29 de mai. de 2010

Uma comédia antiga e um Steve Oede... quê?

Steve Oedekerk é o nome. Você talvez nunca tenha ouvido falar. Ou, simplesmente, nunca pôde memorizar, a menos que seja um cinéfilo dedicado. Mas Oedekerk é um desses caras multifuncionais no cinema. Seu trabalho chegou a ser indicado ao Oscar em 2001, como roteirista da animação “Jimmy Neutron: o menino gênio”. Antes disso, se especializou em comédias, escrevendo para vários filmes, entre eles “Todo-Poderoso”, “A volta do Todo-Poderoso”, “O professor aloprado”, “O professor aloprado 2” e Ace Ventura 2: um maluco na África”.

Mas, bem antes, em 1991, Steve Oedekerk bancou o ator, ao protagonizar o filme “High Strung”, escrito por ele mesmo, e que aqui no Brasil foi traduzido como “Minha vida é um inferno”, sendo obra quase desconhecida. No roteiro, o personagem de Oedekerk, Thane Furrows, é um sujeito que reclama de tudo na vida, sempre repetindo que “queria estar morto”. Exagerado, paranoico, estressado, ele vai detalhando tudo o que para ele é ridículo nesse mundo.

O interessante é o formato da narrativa. Furrows dialoga com o espectador, como se tentasse convencê-lo com seus argumentos. Lembra um pouco as atuais comédias stand up, divididas em esquetes. Alguns desses argumentos fazem sentido, outros são exagerados e ridículos.

A comédia pode ser cansativa para quem espera mais um filme hollywoodiano. Mas vale a pena ver a produção de forma despretensiosa até o fim. Uma grande curiosidade sobre esse filme, é que Jim Carrey (que só ficaria realmente conhecido em 1994, com “Ace Ventura, um detetive diferente”) faz uma pontinha, já mostrando sua habilidade em fazer caretas.

Na história, Furrows, entre uma reclamação e outra, começa a receber estranhos telefonemas e bilhetes, que avisam que algo vai acontecer às oito horas da noite. Quando fecha os olhos, Furrows começa a ter estranhas visões, e passa a acreditar que está ficando louco. Na verdade, Furrows reclama tanto da vida, que a Morte (Jim Carrey) vem buscá-lo em sua própria casa.

À medida que Furrows vai se indignando com a vida, reclamando desde a quantidade de leite no cereal até o hábito que as pessoas têm de gostar de animais, ele parece se aproximar de um ponto em que vai “explodir”. E um desses momentos chega quando ele surta e ofende a esposa do chefe, para em seguida dizer a si mesmo. “O que eu fiz? Meu emprego! Como eu vou comer?”

“Minha vida é um inferno” é um filme que não existe em DVD, talvez em VHS. Como curiosidade adicional, apesar de Jim Carrey dizer as últimas palavras do filme, seu nome sequer chega a ser citado nos créditos. E sua participação é, como sempre, hilária.
*********
*Agradecimentos ao amigo Robison Queiroz, que encontrou o filme na internet, e selecionou algumas imagens para ilustrar este texto.

18 de mai. de 2010

O estacionamento de Rochhhhhh

Desde que o Jornal da Manhã mudou de endereço, vindo para a região mais central da cidade de Ponta Grossa, a nova sede deixou de ter estacionamento próprio. Como resultado, clientes passaram a se preocupar com os talões de Estar, e funcionários tiveram que optar entre vir de ônibus ou buscar um estacionamento particular para deixar seus carros.

Eu, como deixei de usar o VCGcard há alguns meses, procurei por um estacionamento mais barato, e encontrei um a poucos metros do Jornal. Na Avenida Balduíno Taques, ao lado do Banco Bradesco. Quem caminha todos os dias pelas ruas mais centrais de Ponta Grossa não imagina que existem quintais como aquele. Porque é isso que o estacionamento é, nada mais do que um quintal.

O proprietário, um sujeito que não tira a touca para nada nesse mundo, e que por alguma razão me lembra o falecido deputado Luiz Carlos Alborghetti, se autointitula "Rochhhhhhh". Não sei o que isso quer dizer. Pode ser um apelido ou um sobrenome.

Deixei o carro ali por quase um mês, sob os protestos de minha namorada, porque o homem tem em meia-dúzia de cachorros que vivem do modo mais bizarro possível, dentro da casa do sujeito. Ontem mesmo vi, através da janela da cozinha, um dos cães em cima de uma mesa.

Além disso, o espaço é cheio de entulho. Parece mais um ferro-velho. Rochhhhh trabalha com eletrônicos. Tem uma pequena loja ao lado da entrada do estacionamento. Aos fundos, os restos de equipamentos ficam espalhados, junto de restos de outras coisas. Há velhos cartazes, uma antiga placa da Praça Barão de Guaraúna, um tanque de lavar roupas abandonado, um toco de árvore e outros galhos jogados a um canto.

O lugar não é nenhum pouco bonito. Mas é mais barato do que qualquer outro estacionamento em volta.

A aparência não me incomodava, mas hoje aconteceu algo que me deixou indignado.

Como estava chovendo, e lá dentro se forma um pequeno lamaçal porque há apenas algumas pedrinhas espalhadas pelo quintal do Rochhhhh, deixei o carro mais perto da entrada, e não ao fundo onde costumava deixar por orientação do proprietário.

Quando voltei, na hora do almoço, Rochhhhh reclamou porque eu tinha deixado o carro no lugar destinado aos horistas. E, sendo eu mensalista, não tinha direito de deixar o carro naquele local. Pra tornar tudo mais ridículo, meu colega Eduardo tinha estacionado o automóvel dele ao lado do meu. "Tá vendo? Foi só você estacionar ali, e o outro também estacionou no mesmo lugar. Assim eu tô perdendo dinheiro!", disse Rochhhhh, me acusando de iniciar uma espécie de rebelião.

Se não posso nem escolher onde estacionar o carro, adianta pagar mais barato? Estou pensando seriamente em concluir o mês que já paguei, e partir para outro estacionamento. Pago mais caro, mas não vejo mais fiasco como esse.

***

Uma colunista do JM me escreveu e-mail hoje reclamando que não coloquei os créditos com o nome dela nas fotos publicadas em sua última coluna e também na edição de domingo, numa foto de criança na seção Clubinho. Ameaçou denunciar o Jornal para o Sindicato e tudo mais. O dia em que ela souber escrever uma legenda, vai poder me ensinar o que é um crédito.

***

A Revista Urbe desta semana vai ter ainda mais páginas do que nas anteriores. Como já estava trabalhando no meu limite nas semanas passadas, acho que vou precisar de muita sorte até a sexta-feira.

***

Dei entrevista hoje para um programa da TVM, que vai ao ar na próxima segunda-feira, dia 24, às 16 horas. O tema: as tirinhas do Catraca. Estou curioso para ver como me saí.

***

O twitter é uma coisa muito engraçada. O Sádico, também conhecido como J. Robson, ou vice-versa, chargista do JM, soltou uma hoje que vale a pena reproduzir:

"...confesso que essa chuva é minha culpa, lavei a louça hoje. Um dos pratos apresentava uma nova espécie de vida, tive que incinerar esse."

***

O Shopping Palladium tem uma loja que tenta ser um genérico da Cacau Show, só que com umas mesinhas na frente. Parece que o nome é "Brasil Cacau". Atendimento péssimo e uma caneca de nescau com uma maria-mole dentro ao inacreditável custo de R$ 5,50. Sugiro que passarem reto.

***

Algo que me disseram esses dias: "Você pode ter as duas coisas. Não ao mesmo tempo, mas quem sabe... na mesma vida"

Uhn... tem uma outra boa: "Nescafé... por que não agora?"

7 de abr. de 2010

O ‘Casal Falcatrua' na Ponte da Amizade

Ir até Foz do Iguaçu significa conhecer, no mínimo, os dois principais pontos turísticos da cidade: as Cataratas e o Paraguai. O fato de Ciudad del Este ficar em outro país não passa de um pequeno detalhe. Porque a cidade de Foz, que o turista irá conhecer, tem mais em comum com as lojas de mercadorias estrangeiras do que com a beleza natural e bem cuidada presente no Parque Nacional de Foz do Iguaçu.

Chegamos à cidade, eu e minha namorada, por volta das 8 horas da manhã do dia 18, após cerca de nove longas horas de viagem num ônibus da Viação Princesa dos Campos. Tendo o endereço do hotel nas mãos, eu sabia que ficava na esquina da Avenida Juscelino Kubitchek [uma das que levam à Ponte da Amizade] com a Rua José Maria de Brito. Mas para encontrar uma delas já levou mais tempo do que imaginávamos.

Um rapaz me cumprimentou com um “good morning” no balcão de informações de uma rodoviária escura e pouco atraente, na qual há apenas uma lanchonete também pouco convidativa. O bom dia em outro idioma me fez pensar que a informação sobre a direção para o hotel viria logo. Engano meu. O sujeito apanhou um pequeno mapa, no qual ele mal conseguiu identificar o local da rodoviária onde estávamos. Enfim, identificada a rua, com um pedido de desculpas do informante por sua confusão, seguimos até a Rua José Maria de Brito. Seguindo reto, eu sabia, chegaríamos ao hotel. Só não tínhamos noção da distância.

Caminhamos a pé, em nome da economia e da aventura de descobrir novos roteiros [e também porque gostamos de sofrer carregando grandes malas pesadas em lugares onde não há calçadas para fazer uso das rodinhas da bagagem], sujando nossos sapatos no terreno pouco cuidado do trajeto entre a rodoviária e o hotel. Em linha reta, devemos ter caminhado uns bons 30 minutos.

Enquanto andávamos, tive a percepção de que Foz do Iguaçu não é tão turística quanto dizem. A rodoviária pequena e visualmente feia, o centro de informações com poucas informações, e a ausência de calçadas, ou calçadas quebradas no trajeto até o hotel, mostrou que a cidade não investe tanto assim no turismo de pequeno porte. Talvez a maior parte desses investimentos esteja restrita a grandes eventos, que trazem grupos de diversos pontos do país e do mundo, mas que não passam pela rodoviária, nem chegam a pé com suas malas. São pessoas que chegam em caravanas até os hotéis e aos chamados centros de convenções.

O que eu e a Pri encontramos, em lugar disso, foram muitos terrenos baldios e o mato crescendo alto. Finalmente chegamos à esquina com a Avenida JK, onde estava o “Hotel Sun”. Para cruzar a avenida tivemos alguma dificuldade. O movimento de carros em Foz, ao menos na área central, é extremamente confuso. A cada esquina, os automóveis vêm de todos os lugares. As faixas para pedestres são quase invisíveis, o que deixa evidente a falta de comprometimento da administração pública local com a segurança no trânsito. Mais tarde notaríamos que isso é reflexo do trânsito em Ciudad del Este.

***

Um corpo no hall de entrada

Quase demos meia-volta logo na porta do hotel, de onde saíram dois policiais militares, dando a desagradável sensação de que encontraríamos a marca de um corpo feita a giz no saguão de entrada. Mas a diária estava paga, e entramos. O lugar não era ruim. Nosso quarto ainda não tinha recebido a visita das arrumadeiras e, por isso, o funcionário disse que teríamos que esperar uns trinta minutos.

“Vocês não querem tomar um café enquanto esperam?”, perguntou. Eu pensava em dizer que sim, quando a Pri disse em um suspiro “com certeza!”, já se encaminhando para o restaurante. Um bom café da manhã e um banho nos deu forças para a primeira tarefa do dia: cruzar a Ponte da Amizade em busca de uma câmera fotográfica que pudesse registrar o objetivo número 2: a visita às Cataratas do Iguaçu.

Mas não conseguimos manter sigilo junto aos parentes a respeito de nossa ida ao Paraguai, de modo que eu carregava na carteira uma lista de artigos de pescaria que meu pai queria que comprássemos. O pai da Pri, por sua vez, soube de uma antena que permite acessar, gratuitamente, mais de duzentos canais de TV paga. A Pri ficou incumbida de adquirir a tal antena.

Como ainda não estávamos suficientemente cansados, decidimos cruzar a Ponte da Amizade a pé. Fazia um calor infernal, mas com a devida quantidade de protetor solar tudo correria bem. A Ponte da Amizade parecia tão perto, mas ia ficando mais distante conforme caminhávamos pelas calçadas pouco cuidadas e pelo mato em torno dos passeios. Por um instante achamos que tínhamos perdido o caminho, mas bastou seguir o engarrafamento e um ônibus com os dizeres "Ciudad del Este" para que tivéssemos a garantia de que o caminho era aquele mesmo.

***

O caos na travessia da Ponte

Nossa velocidade era quase maior que a dos veículos a poucos metros da Ponte. O serviço de fiscalização da aduana brasileira não era lá muito eficiente, mas causava congestionamento. A lentidão do trânsito entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este só não é maior do que sua falta de lógica. Mototaxistas passam rapidamente entre os demais veículos. Sacoleiros percorrem o mesmo trajeto carregados de muamba. E cones e placas só servem para tornar tudo ainda mais confuso. Na aduana pediram o meu RG e o da Pri. Mais nada, e assim cruzamos a Ponte. O vento soprava mais forte ali, de onde víamos os grandes buracos abertos nas grades de proteção, através dos quais muitos sacoleiros ainda jogam fardos de cigarros contrabandeados do Paraguai.
A partir da segunda metade da travessia, deixamos de prestar atenção ao rio e começamos a notar os prédios comerciais do outro lado. Grandes outdoors exibem os nomes de algumas das principais lojas de eletrônicos no Paraguai. E uma placa de "bienvenidos" é o único sinal de boas-vindas. Mal tínhamos deixado a Ponte, um sujeito com um colete azul e a inscrição "guia comercial" nos entregou um panfleto com a indicação de uma loja na qual, ele dizia, poderíamos fazer nossas compras. Quando percebi, já tínhamos aceitado a ajuda do "guia", que terminou com minhas esperanças de fazer comparação de preços.

Se por um lado isso foi ruim, por outro, não tínhamos muito tempo para ficar pesquisando em várias lojas. Seguimos o sujeito que falava conosco em "espanhês", através das ruas sujas de Ciudad del Este, e em meio aos corredores abafados formados por barracas e mais barracas de produtos estrangeiros.

Por toda a parte, vendedores nos abordavam e tentavam nos fazer adquirir produtos nos quais não tínhamos o mínimo interesse. Continuamos seguindo o guia, que tentava extrair informações de nós. Eu procurava evitar passar qualquer detalhe, mas ele começou a insistir, e acabou descobrindo que éramos de Ponta Grossa, e que eu já tinha estado no Paraguai uma vez. Depois disso comecei a tentar extrair informações dele, apesar do pouco interesse. Soube apenas que parte da bagunça na principal rua da cidade se deve à construção da aduana paraguaia, que deve seguir os mesmos moldes da brasileira, mas que está há tempos em obras, sem que exista qualquer indicativo de data para sua conclusão.

Depois de caminhar alguns quarteirões, entre ambulantes desesperados para vender e automóveis cujo trajeto é sempre uma incógnita, enfim chegamos à tal loja que, segundo o guia, pertencia a um brasileiro. "Vocês pueden comprar un notebook, e se passar da cota a gente manda para o otro lado da Ponte después...", comentou o guia.

A cota era de US$ 300 por pessoa, e eu tinha tomado o cuidado de colocar nos bolsos o suficiente para não passar desse valor. Comprar um netbook estava nos meus pensamentos, mas a fama de esperteza dos comerciantes paraguaios é conhecida, e eu não tinha a intenção de pagar primeiro para receber a mercadoria depois, sob o risco de receber uma caixa cheia de pedras do outro lado.

Na loja, um dos vendedores se adiantou e eu primeiro perguntei a respeito de uma mesa digitalizadora, equipamento que dizem ser interessante para o trabalho de cartunista, e que ainda não tenho. Fui informado de que tal produto não poderia ser encontrado em nenhuma loja do Paraguai, por ser algo muito específico. Parti para algo mais simples: um pendrive. Mas descobri que o aparelhinho estava mais caro que eu pensava. Um pendrive mais barato pareceu interessante, mas o vendedor veio com uma informação curiosa: "Só que não funciona... só serve como chaveiro", disse.

Terminei comprando um de apenas quatro gigabytes, um pouco mais caro mas que, segundo o vendedor, funcionava de verdade. Em seguida parti para o que realmente me interessava: a câmera fotográfica. Depois de nos conquistar com uma câmera vermelhinha, o comerciante nos mostrou outra, mais moderna, de 12 megapixels. Pagaríamos apenas um pouco mais para levar aquela maravilha da tecnologia. "Esa cámara vai ser boa para su trabajo de deseño", disse o vendedor, que já tinha entendido meu interesse pela mesa digitalizadora. “Como assim?”, perguntei. "Vai poder fotografar o Pernalonga", finalizou em uma explicação pouco convincente.

De qualquer forma, aceitamos a câmera e não largamos mais dela. De minha parte estava tudo certo. A Pri falou então da antena, e dois ou três vendedores se mobilizaram para trazer uma sacola de peças metálicas, uma caixa de papelão com mais um equipamento eletrônico, outra peça do tamanho de uma pequena lâmpada e, o item final: a parabólica, que a Pri apelidou de "bacia".

Já estávamos nos preocupando em como fazer para transportar tudo aquilo na viagem, quando saímos da loja. Mas era cedo para pensar nisso. Eu ainda precisava achar os itens da lista de meu pai: duas varas 100% carbono, com pontas sobressalentes, e linhas específicas para pescaria.

***

Um insistente vendedor de meias

O guia nos ajudou a carregar as sacolas, e nos levou até um comerciante de materiais de pesca. As varas custaram o dobro do preço que eu imaginava, não havia pontas sobressalentes e as linhas não eram exatamente as solicitadas. Mas, é como sempre digo, a gente faz o que pode.

Foi então que ele surgiu, não sei de onde... O fato é que, quando percebi, estava ao meu lado um menino de cerca de sete anos com um punhado de meias brancas nas mãos. Eu tentava ainda fazer um bom negócio na loja de pescaria, e o guri insistia em me vender as tais meias. "Não, obrigado", eu disse. E o menino, ao invés de dar meia-volta [sem trocadilhos com a expressão] em busca de outro cliente, resolveu insistir. Insistir, mesmo...

Três por um real, cinco por um real, sete pares por um real. Já estávamos saindo da "zona de comércio" e o guri me seguia oferecendo mais e mais meias. Notei que meu "não" já era insuficiente. Injuriado, encarei o garoto: "Piá, eu não vou comprar meias! Eu tenho cara de quem vai comprar meias? Minha avó me dá meias, eu não preciso comprar!", disse. Mas aí veio nova oferta. Eu já estava quase perguntando se a Pri tinha alguma sugestão para me livrar do garoto, mas aí notei que ela tentava se livrar de uma vendedora de bolsas.

Em minha última tentativa de dispensar o menino, olhei para ele de cima a baixo e disse: "Você está usando havaianas! Nem você usa seu produto! Vista um par de meias e vá embora". Depois disso, caminhei mais um pouco e vi que o piá, finalmente, tinha sumido. Na mesma hora apareceu outro, idêntico, vendendo pendrives, e dessa vez agi sabiamente: o ignorei por completo.

Agora era necessário voltar com toda a aquela mercadoria para o hotel em Foz. Já que eu estava dentro da cota máxima de compras, me determinei a declarar a compra na aduana brasileira. “Você vai declarar?", perguntou o guia, espantado. "Sim", confirmei. Mas, cansados de caminhar debaixo do sol escaldante que se fazia presente por volta das 14h30, decidimos voltar de ônibus. O guia sugeriu que pegássemos uma van. "O motorista leva onde vocês quiserem ir", argumentou.

Na hora me pareceu interessante. Então ele nos levou até o motorista de uma van que, como diversas outras, estava suja, enferrujada e bastante surrada. "Eles querem cruzar a Ponte", explicou o guia. "Para onde?", perguntou o motorista. "Para a aduana... eles querem declarar", disse o guia.

O motorista, espantado, virou para mim: "Por que declarar? Podemos levar até onde quiser. Até o hotel...", disse. Acabei aceitando. "Fazemos así... llevamos ustedes até hotel. Si formos parados, puede declarar las mercadorías", argumentou o motorista.

***

Atravessando a Ponte clandestinamente

Dei uma gorjeta ao guia e entramos na van. A bacia foi atrás do banco. Um guri de uns dez anos surgiu, sabe Deus de onde, sentou ao lado da Pri, e ficou junto da janela tapando a visão de quem estava do lado de fora. Uma das artimanhas para ludibriar os fiscais, provavelmente. Foi quando notei que os vidros eram fumê. Enquanto a van se deslocava, mais um sujeito entrou com uma peça longa guardada em um pacote de papelão, e sentou ao lado do motorista. "Está tudo bem, ele está comigo", disse o motorista, sem que perguntássemos nada.

Eu já começava a me questionar se não estávamos sendo sequestrados com mercadoria e tudo, mas era tarde, e a saída era esperar e confiar no sistema. Em meio a uma e outra van que era parada pela fiscalização, e um silêncio tenso que se estabeleceu dentro de nosso carro, passamos pela Ponte da Amizade sem declarar mercadoria nenhuma. Poucos segundos depois, o motorista olhou para mim: "Para qual hotel estamos indo mesmo?" "Hotel Sun", respondi. O motorista paraguaio não entendeu, e o sujeito com a embalagem de papelão soletrou para ele. Não era um sequestro, enfim.

Minutos depois estávamos no saguão do hotel, com quatro sacolas pretas e a parabólica, sob o olhar sério dos funcionários atrás do balcão. "Nós não estamos vindo do Paraguai", brinquei, sem conseguir arrancar sorriso algum dos atendentes, que já devem estar cansados de ver seus hóspedes carregando sacolas pretas.

***

Uma decepção tecnológica

No quarto do hotel, colocamos as sacolas de muamba num canto. Eu apanhei a câmera fotográfica e comecei a fuçar as suas possibilidades. Bati duas fotos e apareceu a mensagem “Memória cheia”. Como assim? Estranhei, mas felizmente eu tinha comprado também um cartão de memória de dois gigabytes. Tirei do pacote e fui inserir o cartão na câmera. Não encaixava. Tal qual uma bonequinha russa, o cartão se separava em três partes, uma menor que a outra, mas nenhuma se adequava ao compartimento da câmera. A Pri quis tentar também, mas parecia impossível. Teriam os paraguaios vendido para nós o cartão de memória errado?

Tirei o cartão e liguei outra vez a câmera. Como num passe ruim de mágica, todos os menus tinham se apagado. Não aparecia mais nada escrito na tela da câmera. As fotos eram feitas, mas não era possível acessá-las. Nada mais funcionava direito. Depois de analisarmos friamente, concluímos que a câmera tinha dado problema depois que forçamos a inserção do cartão de memória.

Aquilo me deixou indignado. Não sabia se culpava os vendedores do Paraguai por venderem o cartão incorreto, ou se culpava a mim mesmo por minha estupidez.

Devo ter ficado por alguns minutos reclamando de meu azar. A câmera não tinha sido tão barata assim. Aí veio a declaração de amor de minha namorada: “Com você eu volto ao inferno”. Levei alguns segundos para compreender que ela se referia ao Paraguai.

Estava decidido... no dia seguinte, voltaríamos ao Paraguai, para tentar o que, aparentemente, nenhum homem brasileiro jamais havia conseguido naquele país: trocar uma mercadoria com defeito.

***

Ao encontro dos quatis

O retorno ao Paraguai era preocupação para mais tarde. Naquele momento, em específico, começamos a nos preocupar com o curto período de tempo que tínhamos para ver as Cataratas. De acordo com o atendente no hotel, o Parque fechava às 17 horas. Para chegar até lá, teríamos que pegar um ônibus até o terminal, para irmos de lá até o Parque, que ficava relativamente distante do centro da cidade. Entre almoçar e ir ver as Cataratas, optamos por comer um pacote de batata Ruffles no terminal e ir até as Cataratas.

Reforcei a camada de protetor solar, e enfrentamos o calor escaldante para chegar ao Parque Nacional do Iguaçu. Chegando lá, os ônibus que levavam ao passeio por dentro do Parque já estavam parados, e pudemos nos sentar no primeiro banco do segundo andar do veículo. Dali vimos alguns cará-carás, mas não havia muito mais para ver no trajeto, até que chegamos ao ponto de parada das Cataratas.

Trilhas e escadarias bem cuidadas e sinalizadas, repletas de lagartos, levam a diversos mirantes, um dos quais tem ao lado uma barraquinha onde todos os funcionários chupavam picolés, nos obrigando a ter a mesma ideia. Devorando meu picolé de limão, seguimos através das escadarias, à medida que o som da água aumentava. Começamos a sentir pequenas gotas de água caindo. Eram as partículas suspensas a partir das quedas. Surgiu o primeiro mirante, e já ficamos surpresos com a quantidade de água.

Caminhando em frente, chegamos a um outro mirante ao lado das Cataratas, e outro que leva até a metade do rio, deixando os turistas andar sobre as águas revoltas. Naquela tarde quente, saímos de lá totalmente molhados.

Saquei minha câmera reserva do bolso [uma que eu já tinha trazido de Ponta Grossa] e fiz algumas fotos. Compramos duas camisetas do Parque e um quati de pelúcia. Depois voltamos para o ônibus. A Pri estava chateada por não ter visto quatis de verdade. Foi quando surgiu um bando deles. Fiz algumas fotos, enquanto ela se atrevia a pegar no rabo do bicho, que olhava para ela com cara de reprovação como quem pergunta “te conheço?”

Depois partimos do Parque e voltamos ao hotel, em um ônibus que se deslocava em alta velocidade, porque um motorista muito louco tentava atravessar rapidamente o engarrafamento que se estabelece em Foz na hora do rush.

***

Missão Impossível sem Tom Cruise

Na manhã do dia seguinte, logo saímos em direção ao Paraguai. Dessa vez não perdemos tempo e fomos imediatamente ao ponto de ônibus, rumo à travessia da Ponte da Amizade. A Pri levou apenas a câmera com defeito dentro de sua respectiva bolsinha e eu levei a sacola com os acessórios do aparelho.

Trocar a câmera era algo que me parecia impossível. Estava vendo que o vendedor iria negar que me conhecia, diria que não troca mercadorias, e ameaçaria chamar a polícia. Meu receio só foi transmitido para a Pri no momento em que revelei a ela a terrível verdade: “Esqueci de trazer a nota fiscal!” “O quê? Mas eu vi você separando o documento!”, ela disse. “Eu deixei em cima da mesa do quarto do hotel”, falei.

Então era isso. Na mais nova versão do filme “Missão Impossível”, nosso objetivo era cruzar a Ponte da Amizade, trocar a câmera estragada por uma nova e funcionando, e fazer tudo isso sem nenhuma prova de que estivéramos antes na loja.

Os vendedores vieram em nossa direção com suas bolsas, meias e pendrives. Todos nos convidavam a comprar, mas eu dei a dica à Pri: “Não olhe nos olhos deles. Olhe para um horizonte imaginário, que eles desistem”. E, de fato, essa é a dica.

Em meio a todo aquele comércio, eu jamais encontraria o lugar. Mas, incrível, minha namorada memorizou a localização. Fomos direto ao balcão e explicamos a situação para um dos vendedores que tinha nos atendido no dia anterior.

“Você trouxe a nota?”, perguntou.
“Claro que sim”, respondi, enquanto fuçava na sacola como se pudesse realmente encontrar a nota ali. Eu fazia isso com tanto esforço e fé, que realmente poderia encontrá-la, ou tirar de lá uma pomba.
Enquanto desempenhava meu papel teatral, minha namorada iniciou sua representação também. Dizendo frases como “Eu não sei o que aconteceu... estava funcionando bem ontem...”

Nesse meio tempo, o vendedor ligou e religou a câmera. Deve ter lembrado do comentário sobre o Pernalonga e disse: “Ah... vocês vieram aqui ontem, né?” Deu mais uma olhada nas baterias e lançou o diagnóstico. “Parece mesmo problema na memória. Vou ter que trocar por outra”.

Pensei: “ouvi direito? Ele admitiu o defeito? Ele vai trocar?”
Pois e trocou.

O rapaz esqueceu de vez da nota fiscal. Apanhou uma câmera novinha, idêntica, e funcionando e nos entregou. Não sem antes colocar a memória de 2 Gb, com o adaptador laranja, que tinha esquecido de nos entregar antes. Em seguida, demos no pé com o aparelho, antes que ele mudasse de ideia.

Faceiros e entusiasmados, naquele momento nos autodenominamos “o Casal Falcatrua”, e entramos em outro ônibus para voltar ao hotel. Nesse caminho, tiramos algumas fotos dentro do busão. Flagramos o momento de desespero de alguns muambeiros no momento em que os fiscais entravam para verificar as mercadorias. E atravessamos novamente a Ponte. No muro ao lado direito, quando termina a travessia, uma ilustração resume bem tudo aquilo: “Uma ponte só é pouco”.

***

Um telefonema muda tudo

Chegamos ao hotel, arrumamos nossas malas, pagamos a estada, e já íamos nos deslocar para o terminal e pegar um ônibus até a rodoviária, quando a Pri lembrou do detalhe: “Eu não vi meu celular. Arrumei as malas e não vi meu celular”.

Em frente ao hotel que acabáramos de deixar, segurando mala e sacolas pretas, peguei meu telefone e liguei para o número da Pri. Do outro lado atendeu uma moça, que disse ter encontrado o celular no dia anterior, no ônibus. Mas que poderia devolver o telefone se fôssemos até o endereço onde ela residia. E onde era? “Perto da Ponte da Amizade”, disse, antes que a ligação caísse porque eu não tinha mais créditos.

Por um instante cogitei deixar o celular lá mesmo. Mas a Pri disse que tinha muitas fotos na memória do aparelho, e fez cara de choro. Então comprei créditos para meu celular, liguei de novo para a moça. Peguei o endereço certinho e lá fomos de novo, em direção à Ponte da Amizade.

Dessa vez pegamos um táxi. Colocamos a muamba no porta-malas do carro. Quando o taxista viu a bacia, lançou o comentário: “Opa! É bem dessa antena que eu quero comprar uma!” “Sério? Quanto você paga?”, perguntei, diante da reprovação de minha namorada: “Tá tentando vender a antena de meu pai?” Mas o taxista não quis levar. Disse que estava muito barata, e que era preciso tomar cuidado, porque “muita gente rouba antena e depois sai por aí vendendo...” Acho que eu estava com a barba por fazer, para ser confundido com um dos Irmãos Metralha.

Chegamos ao endereço, e a moça, uma universitária, nos entregou o celular que tínhamos perdido. Aparentemente, em algum momento, o aparelho que estava em meu bolso tinha escorregado, ficando no banco do ônibus que leva ao Paraguai. Foi sorte ele ser encontrado por uma pessoa honesta, e do lado de Foz. Porque seria bem mais complicado se a pessoa que encontrasse o celular fosse moradora do Paraguai. Aí teríamos que cruzar a Ponte... de novo.

Saldo de nossa viagem:

Chegando em casa, descobri que o pendrive não funcionou. Virou chaveiro.
As varas de carbono eram falsificadas. Mas meu pai bancou o esperto e as revendeu.
A antena do sogro tá funcionando bem até agora.
E a câmera nova... bem... também pifou nesta semana. A tela ficou preta, o que significa o mesmo que fechar os olhos e tirar a foto. Voltei a usar minha câmera antiga. Fica a dica... evite comprar no Paraguai, que é fria.

Apesar disso, eu e a Pri nos divertimos muito sempre que contamos a alguém a forma como trocamos a câmera em Ciudad del Este. Nosso interlocutor sempre ergue as sobrancelhas, arregala os olhos e, incrédulo, pergunta: “Trocaram mesmo??”

6 de mar. de 2010

Um bom lugar para almoçar em Ponta Grossa


Ultimamente tenho tido pouco tempo.
Pra tudo.

Mas, de vez em quando, surge um instante de ócio, e recordo com saudades de alguns tempos não muito distantes. Há uns cinco anos, por exemplo, eu estava escrevendo para o jornal cultural Grimpa, aqui da cidade de Ponta Grossa. Uma iniciativa de alguns de meus amigos mais malucos [num bom sentido] e entusiasmados. Um trabalho que praticamente não gerava lucros financeiros, mas pagava com algo que poucos trabalhos podem oferecer: satisfação pessoal.

No Grimpa, ninguém realmente buscava encher o bolso de dinheiro. Mas a gente tinha total liberdade para escrever. Fazia descobertas ao experimentar diferentes formas de jornalismo e de estilo. Nossa criatividade não era esmagada como se vê em muitas redações de jornais. Até porque [e talvez aí estivesse o segredo], o Grimpa não tinha uma sala de redação.

Sem uma sede própria, as reuniões eram realizadas em lugares distintos, praticamente uma vez a cada edição. Nessas reuniões ia quem podia. A maioria tinha mais de uma atividade, porque o Grimpa, se não era um hobby, era uma forma de manter a lucidez e a humanidade que deve ser mantida em cada jornalista, escritor, cartunista, chargista ou colaborador.

Acho que foi em um desses encontros que conheci o “Seu Anakreto”. O nome curioso era de um estabelecimento que eu não saberia definir direito. Misto de bar, restaurante e casa noturna, Seu Anakreto ficava a poucos quarteirões do campus central da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Ali o Ben-Hur [o cabeludo da foto], um dos fundadores e figura principal do Grimpa em termos de organização, uniu novamente parte dos colaboradores do jornal numa noite qualquer. Curioso que não lembro do que tratou a reunião. Se bem que reuniões normalmente existem por elas mesmas. Difícil surgir uma decisão tomada em reunião. Enfim...

Mas me marcou muito a ida até o Seu Anakreto. A decoração das paredes de madeira. Os quadros nessas mesmas paredes. O espaço... a localização. Não sei direito o que me agradou tanto. Depois daquela ocasião voltei ao local mais uma vez rapidamente, não lembro por que razão. E então, diria o corvo, nunca mais.

Depois passei por frente. Vi que a placa com o anúncio “Seu Anakreto” e o desenho caricato de um velho já não estavam mais lá. Então era isso. O estabelecimento havia fechado, como muitos outros da cidade acabam fazendo. Uma pena, pensei... Era o tipo do lugar ao qual a gente tem vontade de levar alguém. Mas, convenhamos, “Seu Anakreto” não era um bom nome.

***

Minha namorada, dia desses, veio me dizer que esteve em um restaurante muito agradável, chamado “Manjericão”. À minha cabeça veio a imagem de uma planta, e fiquei pensando que seria um desses restaurantes vegetarianos. Nunca vi nenhum, mas sei que existem.

Aí ela descreveu o endereço, e percebi que se tratava do “Seu Anakreto”. Ontem, na hora do almoço, fomos até lá, e alguma coisa me aconteceu.

O restaurante Manjericão me fez lembrar da primeira impressão que tive do lugar, em 2005, já que boa parte da decoração do Seu Anakreto foi mantida. Existe uma sala muito agradável que fica à entrada do ambiente, e que dá ao restaurante cara de hotel. Nas paredes há maquetes de barcos, assim como há maquetes sobre os balcões. A decoração dessa sala é toda baseada no convés de um navio. Há cordas grossas penduradas num mastro. Uma gaivota perto do teto [repare na primeira foto deste post]. Um relógio dentro de um escafandro.

Para onde quer que olhe nessa sala você vê detalhes. Eu poderia ficar um dia inteiro observando e ainda me surpreenderia. Ao lado da porta de entrada, um bilhete escrito num papelão foi emoldurado. É a carta do filho do dono do restaurante, que envia para o pai mais um item para decorar o restaurante, diretamente da Espanha.

A refeição do lugar também é boa, mas às vezes exige um pouco do paladar do visitante. Diariamente o cardápio é modificado, e uma plaqueta colocada diante do estabelecimento anuncia o que está no buffet por quilo.

A comida se mantém quente graças à tampa em cada panela. Os talheres com os quais a gente se serve são retirados para uso e devolvidos, em seguida, em pequenas tigelas. O preço não é dos mais baratos. Não sou de comer muito e paguei pouco mais de dez reais no meu prato. Mas os banheiros são bem limpos. O lugar é arejado. A música suava toca ao fundo. O caixa aceita cartão. E, ao sair, você passa novamente pela sala perfeitamente decorada e toma uma xícara de café, com uma mistura muito louca de gemada com canela [segundo minha namorada].

Segurando a xícara, você senta em uma das confortáveis poltronas da sala [há lugar para pelo menos 13 pessoas] e pode ler um jornal ou uma revista. Pode esquecer um pouco do dia ou semana ruim. Pode olhar para os quadros, as maquetes ou se perder em pensamentos e lembranças. Saudades do jornal Grimpa e do espírito revolucionário que permeava o grupo que se reuniu ali naquela noite. Não para mudar o mundo, mas para fazer alguma diferença.
Eis um lugar bom para voltar...

Mas... “Manjericão” é um péssimo nome.

P.S.: O restaurante fica na Rua Senador Pinheiro Machado, 458. Atende apenas de segunda a sábado na hora do almoço e está em funcionamento há quase um ano (faz aniversário no final do mês). Se você puder chegar antes de meio-dia é melhor. Porque depois desse horário tem uns pais que aparecem lá com os filhos que acabaram de sair da aula. E, com tantas maquetes e detalhes, a criançada fica meio eufórica. Ainda mais quando descobrem o sino ao lado do balcão de atendimento...

13 de fev. de 2010

A melhor quinta-feira que posso lembrar

Essa quinta-feira, dia 11, foi um dos dias mais felizes de minha vida, em razão de um evento marcado há pelo menos dois meses. Mas só fui perceber o quão importante o evento era, no instante em que ele se tornou realidade.

Na quinta-feira, meu irmão, Dalton, recebeu a colação de grau do curso de Licenciatura Português-Inglês pela Universidade Estadual de Ponta Grosa. Depois de quatro anos estudando pra caramba, ele enfim é professor.

Muita gente conquista a formatura a cada ano. Muitos celebram a finalização de um período longo de estudos e leitura, gastos financeiros e psicológicos. Mas meu irmão não comemora apenas a vitória nesses últimos quatro anos.
***

Dalton é um vencedor porque nasceu com uma deficiência que exigiu uma cirurgia quando ainda era pequeno. E um erro, nessa cirurgia, gerou um problema no cerebelo, parte do cérebro que determina, basicamente, o equilíbrio do corpo e a coordenação motora.

Por consequência, ele hoje escreve com lentidão e diversas atividades exigem maior concentração e esforço. Não caminha sem que alguém esteja ao seu lado dando apoio e auxiliando no equilíbrio. Mas, superando dificuldades, ele se adaptou bem às suas limitações e, em inúmeros aspectos, Dalton é muito melhor do que muitos que se acham melhores.

Sua capacidade intelectual o levou a partir de um ensino especial, nos primeiros anos escolares, para o ensino regular. Passou pelo ensino médio e decidiu que queria fazer vestibular. Conseguiu o que eu, certa vez, não consegui: passou no vestibular estudando sozinho, em casa. Adquiriu incrível poder de memorização. Como hobby, Dalton chegou a memorizar, certa vez, todos os nomes de países do mundo e suas respectivas capitais. Comprou pelo correio um dicionário de alemão, e pouco tempo depois já estava falando as primeiras frases no idioma.

Na Universidade, ele se dedicou pra valer, e venceu cada dificuldade. Desde o preconceito de colegas até perseguição de professor. O andador que ele usou para caminhar pelos corredores chegou a sumir por algum tempo, devido à irresponsabilidade de quem o pegou sem pedir permissão.

Foram inúmeras fotocópias feitas e lidas. Foram fins de semana de estudo intenso. E cada trabalho que ele fazia, eu sabia, exigia muito mais esforço do que o empregado por qualquer acadêmico que pode contar com a rapidez ao escrever no caderno ou no teclado.

Eu o ajudei no que pude no primeiro ano de seus estudos na Universidade. Nos anos seguintes, meu pai o levou e trouxe para as aulas todos os dias, e minha mãe deu maior apoio. Mas cada curso é cada curso. Eu não podia ajudar mais do que sabia, e o conhecimento que ele adquiria pertencia somente a ele. O mesmo valendo para meus pais. Sendo assim, a participação da família foi fundamental, mas não o principal.

Vendo meu irmão vestindo a beca, na noite dessa quinta-feira, em meio a outras dezenas de formandos, não tenho vergonha de dizer, eu chorei. Chorei de orgulho e satisfação quando gritei seu nome, enquanto ele recebia o canudo das mãos do reitor João Carlos Gomes, recebendo mais aplausos do que qualquer outro que ali estava.

Esse diploma, Dalton, não é só a conquista de uma profissão. Não é a prova de quatro anos bem aplicados em estudos. Esse diploma é a prova de que você é um vencedor na vida, e continua sendo. Deste lado, você tem um irmão com muito orgulho, e que diz para quem quiser ouvir, que minha admiração por você é imensa.

E te desejo todo o sucesso no curso de mestrado que você começa em breve.

30 de jan. de 2010

Um pouco de filosofia neste sábado...

Meu avô disse, certa vez, em toda sua simplicidade e sabedoria: "Dessa vida não se leva nada, a não ser aquilo que se come. Então, quando tiver vontade de comer alguma coisa, você deve comer". Passou pouco mais de um mês desde que ele se foi e, coincidência ou não, tenho seguido esse conselho ultimamente.

Estive com minha namorada na panificadora Deguste, no Centro de Ponta Grossa, ontem na hora do almoço. Não ia lá há bastante tempo. As mesas e cadeiras, que antes ficavam nos fundos [se não me engano], agora vieram para a parte da frente do estabelecimento. De aspecto rústico, não me senti incomodado com o visual do lugar. Só me incomodou um pouco o fato de eles "esconderem" os talheres em uma gaveta. Mas estou certo de que não vou me atrapalhar mais na próxima vez em que for até lá.

Ia pedir um copo de suco de laranja quando vi, na máquina, uma substância com cor de água suja.
"O que é isso?" - perguntei para a funcionária
"Cappuccino gelado - disse, e perguntou, com a expressão de quem já sabia a resposta - "quer experimentar?"

E descobri mais uma coisa boa de se provar. Embora faça a gente se sentir meio estranho, como quando provei um bolinho doce feito com feijão, iguaria interessante que minha vizinha japonesa tinha feito a gente experimentar lá em casa.

Nos últimos meses investi na experimentação de itens como sorvete coberto de chocolate quente, café quente coberto com chantilly gelado, torta holandesa, cappuccino com amarula, refrigerante de goiaba e sanduíche de banana com linguiça. E, se nem tudo é tão bom quanto o esperado, ao menos a experiência é interessante. E é nisso que consiste viver: em experimentar, aprender, conhecer, para poder dizer que a gente sabe do que está falando. E para poder lembrar do que é bom ou ruim, e do que queremos repetir ou evitar.

De fato, é possível estender ainda mais o ensinamento de meu avô. Provar uma comida ou bebida não é nada mais do que estimular nosso paladar, que também está relacionado ao olfato, à visão e ao tato. E, pensando bem, até a audição está presente nesses casos. Afinal de contas, alguém já comeu uma batata Ruffles sem crocância? Faz falta o barulhinho.

Por falar em Ruffles, no outro dia comprei na lanchonete Subway um pacote desse salgadinho, ao custo de R$ 1,50. Ao abrir, dei de cara [e fiquei de cara] com dez míseras fatias de batata. Ao custo de R$ 0,15 cada fatia de batatinha, isso faz a gente pensar. Só comemos aquilo que está ao nosso alcance. Só experimentamos aquilo que podemos. E só repetimos as coisas boas enquanto temos tempo para isso.

"Carpe diem" [aproveite o momento] parece a frase boba de alguém que tinha muito tempo sobrando. E talvez tenha sido. Mas o desafio é torná-la mais que uma frase, e trazê-la para o cotidiano. Muito do que é dito são apenas palavras. Muito do que fazemos é mais que isso. O sábado e o domingo são ótimos dias para descansar, sair com a namorada, ver filme no cinema, dormir até mais tarde. Mas não são dias melhores que os outros. O desafio é fazer a segunda-feira e os outros dias igualmente especiais.

Eis um desafio para a semana que está para começar.
E... chega de filosofia por hoje.

27 de jan. de 2010

Transitions

Enfim, troquei de óculos. Depois de cerca de dois anos usando o tradicional modelo de aros pretos em acetato, que adquiri por influência de Clark Kent e [quem diria] José Wilker, aceitei o conselho do oftalmologista que, com expressão de reprovação, segurou meus óculos antigos e disse “você tem que escolher um modelo mais moderninho”. Além de sugerir uma armação menos “pesada”, ele também lembrou que óculos escuros e lente antirreflexo protegem melhor os olhos.

Sendo assim, e também seguindo o conselho da Pri, minha namorada, comprei o tal transitions. A lente que escurece quando entra em contato com raios ultravioleta. Tentei arrancar da vendedora a informação de como funcionam as lentes mágicas. Ela me enrolou por duas vezes. Na terceira, desisti de exigir a explicação. Mister M, revele-nos o seu segredo, ó mágico dos mágicos...

Quem explica é o Mister Google: “Na verdade, as lentes transitions contêm corantes fotossensíveis patenteados que fazem com que a lente seja ativada - ou escurecida - quando exposta aos raios ultravioleta da luz solar”. Entendeu? Nem eu... como uma lente pode ser fotossensível? Eis a questão que ainda não compreendo.

Bem, levou pouco mais de uma semana e meus óculos ficaram prontos. Assim que os coloquei, senti uma enorme diferença. Quase caí do degrau da loja onde os comprei. Mas estava enxergando com nitidez. E foi só ir no sol que os óculos ficaram escuros e eu fiquei de cara.

Eu deveria ter ido primeiro ao oftalmologista para que ele conferisse se estava tudo certo com o equipamento. Mas decidi usar a partir daquele momento, e protelei um pouco o encontro com o especialista.

No segundo dia, tudo beleza. Eu ainda estava meio tonto com as novas lentes, mas seria algo passageiro. Seria. No terceiro dia, percebi que o olho esquerdo estava enxergando melhor que o direito. No quarto dia, a situação se agravou e, além dessa diferença, me sentia meio vesgo. Uma semana depois eu estava enxergando mal do olho direito e com dor de cabeça. Isso foi num domingo. Foi quando decidi que, no dia seguinte, finalmente iria ver o oftalmologista e descarregar minhas reclamações.

Mas na segunda-feira eu estava enxergando perfeitamente bem. E, com horário marcado, fui mesmo assim até o oftalmologista, junto com a Pri.

- Qual é o problema, Sr. Danilo? – perguntou o oculista, como se lembrasse do momento em que, cerca de duas semanas antes, eu procurava desesperadamente pela receita de meus óculos antigos

- Então... é que meu olho esquerdo blá blá blá... e meu olho direito blá blá blá... vesgo... blá blá blá etc e tals... E hoje estou enxergando bem.

- Mas é claro! Você está com um grau mais elevado na lente do olho direito. Quanto tempo faz que trocou de óculos? - ele perguntou

- Uns dez dias – disse a Pri

- Dez dias é pouco tempo. Você vai levar uns vinte dias para se acostumar com as novas lentes. – ele disse, quase perdendo a paciência e batendo na mesa outra vez

Desde então estou enxergando bem.
Começo a achar que o sujeito acertou na receita, afinal.
Mas aposto que ele também não saberia me explicar como funcionam as lentes fotossensíveis.

13 de jan. de 2010

Reflexões de um repórter de Cotidiano...

Hoje pela manhã eu precisava conversar com o gerente de uma das centrais de distribuição domiciliar dos Correios. Para isso, tive que telefonar para a Agência Central dos Correios. A atendente transferiu para a substituta do gerente, que pediu para eu ligar em outro número, onde atendeu outra funcionária, que pediu que eu ligasse para outro número também. Liguei para o outro número, e atendeu um funcionário, que finalmente me transferiu para o gerente com quem eu precisava conversar.

O que me intrigou não foi esse toma-lá-dá-cá. O que me intrigou é que, das cinco pessoas com as quais conversei ao telefone, três me atenderam com um "boa tarde". E eram 10h30 da manhã... Estranha coincidência. Às vezes busco razões onde não há nenhuma. Tanto que acabo as encontrando. Mas não vou me concentrar demais nessa questão. Ultimamente ando com o raciocínio meio fraco.

É como disse um colega que trabalha comigo no jornal... Ele contou que nunca se concentrou em letras de música. Um dia resolveu memorizar a canção Faroeste Caboclo, de Renato Russo, ou Legião Urbana [que no caso pode dar no mesmo]. Conseguiu memorizar toda a letra, mas não pôde guardar mais nenhuma música na memória. Ele acha que atingiu o limite de Gigabytes que seu cérebro podia receber.

Estou em situação parecida, devido ao excesso de trabalho. Nessas horas eu preferia gostar de pescaria. Dizem ser um santo remédio. Enquanto continuo fugindo de pernilongos e longos períodos de exposição ao sol, minha mente não descansa.

Semana passada aluguei um vídeo em uma locadora, e devolvi em outra. Nem percebi o engano, e talvez jamais percebesse, não fosse a funcionária da loja me ligando no celular e avisando que eu tinha entregue o DVD no lugar errado.

***

Falta de memória à parte, resolvi fazer algo diferente no outro dia: comprar uma camisa que normalmente eu não compraria.

Quem me conhece um pouco sabe que costumo usar camisetas gola-polo, ou camisas sem nenhuma inscrição ou estampa. Me revolta o fato de a maioria das camisetas fazerem referência a skate ou surf, por exemplo. E não gosto de carregar no peito dizeres com os quais não concordo ou nada sei.

Mas, pra mudar um pouco, comprei uma camisa estilosa, listrada e de cor verde bem viva. Fiquei tipo o "ligador" do comercial da operadora de celular. E fui faceiro trabalhar. Estava eu num daqueles dias mais azarados desde que voltei a trabalhar na redação do jornal. [Os telefones davam ocupado, as pessoas não atendiam, ou atendiam e não respondiam, ou respondiam mal... pautas caíam dentro da redação e a chuva caía lá fora].

Ainda assim, eu seguia corajosamente dando seguimento ao meu trabalho e tentando manter a calma, quando o Eduardo faz o comentário: "Ô, Danilo... não sabia que você tava fazendo campanha pro Wosgrau!", disse, se referindo ao prefeito. "Tá com o número 45 no peito..."

Foi quando notei que tinha um baita número 45 na frente da camisa. E o Eduardo, como bom repórter de Política, não podia deixar de lembrar do número usado pelo prefeito na época de sua candidatura.

Tem alguns momentos, apenas alguns, em que eu preferia que os outros também tivessem problemas de memória...

12 de jan. de 2010

A receita que só fez falta para mim

Na segunda-feira acordei psicologicamente preparado para ir ao oftalmologista. Pelo menos era o que eu achava. Achei o cartão que me garantiria um desconto na consulta. Mas ainda precisava encontrar a receita de meus óculos atuais. Normalmente guardo as coisas em algum lugar de fácil acesso e arquivamento lógico. Portanto, fui direto ao estojo de meus óculos, abri, e só encontrei um lencinho.

‘Incomum’, pensei. Abri a gaveta da mesa do computador onde costumo guardar documentos e papéis que poderiam ser jogados no lixo, mas penso que podem servir para algo e, assim, permanecem guardados.

Encontrei muita coisa, mas não o que procurava. Procurei no estojo de meus óculos antigos. Em minha mala. Na gaveta do balcão da cozinha. Foi minha mãe quem matou a charada (não sei como).

“Você não guardou naquela caixa junto com as notas de imposto de renda?”, perguntou.
“Nãããão...”, respondi de imediato.

Mas fui até a caixa de sapato onde guardei os tais documentos. E ali estava, bem fácil, a tal receita de meus óculos.

Satisfeito, fui com minha namorada ao oftalmologista. Ela também estava precisando consultar. O oftalmologista examinou seus olhos primeiro, enquanto eu observava a parafernália que ele tinha naquele consultório.

Quando chegou minha vez, peguei a carteira para mostrar a receita de meus óculos. Mas não a encontrava. Lembrava de ter dobrado o papel e colocado ali. Revirei a carteira. Derrubei documentos.

“Não faz mal, me dá aqui seus óculos que dá na mesma”, disse o médico.

Entreguei meus óculos e, enquanto ele examinava as lentes, continuei procurando. Devo ter suado, porque fiquei alguns minutos buscando o tal papel. Então ouvi uma voz que perguntou:

“O que você está procurando”?

Era o oftalmologista. Ele já tinha examinado as lentes de meus óculos, e anotado o grau das lentes.

“Ele continua procurando a receita”, disse a Pri, sem entender.
“Esquece a receita!”, disse o oftalmologista quase perdendo o controle e batendo com a mão fechada na mesa.

Depois, durante o lanche que nos serviu de almoço, comentei com a Pri que não me conformava de não encontrar a tal receita em minha carteira.

“Eu procurei tanto esse papel”, eu disse.
“Eu e o médico percebemos”, ela respondeu, irônica.
“Não... estou dizendo que procurei muito lá em casa. Deveria estar aqui...”

Abri a carteira, e encontrei a receita na mesma hora.
Talvez eu esteja trabalhando mesmo demais.
Talvez apenas precise de óculos.

30 de dez. de 2009

Polícia deveria sugerir orações

Dias quentes em Ponta Grossa. Dormi com a janela e a cortina do quarto abertas, e acabei sendo acordado mais cedo pela luz do sol. Ainda meio zonzo, pois o sono não vinha, quis ligar meu rádio a pilha e descobri que não tinha pilhas.

Lembrei que meu celular tem rádio FM, e conectei o fone de ouvido. Meu celular tem sido bastante útil, cumprindo exatamente as funções que buscava quando o procurei na loja. Modelo que não faz volume no bolso, não foi muito caro, tira fotos e realiza gravações. Esse último recurso tem impressionado algumas pessoas cuja voz armazeno no aparelho, durante as entrevistas que faço para o jornal. O reitor da UEPG, João Carlos Gomes, pouco antes de citar todos os investimentos em modernização da universidade, teve que perguntar: “Mas, é um celular? E grava a entrevista?”

Também é o mesmo celular que um pivete ameaçou tomar de minha mão outro dia, quando me pediu esmola e perguntei onde estava sua mãe. Tenho quase certeza de que sua mãe não o procurava. Assim como não havia mãe alguma procurando o guri que atirou um pedaço de madeira em meu carro, enquanto eu dirigia, no final de semana. E ainda não entendem por que tenho medo das crianças em grupos. Se sozinhas elas fazem um estrago, imagine formando uma gangue...

Enfim, nem todas são pestes. As que se salvam também devem ser as que nos salvam.

Mas, levantei mais cedo, e liguei o rádio do celular. Parei na Jovem Pan e fiquei ouvindo o noticiário. Uma das notícias era sobre um assaltante que invadiu uma casa, e encontrou uma menina. Provavelmente com receio de que ela alertasse os pais, segurou a criança pelo braço. Mas o pai já estava vindo em socorro da criança. Atacou o assaltante, defendendo a filha. Nesse momento, entrou o comparsa do assaltante, e atirou no pai.

O final é trágico, mas tão trágico quanto a história é o conselho sempre dado pela polícia, com a mesma serenidade que um padre tem ao dizer para orarmos. “Nunca reaja... isso só aconteceu porque ele reagiu”.

Isso não aconteceu porque o pai reagiu. Aconteceu porque sua casa foi invadida. É tão simples transferir a responsabilidade pela segurança para um erro daquele que morreu. Mas quem, em sã consciência, vê uma filha, irmão, amigo ou esposa, em perigo... e não faz nada para ajudar?

A reação, como o próprio termo sugere, é algo praticamente involuntário. Tanto quanto um susto, um espirro ou uma lágrima. Seria mais correto se o policial dissesse “reze para que isso nunca aconteça contigo”. Porque é muita hipocrisia dizer que o erro na história é, simplesmente, daquele que reagiu para proteger a filha.

Sim... assunto duro para um começo de quarta-feira... Então, mudando um pouco de foco, gostaria de entender qual a lógica das pessoas que me atendem ao telefone, durante o trabalho.

Passo boa parte do tempo ao telefone, ligando para os entrevistados. Não raro, quem atende é uma outra pessoa que transfere a ligação. Anteontem o diálogo foi esse:

_Boa tarde. Aqui é o Danilo, do Jornal da Manhã, eu gostaria de falar com o Dr. Fulano de Tal.
_Um momento, por favor. [afasta um pouco o telefone] Doutor! Um repórter do Diário dos Campos quer falar com o senhor!

Não sei como as pessoas conseguem confundir o nome dos dois únicos jornais diários da cidade... Assim como também não entendo como confundem Danilo com Rodrigo, Camilo, Dairo e Daniel. Parafraseando Mamonas "o meu nome é Adejair, facinho de confundir com o João do Caminhão".

A associação de ideias feitas pelo nosso cérebro é uma coisa que ainda vai render muitos estudos. E muitos textos...

8 de nov. de 2009

Troquem a atendente por um cartaz

Se tem uma coisa que me cansa é fazer compras. Mas, de vez em quando, é necessário. E, diante do calor que faz na cidade nesses últimos dias, aceitei a realidade: eu precisava, pelo menos, de uma sandália. Porque ficar de tênis todos os dias da semana é uma coisa triste.

Ontem eu e a Pri fomos a algumas lojas do Centro. Eu procurava minha sandália, e ela um calçado chamado "rasteirinha". Andamos um bocado. O legal é que a gente começa a peregrinação sem saber exatamente o que quer e, à medida em que várias lojas são visitadas, nos tormamos experts naquilo que queremos. Cor, modelo, preço, detalhes enfim.

Mas é impressionante como tem pessoas despreparadas para o atendimento ao público. O pior foi quando estivemos numa loja da Avenida Vicente Machado. Tínhamos acabado de entrar, e olhávamos a vitrine, onde havia uma variedade de calçados, entre eles as tais rasteirinhas.

Nem bem tínhamos visto o que havia na vitrine, uma funcionária se intromete: "Posso ajudar?" Enquanto a Pri ainda olhava os calçados, resolvi dar atenção à atendente. E o que se seguiu me deixou muito indignado.

_Vocês têm sandália? - perguntei
_São essas da vitrine. - respondeu indiferente

Olhei para a vitrine, só havia calçados femininos. Voltei para a atendente:
_Sandálias masculinas - disse
_Só temos femininas.

_E vocês têm rasteirinhas? - tornei a perguntar
_Masculinas não. - ela respondeu.
_Femininas. - eu disse
_Só essas que estão na vitrine. - disse a fiadamãe.

Depois disso puxei a Pri para fora da loja, que não entendeu nada e me achou um chato. Talvez com razão. Mas, siga minha lógica...

Adianta uma vendedora oferecer ajuda, se o que tem na vitrine é tudo o que tem na loja? E, se o que tem na vitrine é o que tem na loja, por que ela não explica as características dos produtos em exposição? Qual é mais confortável? Qual é lançamento? Qual combina mais com o (a) cliente?

Se era pra eu ficar olhando a vitrine, por que vem oferecer ajuda? Tirem a mulher lá da frente, e coloquem um cartaz: "Os produtos desta loja estão todos expostos na vitrine". Pronto, tá resolvido.

O vendedor inexperiente, ou sem conhecimento, precisa no mínimo ter simpatia. É o que penso.

Ah, e compramos sandália e rasteirinha. Em outras lojas.

13 de out. de 2009

De Ponta Grossa a Maringá: uma Odisséia

Semana passada peguei uma gripe danada de forte. Tanto que me acompanha até agora. Pode ser decorrência das mudanças bruscas do clima de Ponta Grossa. Mas também pode ter sido consequência do banho frio na Cachoeira da Mariquinha, da ida ao casamento de alguns amigos na noite de sábado. Ou tudo isso junto.

Entretanto, estou mais inclinado a acreditar que a viagem da última quinta-feira tirou boa parte de minhas energias, e tornou mais forte o vírus que me proporcionou hoje uma péssima noite de sono, com um pouco de febre, e dores no corpo.

A viagem em questão foi de Ponta Grossa até Maringá, e me fez encontrar uma verdadeira Odisséia. Fui até lá determinado a receber o prêmio conferido pela Seti – Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – a uma reportagem que fiz em 2008. Na realidade, trata-se do 3º Encontro de Ciência e Tecnologia, que aconteceu de quarta-feira até a sexta. A cerimônia de premiação seria apenas um dos momentos do Encontro.

Gostaria de ter ido até lá não apenas para receber o prêmio, mas também para ver algumas palestras, dentre as quais uma era voltada para o jornalismo científico. Mas foi tudo muito rápido, desde que fiquei sabendo da premiação.

Depois que soube que o prêmio tinha uma nova categoria (jornalismo científico), enviei a reportagem no último dia de inscrição. Na semana seguinte meu nome já tinha sido divulgado como vencedor da categoria. E, lá no jornal, foi preciso buscar alguém que ficasse em meu lugar atualizando o site de notícias, enquanto eu viajava.

Inicialmente, a ideia era viajar ainda na quarta-feira, já que o ônibus da Universidade Estadual de Ponta Grossa levaria uma galera até o evento. Mas o rapaz que iria me substituir não veio na segunda-feira. Como eu ainda teria que dar treinamento ao indivíduo [não é bem assim para chegar e mexer no sistema de cadastro de notícias; tem uma série de detalhes], logo vi que a viagem não aconteceria. Na terça-feira, mais uma vez, não encontramos quem pudesse ficar no meu lugar.

Então, já tinha dado como certa minha permanência em Ponta Grossa, e o recebimento do diploma de vencedor via correio. Mas, na quarta-feira, fui informado que o Wagner, funcionário da KM&M Engenharia, empresa desenvolvedora do site do Jornal da Manhã, ficaria em meu lugar e que eu viajaria no dia seguinte.

Na noite de quarta-feira comecei a arrumar as malas, mas os custos da viagem, agora, corriam por minha conta, pois já tinha perdido o ônibus da UEPG. De qualquer forma, eu estava muito animado com a premiação.

Assim, na manhã de quinta-feira, segui num ônibus da Viação Garcia, rumo a Maringá. Só que o ônibus parava em uma dezena de rodoviárias. Foi uma das viagens mais longas que já fiz. Acho que perde apenas para a viagem que fiz com o metropolitano de Castro a Ponta Grossa, que é viagem curta, mas, na ocasião, um bêbado sentou ao meu lado, fedendo pra caramba, e não parou de falar um instante sequer.

Durante a viagem até Maringá, passando por lugares como Califórnia, Mauá da Serra, Apucarana, Cambira, Marilândia do Sul, troquei mensagens via celular com o professor Wladimir, meu amigo que já estava no evento. Ele tinha se hospedado no mesmo hotel para o qual eu iria. Sendo assim, me passou a seguinte instrução:

“Diz ao motorista pra te deixar na entrada ou na saída da rotatória Sarandi/Maringá. O hotel está numa rua paralela à via em que você desce.”

Segundo ele, era muito mais prático do que ir até a rodoviária. Expliquei isso detalhadamente ao motorista. Fui até um pouco chato, falando por três vezes o local onde eu iria descer. É que eu tinha a desagradável sensação que ele não tinha entendido o que eu falava.

Passando a rotatória, ele parou, e desci. Olhei ao redor, nem sinal do hotel, que o professor disse ser visível desde a rodovia. Parei numa locadora de vídeos e perguntei como se chegava ao Hotel GAPH. Fui informado que ficava umas oito quadras adiante. Então, pra quem ficou quase seis horas sentado na poltrona de um ônibus, caminhar até que seria bom.

Foi assim que conheci a pequena cidade de Sarandi, vizinha de Maringá. Segui por alguns minutos a rua ao lado da rodovia, até que cheguei a uma [outra] rotatória. À minha direita, a um quarteirão, era possível ver a placa do Hotel GAPH. De fato, o motorista tinha me deixado na rotatória errada.

Dali foi fácil. Bastou seguir a grande placa do hotel, e eu logo estava diante do prédio em reformas. No saguão, a recepcionista disse: “É você quem vai receber o prêmio de Ciência e Tecnologia, não é? Tá vendo como sabemos tudo a seu respeito?”, riu. Logo depois foi desmentida, quando o outro funcionário, ou dono do hotel [não sei ao certo], me perguntou: “Mas, o que foi mesmo que você inventou?”

***

O quarto 224 estava reservado para mim, mas havia dois acadêmicos que tinham chegado primeiro. Parece que estava uma pequena confusão entre os hotéis, com os participantes do evento trocando de estabelecimento com frequência. Alexandre e Fabrício [eram seus nomes], vieram de Londrina, mas estavam de saída quando cheguei. Tinham conseguido uma carona e pretendiam voltar mais cedo pra casa.

“Já sabe onde fica o local do evento?”, perguntou um deles.
“Não”, respondi, ainda lembrando como havia me perdido para achar o hotel.
“A gente já tá saindo, daqui a uns quarenta minutos. Só vamos tomar um banho primeiro. Se quiser vir junto, a gente mostra onde fica”, disseram.

Eu estava cansado da viagem. Tinha até cogitado a possibilidade de tomar um banho e cochilar por uma hora antes de ir ao evento. Afinal, ainda eram umas 17 horas. A cerimônia de premiação seria somente às 20 horas. Mas com guias até o local do evento seria bem mais fácil. Então, terminei aceitando sair mais cedo. Apenas tomei um banho, e seguimos até o Centro de Exposições, onde acontecia o Encontro. Eram cerca de vinte minutos de caminhada desde o hotel até o local do evento.

No caminho, eles quiseram saber mais sobre a reportagem que eu havia escrito. E falamos um pouco sobre jornalismo. O breve diálogo abordou a interferência dos anunciantes nas reportagens dos jornais, tratou ainda da função dos jornalistas em suas respectivas editorias, e me fez ver que, falar de jornalismo com quem não é jornalista, pode ser muito mais interessante do que fazer o mesmo com colegas que são da área.

Quando chegávamos ao Centro de Exposições, onde o Encontro de Ciência e Tecnologia estava acontecendo, Fabrício mostrou que a rodoviária de Maringá não ficava longe dali. “Tá vendo o supermercado Big? É só contornar o mercado, e seguir em frente. É meio longe”.

Entramos no grande galpão, onde um palestrante ainda falava ao microfone. Havia estandes das instituições de ensino, e um movimento um pouco menor do que eu imaginava encontrar. Mesmo assim, estudantes, professores, pesquisadores e organizadores do evento estavam em toda parte, desfilando com seus crachás de papelão.

Agradeci ao Alexandre e ao Fabrício por me levarem até lá, nos despedimos, e fui procurar alguém que me orientasse sobre como deveria proceder na hora de receber o prêmio. Ao fundo do galpão, havia uma secretaria improvisada. Expliquei a situação a uma das funcionárias, que não sabia me informar direito como seria a premiação. Mas disse que bastaria perguntar a uma organizadora do evento.

Fomos até a tal organizadora, que conversava com outros funcionários a respeito da cerimônia de premiação. “Ele é um dos que vai receber o prêmio...”, disse a funcionária para a organizadora, enquanto apontava para mim. “Ah, é? Então venha cá, porque a cerimônia vai começar agora!”, disse a mulher.

“Agora? Como assim?”, perguntei, olhando para o relógio. Eram pouco mais de 18 horas. “Mas está marcado para as 20 horas!”
“Foi adiantado.”, respondeu a organizadora. “Você não ouviu os avisos? Estão falando no microfone há um tempão!”

Enquanto ela me conduzia até perto do palco onde seria entregue a premiação, expliquei que tinha acabado de chegar, e que tinha vindo mais cedo por puro acaso.
“Qual é mesmo o seu nome?”, eu perguntei à organizadora.
“Odisséia.”, ela me respondeu.

Um breve filme passou em minha cabeça.
Sim, nada mais apropriado para aquele momento, após tanta correria e coisas ficando para a última hora. Eu tinha, mesmo, encontrado uma Odisséia.

Lembrei de quando fiz a reportagem, em 2008, que acabou sendo publicada um dia depois do previsto, devido a uma falha no envio do arquivo para a gráfica.

Lembrei de como a reportagem foi enviada no último dia de inscrição para o prêmio, e de como quase fui frustrado pela greve dos Correios. Pensei na forma como meu substituto só confirmou presença no último momento no jornal. E da longa viagem de ônibus. De como o motorista me deixou na rotatória errada. De como encontrei o hotel depois de uma caminhada. De como saí do hotel mais cedo, por puro acaso, apenas por aceitar o convite dos acadêmicos que estavam indo até o local do evento.

De como cheguei ao Centro de Exposições justo no instante em que estava para acontecer a premiação, quase duas horas antes do previsto. Entre minha chegada ao local, e a cerimônia de entrega dos diplomas, não deve ter se passado mais que dez minutos.

Ao receber o diploma, eu ainda estava achando tudo surpreendentemente rápido. Ao mesmo tempo em que comemorava a sorte de chegar na hora certa, uma pequena angústia não me deixava esquecer o quanto teria sido frustrante, se eu chegasse ali dez minutos após a cerimônia.

Depois da cerimônia, conversei com minha colega Mayra [espero que esteja correta a grafia do nome], conhecida da UEPG quando eu ainda estava na graduação. Ela comentou que estávamos no mesmo hotel, e que um ônibus ia levar o pessoal para o Hotel GAPH em poucos minutos. Parecia perfeito, eu ia ganhar uma carona merecida, depois daquela correria louca. Mas aí eu mencionei a ela minha intenção de voltar para Ponta Grossa na manhã do dia seguinte, sexta-feira.

“Você vai voltar amanhã? E já comprou passagem?”, perguntou.
“Não.”, respondi.
“Então, é melhor correr... Quando chegar ao hotel, já ligue na rodoviária marcando, porque teve uma professora que queria voltar e já quase não tinha passagens. Parece que tá acontecendo outro evento na cidade”, disse.

Opa... Precisava estar de volta no dia seguinte. O combinado era que eu retornasse na sexta-feira para atualizar o site. Além disso, eu ainda tinha que desenhar minha tira semanal de humor, publicada aos domingos no jornal, e que tinha como prazo final a tarde de sexta-feira.

Que ligar do hotel, que nada! Eu já tinha recebido instruções de onde ficava a rodoviária de Maringá, e lá fui eu em mais uma caminhada [marcha atlética] de outros vinte minutos.

Na fila da Viação Garcia, três sujeitos estavam logo atrás de mim, preocupados se haveria passagens, afinal, na segunda-feira também haveria o feriado nacional de Nossa Senhora Aparecida. Fiquei me perguntando se eles também pretendiam ir até Ponta Grossa.

“Próximo!”, gritou a funcionária do guichê.
“Passagem para Ponta Grossa amanhã de manhã”, eu falei
“Poltrona 40”, ela disse, mostrando em seu computador que todas as outras passagens já tinham sido vendidas.
“Essa mesma!”, respondi com convicção.

No momento em que peguei o bilhete, e a funcionária gritou “próximo”, acelerei o passo, imaginando que o próximo podia ser o sujeito que também tentava comprar passagem para Ponta Grossa. Eu sei que aquela poltrona me colocava ao lado do banheiro do ônibus. Mas, ainda assim, me sentia com sorte.

Na rodoviária comi um X-salada, e depois peguei um táxi [chega de caminhadas] até o hotel, onde encontrei o professor Wladimir, e tivemos uma boa conversa, junto com outros participantes do evento que estavam hospedados no GAPH.

Depois de uma breve noite de sono, a viagem de volta pareceu mais curta que a de ida. Ainda assim, foi longa. Só consegui cochilar quando já estava chegando em PG. E aí eu percebi o quanto estava cansado. Na rodoviária, meu pai e minha namorada aguardavam no salão de espera. Os cumprimentos precisaram ser breves, e fui para casa.

Gostaria de tomar mais um banho, mas não podia esquecer a tirinha para o jornal. Já era cerca de 15h. Eu tinha que estar no jornal lá pelas 16h. Fiz o desenho em tempo recorde, e enviei por e-mail às 16h05.

Me atrasei só um pouco. Ao final, correu tudo bem. Só que jurei pra mim mesmo: vai demorar até que eu queira fazer viagem parecida outra vez. Doze horas de viagem, nesse ritmo, é muita coisa.


6 de out. de 2009

Breve passeio até a “Cachoeira da Mariquinha”

Fez um dia agradável, mais uma vez, nesse domingo. E ali estava um bom motivo para não ficar em casa. Eu e minha namorada resolvemos conhecer um dos principais pontos turísticos da região: a “Cachoeira da Mariquinha”.

Tanque de combustível abastecido, protetor solar no porta-luvas e [ahá!] repelente de mosquito. Lá fomos nós, rumo ao desconhecido. Conhecíamos a direção, mas não a distância. Fica bem adiante da entrada para o Buraco do Padre, onde estivemos há algumas semanas. Um mundo além de Uvaranas, indo rumo a Itaiacoca, passando uma localidade de nome “Passo do Pupo”.

Fica para o leste.

Infelizmente, esse sujeito aqui esqueceu de observar o hodômetro, e por isso desconhece a quilometragem do ponto de origem até o destino. O fato é que não é possível dirigir muito rápido até lá. Na rodovia vai tranquilo, mas quando a gente pega a estrada de terra, surgem três verdades em nossa mente:

1 – Precisamos voltar antes de anoitecer, e torcer para que não chova, ou ficaremos encalhados aqui e teremos que sair em busca de um jipe ou trator.

2 – Com todas essas pedras, certeza que vai aparecer mais um risco na lataria do carro.

3 – Já que tamo, agora vamo! [ou, “se não aguenta, por que veio?”]

O rally até o local é animado. Mas é naquele estilo que importa mais chegar aos pontos pré-determinados no mapa, do que chegar antes de todo mundo. Não tínhamos mapa, e isso prejudicava um pouco. Especialmente quando encontramos o primeiro portão fechado, e nos perguntamos: será que é por aqui?

Desci para abrir o portão, que a Pri achou estar com cadeado, e felizmente não estava. Havia mais um pessoal vindo de carro logo atrás de nós, e perguntei ao motorista se ele já tinha vindo antes até a cachoeira. Foi ele quem me confirmou que estávamos no caminho certo.

Abri o portão, e passamos. O sujeito que vinha atrás parou o carro e fechou o portão. Algumas inscrições feitas a tinta no próprio portão deixam claro que é preciso manter os portões fechados.
Pouco tempo depois, novo portão. E um aviso: “A entrada custa R$ 4,00 por pessoa”. Mas nenhum ser humano para cobrar os oito reais. Passamos, e seguimos por uma estrada que parecia piorar a cada instante. Um solo às vezes arenoso, outras vezes barrento e liso, e na maior parte do trajeto poeirento.

Enfim, quase uma hora depois de nossa “largada”, chegamos ao local. Uma torneira para lavar as mãos e dois banheiros [ou “casinhas”, como preferir] para aliviar a bexiga... não necessariamente nessa ordem.

O carro ficou estacionado junto de outros (uns dez) que já estavam por lá. E seguimos pela trilha que iniciava logo ao lado. Antes de seguir o caminho a pé, é preciso atravessar as águas rasas e geladas do riacho que separa “estacionamento” e trilha. Isso dá uma ideia da temperatura das águas da cachoeira.

Recomendo ir com um tênis velho que você possa molhar e sujar à vontade. Fomos usando chinelos havainas e, depois de passar pelo riacho, os chinelos ficaram lisos, prejudicando a caminhada entre as rochas da trilha.

Há formações rochosas em volta, onde os visitantes gostam de tirar fotos. A trilha é de cerca de 800 metros, com altos e baixos. Ao final se ouve o som da cachoeira, onde já estão os outros turistas. Uns entram na água de roupa e tudo, outros levam roupa de banho, e os mais perdidos entram de cueca mesmo.

Demos uma olhada em volta, fazendo o reconhecimento, e fomos entrando na água gelada. Há pontos muito fundos, por isso é preciso caminhar devagar, e observar com cautela a profundidade. Contornando a cachoeira pelos locais mais rasos, e subindo devagar nas rochas muito lisas, é possível chegar até a queda d’água. Depois disso, ficamos com frio e nos preparamos para ir embora. Tínhamos ido mais para conhecer o lugar, do que ficar muito tempo por lá. Enfim...

Há uma pequena faixa de areia em torno do lago que se forma com as águas da cachoeira. A sugestão é ir no começo da tarde e fazer um lanche por ali [tomando o cuidado de não deixar lixo para trás], para somente mais tarde entrar na água.

Há quem prefira acampar. Acho que é possível, embora existam placas contraditórias, umas proibindo o acampamento, e outras cobrando pelo acampamento.

Aliás, na saída apareceu um pessoal para nos cobrar os quatro reais por pessoa. Mas suspeito que eram alguns turistas espertinhos que se fingiram de donos do lugar e levaram meus oito mangos... Acontece.

Fica a dica: Cachoeira da Mariquinha. Seguindo pela Avenida Carlos Cavalcanti toda vida, até pegar a rodovia. Segue em frente até ver uma entrada de chão de terra à direita. Tem uma placa nessa entrada, mas ela está meio escondida pela vegetação, então reduza a velocidade sempre que vir uma entrada à direita. E dirija devagar... curta o rally. Evitando dias de chuva.

5 de out. de 2009

Incentivo para uma melhor reportagem

Coisa legal me aconteceu semana passada. Uma reportagem que fiz no ano passado foi contemplada no 23º Prêmio Paranaense de Ciência e Tecnologia na categoria Jornalismo Científico. Uma matéria sobre a pesquisa com maçãs, que é desenvolvida há mais de vinte anos pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Foi uma das reportagens que mais gostei de fazer até hoje, por isso a inscrevi no prêmio. Acabou sendo a escolhida para o primeiro lugar, e isso me deixou mais animado do que quando passei no vestibular.

Normalmente, não sou de ficar me vangloriando quando algo assim acontece. Mas, dessa vez, vi no prêmio o reconhecimento de um trabalho que eu sabia que era bom. E recebi com alegria o cumprimento de amigos e colegas. Fiquei cheio de orgulho.

Até que, no final da semana, veio visitar o Jornal da Manhã o jornalista Eduardo Ribeiro – da Rede Record. Ele se graduou pela UEPG, e é considerado, provavelmente, o jornalista de maior sucesso dentre os que obtiveram diploma por essas bandas. Veio a PG dar palestra na faculdade Secal durante a Semana de Debates sobre Jornalismo.

Conheceu as instalações do jornal, cumprimentou os jornalistas na redação. E, quando estava indo embora, apareceu à porta da sala da diagramação, cumprimentou todos e me viu no canto, diante do monitor. “Vi você na capa do jornal...”, ele disse, se referindo à matéria que informava sobre o prêmio que eu tinha conquistado. “Uma foto grande...”, continuou. “É a ampliação da realidade.”, concluiu. Logo depois se despediu e foi embora.

E aquelas palavras breves, e sem nenhuma ofensa ou ironia perceptível, me fizeram pensar a respeito. Talvez não seja um prêmio tão grande assim. Uma reportagem premiada a nível estadual... mas quantos a leram, e quantos a lerão ainda?

A premiação tem mais valor para mim, do que para os leitores ou mesmo para o jornal no qual a matéria foi publicada. E, depois disso, o título do prêmio vai para meu currículo, e prêmio e reportagem voltam a ser esquecidos pela maioria das pessoas.

Enfim, isso não diminui minha satisfação ao perceber o reconhecimento que vem com o prêmio. Mas me faz pensar: é preciso fazer outras reportagens e trabalhos passíveis de receberem reconhecimento igual ou maior. Essa foi apenas uma das matérias que já escrevi, e outras virão ainda.

Que esse prêmio seja um lembrete para que eu não fique acomodado, mas busque fazer mais e melhor, e para que uma nova eventual premiação não seja mera ampliação da realidade.

Leia a matéria, publicada no antigo site do Jornal da Manhã: “Pesquisadores da UEPG buscam extrair o melhor das maçãs”

1 de out. de 2009

A greve dos correios não me afetou

Comprei um livro pela internet. Na verdade, não é a primeira vez que faço isso. Cada vez mais me impressiono com a agilidade da internet. A última viagem que fiz para Morretes (o que inclui passeio de trem e reservas em hotéis) foi toda programada pela internet. Passei a gostar ainda mais da ferramenta depois disso.

Mas, voltando... a compra de livros pela internet também tem se mostrado interessante. Existe um site, o www.estantevirtual.com.br, que reúne os principais vendedores de livros (novos ou usados) do país. Ali você encontra os livros que quer comprar, escolhe o melhor preço, e verifica a confiabilidade do vendedor. O pagamento é feito através de cartão ou depósito em conta. Devo ter encomendado meia-dúzia de livros assim, e até agora nenhum deu problema.

O que comprei por último foi “A ilha roubada”, do jornalista Sandro Vaia. Fala de uma blogueira que vem dando o que falar, ao publicar em seu espaço na internet informações sobre um dos países mais fechados do mundo. No blog, ela narra o que se passa no cotidiano dos habitantes da ilha de Cuba.

Só que eu resolvi encomendar o livro justo nesse período de greve dos Correios. E fui avisado pelo vendedor que a entrega podia demorar um pouco mais. Bem, existe um link através do qual é possível acompanhar o trajeto do pacote, desde sua postagem até a entrega em minha casa. E anteontem resolvi olhar onde estava a tal encomenda. Para minha surpresa, o link informava que o pacote já tinha sido entregue!

Será que eu havia sido passado para trás? Entregaram no endereço errado? O carteiro ficou com meu livro? [fiadamãe!]

Estava determinado a ir até a agência de correios mais próxima e investigar o que havia acontecido. Mas hoje, na hora do almoço, ouvi alguém chamando no portão de casa. Era minha vizinha, Kauana. Em suas mãos estava o pacote. O carteiro veio fazer a entrega justo num momento em que não havia ninguém em casa [ah... Lei de Murphy...]. E ela tomou a liberdade de guardar a correspondência para mim.

Ainda bem que ela é uma vizinha legal. Se fosse uma pessoa ruim, do tipo que fura a bola da criançada quando cai no quintal... podia tacar fogo no meu livro! Vamos acreditar que o carteiro percebeu suas boas intenções, ao deixar o pacote com ela.

Enfim, lerei o livro em algum momento. Há alguns outros na lista de espera, incluindo velhas apostilas de cursinho, que estou tentando ler para a prova do Enem, que seria neste fim de semana, mas foi adiada depois que as questões da prova vazaram. Acontece... com mais frequência do que deveria... mas acontece.

30 de set. de 2009

Pensando o jornalismo...

Na noite dessa terça-feira (29) participei de um debate sobre jornalismo on-line. Foi durante o evento da Semana de Jornalismo, promovida pela Faculdade Santa Amélia Secal. Estava com um pouco de receio, pois era minha estreia em um evento assim na posição de debatedor. Mas foi mais tranquilo do que eu imaginava. Não tenho muito boa retórica, mas falei apenas o que sabia, e até um pouco demais. Só me atrapalhei mesmo com a porta na hora de entrar e na hora de sair (quase dei de cara com a janela de vidro do ginásio do Colégio Sepam).

Só devo ter silenciado nas falas de vez em quando, quando esquecia a linha de raciocínio que estava seguindo. Acho que isso é um pouco consequência do trabalho diário com internet. Às vezes penso em forma de link, e não mais de modo linear como narrativa. E você deve saber como isso funciona. Você clica em um link, e daquele parte para outro, e para outro. E, nesse ponto, já esqueceu qual era o endereço do primeiro link. Razão pela qual é cada vez mais comum alguém dizer que viu um vídeo, texto ou foto, mas não lembra onde foi.

Enfim, o Sebastião Natálio, da RPC TV Esplanada, estava lá também, e contou algo sobre sua experiência com o site de notícias Convoy, que existiu aqui na cidade de Ponta Grossa há alguns anos. Enquanto eu citei, rapidamente, a existência do site SuperOW, no qual trabalhei por cinco meses entre 2006 e 2007.

Chegamos à conclusão de que o armazenamento de informações em sites de notícias é muito bom porque facilita a busca posterior do que foi produzido. Por outro lado, basta o site deixar de existir para que tudo se perca. Diferente de um jornal impresso que, se fechar as portas hoje, ainda terá exemplares antigos circulando por aí, em bibliotecas ou arquivos particulares e públicos.

Ninguém guarda os sites. Por essa razão, Convoy e SuperOW não passam hoje de lembranças, sem registro na internet, pois o domínio se perdeu, e com ele quase tudo o que foi feito em cinco meses de trabalho intenso. São boas lembranças no meu caso.
Apesar de o site SuperOW quase não ter ficado conhecido (a imagem que ilustra esse texto é uma montagem... o outdoor foi só uma ideia nunca colocada em prática), foi o trabalho em que tive maior liberdade para escolha de pautas, produção de textos, e onde pude me considerar um repórter mais multitarefa. Escolhia pauta, fazia entrevista, tirava fotos, editava e publicava o próprio texto com a rapidez que sempre desejei encontrar no jornalismo.

Enfim, ontem foi uma noite para relembrar essas coisas, e perceber que meu colega Sebastião teve experiências muito parecidas. Uma das reportagens que ele citou, e que mais gostou de fazer para a Convoy, foi realizada por pura paixão pelo jornalismo. Numa viagem de poucos recursos financeiros, mas com vontade de trazer informação nova e que desse ao internauta vontade de ler.

Na cidade o jornalismo on-line ainda engatinha*, apesar de a internet não ser nenhuma novidade. Mas acredito que bastaria que surgisse um portal na internet com noticias de última hora para que outros veículos de comunicação local seguissem o mesmo ritmo. Por enquanto, não há concorrência. As notícias chegam ao mesmo tempo nos dois jornais impressos da cidade.

A vantagem de eventos como o de ontem à noite é que, além de oferecem aos estudantes um pouco de nossas experiências, também fazem com que nós mesmos relembremos essas coisas. E relembremos, também, um pouco do que somos e esperamos do jornalismo.

*Confira o melhor exemplo de jornalismo on-line em Ponta Grossa, no momento. O site Net Esporte Clube traz notícias esportivas constantemente. O layout é simples, mas a equipe de repórteres tenta manter a atualização com, no mínimo, uma notícia por hora. Vale a pena conhecer.