6 de nov. de 2013

O Especialista

Semana passada acordei e, ao sentar na cama, percebi uma sensação incômoda no ouvido direito. Reparei que o sintoma surgia cada vez que eu me levantava ou abaixava. Comecei a recuperar meu histórico de enfermidades que, felizmente, [ainda] é reduzido, e julguei que poderia ser indicativo de que minha sinusite alérgica estava de volta.

É que, há quase dois meses, peguei um resfriado nos primeiros dias de minhas férias. Tratei com xaropes e ignorância, e acabei julgando estar curado. Mas, agora, observando sintomas, notei outros problemas. A começar pelo número exagerado de vezes que passei a assoar o nariz, crises de espirro diárias e sensação de congestão nasal.

Somado a isso, meus óculos pareciam comprimir os seios (ui!) da face na região do nariz, justo o local normalmente afetado pela sinusite. E imaginei que estava um pouco inchado, indicando inflamação.

Sem alternativa, e tendo adiado isso por quase 60 dias, precisei ir ao médico nessa terça-feira. Mas, diante de um dos melhores especialistas em pneumologia da cidade (o mesmo que diagnosticou minha sinusite dois anos antes) me senti ainda mais ignorante. Na verdade, a consulta foi humilhante, aviltante, degradante.

O médico perguntou quais sintomas eu tinha, e narrei basicamente o que está descrito aqui nos primeiros parágrafos. Foi quando ele iniciou os exames. O primeiro deles, no ouvido. Primeiro o esquerdo, depois o direito. "Aqui você não tem nada. Só um pouco mais de cerume no ouvido direito", disse, sendo educado para não falar que meu ouvido estava quase entupido de cera.

Depois, sobre os óculos estarem apertando a região do meu nariz, ele disse: "Me empresta seus óculos". Pegou e, entortando a peça que apoia o óculos sobre o nariz [chamada "ponte"], abriu um pouco, deixando mais folgada. "Melhorou?"

Claro que depois, ele receitou um hemograma e um raio-x dos seios da face. E é muito provável que depois disso venha a apresentar um diagnóstico bastante preciso, como ocorreu dois anos atrás. 

Mas saí do consultório me sentindo bastante tolo, e duzentos reais mais pobre.

Às vezes eu queria ser mais especialista e menos ignorante no que tange à medicina.

1 de nov. de 2013

A música que nos toca

"Quem canta seus males espanta", diz um ditado antigo, que já deve ter virado canção algum dia. Talvez por isso eu cantarole música velhas ou antigas, jingles ou músicas religiosas, trilha sonora de desenho animado ou videogame, logo pela manhã, logo depois de levantar da cama.

O filósofo Clóvis de Barros Filho, em uma brilhante entrevista que concedeu ao apresentador Jô Soares, demonstrava que a felicidade consiste em momentos, e que cada um capta essa felicidade de formas diferentes. Em tom de brincadeira, disse que pessoas que acordam cantando "são pessoas do mal" e que é preciso ter cuidado com elas. Afinal, ele próprio levanta da cama com preguiça e dificuldade, diante de um dia inteiro que ainda está por acontecer.

Mas é a música que no move, às vezes, mesmo que não notemos. Tenho por costume dirigir em meio ao trânsito de minha cidade ouvindo um dos CDs lançados por meu amigo pianista Newton Schner Jr.. Sinto-me transportado à calma que não possuo e à tranquilidade que não faz parte do tráfego intenso dos horários de pico. É minha trilha sonora entre a casa e o trabalho em 80% dos meus "dias úteis".

Só que tem vezes em é preciso ouvir algo diferente. Hoje, por exemplo, contrariando minha própria crença de que ouvir música em volume alto no carro é para imbecis, troquei o CD para um da banda Pedra Letícia, e coloquei o som no 23, tomando o cuidado de fechar os vidros nos semáforos, para não irritar os demais motoristas, que certamente dirigem com uma arma de fogo no porta-luvas.

Tem dias em que a irritação ou descontentamento não pode ser suprimida pela música de piano. Em lugar disso, temos que aliar a música à sensação que já está presa à nossa mente. Colocar uma batida mais violenta, como aquela que aflige o coração. Tem dias em que não dá pra vencer... é preciso juntar-se a esses sentimentos. Daí vem o som alto, que outros preferem manter nesse volume alto sempre. Talvez porque já cansaram, ou nunca tiveram coragem de tentar lutar.

18 de set. de 2013

Colesterol ruim

Uma reportagem exibida ontem pelo Jornal Nacional informava a respeito da redução do limite de LDL (colesterol ruim) no sangue. Até agora o nível tolerável era de 100, mas uma nova diretriz da Sociedade Brasileira da Cardiologia coloca como 70 o máximo recomendado pela medicina.

Com isso, muitas pessoas até então consideradas nos níveis normais de LDL, passam a fazer parte do grupo que necessita de medicamentos e cuidados na alimentação para garantirem saúde ideal. A notícia foi dada um dia antes de minha esposa, Priscila, buscar o resultado de um exame de sangue completo. No resultado, ela está dentro dos níveis toleráveis antigos, e passou raspando pela nova diretriz... Está com 69.9 de LDL no sangue.

Conversamos com um especialista que nos revelou existir uma linha da medicina que contesta essa redução nos limites toleráveis de LDL. Diz uma teoria da conspiração que a redução tem como objetivo aumentar a venda de medicamentos específicos para o problema. Há mesmo pesquisas que apontam a importância da manutenção dos níveis de LDL para colaborar com a produção ideal de hormônios, especialmente em mulheres.

Enfim, é o tipo de coisa que dificilmente será publicado na mídia mais conservadora. Até porque, difícil é encontrar um especialista que fale abertamente, ao grande público, que o resto do mundo está errado. Mas, vale a pena questionar até que ponto o colesterol ruim é ruim, ou até que ponto ele é bom... para a economia mundial.

17 de set. de 2013

Gato? Onde?!

Sempre preferi cães em lugar de gatos. Mas os tempos são outros... Antigamente, eu não me via morando em uma casa sem quintal, por exemplo. Mas, agora, vivo com minha esposa em uma dessas residências contemporâneas desenvolvidas para serem úteis para todo mundo, mas com pouquíssimo espaço ocioso. Ter um cão se tornou impossível. Mas um gato...

Bom, a ideia de ter um gato não me agradava. Mas minha esposa, Priscila insistiu tanto nessa ideia,que acabou conseguindo me convencer. E aqui estou eu, com um filhote de gato persa cochilando ao meu lado. Por algum motivo, ele percorreu os cômodos da casa pela primeira vez, e foi gostar justamente dos cantos mais escuros da casa. Ou mais quentes...

Ele estava passando um pouco de frio na loja quando o vi pela primeira vez. Acho que mesmo aqui em casa ele sentiu um pouco de frio. Por isso, preferiu três lugares na casa. O primeiro, foi a parte de trás do sofá, meio enrolado nas cortinas. O segundo foi a parte de trás da geladeira [de onde voltou com um pouco de poeira]. O terceiro foi ao meu lado, no sofá.

Fico tentando imaginar o que ele pensa quando me observa caminhar pela casa. Ele olha os cantos e objetos com curiosidade. Pode ser que seja uma boa fonte de ideias para minhas tiras em quadrinhos. Mas também há o risco de me aproximar de trabalhos como de Jim Davis, ou Simon Tofield... Ou não.

Veremos...

30 de ago. de 2013

Dia histórico em PG - o destino de Ana Maria

Hoje é um dia histórico... e redundante. Qual dia não é histórico?

O fato é que hoje devemos saber qual será o destino da vereadora de Ponta Grossa Ana Maria de Holleben (hoje sem partido, antes PT), cujos relatórios apontam ter forjado o próprio sequestro no primeiro dia do ano, quando começou a novela que completa, depois de amanhã, oito meses.

Depois que a Comissão Parlamentar Processante (CPP), instalada para analisar o caso, concluiu que houve quebra de decoro, a votação - não secreta - dos vereadores municipais irá definir se Ana Maria tem, ou não, seu mandato cassado.

No meio político, é um debate incômodo. No popular, é motivo de indignação. No jornalístico, é cansativo. Oito meses acompanhando, direta ou indiretamente, relatórios, conversas e acusações que pareciam não levar a lugar algum. Em meio a problemas de saúde apontados pela vereadora como justificativa para seu súbito desaparecimento em um dia em que seu voto ajudaria a definir o nome do presidente da Câmara, os repórteres das editorias de Política e Polícia se viram em dúvida sobre quem iria cobrir a pauta, naqueles primeiros dias de 2012.

E até o repórter de Cotidiano [yo] se viu entrevistando o investigador de polícia em plena Câmara dos Vereadores. Sim... a história era complexa.

A votação de hoje, na Câmara Municipal de Ponta Grossa, promete ser um final digno dessa história confusa, que ganhou repercussão nacional e deu o pontapé inicial para a sequência de fatos bizarros, cômicos, incomuns ou apenas inéditos deste ano.

A saber, por aqui: um banheiro transparente, um ganhador da mega-sena (e cadê ele?), uma visita da presidente Dilma, uma manhã com neve, o lançamento de meu primeiro livro [sendo preparado desde 2008].

A saber, no mundo: um papa renunciando, um meteorito caindo na Rússia, um novo papa argentino [!], a visita do próprio papa ao Brasil, em meio a ventos solares e protestos com multidões pipocando em inúmeros cantos (e até em PG) do planeta.

16 de jul. de 2013

Dilma visita Ponta Grossa

A cidade de Ponta Grossa amanheceu com neblina e, até onde pude ver, sem a geada que o serviço meteorológico ameaçava existir nos telhados. Mas nem a geada, nem a neblina, são o assunto do momento na cidade. Nesta terça-feira não se fala de outra coisa, senão da vinda da presidente da República, Dilma Rousseff, que deve chegar de helicóptero ao município, nas próximas horas.

A presidente vem até aqui, juntamente com uma porção de ministros, para realizar a entrega oficial de 1.438 casas populares inscritas no projeto Minha Casa Minha Vida e, também, para entregar 42 máquinas retroescavadeiras aos municípios do Paraná. Garantia de habitação e de deslocamento pelas estradas vicinais do Estado.

Essa solenidade causa grande alvoroço em Ponta Grossa. Especialmente no meio político, empresarial e das comunicações. Ontem pela manhã, saí de casa para levar a Pri ao trabalho e já alertei minha esposa de que o expediente de segunda-feira na redação, muito provavelmente, iria até mais tarde, em razão da vinda da Dilma. Ela não entendeu... Por que eu ficaria no trabalho até mais tarde, se a Dilma só viria à cidade no dia seguinte? Bom, eu também não sabia direito. Mas, intuitivamente, eu sabia.

E, na tarde de ontem, o Jornal decidiu fazer duas páginas só sobre a vinda da presidente. O que ela vinha fazer? Qual trajeto ela faria? A que horas chegava? Até que horas ficava? Quantas casas seriam entregues? Que ministros estariam junto com ela? O que as entidades representativas da cidade achavam de tudo isso? Quem foram os presidentes que já vieram à cidade? Temos fotos de quando eles vieram?

Juntamente com os amigos Daniel Petroski e Fernando Rogala, passei a tarde tentando responder a essas e outras perguntas, o que me fez ficar, pelo menos, três horas a mais na redação. Mas, o que eu realmente queria responder, eu não podia.

Desde ontem me pergunto, afinal, o que importa para a Dilma Rousseff vir a Ponta Grossa? E o que ela sabe a respeito da cidade? De certa maneira... esse foi o mote da tirinha que esbocei, ontem, em um pedaço de papel.

O que eu quero dizer é... o que se passa na mente da autoridade máxima de um país com o tamanho do Brasil? Imagino que tornar-se presidente deve ser algo fantástico, e deve haver quem até goste disso. Mas Dilma tem dado mostras de que não parece ser uma dessas pessoas. E ainda tem agido de forma estranha, ao menos para quem a observa somente a partir de noticiários. Recentemente demonstrou tolerância, e até compaixão, com manifestantes que quebraram patrimônio público no País todo. Manifestantes misturados a baderneiros [ou vice-e-versa]. Disse que aquilo era democracia, determinou redução de mais impostos. Governos estaduais e municipais recuaram em reajustes de tarifas e até reduziram preço dos transportes públicos, em favor do que as massas pediam.

Poucos dias depois, caminhoneiros se manifestavam em rodovias de todos o País. Não quebraram nada, só pediam mais segurança e preços mais baixos nas tarifas de pedágio. E a presidente só faltou xingar os profissionais. Pouco depois, ocorreu a Marcha dos Prefeitos. Governantes de vários municípios foram a Brasília pedir mais verba e Dilma foi vaiada por muitos deles, quando disse que não havia mágica para governar.

Então, baderna acabou sendo elogiada como democracia. Enquanto que melhores condições de trabalho e a reivindicação formal de mais recursos pelos prefeitos foram criticadas pela presidente.

Dilma chega a Ponta Grossa logo após esses acontecimentos. Com a popularidade mais baixa do que nunca. E com uma porção de críticas ao modo de governar o País. É bom que se diga que os protestos não levaram em consideração avanços conquistados nos últimos anos, primeiro com o Plano Real, depois com o Governo Lula, que deu estabilidade internacional ao Brasil. Enquanto crises pipocaram em diversos países, o Brasil se manteve firme. E, mesmo agora, os problema são bastante pontuais: a saúde pública está em colapso e a corrupção em todas as esferas políticas estão extremamente visíveis.

O Minha Casa Minha Vida é a menina dos olhos do Governo Federal. Nem o tal Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) conseguiu avançar da forma que se esperava. Por isso, a vinda da presidente tem um motivo claro... enaltecer o único programa federal cujos resultados são visíveis, especialmente em Ponta Grossa, onde, proporcionalmente, o número de casa entregues foi um dos recordes nacionais.

No entanto, numa análise fora da política, mesmo essa entrega recorde de casas está longe de cumprir tudo o que se espera. De acordo com a Companhia Nacional de Habitação (Prolar) de Ponta Grossa, 17 mil famílias ainda aguardam uma casa própria na cidade. Significaria distribuir senhas para 100 pessoas por dia, até outubro, nas palavras do presidente da Entidade, Dino Schrutt. O Governo Federal pretender entregar 3 milhões de residências, e já passou das 2 milhões. Se chegarem à meta no final do ano que vem, conforme o previsto, ainda assim estará longe de acabar com o déficit de moradias.

O que quero dizer é que, ao que parece, o antecessor da presidente Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu iniciar programas, e seu desenvolvimento. Mas cabe à Dilma sua finalização, e as dificuldades dessa empreitada estão visíveis em seu rosto habilmente remodelado nas últimas eleições. Dilma demonstra preocupação, irritabilidade, e não parece motivada. Em suas aparições na TV, o que se vê é uma presidente que cumpre obrigação. E, em qualquer função, é preciso que exista mais que isso. É preciso vontade, entusiasmo, e até prazer.

Em parte, acredito que isso ocorra devido à sucessão dos acontecimentos inesperados... os protestos pelo País. Eles desequilibraram o Governo Federal, que até então só precisava se preocupar em dar respostas evasivas para os problemas e enaltecer conquistas. Agora, mesmo tendo a Copa do Mundo no Brasil, não é possível comemorar. É como fazer aniversário no mesmo dia em que um parente próximo fica muito doente.

Por outro lado, creio que até a extensão territorial do País prejudica. Dilma está chegando em Ponta Grossa. O que isso significa para ela, além de uma chance de destacar um Programa Federal? Do que ela sabe? Sabe de um aeroporto que não tem sequer rádio para comunicação? Viu um monumento em forma de quibe [para ser politicamente correto] na internet? Assistiu no noticiário a um banheiro transparente ou a uma [ex]colega de partido sequestrar-se a si mesma? Viu um vídeo no Youtube onde aparecia Vila Velha? Leu as tirinhas do Catraca alguma vez? Conhece o passado da cidade ligado às ferrovias, a velha Estação Saudade e a locomotiva do Parque Ambiental que estão sendo deterioradas pelo tempo e pelos vândalos? Caminhou pelas calçadas irregulares e tropicou em uma pedra solta de petit-pavé no centro da cidade?

Enfim, são só reflexões lançadas aqui... No final das contas, o que quero dizer é... a presidente está aqui hoje, após 22 anos sem que um presidente pisasse nessas terras. Qual importância isso tem, além da política? Acredito que nenhuma. Prova disso é que tive que passar metade da tarde de ontem procurando informações sobre a vinda de Getúlio Vargas, Ernesto Geisel e Fernando Collor de Mello à cidade, em épocas remotas.

Amanhã, tudo isso será passado e, se demorar 22 anos para que outro presidente venha à cidade, é provável que seja igualmente difícil saber como foi esse dia. Com um pouco de sorte, o Google [se ainda existir no futuro] levará a este texto. E o pesquisador descobrirá que nesta terça-feira, dia 16 de julho de 2013, Ponta Grossa amanheceu com neblina.

1 de jul. de 2013

Um gato. Será?

Minha amada Priscila está pensando em ter um gato... há quatro anos. É o tempo que ela levou para me convencer da ideia. Afinal de contas, minha família nunca foi muito fã de gatos. A preferência é por cães. A única vez em que lembro de ter criado gatos foi quando uma ninhada surgiu dentro da churrasqueira, e a "responsável" pela prole desapareceu. Os que sobreviveram aos nossos cuidados (leite de vaca oferecido em conta-gotas) foram levados para uma indústria onde meu pai trabalhava, e e colocados para caçar ratos.

Enfim, pela primeira vez estou pensando em permitir um gato nessa casa. Mas teria que ser um desses gatos felpudos que não colocariam as patas na rua. Aqui é condomínio, e a vizinha de parede tem uma calopsita. Ainda não falamos com ela e os demais vizinhos, para saber o que acham da ideia de um felino. Eu disse para a Pri que, por mim, tudo bem. Desde que o bicho não fique no telhado miando às três da madrugada.

Talvez eu tenha sido influenciado pelos vídeos do gato Maru, que não parece atrapalhar a vida de ninguém. Ou, quem sabe, a obra de animação de Simon Tofield, "Simon's Cat" tenha feito com que os gatos aparentem, aos meus olhos, menos aborrecimento. E, talvez, também sirva de inspiração para minhas tiras. Vamos ver se os condôminos concordam com essa perspectiva. A calopsita não vota.

9 de jun. de 2013

Atrasado para o café

O dia a dia corrido do trabalho como repórter do Jornal da Manhã, às vezes, me impede de dar 10 passos além de onde costumo ir. Quase colado ao prédio do JM está o Boteco do Seu Rui. Há meses eu não ia até ali tomar um café, o que é uma pena. Afinal, por várias vezes despertou meu riso ouvir Seu Rui gritando "Dae, Catraca!", ao me encontrar, casualmente, nas imediações do jornal.

De fato, o conhecimento dele acerca de meu principal personagem de tiras em quadrinhos, o Catraca, era sempre uma surpresa. A gente sempre acha que ninguém vê nosso trabalho e, na maioria das vezes, acredita que os poucos que veem são os que nos conhecem. Mas Rui, com quem só conversei, realmente, uma vez, não apenas demonstrava conhecer meu trabalho, como também mencionava a tira mais recente, a cada encontro casual.

Certa vez fui com o colega de traços, o chargista J. Robson (Sádico) até o boteco. Era para uma entrevista com ele, em uma reportagem sobre o humor na cidade. Sentamos a uma mesa no canto. O próprio Rui nos serviu, nos deixou à vontade, mas depois perguntou o que cada um de nós fazia. Creio que foi naquele momento que ele soube que eu era autor das tirinhas dominicais. Imediatamente, elogiou meu trabalho, e as charges do Sádico, também observadas a cada publicação no jornal.

"As pessoas ditas intelectuais não valorizam nosso trabalho. Aí vem o tiozinho do bar, e mostra que acompanha as publicações, e comenta... Isso é que faz a diferença!", comentamos eu e o Sádico, pouco antes de nos despedirmos, naquela manhã.

Ontem, passei no Boteco do Seu Rui. Pedi um café com leite, e perguntei por ele. Queria entregar um exemplar do livro "Traços de PG", com coletânea de minhas tiras e das charges do Sádico. A esposa, atrás do balcão, contou que Rui havia falecido. Tinha problemas no coração. Não perguntei quando aconteceu. Podia calcular que fazia muito tempo desde que o havia visto pela última vez. 

Os últimos goles do café tiveram menos sabor. O livro demorou a ser publicado. Eu demorei mais ainda para voltar a tomar um café naquele balcão.

Leia também o post "O boteco de Seu Rui"

11 de mai. de 2013

Saga épica para compra de ingressos


Deve haver uma conspiração cujo objetivo é fazer com que o show do Capital Inicial, que acontece no próximo dia 18 de maio, em Ponta Grossa, seja um fiasco. Não sei qual é o motivo, mas como é difícil adquirir um mísero ingresso!!

Minha amada esposa, Priscila, decidiu que iria a esse show de qualquer forma. Portanto, ficou a meu cargo ir até um ponto de venda, adquirir o par de ingressos, e viver feliz para sempre. Claro que não poderia ser tão fácil...

Primeiramente, mantive a tranqüilidade ao notar, em um anúncio publicado no jornal para o qual trabalho, que o próprio jornal estava listado entre os pontos de venda. Sendo assim, bastaria descer um ou, no máximo, dois lances de escada para adquirir os tais ingressos. Aguardei mais alguns dias, até ter certeza de que a Pri desejava, realmente ir ao show. Seu nível de insistência me fez crer que sim. Portanto, no final do expediente em um dos dias desta semana, perguntei a uma colega do jornal que trabalha na recepção a respeito dos ingressos. Para minha surpresa, ela disse não saber nada a respeito. Inclusive, ficou ainda mais surpresa ao saber que o jornal era apontado como ponto de venda oficial. Em suma, o anúncio estava equivocado.

É claro que a Pri não gostou nada de saber disso. A cobrança aumentou e fomos até outro ponto listado no anúncio. Afinal, não podiam ser todas as informações falsas. Seguimos até o Shopping Antartica. Não havia quiosque para comércio dos ingressos, que eram vendidos em uma loja de trajes sensuais (ulalá!). Tudo bem, só que os ingressos eram vendidos a mais de R$ 50! E queríamos adquirir as entradas que custavam R$ 30, pois não queríamos prejudicar nosso orçamento tanto assim.

Saímos de lá e fomos a outro ponto de venda citado, a lanchonete Au-Au, no interior do Shopping Palladium. Chegamos lá e aguardamos que a atendente resolvesse largar o telefone. Após alguns minutos sendo completamente ignorados, ela foi nos dizer que, sim, eles vendiam ingressos, e custavam R$ 32 (os dois reais são de taxas, sabe Deus para pagar o quê). Mas que, não, o sistema não estava funcionando, e não poderiam vender naquele momento.

Na saída, só por farra, ainda passamos nas Lojas MM para perguntar a respeito da venda de ingressos para outro show, o do Skank, marcado para o final do mês. Para nossa surpresa, o funcionário não tinha nem ideia do que estávamos falando. Disse que só tinham convites, provavelmente se referindo a panfletos. E o lugar era apontado como ponto de venda oficial para este outro show...

Em seguida, ainda sugeri que fôssemos até a Play, casa de shows apontada como principal ponto de vendas de ingressos para o Capital Inicial na cidade. Mas a Pri já estava indignada de ter que peregrinar tanto. Não insisti mais.

Mas a Pri insistiu, no dia seguinte. Voltamos ao shopping para comprar o tal ingresso no Au-Au e, pasmem, depois que atendente desligou o telefone (ela deveria trabalhar em um call center), revelou que o sistema ainda não funcionava. E ainda aplicou um terrorismo, sugerindo que isso ocorria porque o preço ia subir.

No dia seguinte, quando achei que ela já acreditava que o destino não nos queria neste show, a Pri mais uma vez lembrou dos ingressos. Seguimos até o Posto BV, onde, segundo prometia o famigerado anúncio, estava outro ponto de venda. Lá, uma funcionária com cara de deboche nos disse que, sim, eles vendiam ingressos. Mas, não naquele momento. Só após as 14 horas.

Eram 13 horas e, como estávamos saindo para uma breve viagem ao Distrito de Guaragi, não havia possibilidade de esperarmos. Eu via a indignação impressa em 3D na face de minha esposa, quando lembrei que a Play ficava, justamente, no trajeto para a saída da cidade, por onde obrigatoriamente passaríamos.

Chegamos à Play. A atendente disse que, sim, vendiam ingressos. Sim, custavam R$ 32. Eu já ia pagar, quando ela informou que não aceitavam cartão. Precisamos nos deslocar até o supermercado para tirar dinheiro vivo em um caixa eletrônico e, só depois, conseguimos os tais ingressos.

Ao fim, após toda essa saga épica em busca dos ingressos do Capital Inicial, fico me perguntando: se para comprar ingressos já foi essa desorganização... imagina no dia do show. Senhor, livrai-me do pessimismo...

13 de mar. de 2013

Ataque de animal


O ano 2013 tem sido o ano do ineditismo e da singularidade. Desde o dia 1º de janeiro, parece não passar sequer um dia, sem que algo extremamente novo, bizarro ou improvável aconteça. Isso ocorre em todos os níveis: do local ao universal, do coletivo ao pessoal.

Ponta Grossa viu, e compartilhou com outros países, inclusive, o surgimento do banheiro transparente no recém-inaugurado Centro da Música. Antes disso, o País ficou bobo, e a cidade parece não ter se recuperado até hoje, da história da vereadora que sequestrou a si mesma, criando o verbo ainda inexistente “autossequestrar”.

No mundo, um meteorito caiu na Rússia e feriu mais de mil pessoas, justamente à época em que um asteroide passava, mais perto do que nunca, da Terra. Pouco depois, o Papa Bento XVI surpreendeu a todos, renunciando ao cargo máximo da Igreja Católica, e quebrando uma tradição que se insistiu para que não fosse anulada na época do anterior Papa João Paulo II.

No Brasil, crimes que, há anos, aguardavam julgamento, vieram em enxurrada aos tribunais. Gil Rugai, acusado de matar os pais; o goleiro Bruno, acusado de matar a ex-amante; Mizael Bispo, acusado de matar a ex-namorada. Este último, marca história sendo o primeiro julgamento brasileiro transmitido ao vivo pela televisão e pela internet.

Outros fatos menores, alguns deles de importância apenas pessoal, não são registrados. Mas, veja, ontem estive na Vila Madureira para fazer reportagem sobre uma cratera que está engolindo uma rua inteira. No carro do jornal estávamos eu, o motorista China, o fotógrafo Clebert e o repórter Michael. Antes de irmos ao local da cratera, fomos em outro endereço, não muito longe daquele, para verificar um “ataque de animal”. Esse é o termo genérico que os bombeiros dão, normalmente, a um ataque de cachorro contra uma pessoa.

Não havia ninguém no tal endereço e, então, seguimos até o endereço de minha pauta. A cratera era enorme, e já tomava metade da rua. A prefeitura havia feito barreiras de concreto para evitar a passagem de veículos pelo local, postergando, assim, o aumento da erosão.

Enquanto Clebert fazia as fotos do local, eu procurava algum morador local que pudesse falar comigo sobre o problema. O chamado “personagem” não apareceu. Em todas as casas, as portas, vidros, cortinas e cadeados estavam fechados. Bati palmas, sem ser atendido. Quando fui fazer a tentativa diante de uma funilaria, onde havia apenas um rapaz trabalhando, um cachorro branco rosnou para mim.

Não liguei para o fato porque, em toda minha vida, sempre acreditei (e sempre funcionou) que se ignorasse o animal, ele não atacaria. Pelo menos, no meio da rua, como era o caso. Mas, e não é que o cão me ataca e morde a minha perna? Pois e mordeu, mesmo!

Devo ter dito algo como “não acredito que esse cachorro me mordeu!”. Enquanto o Clebert ria, de longe, o cachorro parecia meio encabulado. Porque eu estava com minha calça jeans mais grossa, e os dentes não conseguiram chegar até minha perna. Apenas deixaram uma marca bem definida do jeans. Enquanto eu me recuperava do sentimento de incredulidade com o acontecimento, o rapaz saiu da funilaria e, ainda por cima, não quis dar entrevista.

Voltei para o carro ouvindo piadas de que, eu só tinha sido mordido por um cão, porque o Michael veio junto justamente para fazer a tal reportagem do “ataque de animal”. Para mim, foi apenas a primeira vez que fui mordido por um cachorro desconhecido, no meio da rua. Mas, já aviso... daqui pra frente estarei mais esperto, e o próximo vai levar bicuda!

27 de jan. de 2013

Passeio por São Luiz do Purunã

Mais uma aventura em local desconhecido
A manhã deste domingo iniciou com o céu nublado mas, aos poucos, o tempo foi abrindo. No final da manhã, eu e a Pri ficamos animados para mais uma pequena viagem. Optamos por São Luiz do Purunã, distrito de Balsa Nova, região metropolitana de Curitiba.

Ir de Ponta Grossa até São Luiz do Purunã é uma experiência que, logo de cara, traz um incrível sentimento de paz interior, antes mesmo de passar pelo portal de entrada do Distrito. Isso porque, indo pela rodovia, rumo a Curitiba, o viajante passa por apenas um dos três pedágios que levam à capital. E como o pedágio da concessionária do referido trecho de rodovia é uma verdadeira forca, não existe sensação melhor do que ver o segundo pedágio a poucos metros, e fazer o retorno. É como encontrar dinheiro no bolso da calça esquecido no guarda-roupa.



A Pri no portal de entrada. Pose para a foto...
















Passado esse momento de euforia, seguimos a placa e estacionamos no portal de entrada de São Luiz. Algumas placas fazem alusão ao local como antiga passagem de tropeiros. Vimos um mirante. Mas, o mapa pareceu um pouco confuso, além de parcialmente desbotado pela ação do tempo. Do mirante, a visão é de muito verde, mas poucas edificações. Isso porque São Luiz do Purunã é lugar formado por diversas localidades, ligadas por estradas entre si, mas com largos espaços vazios, como costumava ser em antigas freguesias.

Vista do mirante na entrada de São Luiz do Purunã
















Do mirante, o que mais me surpreendeu foi o cheiro de mel. Seguimos a estrada inicial de calçamento e chegamos ao vilarejo. Uma lanchonete, alguns pontos de comércio, a maior parte relacionada com a atividade agropecuária. Seguimos por uma das estradas, vendo moradores locais e admirando as residências, algumas de muito bela arquitetura, contrastando com a simplicidade do ambiente.

Belas araucárias marcam o caminho

A estrada foi piorando, o calçamento deu lugar à terra, a terra deu lugar à poeira, e a poeira deu lugar às pedras e buracos. Depois de chegarmos ao tope de uma subida, sem notarmos nenhum destino especial, retornamos pelo mesmo caminho, de volta à entrada do vilarejo, e optamos por seguir outra estrada. Chegamos a uma placa com diversas indicações de pousadas, restaurante, café colonial, chocolate artesanal. Mas, boa parte dessas atrações era indicada como se estivesse para trás, do ponto de onde tínhamos acabado de vir. Não tínhamos visto, anteriormente, qualquer indicativo desses atrativos, ou teríamos parado.

Estranhando esse fato, decidimos seguir a indicação de uma das pousadas e, surpreendentemente, a placa nos levou de volta à rodovia, nos obrigando a sair da paisagem campestre que tanto nos havia fascinado. Indignados, voltamos da rodovia para a tal placa, e seguimos por outra estrada, que a placa indicava como se tivesse restaurante. Já era perto da hora do almoço.


A estrada foi, também, piorando a qualidade, e foram surgindo buracos e valetas, momento em que agradeci a Deus pelo tempo seco deste domingo. Passamos por outra pousada, onde não se via viva alma, e todas as portas e janelas estavam fechadas. Em frente, uma grande faixa dizia: "Estamos atendendo". Passamos por ela, e continuamos procurando o tal restaurante, até que, sem nenhuma placa indicativa de distância ou direção, e tendo a impressão de que todos os estabelecimentos comerciais ali estavam fechados, optamos por  ir embora.
Chalé e animais pastando: paisagem bucólica
















Decidimos voltar rumo a Palmeira, e almoçar no Restaurante e Lanchonete Girassol, lugar famoso à beira da rodovia. Mas apreciamos muito a paisagem de São Luiz do Purunã, lamentando apenas a falta de mais placas que orientem os visitantes, uma vez que os atrativos estão bem espalhados pelo lugarejo. Na memória ficaram as belas casas, as velhas araucárias, os bois pastando no alto de morros, e o cheiro de mel logo à entrada.

31 de dez. de 2012

O Armazém de 1925

Naquele dia, eu e a Pri concordamos em conhecer mais um dos atrativos turísticos naturais da região de Ponta Grossa. Era um sábado, se não me falha a memória, e optamos pelas Furnas Gêmeas. O site da prefeitura não era muito claro quanto à localização, mas dizia que, para conhecer as tais formações rochosas, era necessário seguir pela rodovia que levava ao distrito de Itaiacoca.

Partimos. A rodovia é de boa qualidade, embora sem acostamento. Depois que passamos a área conhecida como Passo do Pupo, um vilarejo delimitado por uma igreja e algumas mercearias, seguimos adiante em busca de uma placa que nos orientasse. Como não encontramos, continuamos indo em frente.

Descobrimos estradas bastante sinuosas adiante. Lembrou um pouco a Estrada da Graciosa, que leva a Morretes. Muito bonito o trajeto, e não dá pra correr muito, porque são muitas curvas em uma rodovia estreita. Sem nenhuma placa, passamos por um local que nos pareceu oficina ou ferro velho. A Pri sugeriu que eu parasse para pedir informação.

Como estávamos com tempo, optei por ir um pouco mais longe antes de admitir que tínhamos nos perdido. Poucos quilômetros à frente, no entanto, parei numa entrada para estrada de terra, que levava a uma cachoeira ou algo assim. Mas não eram as Furnas Gêmeas. O site da prefeitura não dizia que devíamos ir tão longe.

Um automóvel passava por nós e fiz sinal para que parasse. O motorista reduziu e freou. Perguntei a ele sobre as Furnas Gêmeas. Ele disse nunca ter ouvido falar. Agradeci, e retornamos.

Um misterioso Armazém, datado de 1925,  estava no trajeto...
No trajeto de volta, decidi parar onde a Pri havia sugerido antes, para pedir informação. Para minha surpresa, não se tratava de um ferro velho, nem oficina. Era apenas um casarão, e em frente havia apenas uma caminhonete antiga. Talvez o motivo que nos fez associar o lugar a uma oficina. Deixei a Pri esperando no carro, e fui conversar com quem ali estivesse.

Sentado no assoalho, à porta de entrada, estava um homem magro, de cabelos curtos escuros, fumando um cigarro, e aparentando a calma típica de quem vive praticamente isola (as casas ali ficam muito distantes umas das outras). Quando estacionei e fui em sua direção, ele se levantou.

"Boa tarde!", falei
"Boa tarde", respondeu.
"Estou procurando as Furnas Gêmeas. Sabe onde fica?"

Mas ele não ouviu minha pergunta, pois um cachorro preso ao lado da casa latiu ferozmente. O homem berrou para que o cão ficasse quieto. E pediu para eu repetir a pergunta, enquanto se aproximava.

"Sabe onde ficam as Furnas Gêmeas?"
"Furnas Gêmeas?", repetiu ele, olhando para o chão, como se consultasse na mente uma lista de lugares que conhecia. "Olha... eu moro aqui há vários anos, e nunca ouvi falar. Mas quem te disse que tem esse lugar por aqui?"
"Eu vi no site da prefeitura de Ponta Grossa" - e por um instante, sem desdenhar a inteligência do cidadão, mas apenas considerando a aparência simples na qual vivia, achei que ele não sabia o que era um site.
"Mas fica perto de onde?", perguntou.
"Depois do Passo do Pupo".
"Ah, Passo do Pupo eu conheço... deve ser ali perto, então. Mas volte, e pergunte ali na igrejinha", sugeriu.
"Tá bom, obrigado."

Eu já voltava para o carro quando me detive um instante, reparando mais uma vez em algo que tinha percebido já quando chegara. No alto do casarão, em sua fachada, letras graúdas diziam "ARMAZÉM", e o número "1925" anunciava a data de construção, como acontece em muitas construções antigas.

"Aqui é residência ou é um armazém?", perguntei.
"Ah, é residência... foi armazém há muito tempo..."
"E o senhor era o dono?"
"Não..." - ele riu um pouco, talvez pela pergunta um pouco idiota, já que o homem não tinha idade para ter estado ali em 1925. Depois completou: "O dono tá ali..."
Dizendo isso, apontou com a cabeça para a caminhonete velha, e continuou sorrindo.
Sorri também, mesmo sem ter entendido. Ali não havia ninguém... Estaria ele vendo alguém que eu não via?

Quando a conversa com um estranho fica insólita demais, é hora de ir embora.

Entrei no carro, onde um cachorro parecia querer impedir a Pri de sair. Acabamos encontrando a estrada para as Furnas Gêmeas, bem perto do Passo do Pupo. Não chegamos até lá porque a estrada era muito ruim. Mas, fiquei pensando no Armazém de 1925, e me perguntando onde estaria o dono.

21 de nov. de 2012

O fascínio dos velhos livros


Depois que mudei meu endereço, percebi que muito das coisas materiais que me cercavam não tinham um grande valor para mim. Notei que, de muitas delas, não era difícil me desfazer. Mas também reparei, sem muita surpresa, que os livros não faziam parte dessa lista de coisas a serem deixadas de lado.

Colocando os livros velhos na nova prateleira, relembrei alguns títulos muito bons, os quais precisei reler. De quase todos, eu já havia esquecido o conteúdo, restando na memória apenas vultos do que continham aquelas obras que eu insistia em guardar. Motivos eu tinha, e sabia que eram razoáveis, mesmo estando eles esquecidos.

Dentre os títulos, retirei há algumas semanas o livro “Ninguém Nada Nunca”, do argentino Juan José Saer. Esse autor, cujo texto conheci por acaso em seu livro “La Pesquisa” adquirido durante uma feira de literatura realizada em minha cidade anos atrás, se revelou ser um de meus favoritos por dois motivos principais: a forma narrativa com muitas vírgulas e poucos pontos, que leva o leitor de forma quase hipnótica para dentro da história; e a maneira como descreve pessoas, coisas e ambientes.

“Ninguém Nada Nunca” traz três palavras, em seu título, que quase não revelam coisa alguma a respeito de seu conteúdo. Há uma trama que envolve misteriosos assassinatos de cavalos em um vilarejo dos Pampas. No entanto, enquanto em “La Pesquisa” existe uma história de homicídios que conduz quase que totalmente a narrativa, em “Ninguém Nada Nunca” esses assassinatos são apenas o pano de fundo para que Saer possa fazer o que faz de melhor: descrever.

A leitura pode parecer até cansativa para quem não está habituado ao seu método, mas é seguramente uma obra de arte o modo como ele aplica a repetição textual e faz, assim, como que gradativamente o leitor construa mentalmente o universo descrito. E o leitor faz isso de forma quase imperceptível, envolto pela tensão que anuncia: algo está para acontecer.

Ao mesmo tempo em que o leitor espera com ansiedade que surja das sombras o algoz que assassina com um tiro “à queima-roupa” os melhores cavalos da região, e ao mesmo tempo que conhece um lugarejo envolto pelo clima tenso da ditadura militar (e o autor encontra aí uma forma de apresentar o tema) vai sendo apresentado o cotidiano dos personagens, dentre eles Gato, Elisa, Tomatis, e o ambiente, do qual faz parte a praia, a ilha, o rio, as árvores, a areia e, mais que tudo, o calor quase insuportável.

Pacientemente, o leitor aguarda o tal acontecimento que se anuncia implicitamente durante a história, e enquanto isso se envolve com a vida de pessoas desconhecidas, de trajetórias que poderiam ser classificadas com corriqueiras, mas que se revelam interessantes, como seria, talvez, a vida de quem quer que fosse, desde que houvesse uma descrição como a de Juan José Saer.

Ao terminar a nova leitura de Ninguém Nada Nunca, senti algo fascinante: saudades. Saudades dos personagens que tinha acabado de conhecer, mas cujos gestos, palavras e comportamentos me pareceram tão próximos como se os tivesse conhecido face-a-face.

Não é algo novo para leitores tal sensação. Mas nessa intensidade, é algo novo para mim. E é fascinante perceber algo novo assim com um livro que já tinha lido. Indica que não sou mais o mesmo que o leu anteriormente. Porque o sujeito que leu aquele livro, anos atrás, não percebeu essa sensação ao concluir a leitura. É bom saber que ainda posso me fascinar com alguma coisa. Que bom que seja com um livro.

16 de out. de 2012

Meu passado vem ao meu encontro

- O que é um mezanino? - perguntou a Pri olhando por cima de meu ombro, em uma pequena placa.
De fato, eu próprio não sabia direito. Nunca tinha feito uso daquela palavra. Mas o desenho ao lado, um sanduíche e um copo de refrigerante, me fizeram ter a certeza de que o mezanino era apenas a parte superior da mesma praça de alimentação naquele shopping onde almoçávamos.
- Vamos até lá. Nunca vimos como é aquele lugar. - eu disse.
Deixamos sobre a mesa os pratos com o que restou de nosso almoço, e subimos as escadas. Ali, meia-dúzia de pessoas usavam seus notebooks e acessavam a internet wireless. O ambiente era pouco iluminado e não tinha qualquer loja ou lanchonete.
- Não tem muita coisa aqui, afinal - eu disse, enquanto a Pri concordava. - Vamos embora. - emendei

Eu já ia descer as escadas quando a Pri me segurou:
- Olha lá um Danilinho! É o seu clone - ela disse.
Ao olhar para a parte mais longínqua do espaço, de costas, estava um sujeito lendo alguns livros e papéis. E a semelhança era extraordinária. Se eu não fosse eu, provavelmente acharia que eu era ele.
O cabelo loiro, na mesma tonalidade e um pouco encaracolado, a escolha da mesa e os gestos enquanto pesquisava os papéis, e até a camisa...
Olhei para minha camisa, e notei que ele usava uma quase igual à minha. Apenas um pouco mais clara... igualzinha a uma que eu ainda tenho, mas que hoje já está desgastada pelo tempo.

- Vamos nos aproximar. - eu disse, na certeza que a farsa seria desfeita.
No entanto, à medida que chegávamos mais perto, eu o achava ainda mais parecido comigo. Tive um ataque de riso, ainda que discreto. Claro que não era eu, mas a semelhança assombrosa causou até uma certa emoção.
A Pri olhava para mim sorrindo, adivinhando a sensação estranha que eu experimentava. Quando minha distância do clone tinha sido reduzida à metade da inicial, parei. Fiquei junto ao parapeito que permitia olhar para o restante da praça de alimentação. Por um instante, evitei olhar para o sujeito.
- Não vou pra mais perto. - eu disse.

Dali eu ainda pude ver que ele não tinha barba, nem usava óculos. Era como se fosse eu em 2004, quando ainda não tinha diagnosticado minha miopia, quando fazia questão de fazer a barba toda, quando a camisa era nova e eu me concentrava nas pesquisas da universidade. Era como se o Danilo de oito anos atrás estivesse ali, diante de mim. A poucos passos.
A partir dali, deixamos o mezanino. Das duas, uma: ou ele seria muito parecido mesmo comigo, ou seria diferente. Em qualquer uma das duas situações, o encontro seria assustador.
Deixamos o shopping rindo da situação. Mas fiquei pensando... Meu passado, naquele dia, veio me encontrar. E fez isso sem que eu o procurasse.

9 de out. de 2012

Saudades da amiga Márcia


Enquanto uns faziam festa no domingo, dia 7, durante a contagem de votos para as eleições municipais, outros lamentavam a derrota. Mas coisa pior do que perder uma eleição ou ver seu candidato não ser eleito, é saber que uma pessoa conhecida já não está entre nós.

Faleceu ontem Márcia Sielski, que por muitos anos esteve à frente dos projetos culturais do SESC em Ponta Grossa e de outros movimentos culturais independentes. Incontáveis artistas e aspirantes a artistas receberam dela o incentivo para iniciar ou para prosseguir com seus trabalhos, e eu fui um dos que ela apoiou.

Quando eu ainda estava na universidade, e rabiscava de vez em quando, foi Márcia quem permitiu que se instalasse no SESC minha primeira exposição de charges e cartuns. Na época, meus traços não eram nem metade do que são hoje. Mas Márcia insistia em me chamar de artista, como fez sempre.

Anos depois, quando eu já estava trabalhando no Jornal da Manhã, entrei em contato com ela demonstrando a intenção de fazer uma nova exposição, apresentando a evolução de meu trabalho. Ela aceitou de imediato, e organizou muito daquilo que eu necessitava para a mostra, com direito a coquetel de abertura e convites para o evento.

Fora isso, ela sempre foi uma pessoa aparentemente tranquila e agradável no tratamento comigo e com a maioria daqueles com quem converso. Conheci Márcia Sielski muito pouco, mas o suficiente para criar a imagem de uma pessoa que deixa saudades, por saber que os encontros casuais com ela, seguidos de cumprimentos simpáticos nas ruas da cidade, não mais acontecerão. Ficam boas lembranças, e as amizades em comum que ela iniciou ou fortaleceu.

5 de out. de 2012

A quantidade leva à qualidade


- Deve ser difícil encontrar boas ideias para fazer suas tirinhas, diariamente. – comentou Emerson, em tom de pergunta.

Emerson é o proprietário de uma bela pousada em Piraí do Sul. Um casarão grande e bem equipado (com vários quartos, uma sala grande e uma cozinha com fogão à lenha) cercada por extensos campos encharcados pelas vertentes que formam rios e córregos.

Naquele momento, ele nos guiava (eu e minha esposa, Priscila), por aqueles campos sempre úmidos. Eu procurava me concentrar em pisar nas rochas, para não afundar o pé em algum buraco repleto de água. Mas deixei um pouco da concentração de lado, para responder ao comentário.

- Na verdade, não é tão difícil ter ideias. O difícil é encontrar tempo para transformá-las em desenho. Mas, realmente, nem sempre são tiras engraçadas. Às vezes eu acho graça, mas sou o único. Em outras ocasiões, eu não vejo graça alguma, e os outros gostam. Mas estou tentando fazer uma tirinha por dia porque acho que é tudo uma questão de prática. Quantidade não quer dizer qualidade, mas pode levar à qualidade – disse.

De fato, no início deste ano, enquanto elaborava a história em quadrinhos ‘Catraca: entrando numa roubada’, percebia que o traço melhorava a cada nova página que eu desenhava (em breve publicada através da Prefeitura de Ponta Grossa). Tanto que, chegando ao final da HQ, tive o desejo de refazer as primeiras páginas, algo impossível em face do prazo de entrega para o concurso.

De lá pra cá, lancei o novo site, e me esforcei para cumprir a proposta que fiz a mim mesmo, de criar uma tirinha por dia. O resultado tem sido interessante. Embora seja cansativo dormir menos para desenhar mais, também sinto uma satisfação muito grande.

Ampliei o rol de personagens. Mantive a produção da tirinha semanal do Catraca (às vezes até fiz mais que uma por semana), mas desenvolvi melhor o Zé Ruela, e fiz uso de situações reais ocorridas na redação do jornal para criar histórias da Redação, com foco no dia-a-dia de jornalistas e em conversas sobre atualidades.

Além disso, passei a fazer tiras sem rótulos, tratando de temas diversos e com personagens esporádicos. E estou ainda desenvolvendo uma série especial sobre o universo feminino, intitulado “A Vida Cor-de-rosa Como Ela É”.

É um ano produtivo para meus cartuns e está previsto para os próximos meses o lançamento do livro ‘Traços de PG’, feito em parceria com o chargista Sádico. Me inscrevi até em um salão de humor internacional (no Irã). Não sei se o desenho será selecionado, até porque há trabalhos muitos bons. Mas, enquanto isso, sigo procurando fazer uma tira por dia (de segunda a sexta-feira), ou apenas mantendo o site o mais atualizado possível. Acredito, realmente, que a quantidade leva à qualidade. E, principalmente, estou me divertindo cada vez mais com essa agradável obrigação.

15 de ago. de 2012

'Catraca' em livros, presentes e vadiagem


Dois livros com meus desenhos devem ser lançados ainda este ano. O primeiro deles é um projeto antigo... bem antigo. Tão antigo, que já virou até piada. Projeto nascido nos idos de 2008, trata-se da obra ‘Traços de PG’, que irá reunir algumas das principais tiras do personagem Catraca, e também charges do amigo James Robson França (Sádico). Nesta semana, o item que faltava para enviar o livro à gráfica chegou até meu e-mail. Agora é só tornar realidade, o projeto que já tem quatro anos de espera.

Também neste semestre deve ser lançada a coletânea com histórias em quadrinhos do Concurso Nacional de Histórias em Quadrinhos ‘Ireno José Guimarães’, no qual conquistei premiação em categoria local. A HQ ‘Catraca: entrando numa roubada’, também com o personagem Catraca, será distribuída a escolas e bibliotecas

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Dia desses fui surpreendido com um presente inusitado. A artista plástica Lenita Stark levou até o jornal um de seus quadros, e me ofereceu. Eu havia feito uma matéria com ela semanas antes, por ocasião de uma exposição que realizou no Shopping Palladium. Uma grande gentileza da parte dela. A obra “Pescador” mostra um homem que deixa as ondas do mar tocarem seus pés. Transmite uma sensação muito boa de calma e paz, fazendo com que eu e a Pri nos lembremos de nossos passeios pelo litoral. Ela também gostou muito da obra, e foi a motivação ideal para que furássemos a parede da sala, que ficou mais agradável com o quadro.

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Às vezes, em jornalismo, nós repórteres recebemos alguns presentes bem interessantes, como foi o caso do quadro. Em outras, é motivo de piada. Minha colega da editoria de Economia ainda recorda a vez em que, após reportagem sobre agricultura, recebeu um ou dois pacotes de feijão na redação.

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Há repórteres que tiram bastante proveito dessa situação e, dependendo da editoria e dos contatos, há várias vantagens, realmente. É possível entrar em festas e eventos gratuitamente, fazer uso de serviços e produtos de graça. Há repórteres que têm a cara de pau de fazer pedido durante a entrevista. Sempre achei isso antiético e procuro evitar, tirando algumas vezes em que amigos insistiram para obter ingressos para eventos culturais. Quando esses itens são oferecidos como cortesia, não recuso e, se não farei uso, dou um jeito de passar adiante. De certa forma, não deixa de ser também mais uma forma de divulgação.

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Minha mãe esteve dia desses no centro da cidade. Ficou surpresa e decepcionada. Além das obras da prefeitura, aliadas a obras de particulares, que tornaram as ruas intransitáveis para pedestres e automóveis, assusta o número de pedintes.

Eu tinha notado isso já há alguns meses. Mas acabei acostumando. Só que passei a observar mais atentamente e, é verdade... é algo perceptível. Quando deixei a redação ontem no final da tarde, encontrei o caricaturista Jotaga em frente ao bar Rei das Batidas. Ele fumava um cigarro e conversava com outro sujeito. Enquanto eu ainda me aproximava, um mendigo chegou até ele e pediu algo. Jotaga, prontamente, deu um cigarro ao pedinte, que foi embora em seguida.

Cumprimentei Jotaga, que me contou que em breve pretende dar aulas de desenho. Inclusive me convidou para ser seu aluno, opinando, de maneira cuidadosa, que meu traço ainda pode melhorar muito. Enquanto ele dizia isso, surgiu outro elemento miserável e pediu moedas para tomar uma pinga. E emendou: “Tô sendo honesto”.

Pensei com meus botões: “Eu também, podia estar roubando, matando, mentindo... ao invés disso sou jornalista”. Jotaga respondeu que era artista e não tinha dinheiro. Ofereceu o que podia: mais dois cigarros.
O fato é que a vadiagem está à solta na cidade. E vejo tudo isso com certa inveja. Os que vivem das esmolas são justamente aqueles que não sabem o que fazer com ela. Tenho para mim que, se esses mendigos guardassem parte das moedas que arrecadam (excluindo os cigarros), ao invés de torrar tudo em drogas e cachaça, viveriam mais confortavelmente do que muitos que trabalham para viver.

26 de jul. de 2012

Site de tirinhas está de cara nova


Tem novidade no site odanilo.com.br. A partir desta semana, o layout recebeu uma total repaginação. Agora o site reúne tiras de vários personagens, e funciona como um portfólio com alguns de meus principais trabalhos com cartuns.

O site anterior exibia somente tirinhas com o personagem Catraca, e sempre com o mesmo formato. Agora, os leitores podem conferir desenhos em outros formatos e com outras abordagens. Além disso, a primeira página não irá mostrar somente a tira mais recente. As últimas tirinhas são exibidas uma abaixo da outra, e é possível ver as anteriores baixando a barra de rolagem e clicando nas páginas.

Além de tiras e cartuns de modo geral, dispostos em ordem cronológica e divididos em categorias, o internauta encontra no site odanilo.com.br um link em destaque para o texto mais recente de meu blog, Universo e Afins.

Na seção ‘Quadrinhos’, também é possível encontrar algumas das HQs mais toscas que já desenhei, bem antes de me dedicar às tirinhas. Em breve, estará ainda no site a primeira HQ com o personagem Catraca.
O novo formato do site tem dois objetivos principais: o primeiro é dar o devido destaque a meu trabalho como cartunista. Embora seja um hobby, ele ganha grande importância no quesito realização pessoal. O segundo é oferecer a mim mesmo um incentivo para dar início a uma proposta antiga à qual quero me impor: fazer uma tira em quadrinhos por dia. O novo site inicia com a intenção de, ao menos, ampliar a produção de desenhos e o “menu” cartunístico.

Aos leitores, peço que se manifestem, para que eu saiba que ainda estão aí. Comentem, critiquem, elogiem, sugiram.
Valeu.

19 de jul. de 2012

Na Estação Saudade


Enfim chegou a quinta-feira, dia de renovar o empréstimo do livro “Paris é uma festa”, de Hemingway. Apanhei a obra no prédio da Biblioteca Pública Municipal na semana anterior, logo depois de refazer meu cadastro, inativo há pelo menos três anos. Não que eu não tenha lido nada nesse tempo, mas é que optei pelo sebo, livrarias e obras que recebi como cortesia na redação do jornal.


Mas, quando se tem a intenção de ler algo específico, como esse livro de Hemingway, é preciso desembolsar um pouco mais, ou recorrer ao empréstimo. Escolhi a segunda opção, lembrando que já tinha feito uso do livro da biblioteca anos antes.

O prédio da biblioteca está entre os mais antigos de Ponta Grossa. No passado, foi a estação ferroviária, onde milhares de pessoas entraram e saíram do trem, onde casais se reencontraram ou se despediram, onde negócios foram feitos e desfeitos. Ir até lá traz uma sensação estranha de nostalgia, estranha principalmente para alguém que, como eu, não vivia essa época áurea do local. Mas explica bem o título que deram ao prédio: “Estação Saudade”.

A plataforma de embarque e desembarque ainda está lá, e hoje tem funções diversas. Já serviu como palco de apresentações artísticas, exposições diversas (incluindo de automóveis antigos) e, mais recentemente, foi o alvo de vândalos que picharam e rabiscaram em quase toda a sua fachada, cuja pintura foi restaurada há poucos anos.

A restauração não foi das melhores, e prova disso é o uso inadequado do edifício para abrigar a biblioteca. Os livros não têm a proteção correta contra o tempo e nem o prédio tem o uso que merece. Mas o pior é o entorno.

Renovei o livro e fui até a plataforma. Estava bastante frio nesta manhã de quinta-feira. Aproveitei o sol que ainda estava presente no finalzinho do chão de pedra para ler o final de mais um capítulo de Hemingway. Antes, olhei em volta.

Plantaram grama atrás da Estação. Atrás, que hoje é em frente. A entrada do prédio para embarque e desembarque ficava onde hoje está um estacionamento de automóveis confuso e normalmente dominado por flanelinhas. A parte nobre do prédio acabou sendo o local onde, antes, o trem parava para receber novos passageiros.

A grama rala insiste em oferecer um pouco de verde, entre poças de água da chuva do dia anterior. Ali, alguém pouco razoável teve a ideia de fazer uma calçada estreita e ondulada como serpente que leva do terminal central de ônibus até o shopping popular, conhecido como “camelódromo” ou “paraguaizinho”. As pedras de petit-pavé se soltaram, em vários pontos da calçada, denotando total falta de cuidado com a manutenção, além de um trabalho mal feito e o uso errado do espaço (os carros da exposição mencionada anteriormente já passaram por cima dessas pedrinhas algumas vezes).

Mas o mais incompreensível é que tenham feito essa calçada ondulada. Se a fizessem em linha reta, além de oferecer um caminhar mais lógico ao pedestre, ainda poderia ter feito referência aos trilhos de trem que, no passado, estavam quase no mesmo local. Ao invés disso, colocaram ali alguns postes com lâmpadas, entre a estação e a calçada, e esqueceram completamente de colocar algum banco. Parecem faltar boas ideias para o aproveitamento de espaços públicos.

Terminei de ler um capítulo, e notei que o sol já deixava a plataforma. Lembrei que havia bancos do outro lado do gramado. Caminhei ainda seguindo o calor do sol, sobre a plataforma, indo em direção ao paraguaizinho. Na ponta da plataforma, um cachorro dormia e nem sequer mexeu a orelha quando passei ao seu lado, e desci os degraus até o Parque Ambiental.

Cheguei a um dos bancos. Sentei. Olhei em volta. Quem sentasse ali teria que ficar olhando o trânsito de ônibus, ou observar o shopping em forma de caixote. “Preferia estar olhando a grama”, pensei. Baixei os olhos para o livro. O sol fazia com que os olhos acreditassem que as letras impressas em tinta preta eram vermelhas. O texto era vivo e agradável. Levantei os olhos novamente. A cidade parecia mais bonita agora, enquanto eu terminava de ler outro capítulo.

12 de jun. de 2012

Onde está a graça?


Enfim, após vários dias de chuvas, confirmamos hoje que o sol ainda está lá em cima. As casas e edifícios em Ponta Grossa ficaram tão úmidos em seus pisos, paredes e janelas, que me obriguei a fazer uma tirinha sobre o tema.

Apesar do tempo pouco convidativo para sair, na semana passada acabei marcando um encontro que, descobri, eu desejava fazer há muito tempo. Por sugestão do editor-chefe do Jornal da Manhã, Mário Martins, escrevi reportagem sobre aqueles que trabalham com humor na cidade.

A ideia surgiu com a visita da cartunista curitibana Pryscila Vieira, que agora está morando em Ponta Grossa, desde que seu esposo assumiu o posto de delegado do Denarc local. Pryscila é a criadora da personagem Amely, um fenômeno dos cartuns. Uma mulher com aparência de boneca inflável (ou seria o contrário?) que critica a sociedade machista e a mulher vista como objeto.

Em conversa com Pryscila, ela apontou que seria mais pertinente fazer uma reportagem com outras personalidades além dela, e mencionou Benett (chargista ponta-grossense que agora trabalha para a Gazeta do Povo e Folha de S. Paulo) e *Fábio Silvestre (humorista de PG que agora está no programa A Praça É Nossa, do SBT).

De acordo, Mário Martins lembrou que James Robson França, vulgo Sádico, não poderia ficar de fora da matéria. Sádico é chargista do Jornal da Manhã, e tem feito excelentes trabalhos com ilustrações e tiras no jornal.

***

O bar, sempre o bar...
O primeiro passo da reportagem foi marcar uma conversa com Sádico. Ofereci duas possibilidades: o café da Panificadora Vila Velha ou o Bar do Seu Rui, ao lado do JM. “O bar. Sempre”, respondeu. Mas, na manhã de quarta-feira, estávamos no bar... tomando café. Precisávamos nos manter lúcidos. Era meio da semana. Mais um dia e teríamos um feriado, aí cada um faria o que bem entendesse.

Foi durante a conversa que Sádico lembrou: eu não podia deixar de mencionar Roque Sponholz, caricaturista e chargista ponta-grossense. Também poderia mencionar Diego Castro, humorista emergente quando se trata de comédia stand up na região.

A sugestão era boa, mas me pareceu improvável... Sádico propunha que eu reunisse a Pryscila, ele, Roque e Diego, e fizesse uma foto de todos juntos para compor a capa do caderno Urbe do JM, onde seria publicada a reportagem. Me despedi prometendo fazer a tentativa de marcar a foto para aquela mesma tarde, embora incrédulo.

***

Mais fácil do que parece
Para minha surpresa Roque Sponholz me atendeu no primeiro telefonema, e topou o encontro no Parque Ambiental. Local escolhido em face da identificação imediata com a cidade, já que o Cocozão, monumento polêmico e insubstituível, não mais existe.

Diego Castro também aceitou a ideia na hora, e combinou estar no Parque Ambiental também às 17 horas. Pryscila estaria chegando de uma viagem a Curitiba, mas disse que daria tempo de fazer a foto, com certeza.

À tarde, o tempo que estava apenas em garoa decidiu assumir sua condição chuvosa e as gotas de água se intensificaram, dobrando de tamanho e volume, e me obrigando a transferir o local da foto para alguns metros adiante. O novo local era a Estação Saudade, antiga estação de trem, hoje biblioteca municipal, também localizada no mesmo Parque.

Mas essa mudança precisou ser articulada após as 16h30, e Roque Sponholz já havia deixado sua casa, rumo ao local original do encontro. Fiel a uma tradição antiga, Roque não carregou celular [aparelho que, aliás, não possui]. Teria que encontrá-lo no local onde havíamos combinado por primeiro e levá-lo à Estação. Os demais foram todos avisados.

Às 17 horas em ponto, Roque exibia seu abrangente bigode [marca caricatural que carrega no semblante] perto das árvores de romã do Parque Ambiental. No carro do JM, eu, o fotógrafo Christopher Eudes, o motorista China e Roque Sponholz seguimos até a Estação Saudade, onde Sádico e Diego Castro já conversavam animadamente.

Só faltava Pryscila. Enviei SMS dizendo que a esperávamos, e ela respondeu que estava perdida. Uma breve conversa e a recém-chegada a Ponta Grossa, minutos depois, encontrava o bizarro estacionamento que fica junto à biblioteca e é dominado por flanelinha de aparência estranha e comportamento inescrupuloso (acho que acabo de descrever todos os flanelinhas do mundo).

***

Autopromoção? É o jeito...
Christopher fotografava os quatro junto ao prédio, usando o que restava da bateria de sua câmera. Ele tinha começado o expediente no jornal cedo, e teve que fazer o trabalho do outro fotógrafo, Clebert, que precisou viajar a trabalho para Curitiba. Com isso, estava nas últimas energias (ele e a câmera). Foi quando os entrevistados reivindicaram minha presença na foto.

De fato, meu trabalho como cartunista criador do Catraca não podia ser desprezado. Mas... escrever sobre mim mesmo na reportagem? Me incluir na fotografia? De início me pareceu inadequado. Mas, em seguida pensei... Por que não? Ao final, estar ali ao lado dos grandes nomes do humor local, alguns dos quais com destaque nacional e internacional, me serviu de incentivo e massagem positiva ao ego.

A reportagem não ficou ruim. Mas esse foi um daqueles casos em que o “fazer a reportagem” foi mais interessante do que vê-la publicada. E ter sido incluído na foto por eles teve, para mim, elevada importância. Talvez eu como cartunista não tenha o destaque que eles já conquistaram, mas rir ao lado deles foi como respirar mais profundamente. Aí está a graça.

*Obs.: Na mesma edição do caderno Urbe (10/06/2012) foi publicada entrevista com Fábio Silvestre. Ainda consegui para aquela edição uma entrevista com o chargista Benett. Mas, sem tempo e espaço adequados, posterguei a publicação para outra ocasião. É um material que merece o devido destaque, e em breve certamente terá. Por hora, eis os links para o caderno Urbe do último domingo - http://www.jmnews.com.br/noticias/urbe/23,21925,10,06,o-humor-em-ponta-grossa.shtml
http://www.vamoslerjornaldamanha.com.br/mail/jm/flip/Urbe/10-06-12/