13 de mar. de 2013
Ataque de animal
O ano 2013 tem sido o ano do ineditismo e da singularidade. Desde o dia 1º de janeiro, parece não passar sequer um dia, sem que algo extremamente novo, bizarro ou improvável aconteça. Isso ocorre em todos os níveis: do local ao universal, do coletivo ao pessoal.
Ponta Grossa viu, e compartilhou com outros países, inclusive, o surgimento do banheiro transparente no recém-inaugurado Centro da Música. Antes disso, o País ficou bobo, e a cidade parece não ter se recuperado até hoje, da história da vereadora que sequestrou a si mesma, criando o verbo ainda inexistente “autossequestrar”.
No mundo, um meteorito caiu na Rússia e feriu mais de mil pessoas, justamente à época em que um asteroide passava, mais perto do que nunca, da Terra. Pouco depois, o Papa Bento XVI surpreendeu a todos, renunciando ao cargo máximo da Igreja Católica, e quebrando uma tradição que se insistiu para que não fosse anulada na época do anterior Papa João Paulo II.
No Brasil, crimes que, há anos, aguardavam julgamento, vieram em enxurrada aos tribunais. Gil Rugai, acusado de matar os pais; o goleiro Bruno, acusado de matar a ex-amante; Mizael Bispo, acusado de matar a ex-namorada. Este último, marca história sendo o primeiro julgamento brasileiro transmitido ao vivo pela televisão e pela internet.
Outros fatos menores, alguns deles de importância apenas pessoal, não são registrados. Mas, veja, ontem estive na Vila Madureira para fazer reportagem sobre uma cratera que está engolindo uma rua inteira. No carro do jornal estávamos eu, o motorista China, o fotógrafo Clebert e o repórter Michael. Antes de irmos ao local da cratera, fomos em outro endereço, não muito longe daquele, para verificar um “ataque de animal”. Esse é o termo genérico que os bombeiros dão, normalmente, a um ataque de cachorro contra uma pessoa.
Não havia ninguém no tal endereço e, então, seguimos até o endereço de minha pauta. A cratera era enorme, e já tomava metade da rua. A prefeitura havia feito barreiras de concreto para evitar a passagem de veículos pelo local, postergando, assim, o aumento da erosão.
Enquanto Clebert fazia as fotos do local, eu procurava algum morador local que pudesse falar comigo sobre o problema. O chamado “personagem” não apareceu. Em todas as casas, as portas, vidros, cortinas e cadeados estavam fechados. Bati palmas, sem ser atendido. Quando fui fazer a tentativa diante de uma funilaria, onde havia apenas um rapaz trabalhando, um cachorro branco rosnou para mim.
Não liguei para o fato porque, em toda minha vida, sempre acreditei (e sempre funcionou) que se ignorasse o animal, ele não atacaria. Pelo menos, no meio da rua, como era o caso. Mas, e não é que o cão me ataca e morde a minha perna? Pois e mordeu, mesmo!
Devo ter dito algo como “não acredito que esse cachorro me mordeu!”. Enquanto o Clebert ria, de longe, o cachorro parecia meio encabulado. Porque eu estava com minha calça jeans mais grossa, e os dentes não conseguiram chegar até minha perna. Apenas deixaram uma marca bem definida do jeans. Enquanto eu me recuperava do sentimento de incredulidade com o acontecimento, o rapaz saiu da funilaria e, ainda por cima, não quis dar entrevista.
Voltei para o carro ouvindo piadas de que, eu só tinha sido mordido por um cão, porque o Michael veio junto justamente para fazer a tal reportagem do “ataque de animal”. Para mim, foi apenas a primeira vez que fui mordido por um cachorro desconhecido, no meio da rua. Mas, já aviso... daqui pra frente estarei mais esperto, e o próximo vai levar bicuda!
27 de jan. de 2013
Passeio por São Luiz do Purunã
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| Mais uma aventura em local desconhecido |
Passado esse momento de euforia, seguimos a placa e estacionamos no portal de entrada de São Luiz. Algumas placas fazem alusão ao local como antiga passagem de tropeiros. Vimos um mirante. Mas, o mapa pareceu um pouco confuso, além de parcialmente desbotado pela ação do tempo. Do mirante, a visão é de muito verde, mas poucas edificações. Isso porque São Luiz do Purunã é lugar formado por diversas localidades, ligadas por estradas entre si, mas com largos espaços vazios, como costumava ser em antigas freguesias.
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| Vista do mirante na entrada de São Luiz do Purunã |
Do mirante, o que mais me surpreendeu foi o cheiro de mel. Seguimos a estrada inicial de calçamento e chegamos ao vilarejo. Uma lanchonete, alguns pontos de comércio, a maior parte relacionada com a atividade agropecuária. Seguimos por uma das estradas, vendo moradores locais e admirando as residências, algumas de muito bela arquitetura, contrastando com a simplicidade do ambiente.
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| Belas araucárias marcam o caminho |
A estrada foi piorando, o calçamento deu lugar à terra, a terra deu lugar à poeira, e a poeira deu lugar às pedras e buracos. Depois de chegarmos ao tope de uma subida, sem notarmos nenhum destino especial, retornamos pelo mesmo caminho, de volta à entrada do vilarejo, e optamos por seguir outra estrada. Chegamos a uma placa com diversas indicações de pousadas, restaurante, café colonial, chocolate artesanal. Mas, boa parte dessas atrações era indicada como se estivesse para trás, do ponto de onde tínhamos acabado de vir. Não tínhamos visto, anteriormente, qualquer indicativo desses atrativos, ou teríamos parado.
A estrada foi, também, piorando a qualidade, e foram surgindo buracos e valetas, momento em que agradeci a Deus pelo tempo seco deste domingo. Passamos por outra pousada, onde não se via viva alma, e todas as portas e janelas estavam fechadas. Em frente, uma grande faixa dizia: "Estamos atendendo". Passamos por ela, e continuamos procurando o tal restaurante, até que, sem nenhuma placa indicativa de distância ou direção, e tendo a impressão de que todos os estabelecimentos comerciais ali estavam fechados, optamos por ir embora.
Decidimos voltar rumo a Palmeira, e almoçar no Restaurante e Lanchonete Girassol, lugar famoso à beira da rodovia. Mas apreciamos muito a paisagem de São Luiz do Purunã, lamentando apenas a falta de mais placas que orientem os visitantes, uma vez que os atrativos estão bem espalhados pelo lugarejo. Na memória ficaram as belas casas, as velhas araucárias, os bois pastando no alto de morros, e o cheiro de mel logo à entrada.
31 de dez. de 2012
O Armazém de 1925
Partimos. A rodovia é de boa qualidade, embora sem acostamento. Depois que passamos a área conhecida como Passo do Pupo, um vilarejo delimitado por uma igreja e algumas mercearias, seguimos adiante em busca de uma placa que nos orientasse. Como não encontramos, continuamos indo em frente.
Descobrimos estradas bastante sinuosas adiante. Lembrou um pouco a Estrada da Graciosa, que leva a Morretes. Muito bonito o trajeto, e não dá pra correr muito, porque são muitas curvas em uma rodovia estreita. Sem nenhuma placa, passamos por um local que nos pareceu oficina ou ferro velho. A Pri sugeriu que eu parasse para pedir informação.
Como estávamos com tempo, optei por ir um pouco mais longe antes de admitir que tínhamos nos perdido. Poucos quilômetros à frente, no entanto, parei numa entrada para estrada de terra, que levava a uma cachoeira ou algo assim. Mas não eram as Furnas Gêmeas. O site da prefeitura não dizia que devíamos ir tão longe.
Um automóvel passava por nós e fiz sinal para que parasse. O motorista reduziu e freou. Perguntei a ele sobre as Furnas Gêmeas. Ele disse nunca ter ouvido falar. Agradeci, e retornamos.
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| Um misterioso Armazém, datado de 1925, estava no trajeto... |
Sentado no assoalho, à porta de entrada, estava um homem magro, de cabelos curtos escuros, fumando um cigarro, e aparentando a calma típica de quem vive praticamente isola (as casas ali ficam muito distantes umas das outras). Quando estacionei e fui em sua direção, ele se levantou.
"Boa tarde!", falei
"Boa tarde", respondeu.
"Estou procurando as Furnas Gêmeas. Sabe onde fica?"
Mas ele não ouviu minha pergunta, pois um cachorro preso ao lado da casa latiu ferozmente. O homem berrou para que o cão ficasse quieto. E pediu para eu repetir a pergunta, enquanto se aproximava.
"Sabe onde ficam as Furnas Gêmeas?"
"Furnas Gêmeas?", repetiu ele, olhando para o chão, como se consultasse na mente uma lista de lugares que conhecia. "Olha... eu moro aqui há vários anos, e nunca ouvi falar. Mas quem te disse que tem esse lugar por aqui?"
"Eu vi no site da prefeitura de Ponta Grossa" - e por um instante, sem desdenhar a inteligência do cidadão, mas apenas considerando a aparência simples na qual vivia, achei que ele não sabia o que era um site.
"Mas fica perto de onde?", perguntou.
"Depois do Passo do Pupo".
"Ah, Passo do Pupo eu conheço... deve ser ali perto, então. Mas volte, e pergunte ali na igrejinha", sugeriu.
"Tá bom, obrigado."
Eu já voltava para o carro quando me detive um instante, reparando mais uma vez em algo que tinha percebido já quando chegara. No alto do casarão, em sua fachada, letras graúdas diziam "ARMAZÉM", e o número "1925" anunciava a data de construção, como acontece em muitas construções antigas.
"Aqui é residência ou é um armazém?", perguntei.
"Ah, é residência... foi armazém há muito tempo..."
"E o senhor era o dono?"
"Não..." - ele riu um pouco, talvez pela pergunta um pouco idiota, já que o homem não tinha idade para ter estado ali em 1925. Depois completou: "O dono tá ali..."
Dizendo isso, apontou com a cabeça para a caminhonete velha, e continuou sorrindo.
Sorri também, mesmo sem ter entendido. Ali não havia ninguém... Estaria ele vendo alguém que eu não via?
Quando a conversa com um estranho fica insólita demais, é hora de ir embora.
Entrei no carro, onde um cachorro parecia querer impedir a Pri de sair. Acabamos encontrando a estrada para as Furnas Gêmeas, bem perto do Passo do Pupo. Não chegamos até lá porque a estrada era muito ruim. Mas, fiquei pensando no Armazém de 1925, e me perguntando onde estaria o dono.
21 de nov. de 2012
O fascínio dos velhos livros
16 de out. de 2012
Meu passado vem ao meu encontro
De fato, eu próprio não sabia direito. Nunca tinha feito uso daquela palavra. Mas o desenho ao lado, um sanduíche e um copo de refrigerante, me fizeram ter a certeza de que o mezanino era apenas a parte superior da mesma praça de alimentação naquele shopping onde almoçávamos.
- Vamos até lá. Nunca vimos como é aquele lugar. - eu disse.
Deixamos sobre a mesa os pratos com o que restou de nosso almoço, e subimos as escadas. Ali, meia-dúzia de pessoas usavam seus notebooks e acessavam a internet wireless. O ambiente era pouco iluminado e não tinha qualquer loja ou lanchonete.
- Não tem muita coisa aqui, afinal - eu disse, enquanto a Pri concordava. - Vamos embora. - emendei
Eu já ia descer as escadas quando a Pri me segurou:
- Olha lá um Danilinho! É o seu clone - ela disse.
Ao olhar para a parte mais longínqua do espaço, de costas, estava um sujeito lendo alguns livros e papéis. E a semelhança era extraordinária. Se eu não fosse eu, provavelmente acharia que eu era ele.
O cabelo loiro, na mesma tonalidade e um pouco encaracolado, a escolha da mesa e os gestos enquanto pesquisava os papéis, e até a camisa...
Olhei para minha camisa, e notei que ele usava uma quase igual à minha. Apenas um pouco mais clara... igualzinha a uma que eu ainda tenho, mas que hoje já está desgastada pelo tempo.
- Vamos nos aproximar. - eu disse, na certeza que a farsa seria desfeita.
No entanto, à medida que chegávamos mais perto, eu o achava ainda mais parecido comigo. Tive um ataque de riso, ainda que discreto. Claro que não era eu, mas a semelhança assombrosa causou até uma certa emoção.
A Pri olhava para mim sorrindo, adivinhando a sensação estranha que eu experimentava. Quando minha distância do clone tinha sido reduzida à metade da inicial, parei. Fiquei junto ao parapeito que permitia olhar para o restante da praça de alimentação. Por um instante, evitei olhar para o sujeito.
- Não vou pra mais perto. - eu disse.
Dali eu ainda pude ver que ele não tinha barba, nem usava óculos. Era como se fosse eu em 2004, quando ainda não tinha diagnosticado minha miopia, quando fazia questão de fazer a barba toda, quando a camisa era nova e eu me concentrava nas pesquisas da universidade. Era como se o Danilo de oito anos atrás estivesse ali, diante de mim. A poucos passos.
A partir dali, deixamos o mezanino. Das duas, uma: ou ele seria muito parecido mesmo comigo, ou seria diferente. Em qualquer uma das duas situações, o encontro seria assustador.
Deixamos o shopping rindo da situação. Mas fiquei pensando... Meu passado, naquele dia, veio me encontrar. E fez isso sem que eu o procurasse.
9 de out. de 2012
Saudades da amiga Márcia
Enquanto uns faziam festa no domingo, dia 7, durante a contagem de votos para as eleições municipais, outros lamentavam a derrota. Mas coisa pior do que perder uma eleição ou ver seu candidato não ser eleito, é saber que uma pessoa conhecida já não está entre nós.
Faleceu ontem Márcia Sielski, que por muitos anos esteve à frente dos projetos culturais do SESC em Ponta Grossa e de outros movimentos culturais independentes. Incontáveis artistas e aspirantes a artistas receberam dela o incentivo para iniciar ou para prosseguir com seus trabalhos, e eu fui um dos que ela apoiou.
Quando eu ainda estava na universidade, e rabiscava de vez em quando, foi Márcia quem permitiu que se instalasse no SESC minha primeira exposição de charges e cartuns. Na época, meus traços não eram nem metade do que são hoje. Mas Márcia insistia em me chamar de artista, como fez sempre.
Anos depois, quando eu já estava trabalhando no Jornal da Manhã, entrei em contato com ela demonstrando a intenção de fazer uma nova exposição, apresentando a evolução de meu trabalho. Ela aceitou de imediato, e organizou muito daquilo que eu necessitava para a mostra, com direito a coquetel de abertura e convites para o evento.
Fora isso, ela sempre foi uma pessoa aparentemente tranquila e agradável no tratamento comigo e com a maioria daqueles com quem converso. Conheci Márcia Sielski muito pouco, mas o suficiente para criar a imagem de uma pessoa que deixa saudades, por saber que os encontros casuais com ela, seguidos de cumprimentos simpáticos nas ruas da cidade, não mais acontecerão. Ficam boas lembranças, e as amizades em comum que ela iniciou ou fortaleceu.
5 de out. de 2012
A quantidade leva à qualidade
- Deve ser difícil encontrar boas ideias para fazer suas tirinhas, diariamente. – comentou Emerson, em tom de pergunta.
Emerson é o proprietário de uma bela pousada em Piraí do Sul. Um casarão grande e bem equipado (com vários quartos, uma sala grande e uma cozinha com fogão à lenha) cercada por extensos campos encharcados pelas vertentes que formam rios e córregos.
Naquele momento, ele nos guiava (eu e minha esposa, Priscila), por aqueles campos sempre úmidos. Eu procurava me concentrar em pisar nas rochas, para não afundar o pé em algum buraco repleto de água. Mas deixei um pouco da concentração de lado, para responder ao comentário.
- Na verdade, não é tão difícil ter ideias. O difícil é encontrar tempo para transformá-las em desenho. Mas, realmente, nem sempre são tiras engraçadas. Às vezes eu acho graça, mas sou o único. Em outras ocasiões, eu não vejo graça alguma, e os outros gostam. Mas estou tentando fazer uma tirinha por dia porque acho que é tudo uma questão de prática. Quantidade não quer dizer qualidade, mas pode levar à qualidade – disse.
De fato, no início deste ano, enquanto elaborava a história em quadrinhos ‘Catraca: entrando numa roubada’, percebia que o traço melhorava a cada nova página que eu desenhava (em breve publicada através da Prefeitura de Ponta Grossa). Tanto que, chegando ao final da HQ, tive o desejo de refazer as primeiras páginas, algo impossível em face do prazo de entrega para o concurso.
De lá pra cá, lancei o novo site, e me esforcei para cumprir a proposta que fiz a mim mesmo, de criar uma tirinha por dia. O resultado tem sido interessante. Embora seja cansativo dormir menos para desenhar mais, também sinto uma satisfação muito grande.
Ampliei o rol de personagens. Mantive a produção da tirinha semanal do Catraca (às vezes até fiz mais que uma por semana), mas desenvolvi melhor o Zé Ruela, e fiz uso de situações reais ocorridas na redação do jornal para criar histórias da Redação, com foco no dia-a-dia de jornalistas e em conversas sobre atualidades.
Além disso, passei a fazer tiras sem rótulos, tratando de temas diversos e com personagens esporádicos. E estou ainda desenvolvendo uma série especial sobre o universo feminino, intitulado “A Vida Cor-de-rosa Como Ela É”.
É um ano produtivo para meus cartuns e está previsto para os próximos meses o lançamento do livro ‘Traços de PG’, feito em parceria com o chargista Sádico. Me inscrevi até em um salão de humor internacional (no Irã). Não sei se o desenho será selecionado, até porque há trabalhos muitos bons. Mas, enquanto isso, sigo procurando fazer uma tira por dia (de segunda a sexta-feira), ou apenas mantendo o site o mais atualizado possível. Acredito, realmente, que a quantidade leva à qualidade. E, principalmente, estou me divertindo cada vez mais com essa agradável obrigação.
15 de ago. de 2012
'Catraca' em livros, presentes e vadiagem
Dois livros com meus desenhos devem ser lançados ainda este ano. O primeiro deles é um projeto antigo... bem antigo. Tão antigo, que já virou até piada. Projeto nascido nos idos de 2008, trata-se da obra ‘Traços de PG’, que irá reunir algumas das principais tiras do personagem Catraca, e também charges do amigo James Robson França (Sádico). Nesta semana, o item que faltava para enviar o livro à gráfica chegou até meu e-mail. Agora é só tornar realidade, o projeto que já tem quatro anos de espera.
Também neste semestre deve ser lançada a coletânea com histórias em quadrinhos do Concurso Nacional de Histórias em Quadrinhos ‘Ireno José Guimarães’, no qual conquistei premiação em categoria local. A HQ ‘Catraca: entrando numa roubada’, também com o personagem Catraca, será distribuída a escolas e bibliotecas
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Dia desses fui surpreendido com um presente inusitado. A artista plástica Lenita Stark levou até o jornal um de seus quadros, e me ofereceu. Eu havia feito uma matéria com ela semanas antes, por ocasião de uma exposição que realizou no Shopping Palladium. Uma grande gentileza da parte dela. A obra “Pescador” mostra um homem que deixa as ondas do mar tocarem seus pés. Transmite uma sensação muito boa de calma e paz, fazendo com que eu e a Pri nos lembremos de nossos passeios pelo litoral. Ela também gostou muito da obra, e foi a motivação ideal para que furássemos a parede da sala, que ficou mais agradável com o quadro.
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Às vezes, em jornalismo, nós repórteres recebemos alguns presentes bem interessantes, como foi o caso do quadro. Em outras, é motivo de piada. Minha colega da editoria de Economia ainda recorda a vez em que, após reportagem sobre agricultura, recebeu um ou dois pacotes de feijão na redação.
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Há repórteres que tiram bastante proveito dessa situação e, dependendo da editoria e dos contatos, há várias vantagens, realmente. É possível entrar em festas e eventos gratuitamente, fazer uso de serviços e produtos de graça. Há repórteres que têm a cara de pau de fazer pedido durante a entrevista. Sempre achei isso antiético e procuro evitar, tirando algumas vezes em que amigos insistiram para obter ingressos para eventos culturais. Quando esses itens são oferecidos como cortesia, não recuso e, se não farei uso, dou um jeito de passar adiante. De certa forma, não deixa de ser também mais uma forma de divulgação.
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Minha mãe esteve dia desses no centro da cidade. Ficou surpresa e decepcionada. Além das obras da prefeitura, aliadas a obras de particulares, que tornaram as ruas intransitáveis para pedestres e automóveis, assusta o número de pedintes.
Eu tinha notado isso já há alguns meses. Mas acabei acostumando. Só que passei a observar mais atentamente e, é verdade... é algo perceptível. Quando deixei a redação ontem no final da tarde, encontrei o caricaturista Jotaga em frente ao bar Rei das Batidas. Ele fumava um cigarro e conversava com outro sujeito. Enquanto eu ainda me aproximava, um mendigo chegou até ele e pediu algo. Jotaga, prontamente, deu um cigarro ao pedinte, que foi embora em seguida.
Cumprimentei Jotaga, que me contou que em breve pretende dar aulas de desenho. Inclusive me convidou para ser seu aluno, opinando, de maneira cuidadosa, que meu traço ainda pode melhorar muito. Enquanto ele dizia isso, surgiu outro elemento miserável e pediu moedas para tomar uma pinga. E emendou: “Tô sendo honesto”.
Pensei com meus botões: “Eu também, podia estar roubando, matando, mentindo... ao invés disso sou jornalista”. Jotaga respondeu que era artista e não tinha dinheiro. Ofereceu o que podia: mais dois cigarros.
O fato é que a vadiagem está à solta na cidade. E vejo tudo isso com certa inveja. Os que vivem das esmolas são justamente aqueles que não sabem o que fazer com ela. Tenho para mim que, se esses mendigos guardassem parte das moedas que arrecadam (excluindo os cigarros), ao invés de torrar tudo em drogas e cachaça, viveriam mais confortavelmente do que muitos que trabalham para viver.
26 de jul. de 2012
Site de tirinhas está de cara nova
19 de jul. de 2012
Na Estação Saudade
Enfim chegou a quinta-feira, dia de renovar o empréstimo do livro “Paris é uma festa”, de Hemingway. Apanhei a obra no prédio da Biblioteca Pública Municipal na semana anterior, logo depois de refazer meu cadastro, inativo há pelo menos três anos. Não que eu não tenha lido nada nesse tempo, mas é que optei pelo sebo, livrarias e obras que recebi como cortesia na redação do jornal.
Mas, quando se tem a intenção de ler algo específico, como esse livro de Hemingway, é preciso desembolsar um pouco mais, ou recorrer ao empréstimo. Escolhi a segunda opção, lembrando que já tinha feito uso do livro da biblioteca anos antes.
O prédio da biblioteca está entre os mais antigos de Ponta Grossa. No passado, foi a estação ferroviária, onde milhares de pessoas entraram e saíram do trem, onde casais se reencontraram ou se despediram, onde negócios foram feitos e desfeitos. Ir até lá traz uma sensação estranha de nostalgia, estranha principalmente para alguém que, como eu, não vivia essa época áurea do local. Mas explica bem o título que deram ao prédio: “Estação Saudade”.
A plataforma de embarque e desembarque ainda está lá, e hoje tem funções diversas. Já serviu como palco de apresentações artísticas, exposições diversas (incluindo de automóveis antigos) e, mais recentemente, foi o alvo de vândalos que picharam e rabiscaram em quase toda a sua fachada, cuja pintura foi restaurada há poucos anos.
A restauração não foi das melhores, e prova disso é o uso inadequado do edifício para abrigar a biblioteca. Os livros não têm a proteção correta contra o tempo e nem o prédio tem o uso que merece. Mas o pior é o entorno.
Renovei o livro e fui até a plataforma. Estava bastante frio nesta manhã de quinta-feira. Aproveitei o sol que ainda estava presente no finalzinho do chão de pedra para ler o final de mais um capítulo de Hemingway. Antes, olhei em volta.
Plantaram grama atrás da Estação. Atrás, que hoje é em frente. A entrada do prédio para embarque e desembarque ficava onde hoje está um estacionamento de automóveis confuso e normalmente dominado por flanelinhas. A parte nobre do prédio acabou sendo o local onde, antes, o trem parava para receber novos passageiros.
A grama rala insiste em oferecer um pouco de verde, entre poças de água da chuva do dia anterior. Ali, alguém pouco razoável teve a ideia de fazer uma calçada estreita e ondulada como serpente que leva do terminal central de ônibus até o shopping popular, conhecido como “camelódromo” ou “paraguaizinho”. As pedras de petit-pavé se soltaram, em vários pontos da calçada, denotando total falta de cuidado com a manutenção, além de um trabalho mal feito e o uso errado do espaço (os carros da exposição mencionada anteriormente já passaram por cima dessas pedrinhas algumas vezes).
Mas o mais incompreensível é que tenham feito essa calçada ondulada. Se a fizessem em linha reta, além de oferecer um caminhar mais lógico ao pedestre, ainda poderia ter feito referência aos trilhos de trem que, no passado, estavam quase no mesmo local. Ao invés disso, colocaram ali alguns postes com lâmpadas, entre a estação e a calçada, e esqueceram completamente de colocar algum banco. Parecem faltar boas ideias para o aproveitamento de espaços públicos.
Terminei de ler um capítulo, e notei que o sol já deixava a plataforma. Lembrei que havia bancos do outro lado do gramado. Caminhei ainda seguindo o calor do sol, sobre a plataforma, indo em direção ao paraguaizinho. Na ponta da plataforma, um cachorro dormia e nem sequer mexeu a orelha quando passei ao seu lado, e desci os degraus até o Parque Ambiental.
Cheguei a um dos bancos. Sentei. Olhei em volta. Quem sentasse ali teria que ficar olhando o trânsito de ônibus, ou observar o shopping em forma de caixote. “Preferia estar olhando a grama”, pensei. Baixei os olhos para o livro. O sol fazia com que os olhos acreditassem que as letras impressas em tinta preta eram vermelhas. O texto era vivo e agradável. Levantei os olhos novamente. A cidade parecia mais bonita agora, enquanto eu terminava de ler outro capítulo.
12 de jun. de 2012
Onde está a graça?
Enfim, após vários dias de chuvas, confirmamos hoje que o sol ainda está lá em cima. As casas e edifícios em Ponta Grossa ficaram tão úmidos em seus pisos, paredes e janelas, que me obriguei a fazer uma tirinha sobre o tema.
Apesar do tempo pouco convidativo para sair, na semana passada acabei marcando um encontro que, descobri, eu desejava fazer há muito tempo. Por sugestão do editor-chefe do Jornal da Manhã, Mário Martins, escrevi reportagem sobre aqueles que trabalham com humor na cidade.
A ideia surgiu com a visita da cartunista curitibana Pryscila Vieira, que agora está morando em Ponta Grossa, desde que seu esposo assumiu o posto de delegado do Denarc local. Pryscila é a criadora da personagem Amely, um fenômeno dos cartuns. Uma mulher com aparência de boneca inflável (ou seria o contrário?) que critica a sociedade machista e a mulher vista como objeto.
Em conversa com Pryscila, ela apontou que seria mais pertinente fazer uma reportagem com outras personalidades além dela, e mencionou Benett (chargista ponta-grossense que agora trabalha para a Gazeta do Povo e Folha de S. Paulo) e *Fábio Silvestre (humorista de PG que agora está no programa A Praça É Nossa, do SBT).
De acordo, Mário Martins lembrou que James Robson França, vulgo Sádico, não poderia ficar de fora da matéria. Sádico é chargista do Jornal da Manhã, e tem feito excelentes trabalhos com ilustrações e tiras no jornal.
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O bar, sempre o bar...
O primeiro passo da reportagem foi marcar uma conversa com Sádico. Ofereci duas possibilidades: o café da Panificadora Vila Velha ou o Bar do Seu Rui, ao lado do JM. “O bar. Sempre”, respondeu. Mas, na manhã de quarta-feira, estávamos no bar... tomando café. Precisávamos nos manter lúcidos. Era meio da semana. Mais um dia e teríamos um feriado, aí cada um faria o que bem entendesse.
Foi durante a conversa que Sádico lembrou: eu não podia deixar de mencionar Roque Sponholz, caricaturista e chargista ponta-grossense. Também poderia mencionar Diego Castro, humorista emergente quando se trata de comédia stand up na região.
A sugestão era boa, mas me pareceu improvável... Sádico propunha que eu reunisse a Pryscila, ele, Roque e Diego, e fizesse uma foto de todos juntos para compor a capa do caderno Urbe do JM, onde seria publicada a reportagem. Me despedi prometendo fazer a tentativa de marcar a foto para aquela mesma tarde, embora incrédulo.
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Mais fácil do que parece
Para minha surpresa Roque Sponholz me atendeu no primeiro telefonema, e topou o encontro no Parque Ambiental. Local escolhido em face da identificação imediata com a cidade, já que o Cocozão, monumento polêmico e insubstituível, não mais existe.
Diego Castro também aceitou a ideia na hora, e combinou estar no Parque Ambiental também às 17 horas. Pryscila estaria chegando de uma viagem a Curitiba, mas disse que daria tempo de fazer a foto, com certeza.
À tarde, o tempo que estava apenas em garoa decidiu assumir sua condição chuvosa e as gotas de água se intensificaram, dobrando de tamanho e volume, e me obrigando a transferir o local da foto para alguns metros adiante. O novo local era a Estação Saudade, antiga estação de trem, hoje biblioteca municipal, também localizada no mesmo Parque.
Mas essa mudança precisou ser articulada após as 16h30, e Roque Sponholz já havia deixado sua casa, rumo ao local original do encontro. Fiel a uma tradição antiga, Roque não carregou celular [aparelho que, aliás, não possui]. Teria que encontrá-lo no local onde havíamos combinado por primeiro e levá-lo à Estação. Os demais foram todos avisados.
Às 17 horas em ponto, Roque exibia seu abrangente bigode [marca caricatural que carrega no semblante] perto das árvores de romã do Parque Ambiental. No carro do JM, eu, o fotógrafo Christopher Eudes, o motorista China e Roque Sponholz seguimos até a Estação Saudade, onde Sádico e Diego Castro já conversavam animadamente.
Só faltava Pryscila. Enviei SMS dizendo que a esperávamos, e ela respondeu que estava perdida. Uma breve conversa e a recém-chegada a Ponta Grossa, minutos depois, encontrava o bizarro estacionamento que fica junto à biblioteca e é dominado por flanelinha de aparência estranha e comportamento inescrupuloso (acho que acabo de descrever todos os flanelinhas do mundo).
***
Autopromoção? É o jeito...
Christopher fotografava os quatro junto ao prédio, usando o que restava da bateria de sua câmera. Ele tinha começado o expediente no jornal cedo, e teve que fazer o trabalho do outro fotógrafo, Clebert, que precisou viajar a trabalho para Curitiba. Com isso, estava nas últimas energias (ele e a câmera). Foi quando os entrevistados reivindicaram minha presença na foto.
De fato, meu trabalho como cartunista criador do Catraca não podia ser desprezado. Mas... escrever sobre mim mesmo na reportagem? Me incluir na fotografia? De início me pareceu inadequado. Mas, em seguida pensei... Por que não? Ao final, estar ali ao lado dos grandes nomes do humor local, alguns dos quais com destaque nacional e internacional, me serviu de incentivo e massagem positiva ao ego.
A reportagem não ficou ruim. Mas esse foi um daqueles casos em que o “fazer a reportagem” foi mais interessante do que vê-la publicada. E ter sido incluído na foto por eles teve, para mim, elevada importância. Talvez eu como cartunista não tenha o destaque que eles já conquistaram, mas rir ao lado deles foi como respirar mais profundamente. Aí está a graça.
*Obs.: Na mesma edição do caderno Urbe (10/06/2012) foi publicada entrevista com Fábio Silvestre. Ainda consegui para aquela edição uma entrevista com o chargista Benett. Mas, sem tempo e espaço adequados, posterguei a publicação para outra ocasião. É um material que merece o devido destaque, e em breve certamente terá. Por hora, eis os links para o caderno Urbe do último domingo - http://www.jmnews.com.br/noticias/urbe/23,21925,10,06,o-humor-em-ponta-grossa.shtml
- http://www.vamoslerjornaldamanha.com.br/mail/jm/flip/Urbe/10-06-12/
30 de mai. de 2012
Dia do Desafio
Um radialista disse, no noticiário desta manhã, que hoje é o tal Dia do Desafio. Uma data que, na minha opinião, é ridícula. Ridícula porque sugere que as pessoas pratiquem atividades físicas e, dessa forma, estabelecem uma espécie de competição saudável entre cidades, para ver onde as pessoas mais aderem à prática. No entanto, a verificação disso se dá por meio dos telefonemas feitos pelas pessoas que [supostamente] participam, logo após o ato. Ao final, um cálculo básico sobre o número de pessoas que relatou a prática física irá determinar a cidade vencedora.
Além do fato disso estar condicionado quase sempre a um telefonema [que pode ser mentiroso, ou que pode não acontecer por falta de estrutura telefônica, falta de créditos no celular], Ponta Grossa, localidade onde resido, quase sempre ganha. E eu me pergunto se isso acontece porque gostamos do Dia do Desafio, ou se é porque o pessoal lá fora tem mais noção da realidade, e prefere praticar atividades físicas todos os dias pelo seu bem-estar, ao invés de fazer isso uma vez ao ano buscando vencer uma competição.
Enfim. Hoje a cidade deve bater um recorde de participações, já que os funcionários da Viação Campos Gerais, empresa que administra o transporte público na cidade, entraram em greve. Nenhum ônibus circula e o Terminal Central estava absolutamente estranho, sem ônibus e sem pessoas em seu interior. Só os guardas nas guaritas de entrada e a neblina pairando sobre a estrutura metálica.
Muitas pessoas se obrigaram a ir a pé para o trabalho, ou buscaram a carona com um amigo. Eu levei minha esposa ao trabalho e pude ver um número bem maior de automóveis circulando nas ruas.
“O desafio hoje será chegar ao trabalho”, complementou a outra radialista, fazendo trocadilho. E o meu será aguentar mais um Dia do Desafio, sendo coerente ao meu modo de ser, e mantendo o sedentarismo de sempre. Muito embora eu ainda pretenda mudar isso, em algum momento que não será no Dia do Desafio.
20 de abr. de 2012
De volta à estrada: um passeio a Witmarsum
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| Nós em frente à placa que explica a existência das 'estrias glaciais' |
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| Paisagem bucólica das margens da rodovia principal da Colônia |
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| Nosso Palio Economy, promovido a 'Adventure' após a viagem a Guaraqueçaba |
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| Igreja menonita local |
19 de fev. de 2012
Carnaval também é estresse...
Sem desculpas para não acordar
17 de jan. de 2012
O dia em que nos achar foi Missão Impossível
16 de jan. de 2012
Que tipo de bêbado você é?
2 de jan. de 2012
Um novo lar... com as notas contadas
Há alguns dias o pianista Newton Schner Junior esteve no jornal para uma visita de cortesia. Veio apenas me desejar um feliz ano novo, pois ficaria alguns dias fora, em trabalhos braçais na chácara da família, em Itaiacoca, segundo entendi. Fiquei surpreso, pois não imaginava o Newton carpindo um lote. Certamente é um sujeito mais versátil do que eu pensava. Das teclas do piano e do computador para a enxada... às vezes é uma longa distância.
- E você, vai viajar? – perguntou ele, se referindo ao Réveillon
- Não... na verdade já tive gastos suficientes neste ano, por conta da compra da casa nova e da mudança.
- Ah, sim. Você se muda agora em janeiro?
- Isso aí.
- Vai poder escrever “notas de um novo lar”... – brincou, numa referência ao título de uma de suas obras literárias mais recentes.
- Acho que será um novo lar, só que sem as notas. – respondi rindo, enquanto fazia um gesto com as mãos que significava dinheiro.
E agora aqui estou, no novo lar, procurando entender que mudanças isso implica também em minha vida. A mesa de computador e o próprio computador são os mesmos, como se me tivesse sido possível ser apenas transportado com eles para outro ambiente. Mas a sensação é completamente outra. Outro espaço, outros móveis, outra companhia.
Quando comecei a namorar a Pri, há pouco mais de dois anos e meio, tinha planejado isso tudo para 2013. Não sei por que, achei que quatro anos era um bom número. Mas eu sempre tive mais paciência, enquanto ela sempre foi mais ansiosa. Dois anos e meio foi o ponto de equilíbrio, e o momento em que conseguimos encontrar e organizar uma casa para onde nos mudarmos.
Não foi fácil encontrar esta aqui. Percorremos a cidade toda, de casas a apartamentos, de condomínios centrais a bairros distantes. Não imaginava me mudar para o Jardim Gianna, localidade nova que até pouco tempo eu sequer sabia que existia. Além do mais, na primeira vez em que percorri estas ruas, para conhecer outra casa à venda, o aspecto visual não me agradou muito, por ser do outro lado da mesma vila. Aí o colega Alan me veio falar de uma casa quase totalmente mobiliada, à venda no Gianna, e fui sem acreditar no que ele dizia.
De fato, foi amor à primeira vista. Também... a casa parecia um showroom. Com os móveis planejados expondo a funcionalidade do lugar, ficou impossível não gostar da casa. Hoje já conhecemos boa parte dos pequenos (embora vários) defeitos do lugar. Mas isso acontece em qualquer endereço. Não há casa perfeita. O que sei é que o negócio acabou sendo feito. E agora o ambiente está adaptado à nossa permanência.
Há um sofá confortável na sala, do jeito que a Priscila queria, e meu computador ao lado, como eu necessitava. Até ontem à noite, a Pri ainda organizava algumas das sacolas de roupas que ela transferiu para cá. Ficou horas fazendo isso. E eu estou aqui pensando quantas revistas e livros deixei na casa de meus pais. Boa parte deles eu jamais vou usar mesmo, mas outros são de estimação.
Isso é algo interessante. Esta casa é bem menor que aquela de meus pais. Enquanto lá eu me acostumei a acumular coisas e não jogar nada fora, aqui eu precisarei aprender outros hábitos. Não há espaço para tranqueira. É preciso ser prático e direto. Nada de guardar todo tipo de papel, panfleto ou lixo.
Iniciei essa limpeza já alguns dias, mentalmente. Depois comecei a limpar gavetas, ainda na outra casa. Na noite do último dia de 2011 eu estava deletando mensagens antigas de meu celular. E ontem resolvi limpar um pouco este computador. Quando percebi, por um erro de cálculo estava deletando coisas que deveriam permanecer aqui. Cancelei o processo, mas uma parte dos arquivos foi excluída. Terei que recorrer a um backup feito meses atrás, para recuperar algumas HQs e textos importantes.
Este será um ano repleto de mudanças, erros e acertos, como foram os primeiros dias. Mas tudo fluirá. Hoje pela manhã levei a Pri ao trabalho. Quando voltava, vi um homem fazendo caminhada. Se deslocava a passos rápidos de calção, camiseta, óculos escuros e bengala. Bengala? Ele carregava a bengala, como se tivesse ido até a fonte da juventude e estivesse regressando após um rápido mergulho. Acho que será um ano de milagres também.
12 de dez. de 2011
Mais que uma casa nova
Ainda assim, creio que a mudança será uma experiência e tanto. Uma viagem de autoconhecimento maior do que todas que já experimentei. E estou incluindo aí Morretes e Guaraqueçaba. Tenho mais curiosidades do que receios nesta mudança. No período em que estamos namorando, descobri muito a meu próprio respeito, e passei a perceber e aceitar meus defeitos e erros que antes ignorava. Minha insegurança, meu perfeccionismo, minhas preocupações e desatenção. Ao mesmo tempo, vi com mais clareza algumas qualidades, que guardo para mim. Vai que alguém diz que não são qualidades...
Mas, o encontro seguido da despedida cria um vínculo menor entre o casal. Agora, vivendo na mesma casa, espero descobrir mais a meu respeito e a respeito dela. Compreender melhor que atitudes são esperadas de mim e quais devem ser tomadas. Encontrar o equilíbrio entre o que se quer, o que se pode e o que se deve fazer. E ficar sabendo quem sou eu, vivendo em uma casa que não é de meus pais, na qual até hoje sempre tive tudo o que precisei, do carinho aos bens materiais.
Enquanto muitos deixam a casa de seus pais num ato de rebeldia, porque não concordam com as atitudes deles e não os suportam, eu deixo a casa de meus pais apenas porque sei que é tempo de sair. Pois, na verdade, foi nos últimos dois anos e meio que percebi de forma ainda mais evidente o quanto eles são importantes em minha vida. Notei de forma mais clara o quanto torcem por mim. Percebi o apoio que sempre que precisei. Com eles e com meu irmão, meu maior amigo, e que sempre entende minhas piadas, até as sem graça, sempre tive um refúgio.
Nos próximos dias sairei da casa de meus pais e de meu irmão com a tranquilidade de saber que eles também estão sempre de braços abertos. E que eles saibam que meus braços também estão abertos para eles, que agora terão mais alguém para visitar aos domingos. Se virem!
10 de out. de 2011
O que mantém o mundo um bom lugar
Um dos poucos privilégios que tenho como jornalista da seção cultural / entretenimento / social do jornal é que de vez em quando surge a possibilidade de acompanhar eventos que, normalmente, eu não poderia.
Foi assim que nesse domingo pude assistir, no Cine-Teatro Ópera de Ponta Grossa, à bela apresentação da Orquestra Sinfônica Philips, que iniciou aqui sua breve turnê pelo Brasil (segue depois para Curitiba e São Paulo). O grupo de dezenas de músicos veio da Holanda, numa parceria com a Associação Parque Histórico de Carambeí, e tive acesso a dois convites que me permitiram ver o show ao lado de minha namorada Priscila.
Sempre fico com receio quando a levo para algum evento cultural. Nem sempre a atração agrada, e às vezes nem eu me sinto satisfeito com algumas coisas. Estou me recusando temporariamente a ir ao cinema devido ao grande número de decepções, por exemplo.
Mas, dessa vez, posso dizer que o espetáculo valeu o tempo investido. Enquanto via e ouvia tudo, me vieram pensamentos filosóficos. É que eu observava com atenção a beleza da melodia e a elegância dos músicos. E, ao mesmo tempo, recordava a grande quantidade de desgraças que ouço todos os dias, trabalhando no jornal. São mortes, assassinatos, estupros, assaltos. Tudo provocado por pessoas não muito diferentes daquelas que ouviam a música, ou a apresentavam naquele instante.
Poderia um assassinato ser orquestrado por um daqueles que estava no palco, apresentado o que há de mais belo no ser humano: a criação artística? E teria eu o direito de apreciar aquela beleza toda, sabendo que tanta coisa ruim acontece no restante do mundo, ou mesmo do lado de fora do teatro?
Mas a minha mão estava sobre a mão da Pri. E a música insistia em tocar. Então a melodia e o momento bom prevaleceram, e esqueci do resto. É preciso esquecer o que há de ruim, de vez em quando, para perceber o que ainda há de bom. Espero poder sempre me concentrar no que há de bom, para não cair no erro de me tornar tão ruim quanto tudo que mais detesto. E a música segue.











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