totalmente, o que certamente será frustrante em termos de aplicação e de resultados.Quando eu era mais jovem achava estranho o fato de os mais velhos se cumprimentarem com um “bom dia”, enquanto os de minha idade vinham com “opa”, “bão”, “e aí”, “olá”. E me perguntava se, depois de ficar mais velho, eu mudaria meus hábitos, ou se manteria os meus próprios e eles se tornariam, com o tempo, hábitos velhos. Mas hoje notei que me acostumei ao “bom dia”, e passei a cumprimentar as pessoas assim. Talvez porque aumentei meu relacionamento com pessoas mais velhas que eu. Talvez apenas porque tenha notado mais sentido em deseja ao outro que tenha um “bom dia”.

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Eu e a Pri estivemos no Guaragi no sábado, na pequena chácara de dois lotes de meu pai. Ali ele sempre planta coisas que não tem em sua casa no centro de Ponta Grossa, menos ainda na minha, que só tem espaço para um minicactus (sou tipo o Pequeno Príncipe no planeta B-612). Aliás... hora de dar um pouco de água pra ele.
Enfim, ganhamos algumas espigas de milho, e ontem quis cozinhar. Como a Pri estava ainda cuidando da lavanderia, onde tinha lavado uma porção de roupas, fui tratar do milho. Era a primeira vez que eu fazia isso sozinho, e fiquei impressionado com a perfeição das “embalagens”. Várias camadas de folhas bem verdes envolvem a espiga, onde estão os grãos perfeitos e intactos. A natureza é incrível.

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Tenho assistido ao seriado CSI na Record (TV Aberta), que voltou a exibir a primeira temporada. Estou positivamente surpreso com a qualidade dos episódios, em termos de roteiro, principalmente. Me fizeram recordar o quanto aprecio histórias de investigação criminal. Só que agora não me acho mais um detetive, apenas admiro a perspicácia dos personagens, sem me achar o mínimo disso. Eu me achava demais.


***

Hoje cheguei à segunda metade de minhas férias. O tempo passa voando. Estou certo de que chegarei ao dia 1º, voltando ao trabalho e percebendo que não fiz metade do que tinha planejado. Ao menos terei escrito este pouco no blog.

2 de jan. de 2012

Um novo lar... com as notas contadas


Há alguns dias o pianista Newton Schner Junior esteve no jornal para uma visita de cortesia. Veio apenas me desejar um feliz ano novo, pois ficaria alguns dias fora, em trabalhos braçais na chácara da família, em Itaiacoca, segundo entendi. Fiquei surpreso, pois não imaginava o Newton carpindo um lote. Certamente é um sujeito mais versátil do que eu pensava. Das teclas do piano e do computador para a enxada... às vezes é uma longa distância.

- E você, vai viajar? – perguntou ele, se referindo ao Réveillon
- Não... na verdade já tive gastos suficientes neste ano, por conta da compra da casa nova e da mudança.
- Ah, sim. Você se muda agora em janeiro?
- Isso aí.
- Vai poder escrever “notas de um novo lar”... – brincou, numa referência ao título de uma de suas obras literárias mais recentes.
- Acho que será um novo lar, só que sem as notas. – respondi rindo, enquanto fazia um gesto com as mãos que significava dinheiro.

E agora aqui estou, no novo lar, procurando entender que mudanças isso implica também em minha vida. A mesa de computador e o próprio computador são os mesmos, como se me tivesse sido possível ser apenas transportado com eles para outro ambiente. Mas a sensação é completamente outra. Outro espaço, outros móveis, outra companhia.

Quando comecei a namorar a Pri, há pouco mais de dois anos e meio, tinha planejado isso tudo para 2013. Não sei por que, achei que quatro anos era um bom número. Mas eu sempre tive mais paciência, enquanto ela sempre foi mais ansiosa. Dois anos e meio foi o ponto de equilíbrio, e o momento em que conseguimos encontrar e organizar uma casa para onde nos mudarmos.

Não foi fácil encontrar esta aqui. Percorremos a cidade toda, de casas a apartamentos, de condomínios centrais a bairros distantes. Não imaginava me mudar para o Jardim Gianna, localidade nova que até pouco tempo eu sequer sabia que existia. Além do mais, na primeira vez em que percorri estas ruas, para conhecer outra casa à venda, o aspecto visual não me agradou muito, por ser do outro lado da mesma vila. Aí o colega Alan me veio falar de uma casa quase totalmente mobiliada, à venda no Gianna, e fui sem acreditar no que ele dizia.

De fato, foi amor à primeira vista. Também... a casa parecia um showroom. Com os móveis planejados expondo a funcionalidade do lugar, ficou impossível não gostar da casa. Hoje já conhecemos boa parte dos pequenos (embora vários) defeitos do lugar. Mas isso acontece em qualquer endereço. Não há casa perfeita. O que sei é que o negócio acabou sendo feito. E agora o ambiente está adaptado à nossa permanência.

Há um sofá confortável na sala, do jeito que a Priscila queria, e meu computador ao lado, como eu necessitava. Até ontem à noite, a Pri ainda organizava algumas das sacolas de roupas que ela transferiu para cá. Ficou horas fazendo isso. E eu estou aqui pensando quantas revistas e livros deixei na casa de meus pais. Boa parte deles eu jamais vou usar mesmo, mas outros são de estimação.

Isso é algo interessante. Esta casa é bem menor que aquela de meus pais. Enquanto lá eu me acostumei a acumular coisas e não jogar nada fora, aqui eu precisarei aprender outros hábitos. Não há espaço para tranqueira. É preciso ser prático e direto. Nada de guardar todo tipo de papel, panfleto ou lixo.

Iniciei essa limpeza já alguns dias, mentalmente. Depois comecei a limpar gavetas, ainda na outra casa. Na noite do último dia de 2011 eu estava deletando mensagens antigas de meu celular. E ontem resolvi limpar um pouco este computador. Quando percebi, por um erro de cálculo estava deletando coisas que deveriam permanecer aqui. Cancelei o processo, mas uma parte dos arquivos foi excluída. Terei que recorrer a um backup feito meses atrás, para recuperar algumas HQs e textos importantes.

Este será um ano repleto de mudanças, erros e acertos, como foram os primeiros dias. Mas tudo fluirá. Hoje pela manhã levei a Pri ao trabalho. Quando voltava, vi um homem fazendo caminhada. Se deslocava a passos rápidos de calção, camiseta, óculos escuros e bengala. Bengala? Ele carregava a bengala, como se tivesse ido até a fonte da juventude e estivesse regressando após um rápido mergulho. Acho que será um ano de milagres também.

12 de dez. de 2011

Mais que uma casa nova

Janeiro promete ser uma data divisora de águas para este pisciano que raramente lê seu signo... No próximo mês entro em férias, mudo de endereço e, praticamente, de estado civil. Digo praticamente pois, nós, pessoas com orçamento limitado, devemos optar entre ter uma casa ou ter um casamento. A alternativa A pareceu mais prática e, por essa razão, eu e a Pri passaremos a viver sob o mesmo teto, o que promete não ser muito difícil, considerando que já passamos juntos a maior parte de nosso tempo livre.

Ainda assim, creio que a mudança será uma experiência e tanto. Uma viagem de autoconhecimento maior do que todas que já experimentei. E estou incluindo aí Morretes e Guaraqueçaba. Tenho mais curiosidades do que receios nesta mudança. No período em que estamos namorando, descobri muito a meu próprio respeito, e passei a perceber e aceitar meus defeitos e erros que antes ignorava. Minha insegurança, meu perfeccionismo, minhas preocupações e desatenção. Ao mesmo tempo, vi com mais clareza algumas qualidades, que guardo para mim. Vai que alguém diz que não são qualidades...

Mas, o encontro seguido da despedida cria um vínculo menor entre o casal. Agora, vivendo na mesma casa, espero descobrir mais a meu respeito e a respeito dela. Compreender melhor que atitudes são esperadas de mim e quais devem ser tomadas. Encontrar o equilíbrio entre o que se quer, o que se pode e o que se deve fazer. E ficar sabendo quem sou eu, vivendo em uma casa que não é de meus pais, na qual até hoje sempre tive tudo o que precisei, do carinho aos bens materiais.

Enquanto muitos deixam a casa de seus pais num ato de rebeldia, porque não concordam com as atitudes deles e não os suportam, eu deixo a casa de meus pais apenas porque sei que é tempo de sair. Pois, na verdade, foi nos últimos dois anos e meio que percebi de forma ainda mais evidente o quanto eles são importantes em minha vida. Notei de forma mais clara o quanto torcem por mim. Percebi o apoio que sempre que precisei. Com eles e com meu irmão, meu maior amigo, e que sempre entende minhas piadas, até as sem graça, sempre tive um refúgio.

Nos próximos dias sairei da casa de meus pais e de meu irmão com a tranquilidade de saber que eles também estão sempre de braços abertos. E que eles saibam que meus braços também estão abertos para eles, que agora terão mais alguém para visitar aos domingos. Se virem!

10 de out. de 2011

O que mantém o mundo um bom lugar

Um dos poucos privilégios que tenho como jornalista da seção cultural / entretenimento / social do jornal é que de vez em quando surge a possibilidade de acompanhar eventos que, normalmente, eu não poderia.

Foi assim que nesse domingo pude assistir, no Cine-Teatro Ópera de Ponta Grossa, à bela apresentação da Orquestra Sinfônica Philips, que iniciou aqui sua breve turnê pelo Brasil (segue depois para Curitiba e São Paulo). O grupo de dezenas de músicos veio da Holanda, numa parceria com a Associação Parque Histórico de Carambeí, e tive acesso a dois convites que me permitiram ver o show ao lado de minha namorada Priscila.

Sempre fico com receio quando a levo para algum evento cultural. Nem sempre a atração agrada, e às vezes nem eu me sinto satisfeito com algumas coisas. Estou me recusando temporariamente a ir ao cinema devido ao grande número de decepções, por exemplo.

Mas, dessa vez, posso dizer que o espetáculo valeu o tempo investido. Enquanto via e ouvia tudo, me vieram pensamentos filosóficos. É que eu observava com atenção a beleza da melodia e a elegância dos músicos. E, ao mesmo tempo, recordava a grande quantidade de desgraças que ouço todos os dias, trabalhando no jornal. São mortes, assassinatos, estupros, assaltos. Tudo provocado por pessoas não muito diferentes daquelas que ouviam a música, ou a apresentavam naquele instante.

Poderia um assassinato ser orquestrado por um daqueles que estava no palco, apresentado o que há de mais belo no ser humano: a criação artística? E teria eu o direito de apreciar aquela beleza toda, sabendo que tanta coisa ruim acontece no restante do mundo, ou mesmo do lado de fora do teatro?

Mas a minha mão estava sobre a mão da Pri. E a música insistia em tocar. Então a melodia e o momento bom prevaleceram, e esqueci do resto. É preciso esquecer o que há de ruim, de vez em quando, para perceber o que ainda há de bom. Espero poder sempre me concentrar no que há de bom, para não cair no erro de me tornar tão ruim quanto tudo que mais detesto. E a música segue.

14 de set. de 2011

Catraca em GIF

Opa... chegou a primeira tirinha animada do Catraca. Ou seja, formato GIF. Trata-se de algo um tanto quanto tosco para uma primeira tirinha com este recurso, mas estou mais animado que o próprio Catraca. Meu amigo Robison Queiroz foi quem me passou um programinha bastante simples para dar início à brincadeira.

E o roteiro para a tirinha foi de minha namorada, Priscila. Observe aqui o Story Board que ela preparou... É assim que começa. E abaixo está o primeiro teste.


O resultado final você
conhece no site

13 de set. de 2011

Nada substitui um profissional

Eu me preocupo demais. Demais.
No domingo fui limpar a lente de meus óculos e, ao esfregar um papel, quebrei a peça que equilibra o óculos sobre o nariz. Deve haver um nome para essa peça... tem nome pra tudo...
Enfim, minha primeira reação foi apanhar a cola Super Bonder e me preparar para uma operação delicada de recuperação da peça. Mas aí pensei melhor: isso seria arriscado pois poderia pingar a cola na lente, ou cometer um erro fatal na colagem e aí, "adeus, Tia Chica!".

Lembrei que da última vez em que estive comprando meus óculos a funcionária disse que aquela peça poderia ser substituída gratuitamente quando fosse necessário. Esperei, portanto, a manhã de segunda-feira, e deixei meus óculos na loja, para que ela procurasse a peça de reposição e fizesse o conserto. À tarde eu estaria de volta com meus óculos.

Caminhei por alguns minutos vendo um mundo embaçado com olhos lacrimejantes, até chegar ao carro onde, prudentemente, guardei meus óculos antigos no porta-luvas. Eles foram bastante úteis para quebrar um galho até o final da tarde, quando enfim pude retornar à ótica.
A funcionária me estendeu os óculos. Tudo em ordem. Mas poderia ter me poupado dos detalhes:

-Não encontrei a peça no estoque. Também não encontrei com o fabricante, e os parafusos são importados. Então achei uma peça parecida, e colei com Super Bonder, com muito cuidado, para não pingar na lente.

27 de jul. de 2011

Meus cartuns estão por aí...

Catraca no Gibicon nº0

Fico feliz ao perceber que tenho conseguido pequenas conquistas, mas de grande importância, através dos desenhos com o personagem Catraca. No domingo retrasado, dia 17, eu e minha namorada fomos até Curitiba, especialmente para marcar presença no Gibicon nº0, evento preliminar no Congresso Internacional de Quadrinhos, que ocupou diversos espaços no centro da capital paranaense.

Ali, munido de pequeno dossiê sobre figuras importantes, feito a partir de informações e fotos da internet, vi alguns dos quadrinistas e roteiristas de destaque no cenário nacional. Era o final do evento e também não tínhamos os planos de passar a noite em Curitiba. Então, assistimos a uma conferência na qual participaram os italianos Tommaso D’Alessandro (agenciador de quadrinhos) e Luca Raffaelli (jornalista cultural). No diálogo, eles esboçaram algumas de suas opiniões e traçaram um parâmetro do mercado europeu para os quadrinhos na atualidade. Ao final, Tommaso iria analisar portfólios e opinar sobre o trabalho dos desenhistas que ali estivessem.

A maioria levava diversas folhas de desenhos enormes e bem trabalhados. E ele tinha bastante a dizer, para o bem ou para o mal. Furei uma fila que começava a se organizar e joguei, diante de Tommaso, três páginas de tiras do Catraca. Mas não levou 15 segundos para que ele dissesse, em italiano, que não havia mercado para isso na Europa. Algo que ele já tinha dito durante a conferência... e eu só queria ouvir de novo.

Não foi surpresa e nem eu pensava em lançar as tiras no mercado europeu, ao menos por enquanto. É claro que ele completou dizendo que não entendia o que diziam as historietas, já que ele compreendia o italiano, mas não o português.

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Catraca em Curitiba

De volta pra casa, enviei uma mensagem através de site para a ZnorT, empresa especializada em ilustrações de diversos tipos, e sediada em Curitiba. Não mencionei detalhes de meu trabalho, apenas meu nome e minha atividade de cartunistas. Aí sim, veio a surpresa. Paulo da Rocha Loures Pacheco Jr, um dos responsáveis na empresa, me respondeu de forma bastante atenciosa e quase imediata, revelando que já conhecia as tiras do Catraca, e dizendo que eu poderia enviar meu portfólio para eles. É nessas horas que conseguir uma colocação no mercado se mostra, para mim, menos importante do que já ser conhecido no mercado. Catraca se populariza em Ponta Grossa, mas é reconhecido em Curitiba.

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Catraca é leitura

Ainda na semana passada, um telefonema recebido na redação do jornal me deixou ainda mais entusiasmado. Uma professora ligou pedindo autorização para reproduzir as tiras do Catraca em sua pesquisa, na qual aponta meus desenhos como motivadores da leitura junto a pessoas que estão aprendendo a ler. “Tem minha total autorização”, falei. Infelizmente não tenho o nome dela, que disse que me enviará solicitação formal via e-mail.

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Fã clube do Catraca

O Facebook e o Twitter certamente têm sido importantes ferramentas para a divulgação de meus desenhos. A Talita Moretto, que trabalha comigo no Jornal da Manhã, e coordena o projeto Vamos Ler de incentivo à leitura do jornal nas escolas, frequentemente publica as tiras do Catraca em sua página no Facebook. Nesta semana, ela publicou a mais recente, e dentre os comentários surgiu até um “fã club do Catraca”! São os membros do Projeto Saci, que trabalha com conscientização ambiental em São Paulo.

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Catraca no Youtube

Chegou ao Youtube, há poucos dias também, o vídeo de entrevista feita por Manu Rodrigues, da TVM, canal local a cabo, em seu programa Estação Urbana. O entrevistado foi este cartunista, no começo do ano, se me lembro bem. De lá pra cá, o endereço do site de tiras mudou para www.odanilo.com.br, mas a entrevista está bacana.


13 de jul. de 2011

Liechtenstein é logo ali... em Piraí

De vez em quando, é inevitável, situações inexplicáveis acontecem. Há poucos minutos, minha mãe tirou a fatura da conta telefônica da gaveta, e veio até mim, dizendo: “Danilo, dê uma olhada aqui nessa conta telefônica. Acho que veio errado. Aqui diz que fizemos uma ligação internacional...”

Fui verificar, e me deparei com a seguinte informação na fatura: uma ligação foi feita no dia 22 de junho, às 8h49. Teve duração de 25 segundos e, pasme... foi uma ligação para Liechtenstein!!

Liechtenstein! Eu nem sei se escrevi direto o nome aqui, nem tampouco tinha ideia de onde, exatamente, ficava esse lugar. O Google me veio com a seguinte informação:

Liechtenstein, oficialmente Principado de Liechtenstein, é um minúsculo principado, um microestado, localizado no centro da Europa, encravado nos Alpes, entre a Áustria, a leste, e a Suíça a oeste. Pouco mais de 34 mil habitantes moram no principado de apenas 160 km².

Fiquei de cara com o erro da companhia telefônica. Foram apenas R$ 1,91 a mais na conta, mas eu já estava pensando de que forma iria proceder com a reclamação. Foi quando notei que o número discado não era tão estranho assim. Na verdade, ele tinha sido discado novamente dois dias depois, em 24 de junho. Era o número (42) 3237-3402, que se referia a uma pousada em Piraí do Sul, aqui mesmo, nos Campos Gerais, interior no Paraná, e não nos Alpes suíços.

Acontece que no mês passado eu havia ligado para esse número para reservar uma hospedagem onde eu e a Pri pudéssemos passar o final de semana. Puxando pela memória, recordei de como tudo aconteceu.

***

Era manhã do dia 22 de junho. Alguns dias antes, eu e minha namorada tínhamos decidido viajar até Piraí do Sul, e passar um dia lá, aonde já tínhamos ido passear no ano anterior. A Pousada Serra de Pirahy é um excelente lugar estabelecido em meio a campos, riachos, cachoeiras, belas formações rochosas e um paredão de pedra que faz eco igual nos desenhos animados. Para completar, a pousada tem comida caseira, excelentes instalações e uma família muito simpática e acolhedora que administra tudo. Emerson, por exemplo, é um sujeito muito atencioso, inteligente, conversador, e realiza passeios guiados pelos campos, até as pinturas rupestres indígenas e às misteriosas marcas circulares gravadas em rochas há centenas ou, talvez, milhares de anos.

Ocorre que, na manhã do dia 22, precisamente às 8h49, eu tinha visto na internet o número de contato com a pousada, e apanhei o telefone para agendar nossa presença lá no fim de semana. O telefone chamou algumas vezes até que um senhor com uma voz estranha atendesse do outro lado, e me dissesse algo parecido com um “alô”.

“Alô”, eu disse. “Gostaria de falar com o Emerson. Ele está?”

Em seguida, o cidadão falou uma frase que, para mim, foi totalmente indecifrável. Notei apenas que ele falava com um sotaque que me lembrava o alemão.

“Me desculpe, acho que foi engano”, eu disse. E desliguei o telefone, em uma conversa que deve ter durado 25 segundos.

Olhei novamente para o papel onde tinha anotado o telefone (42) 3237-3402. Será que eu tinha discado errado? Podia ser. Ou, talvez, o Emerson estivesse com turistas em casa, e um deles atendeu o telefone ao ver que ninguém mais o faria. Na dúvida, liguei de novo em seguida, mas o número dava como ocupado. Naquela manhã, desisti.

Então, esqueci completamente o episódio. Somente dois dias depois é que encontrei tempo para tentar novamente o mesmo número. Liguei e, do outro lado, quem me atendeu foi a irmã do Emerson. Agendei nossa presença lá para o dia seguinte, à tarde. E assim fizemos. Foi um ótimo fim de semana, que só não foi melhor devido à chuva, que nos impediu de caminhar pelos campos.

Agora, quase um mês depois, eu olho para essa conta telefônica e relembro a história. Recordo a voz do sujeito com sotaque estranho, e reconheço: não sei como, mas, de fato... Eu fiz uma ligação para Liechtenstein... Através de um simples DDD.

4 de jul. de 2011

Catraca passa de 200 tiras e site ganha novo layout

Uma aventura que começou em preto e branco completa quatro anos e mais de 200 tiras em grande estilo. Catraca, personagem de quadrinhos que desde 2007 ilustra cada edição dominical do Jornal da Manhã, acaba de ganhar novo site. A página de Tiras do Danilo (que sou eu) está no ar no endereço www.odanilo.com.br.

Não é apenas o endereço que ficou mais fácil de lembrar. A navegabilidade para o internauta e a interação foram ampliadas. Em consonância com a evolução da internet, as Tiras do Danilo agora estão linkadas com o Facebook e o Twitter, por exemplo.

Quem acessa o site pode ‘twittar’ a tirinha que mais gostou, ou curtir a piada e compartilhar com os amigos do Facebook imediatamente. Além disso, outra novidade é o ‘Risômetro’: é possível dar uma nota (de uma a cinco estrelas) para a tirinha. O sistema calcula uma média e informa o resultado atual abaixo da tira.

No arquivo é possível acessar todas as tiras feitas desde 2007, numeradas e datadas. A partir do site, o internauta também pode seguir o autor no Twitter ou ler postagens em seu blog Universo e Afins. As tiras seguem sendo publicadas na Revista Urbe do Jornal da Manhã.

Catraca é um garçom que vive situações bizarras relacionadas ao cotidiano. Suas histórias, não raro, envolvem lugares, acontecimentos ou personagens baseadas na realidade de Ponta Grossa, na região dos Campos Gerais. Algumas delas registram fatos que foram notícia nos jornais, como as obras da rodoviária, a revitalização da Avenida Vicente Machado, o pânico com a Gripe A. É como se colocássemos um marcador em alguns desses fatos, para relembrá-los sob o ponto de vista do bom humor, mesmo em situações ruins.

3 de jun. de 2011

Uma troca de "bujão"

Levar meu automóvel à oficina é sempre algo tenso. Inevitavelmente acho que os mecânicos estão me enganando. Nesta manhã de sexta-feira, precisei levar o carro para efetuar a troca de óleo.

Por mais que os mecânicos pareçam sérios, não consigo parar de pensar que estão me passando a perna de alguma forma. É complicado ser leigo. O sujeito que retirou o óleo verificou que havia uma peça que, segundo a nomenclatura especializada, era um bujão [para mim era apenas um parafuso], e que estava "espanada".

Ele mostrou para um colega, que varria o chão da oficina, que era um pouco vesgo e aparentava ter o raciocínio um pouco lento:
"Olhe aqui... tá espanado. Acho que vai ter que trocar."
"Não..." - disse o outro, segurando a vassoura - "Isso aí é porque foi apertado demais. Acontece."

Indiferente à opinião do colega, o mecânico foi e trocou o tal bujão.
"Olhe como ficou melhor."
"Pra mim tá igual.", o outro disse.
"Que igual, que nada!"

Um terceiro mecânico se envolveu na conversa:
"Por que você ainda pergunta as coisas pra ele? Faz 15 anos que ele trabalha aqui e não sabe nada..."
"Ah, mas eu fico nervoso..." - disse.

Ficou nervoso porque eu estava ao lado escutando a opinião do outro que dizia não haver necessidade de troca da peça?

Foram só quatro reais a mais na conta da troca de óleo.
Mas fiquei acreditando mais no sujeito vesgo.
Eu sempre acho que os mecânicos estão me enganando...

25 de mai. de 2011

Trinta minutos que viraram apenas três

No final da tarde de terça-feira, quando enfim encontrei tempo para tomar um café, meu chefe Mário veio dizer que havia no telefone uma mulher que queria falar comigo, e que parecia ser ligação de muito longe.

Atendi quase me sentindo importante. Mas a sensação desapareceu assim que a mulher do outro lado começou a falar com a voz robótica característica de uma atendente de telemarketing. De forma mecânica e sem pausas, ela explicou que fazia parte de uma empresa que estava fazendo pesquisa sobre os produtores culturais e a aplicação da Lei de Incentivo à Cultura no País.

Enquanto ela dizia isso, tentei anotar alguma informação a seu respeito, mas nem seu nome ou da empresa consegui escrever, tal era a rapidez de suas palavras. Concluída a explicação que não pude compreender, ela disse que precisaria fazer uma entrevista comigo para obter dados para a pesquisa. "Tudo bem", eu disse. "Vai levar cerca de 30 minutos", ela falou. Trinta minutos é uma vida para quem está numa redação de jornal diário. Concedi a ela 10 minutos, com a proposta levantada por ela de prosseguir com as perguntas na manhã do dia seguinte.

Primeira questão: "Há quanto tempo você é um produtor cultural?"

- Produtor cultural? Eu... Eu não me consideraria um produtor cultural.
- Me disseram que você era a pessoa que coordena os projetos culturais da empresa.
- Mas você ligou para um jornal. Eu sou repórter da editoria de cultura. Faço a divulgação de produtos culturais, mas não diria que produzo cultura.
- Eu gostaria de falar com o responsável pela produção cultural da empresa.
- Bom... nós temos uma responsável pelos projetos do jornal. Nesses projetos temos um que é voltado para a cultura. O Cinearte tem atividades de cinema e músi...
- Então vocês não têm um produtor cultural na empresa, somente responsável por projetos?
- Isso mesmo.
- Certo. Boa tarde.
- Boa tarde.

E assim 30 minutos se transformaram em três minutos. O que já foi muito.

16 de mai. de 2011

Anseios solitários

Boas notícias... meu novo site de tirinhas está quase pronto. Daqui a alguns dias, calculo, já poderei anunciar o novo endereço.

Preparei o layout há alguns meses, passei para que meu amigo Rodolfo colocasse no ar. Rodolfo é amigo de longa data, embora quase não conversemos mais. Ele é o sujeito que possibilitou o surgimento virtual do site Super OW!, quando eu me divertia trabalhando em um jornalismo rápido, ágil, útil, bem feito, mas pouco rentável.

Rodolfo Bandeira era o programador, e sempre que surgia um problema resolvia com relativa rapidez. Morava perto de minha casa até pouco tempo, a poucos metros da chamada "Curva do Diabo", não muito longe também do Estádio de Futebol Germano Krüger. Por último, foi para Curitiba... acho que é onde está agora. Trabalhando para a RPC, se não me engano.

O site ficou com ele, que esteve envolvido com um trabalho de conclusão de curso, e sabemos o que isso significa. Tensão e dedicação quase exclusiva ao projeto acadêmico. Concluiu essa etapa na semana passada, e neste sábado retomou a formatação do sistema do site.

Dei uma olhada hoje e notei que ainda faltavam algumas coisas. Envie um e-mail dizendo o que ainda faltava. Na resposta, ele me lembrou que ainda não havia terminado. Uhnf... eu devia esperar ele me dizer para ir lá olhar. Mancada... Mas, quem acha que sou apenas paciente, não se engane. Sou ansioso como todas as pessoas são.

Pelo menos eu acho que todas são ansiosas. Só que cada pessoa tem ansiedade em relação a coisas diferentes. Varia de acordo com o interesse de cada um. Como podemos criticar uma pessoa por ela ser ansiosa? Como podemos criticar alguém porque ela quer dividir esse ansiedade com os outros? Quem consegue admirar ou desejar algo, sem sentir necessidade de compartilhar descobertas ou esperanças? A ansiedade, a pressa, a precipitação não é um defeito. Só é difícil de ser compartilhada na mesma proporção por diferentes pessoas.

Certa vez conversei com uma bibliotecária, em minha escola, que todos julgavam ser chata. Inclusive eu. Nessa conversa descobri que ela, assim como eu, era fã de romances policiais. Ela recordou o nome de um detetive, Mike Shayne, cujas histórias ela costumava ler na juventudeem livros de bolso.

Aquele nome eu escrevi no verso de uma agenda ou caderno. E, universitário, quando adquiri o saudável hábito de frequentar sebos, decidi procurar por aquele personagem. Encontrei um livro surrado que trazia uma das aventuras do personagem. Li, e achei fantástica a narrativa.

Meu coração batia acelerado no dia em que entrei em meu antigo colégio, com o livro na mala. Iria entregar nas mãos da bibliotecária. Chamei por ela na recepção. Quando veio, entreguei a ela o livro de páginas amarelas que quase se soltavam. "Trouxe isso para você", disse, esperando ver olhos brilharem, enquanto as lembranças da leitura na juventude vinham à sua memória. Ao invés disso, o que ela viu foi um livro pouco cuidado, mas agradeceu pela doação à biblioteca. "Não, eu trouxe para você... é Mike Shayne", expliquei.

Sua surpresa foi mais por eu mencionar o nome, do que por ter o livro em mãos. Não havia emoção em sua voz. Não havia olhos brilhando. Sua mente parecia se deter na catalogação do acervo da biblioteca. A ansiedade que pensei compartilhar com alguém, na verdade era apenas minha.

Fui embora decepcionado. Nunca encontrei outra pessoa que tivesse lido histórias do personagem, enquanto eu busquei e li pelo menos outras duas. Os desejos, os prazeres, os anseios pertencem exclusivamente a cada pessoa. Mas, tolos, continuaremos a buscar quem compartilhe o que sentimos e precisamos na mesma intensidade. Dizem que a felicidade é estar bem consigo mesmo. Mas como é estar bem consigo, sem se importar com o que o outro pensa?

Que as divagações e perguntas lançadas no ar nos tragam, se não respostas, conforto.

23 de abr. de 2011

O boteco de Seu Rui

Após o feriado de Sexta-feira Santa, a redação do Jornal da Manhã voltou a ser povoada por essas criaturas estranhas denominada repórteres e diagramadores.

Na verdade, talvez essa raça devotada ao trabalho em jornais não seja, realmente, composta por filhos de Deus. Afinal, neste sábado, mesmo a Igreja do Rosário amanheceu com suas portas fechadas.

Cheguei ao jornal o mais cedo possível, na tentativa de adiantar o trabalho e sair também mais cedo. Tinha concluído a parte escrita às 9h45, então desci para tomar um café.

Ao lado do jornal tem uma lanchonete sem nome, que está sempre aberta. Encontrei lá um senhor um pouco barrigudo, que prestava atenção à TV. O noticiário mostrava as imagens de jovens deitando no asfalto, no meio da noite, por pura diversão/loucura.

"Bom dia. Tem café?", perguntei, enquanto ele apenas balançava a cabeça para dizer que sim.

Achei que ele não estava de bom humor, e que não tinha a mínima intenção de conversar. Mas, que nada. Seu Rui já estava era impaciente de ficar dois dias parado, sem fazer nada. Houve tempo em que ele gostava de um feriado, quando era funcionário contratado. Agora, aos 53 anos, dono do próprio negócio, prefere ir trabalhar em sábados pouco movimentados, juntando alguns trocados a mais, do que ficar em casa. "As contas não param", diz.

O boteco de Seu Rui é simples, mas o café e a coxinha não são ruins. As parede indicam parte de sua inclinação política e religiosa. Algumas orações, uma ou duas estátuas de santos, um antigo calendário com a foto do Jocelito e um quadro fazendo referência ao time do coração: Palmeiras.

"Já fui de tudo nessa vida, menos ladrão", disse Rui, que depois lembrou que também não foi engraxate, pois a barriga o impedia de colocar o caixote diante de si.

Ao dizer que não foi ladrão, contou o fato que o fez deixar para trás a ideia de roubar. Aos 19 anos, furtou um wafer de um mercado que ficava na Avenida Vicente Machado, nas proximidades de onde hoje é a loja Maxitango. Na hora de pagar as compras, o gerente disse a ele que faltava pagar o que estava em seu bolso. Pior do que ser descoberto, foi passar vergonha em um mercado lotado. Mas foi importante, e uma lição para que nunca mais pegasse algo que não fosse seu, disse.

Enquanto conversávamos, três ou quatro pessoas que passaram na rua o cumprimentaram. O importante é que hoje ele não é lembrado como o ladrão de 34 anos atrás. Hoje todos o conhecem pelo nome, tanto que seu estabelecimento nem nome precisa ter.

22 de abr. de 2011

Ignorando a competência

Um grande conflito se instala em minha mente: a batalha entre o que eu faço, o que compete a mim fazer, e o que eu devo realmente fazer.

Talvez seja um dos maiores problemas da sociedade contemporânea. Muito se fala que as pessoas deixaram de se preocupar umas com as outras, e isso é um indicativo de que é verdade. Só não sei o que é causa e o que é consequência nessa história.

Sempre me revoltei com as pessoas que fazem apenas aquilo que é de sua obrigação. Acredito que essa é a razão pela qual muitas coisas boas deixam de acontecer. E, nessa semana, tive a prova real.

Na verdade, tudo começou há cerca de um mês. O colega chargista J. Robson,

codinome “Sádico”, esteve no jornal e veio conversar comigo:

- Daí, velho... e o livro cara? Sai ou não sai?

Ele se referia ao livro “Traços de PG”. Há cerca de dois anos, o Jornal da Manhã havia inscrito um projeto, aprovado pela Lei Rouanet de incentivo à cultura. O livro, intitulado “Traços de PG” iria reunir meus cartuns e as charges do Sádico. Mas a captação de recursos, até onde eu sabia, tinha estagnado em algo em torno dos 50%, de modo que a publicação do livro ainda era apenas uma boa intenção.

- Eu tava pensando... – ele continuou – acho que tá na hora de a gente se mexer. Porque, se depender dos outros, então não vai sair esse nosso livro. Vamos aplicar terrorismo, tática de guerrilha...

A ideia não me pareceu de todo ruim. Por outro lado, eu estava pouco inclinado a fazer algo a respeito. Embora a publicação do livro fosse de meu interesse, fazer qualquer esforço adicional para isso me parecia incorreto. Nosso trabalho deveria ser apenas de separar tiras e charges para compor a obra. A diagramação e impressão, se bem me lembro, estava a cargo da Toda Palavra Editora. O projeto era do Jornal da Manhã, a coordenação de projetos era da Talita, e a busca de recursos para publicação era da ABC Projetos. Cada qual tinha sua responsabilidade.

Apesar disso, iniciamos na semana seguinte uma série de comentários no Twitter, com objetivo de relembrar o livro, já esquecido, e manifestar nossa indignação com o projeto que parecia ainda distante. Houve algumas manifestações de apoio de amigos e colegas.

Os comentários no Twitter culminaram em uma curta tirinha que fiz e publiquei no Twitter e no Facebook, a partir de uma ideia que foi até sugestão do Sádico em nossa primeira conversa.


Logo em seguida, o Sádico fez uma tira excelente, também levando em consideração a demora na execução do projeto.

Mais tarde conversei outra vez com Sádico, e informei a ele que, na verdade, nem mesmo os 50% dos recursos para o livro tinham sido arrecadados. E que, tínhamos somente até dezembro para captar o restante, ou para reiniciar todo o projeto de novo, do zero. Ele indicou que sairia em busca de patrocinadores.

Mas eu não me imaginava buscando patrocínio para o livro, até porque esse era o trabalho da empresa contratada para esse fim. No entanto, dias depois uma informação nova surgiria.

Eu estava preparando a entrevista que faria para a revista Urbe com o secretário de Estado de Cultura, Paulino Viapiana. Pesquisava projetos em execução pela Secretaria, quando li mais detalhadamente o projeto ‘Conta Cultura”, que existiu entre 2001 e 2003 e, no mês passado, foi reativado. Basicamente, através dessa iniciativa, o Governo do Estado se encarregava de buscar patrocinadores para projetos culturais já aprovados pela Lei Rouanet. Pensei: espera aí... será que o livro “Traços de PG” não se enquadra nisso? Talvez. Mas o detalhe era o seguinte: o prazo para inscrição de projeto expirava em dois dias.

A diretoria do jornal estava em reunião. Falei com a Talita, coordenadora de projetos, que verificou rapidamente e confirmou que o livro poderia ser inscrito no “Conta Cultura”. Em seguida liguei para a ABC Projetos, onde fui informado pela funcionária que, de fato, nosso livro não tinha sido inscrito no projeto. “Me mande um e-mail explicando bem certo o que é o projeto”, disse a funcionária, que sequer sabia do que se tratava.

Depois de enviar o e-mail com o link e um texto explicativa, recebi sua resposta: “Vou dar uma lida com calma, e qualquer coisa te respondo.” Considerando que tínhamos dois dias, enviei novo e-mail com a seguinte mensagem: “Te ligo à tarde”.

O resultado veio logo após o almoço. A funcionária da ABC Projetos me ligou para dizer que, sim, o livro poderia ser inscrito no projeto. Ela estava preparando os documentos para enviar ainda naquela tarde, e só bastaria uma assinatura do diretor de redação do Jornal, para que tudo fosse enviado via sedex no mesmo dia. Na verdade, não só o “Traços de PG”, como também o projeto “Fragmentos”, do JM, pode ser inscrito no programa.

Assim, poucas horas depois, já colhida a assinatura necessária, entreguei dois envelopes, sendo um de nosso livro, para a Taina, na recepção do Jornal. E pedi que enviasse no mesmo dia pelos correios.

O fim de tarde me trouxe uma sensação muito boa, de ter feito o máximo possível para que o livro fosse publicado. Duvido que pudesse ter ajudado mais que isso. Também ainda depende da aprovação da comissão nomeada pelo Estado para escolher os projetos, mas acredito que temos chance.

No entanto, e se eu não me mexesse? E se deixasse apenas para os responsáveis pela captação de recursos, que sequer sabiam do que se tratava o “Conta Cultura”? Daí vem a pergunta... devemos fazer apenas o que é de nossa responsabilidade, ou tudo aquilo que for necessário, independente de nossa competência?

Tudo o que sei, é que quero ver o livro publicado. E que a guerrilha que começou no Twitter ainda não acabou...

***

No dia seguinte, a Taina me diz que os Correios ligaram pro jornal, e que dois envelopes enviados no dia anterior tinham sido extraviados. Os dois inscritos no projeto “Conta Cultura”. Foram trinta minutos de meu desespero, até que os Correios localizassem os pacotes, que já estavam em seu destino.