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31 de dez. de 2012

O Armazém de 1925

Naquele dia, eu e a Pri concordamos em conhecer mais um dos atrativos turísticos naturais da região de Ponta Grossa. Era um sábado, se não me falha a memória, e optamos pelas Furnas Gêmeas. O site da prefeitura não era muito claro quanto à localização, mas dizia que, para conhecer as tais formações rochosas, era necessário seguir pela rodovia que levava ao distrito de Itaiacoca.

Partimos. A rodovia é de boa qualidade, embora sem acostamento. Depois que passamos a área conhecida como Passo do Pupo, um vilarejo delimitado por uma igreja e algumas mercearias, seguimos adiante em busca de uma placa que nos orientasse. Como não encontramos, continuamos indo em frente.

Descobrimos estradas bastante sinuosas adiante. Lembrou um pouco a Estrada da Graciosa, que leva a Morretes. Muito bonito o trajeto, e não dá pra correr muito, porque são muitas curvas em uma rodovia estreita. Sem nenhuma placa, passamos por um local que nos pareceu oficina ou ferro velho. A Pri sugeriu que eu parasse para pedir informação.

Como estávamos com tempo, optei por ir um pouco mais longe antes de admitir que tínhamos nos perdido. Poucos quilômetros à frente, no entanto, parei numa entrada para estrada de terra, que levava a uma cachoeira ou algo assim. Mas não eram as Furnas Gêmeas. O site da prefeitura não dizia que devíamos ir tão longe.

Um automóvel passava por nós e fiz sinal para que parasse. O motorista reduziu e freou. Perguntei a ele sobre as Furnas Gêmeas. Ele disse nunca ter ouvido falar. Agradeci, e retornamos.

Um misterioso Armazém, datado de 1925,  estava no trajeto...
No trajeto de volta, decidi parar onde a Pri havia sugerido antes, para pedir informação. Para minha surpresa, não se tratava de um ferro velho, nem oficina. Era apenas um casarão, e em frente havia apenas uma caminhonete antiga. Talvez o motivo que nos fez associar o lugar a uma oficina. Deixei a Pri esperando no carro, e fui conversar com quem ali estivesse.

Sentado no assoalho, à porta de entrada, estava um homem magro, de cabelos curtos escuros, fumando um cigarro, e aparentando a calma típica de quem vive praticamente isola (as casas ali ficam muito distantes umas das outras). Quando estacionei e fui em sua direção, ele se levantou.

"Boa tarde!", falei
"Boa tarde", respondeu.
"Estou procurando as Furnas Gêmeas. Sabe onde fica?"

Mas ele não ouviu minha pergunta, pois um cachorro preso ao lado da casa latiu ferozmente. O homem berrou para que o cão ficasse quieto. E pediu para eu repetir a pergunta, enquanto se aproximava.

"Sabe onde ficam as Furnas Gêmeas?"
"Furnas Gêmeas?", repetiu ele, olhando para o chão, como se consultasse na mente uma lista de lugares que conhecia. "Olha... eu moro aqui há vários anos, e nunca ouvi falar. Mas quem te disse que tem esse lugar por aqui?"
"Eu vi no site da prefeitura de Ponta Grossa" - e por um instante, sem desdenhar a inteligência do cidadão, mas apenas considerando a aparência simples na qual vivia, achei que ele não sabia o que era um site.
"Mas fica perto de onde?", perguntou.
"Depois do Passo do Pupo".
"Ah, Passo do Pupo eu conheço... deve ser ali perto, então. Mas volte, e pergunte ali na igrejinha", sugeriu.
"Tá bom, obrigado."

Eu já voltava para o carro quando me detive um instante, reparando mais uma vez em algo que tinha percebido já quando chegara. No alto do casarão, em sua fachada, letras graúdas diziam "ARMAZÉM", e o número "1925" anunciava a data de construção, como acontece em muitas construções antigas.

"Aqui é residência ou é um armazém?", perguntei.
"Ah, é residência... foi armazém há muito tempo..."
"E o senhor era o dono?"
"Não..." - ele riu um pouco, talvez pela pergunta um pouco idiota, já que o homem não tinha idade para ter estado ali em 1925. Depois completou: "O dono tá ali..."
Dizendo isso, apontou com a cabeça para a caminhonete velha, e continuou sorrindo.
Sorri também, mesmo sem ter entendido. Ali não havia ninguém... Estaria ele vendo alguém que eu não via?

Quando a conversa com um estranho fica insólita demais, é hora de ir embora.

Entrei no carro, onde um cachorro parecia querer impedir a Pri de sair. Acabamos encontrando a estrada para as Furnas Gêmeas, bem perto do Passo do Pupo. Não chegamos até lá porque a estrada era muito ruim. Mas, fiquei pensando no Armazém de 1925, e me perguntando onde estaria o dono.

13 de jul. de 2011

Liechtenstein é logo ali... em Piraí

De vez em quando, é inevitável, situações inexplicáveis acontecem. Há poucos minutos, minha mãe tirou a fatura da conta telefônica da gaveta, e veio até mim, dizendo: “Danilo, dê uma olhada aqui nessa conta telefônica. Acho que veio errado. Aqui diz que fizemos uma ligação internacional...”

Fui verificar, e me deparei com a seguinte informação na fatura: uma ligação foi feita no dia 22 de junho, às 8h49. Teve duração de 25 segundos e, pasme... foi uma ligação para Liechtenstein!!

Liechtenstein! Eu nem sei se escrevi direto o nome aqui, nem tampouco tinha ideia de onde, exatamente, ficava esse lugar. O Google me veio com a seguinte informação:

Liechtenstein, oficialmente Principado de Liechtenstein, é um minúsculo principado, um microestado, localizado no centro da Europa, encravado nos Alpes, entre a Áustria, a leste, e a Suíça a oeste. Pouco mais de 34 mil habitantes moram no principado de apenas 160 km².

Fiquei de cara com o erro da companhia telefônica. Foram apenas R$ 1,91 a mais na conta, mas eu já estava pensando de que forma iria proceder com a reclamação. Foi quando notei que o número discado não era tão estranho assim. Na verdade, ele tinha sido discado novamente dois dias depois, em 24 de junho. Era o número (42) 3237-3402, que se referia a uma pousada em Piraí do Sul, aqui mesmo, nos Campos Gerais, interior no Paraná, e não nos Alpes suíços.

Acontece que no mês passado eu havia ligado para esse número para reservar uma hospedagem onde eu e a Pri pudéssemos passar o final de semana. Puxando pela memória, recordei de como tudo aconteceu.

***

Era manhã do dia 22 de junho. Alguns dias antes, eu e minha namorada tínhamos decidido viajar até Piraí do Sul, e passar um dia lá, aonde já tínhamos ido passear no ano anterior. A Pousada Serra de Pirahy é um excelente lugar estabelecido em meio a campos, riachos, cachoeiras, belas formações rochosas e um paredão de pedra que faz eco igual nos desenhos animados. Para completar, a pousada tem comida caseira, excelentes instalações e uma família muito simpática e acolhedora que administra tudo. Emerson, por exemplo, é um sujeito muito atencioso, inteligente, conversador, e realiza passeios guiados pelos campos, até as pinturas rupestres indígenas e às misteriosas marcas circulares gravadas em rochas há centenas ou, talvez, milhares de anos.

Ocorre que, na manhã do dia 22, precisamente às 8h49, eu tinha visto na internet o número de contato com a pousada, e apanhei o telefone para agendar nossa presença lá no fim de semana. O telefone chamou algumas vezes até que um senhor com uma voz estranha atendesse do outro lado, e me dissesse algo parecido com um “alô”.

“Alô”, eu disse. “Gostaria de falar com o Emerson. Ele está?”

Em seguida, o cidadão falou uma frase que, para mim, foi totalmente indecifrável. Notei apenas que ele falava com um sotaque que me lembrava o alemão.

“Me desculpe, acho que foi engano”, eu disse. E desliguei o telefone, em uma conversa que deve ter durado 25 segundos.

Olhei novamente para o papel onde tinha anotado o telefone (42) 3237-3402. Será que eu tinha discado errado? Podia ser. Ou, talvez, o Emerson estivesse com turistas em casa, e um deles atendeu o telefone ao ver que ninguém mais o faria. Na dúvida, liguei de novo em seguida, mas o número dava como ocupado. Naquela manhã, desisti.

Então, esqueci completamente o episódio. Somente dois dias depois é que encontrei tempo para tentar novamente o mesmo número. Liguei e, do outro lado, quem me atendeu foi a irmã do Emerson. Agendei nossa presença lá para o dia seguinte, à tarde. E assim fizemos. Foi um ótimo fim de semana, que só não foi melhor devido à chuva, que nos impediu de caminhar pelos campos.

Agora, quase um mês depois, eu olho para essa conta telefônica e relembro a história. Recordo a voz do sujeito com sotaque estranho, e reconheço: não sei como, mas, de fato... Eu fiz uma ligação para Liechtenstein... Através de um simples DDD.