16 de mar. de 2011

Enfim, conheci Benett!

Existe tanta informação no mundo, que não é vergonha nenhuma se especializar apenas em algumas poucas coisas. Infelizmente, na maioria das vezes, isso não funciona para os jornalistas. Até que se consiga conquistar um espaço bem definido, seja na editoria de Política, Polícia, Economia ou Esporte, pode levar muito tempo.

Somente na segunda metade do ano passado e início deste ano é que consegui me estabelecer onde eu realmente queria estar: fazendo as reportagens de Cultura e Comportamento do Jornal da Manhã, onde trabalho desde 2007.

Entretanto, isso não significa que deixei de fazer outras coisas que me atraem bem menos, como editar as colunas sociais, fazer matérias sobre agronegócios e corrigir textos de colaboradores que nem mesmo sabem que não existe o idioma “brasileiro”.

Com tudo isso, inevitavelmente me deparo todos os dias com pouco tempo para eu mesmo. Gostaria de me dedicar, por exemplo, à atividade de cartunista, algo que venho desenvolvendo há muito tempo, mas que começou mesmo a ganhar traços definidos [com o perdão do trocadilho] quando ainda estava na universidade, me preparando para um jornalismo um tanto quanto diferente daquele que encontraria no mercado.

Desenho desde que me lembro. Muito antes de saber ler ou escrever. Levei meus rabiscos para as aulas de Educação Artística no primário, aos intervalos no Ensino Médio e para dentro da sala de aula da Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde uma caricatura do professor de Realidade Socioeconômica Brasileira escrevendo hieróglifos na lousa me projetou entre os amigos como alguém que sabia desenhar.

Minha colega Lídia, na época, disse que eu deveria mostrar os desenhos, e [fã de quadrinhos] me comparou a outro cartunista – Bennet. Eu pouco sabia a seu respeito. Ele era o chargista do jornal Diário dos Campos. Naquela época houve, acredito, algumas exposições com seus desenhos. E o lançamento de um livro do desenhista. A Lídia tentou me levar para conhecê-lo, mas eu era bem mais tímido e introspectivo do que sou hoje, gostava de ficar em casa, e por isso o encontro jamais aconteceu. Foram necessários quase dez anos para que acontecesse... no mês passado.

Alberto Bennet estaria em Ponta Grossa na sexta-feira, às 19 horas, para o lançamento de sua nova exposição – “Bennet: quantas pílulas de sarcasmo você tomou hoje?” Uma pena que a rotina no jornal me impedia de deixar a redação antes das 21 horas. Fascinante que, justo naquele dia, consegui terminar o trabalho às 19 horas.

A Galeria do Centro Europeu, onde ocorreria a exposição, ainda estava praticamente vazia. Dei uma olhada nos desenhos já colocados nas paredes. Impressionante como o traço dele evoluiu nos últimos anos. E parece ser possível identificar quando Bennet teve mais ou menos tempo para fazer um desenho.

Enquanto olhava os cartuns e charges, em ideias que provocavam risos discretos, ficava imaginando qual seria a impressão quando o encontrasse. Sempre tive a sensação de que Bennet era um cara arrogante, que não perderia uma oportunidade de humilhar quem quer que fosse. Talvez por causa de raciocínios que pareciam implícitos em suas tiras. Temia fazer um comentário simpático e receber uma piada injusta em troca.

Bennet tinha conseguido viver do desenho, trabalhando para grandes jornais como a Gazeta do Povo e a Folha de S. Paulo. Isso não despertava em mim exatamente inveja. Era, na verdade, uma espécie de orgulho e esperança por saber que alguém tinha conseguido. Talvez por isso, essa conquista, o imaginava como um sujeito metido, que não se importa com as pessoas ao redor. É engraçado pensar que minhas impressões mudariam completamente a partir do momento em que o visse entrar na Galeria.

Bennet estava de boné, como sempre o vi nas fotos e desenhos. Conversou rapidamente com algumas pessoas e começou a ser entrevistado por algumas repórteres que estavam ali. Fiquei nas sombras, tentando decifrar qual era a dele. Mas ele não pareceu engraçado como imaginei que poderia ser. Foi sério em todas as respostas às perguntas das repórteres, que em seguida se retiraram, dando oportunidade para que eu me apresentasse:

- Bennet, eu sou Danilo. – disse, enquanto apertava sua mão.
- Danilo... o Danilo, do Jornal da Manhã? – perguntou, para minha surpresa – Eu conheço o teu trabalho... Desde a época da Lídia.

Bem, parece que minha amiga tinha criado um link entre os dois desenhistas antes mesmo do boom do twitter. Conversando com Benett, soube que ele desenha tudo no papel, para depois levar ao scanner e colorir no computador, da mesma forma que eu fazia até pouco tempo, antes de comprar uma mesa digitalizadora.

“E como funciona isso?”, ele perguntou. “E como vai o JM?” E então falei um pouco a meu respeito. Ele ouviu com interesse ou, antes, respeito tudo o que disse. Depois se retirou educadamente para conversar com outras pessoas.

Bennet é humano, afinal. No bom sentido da palavra. Em nenhum momento me pareceu arrogante, metido a engraçadinho. Quem sabe por causa do boné, imaginei que ele seria tipo o Sérgio Malandro, dando risadinhas e gesticulando feito maluco o tempo todo. Se revelou um cara comportado e educado. Talvez eu esteja manchando sua fama, com essa minha impressão.

Depois de alguns minutos, fui me despedir, e ele revelou mais uma vez sua cortesia. “É cedo ainda, fique... Olha, tem pão de queijo!”, disse, apontando para a mesa no hall de entrada, onde havia alguns salgadinhos. Peguei um.
“Ei! Isso é biscoito de polvilho!”, eu disse.
“Ora, então me enganei...”, falou Benett.
“Já que não tem pão de queijo, vou embora.”, falei. E fui, agora reconhecendo em Benett um desenhista bom e humilde. Só no dia seguinte me daria conta... esqueci de tirar uma foto com o artista. Fica para a próxima.

13 de jan. de 2011

Uma peça de museu no supermercado

Existem algumas coisas que poderíamos chamar de arcaicas, num mundo em que vários megabytes de informação são carregados em um equipamento do tamanho de uma unha. Por exemplo, há alguns meses comprei um CD para limpar drive de disco.

Sabe como é... o aparelho de som estava meio esquisito, não aceitava qualquer CD. Já estava rejeitando até os originais (e não estou falando dos Originais do Samba que, nada contra, mas não estão em meu acervo.

Coisa de louco o tal CD para limpeza. Você pinga duas gotas de um líquido especial, em um CD que vem no kit. Aí coloca no drive do disco, e fica ouvindo uma música clássica, enquanto o CD faz todo o resto, verificando o som e limpando o leitor ótico.

É estranho pensar nisso porque lembro que há 20 anos (sim, estou ficando velho), já existia algo muito parecido. Eram fitas cassete para limpar o “cabeçote” do toca-fitas do automóvel, por exemplo. Pingava-se a gota do líquido e deixava a fita rodar lá dentro.

Mais esquisito ainda foi me deparar com outro item, à venda no Supermercado Tozetto do Jardim Carvalho. Algo que eu sequer sabia que existia: um limpador de drive de disquete! Caracas... as livrarias praticamente nem vendem disquete mais, e se venderem não compensa a compra, já que os CDs são mais baratos e com maior capacidade.

Por isso foi bizarro encontrar nas prateleiras, com a mesma naturalidade com que se encontra um pendrive, o tal limpador de drive de disquete. Por apenas R$ 4,11, se você correr, ainda pode encontrar o objeto à sua disposição. E deve ficar ainda um bom tempo por lá. Alguém aí ainda usa disquete??

O que me lembra outra curiosidade: outro dia estive no Sebo Espaço Cultural, lá na Rua XV de Novembro. Estava dando uma olhada em filmes antigos em fita VHS [e me odiando por não ter um vídeo-cassete], quando encontrei duas fitas ainda emplastificadas. Fitas para gravação... as chamadas fitas VHS virgens!! Cerca de 95% dos filmes à venda ali custam apenas R$ 2. Mas essas duas fitas custam R$ 10 cada. Raridade é raridade...

12 de jan. de 2011

Será o fim dos Nokia 5000?

Depois de voltar de uma inesquecível viagem que inclui Guaraqueçaba, Morretes, Caiobá e Paranaguá, durante um dos períodos de chuva mais forte do ano, voltei ao dia-a-dia de Ponta Grossa. Uma das coisas mais comuns do mundo é ir ao supermercado, e acho que foi durante as compras que, sem perceber, perdi meu celular. Talvez tenha derrubado enquanto apanhava algo nas gôndolas. Talvez tenha caído do bolso quando entrei no carro no estacionamento.

O fato é que me dei conta de que não estava com o aparelho, duas horas depois. Liguei para o número, e percebi que estava desligado. A pessoa que estava de posse de meu telefone havia desligado o equipamento, o que denotava profunda má fé.

Fiquei realmente chateado. Não fazia nem dois anos que eu tinha adquirido o aparelho, e eu tinha feito uma verdadeira peregrinação para encontrar o modelo que mais se adequava às minhas necessidades. Na ocasião, terminei encontrando o simpático Nokia 5000. Disponível nas cores verde e roxo, optei pelo verde. Câmera razoável para registrar bons momentos, gravador de voz para registrar as entrevistas que faço para o jornal, e o menor peso e tamanho possíveis, de modo a não fazer volume no bolso. Ah, sim, e o preço mais em conta.

Era um aparelho perfeito para mim. Mas eu o havia perdido. No dia seguinte, após bloquear o chip e criar um novo com o mesmo número, entrei no site da Nokia, pois pensava seriamente em comprar outro idêntico. Mas não havia nenhum disponível para venda. Sumiram completamente de estoque.

Mais tarde, andei pelas ruas da cidade à procura do Nokia 5000, e não encontrei nenhum à venda. Tive que comprar outro modelo. Não é ruim o Nokia 2730. Tem uma câmera de vídeo um pouco pior, mas apresenta quase os mesmos recursos de seu antecessor, e custou dez reais a menos que o outro.

Mas, lamento ter perdido o celular antes de descarregar as fotos feitas entre Guaraqueçaba e Paranaguá. Viagem digna de maiores registros. No jornal onde trabalho, uma colega, a Juliana, tinha um aparelho igual ao meu, só que na cor roxa. O jeito era me conformar em voltar de férias vendo, eventualmente, o celular dela e sentindo saudades do meu.

Eis que volto de férias e encontro a Juliana com outro modelo de celular. “Ué? Que houve com seu outro celular”, perguntei. “Perdi... no Centro de Eventos”.

Aí comecei a pensar... será que perdemos, ou fomos realmente furtados? Não será tudo isso parte de uma conspiração para extinguir um celular perfeito? Alguém aí ainda tem o Nokia 5000 no bolso? Então, cuide bem dele.

6 de jan. de 2011

Sim, chegamos a Guaraqueçaba!

De volta das minhas férias, meu colega Alan, que trabalha na diagramação do Jornal, perguntou como eu tinha aproveitados as férias. Respondi que fui para Guaraqueçaba, achando que ele não compreenderia o alcance de minhas palavras, já que a maioria das pessoas não sabe onde fica isso, e apenas pensa que se trata de algum lugar em São Paulo. Em lugar disso, ele arregalou os olhos e perguntou: “Você conseguiu chegar?”

Sim, ele sabia do que eu estava falando...

***

Este ano tive, excepcionalmente, dois meses de férias. Um no início do ano, quando me concederam o descanso com cinco meses de atraso; o segundo em novembro. Isso porque solicitei que minhas férias viessem antes. Estava tão cansado, estressado, tal é o nível de concentração que o trabalho exige, que imaginei que não suportaria esperar até março novamente.

Foi bom... dediquei quase todas as férias a um período maior de meditação. Quase não viajei nem fiz grandes coisas. Eu e minha namorada fizemos apenas uma viagem um pouco maior até o município de Morretes (PR), onde já tínhamos ido no ano passado. Depois voltamos para Ponta Grossa, sem que eu tivesse matado minha vontade do prato típico da região, o barreado.

Mas a Pri exigia ao menos mais uma viagem nos últimos dias de descanso. Meu amigo Ben-Hur tinha enviado sugestão, via twitter, de uma pousada em um lugar chamado Guaraqueçaba (PR), perto do litoral, em plena Mata Atlântica. O site da pousada a fez parecer confortável e interessante. Via MSN, conversei com a proprietária, Carmen, e agendei dois dias de estada.

Para garantir que tudo correria bem, também agendei a revisão de meu Fiat Palio na concessionária Fiat CVL de Ponta Grossa. Havia atingido os 15 mil quilômetros rodados, e o manual especificava que era momento de um check up.

Dias depois, a revisão foi feita. Paguei pela troca de óleo e outros detalhes. Não foi barato, mas saí da oficina feliz por ser um sujeito precavido tal qual o bode Japeth do filme “Deu a Louca na Chapeuzinho”. Mas, no mesmo dia, notei que um ruído estranho tinha ficado sob o carro. Tive que levar novamente o veiculo à concessionária no dia seguinte. Uma peça havia sido deixada frouxa. Estranho foi que, a peça frouxa não fazia parte dos itens verificados na revisão.

Minhas teorias conspiratórias começaram a surgir. E nada tirava de minha cabeça que os mecânicos tinham colocado uma espécie de bomba relógio em meu carro, preparando uma armadilha para que eu precisasse futuramente de seus serviços.

No entanto, fiquei tranquilo depois que corrigiram o som estranho. Até que, cerca de uma semana depois, o carro começou a virar o volante, sozinho, para a esquerda. O alinhamento de rodas, de algum modo, não tinha cumprido seu objetivo. Outra vez levei à concessionária, e o problema foi corrigido.

Já sem muita confiança, dirigi por mais um ou dois dias, quando começou um ruído estranho no motor. Temendo que fosse algo grave, levei à CVL. O sujeito que veio me atender foi o mesmo das outras vezes. Seu nome: Édio. Apenas uma letra o diferenciava do “ódio” que eu começava a sentir daquele lugar. Diagnóstico: problema na bomba de água. Custo: quase R$ 900!!! E a revisão? Segundo ele, esse item não estava entre os verificados. Sei...

De posse do diagnóstico, levei o carro a outra oficina, que faria o mesmo serviço por bem menos. Mas a agenda do mecânico oferecia a manutenção apenas para a próxima semana. E nossa viagem estava marcada para dentro de dois dias.

Por um instante hesitei. E se a bomba de água desse problema justo durante a viagem? Iria fundir o motor e ficaríamos na estrada... Teimoso e, já tendo pago metade do custo da hospedagem, agendei o conserto para a semana seguinte, refiz o seguro do automóvel, fiz algumas fortes orações, e decidimos partir, em mais uma viagem rumo ao desconhecido.

***

Não saia de casa apenas com o mapa mental

Saímos na manhã de domingo. Um dia de mormaço. Seguíamos o mapa retirado da internet. O Google Maps informava que chegaríamos ao destino em cerca de quatro horas. A cada quilômetro eu observava no painel do carro a temperatura do motor, e torcia para não precisar ligar para a seguradora.

Tudo correu bem até que chegamos perto de Curitiba. Seguindo as indicações do mapa, virei à direita e percorri cerca de 20 quilômetros até que a Pri me convenceu de que podíamos estar no caminho errado, dado a raridade de placas indicativas.

- Assim vamos chegar no Rio Grande do Sul! – ela dizia, me mostrando que eu estava indo na direção dos pampas.

Parei num posto de gasolina e abordei o caminhoneiro que não estava bebendo cerveja, e que me disse que, de fato, se eu queria ir para Guaraqueçaba, deveria voltar por onde tinha vindo, e seguir no caminho da Paranaguá.

Desacorçoado, retornei o trajeto já feito, e passei a seguir as placas. Teria o Google Maps me traído pela primeira vez? Ainda pensava nisto quanto encontramos um mega engarrafamento. Durante cerca de uma hora ficamos presos sob o sol forte do meio-dia. A fome começava a nos atacar. Tiramos nosso kit de sobrevivência de dentro do porta-luvas: uma garrafa com água e um pacote de salgadinho Pingo d’Ouro.

O motivo do engarrafamento tinha sido a colisão entre dois caminhões, um deles carregado de salsichas. Em seguida pudemos continuar o caminho. Pagamos alguns pedágios. Então, olhei para o hodômetro, e reparei que já tínhamos rodado cerca de vinte quilômetros além de onde deveria haver uma estrada para Guaraqueçaba. Paramos numa lanchonete de um lugar chamado Campina Grande do Sul (outrora conhecida como “lar do Chupacabras”) para pedir informação. Teríamos feito um lanche, mas estávamos mais preocupados em encontrar o caminho.

A atendente, muito solícita, ofereceu o computador para que usássemos a internet novamente. Mas o Google Maps insistia em me dar o caminho que quase levava a Santa Catarina. A funcionária abriu um mapa que estava à venda no estabelecimento. Consultando os dados cartográficos, anunciou:

- Vocês estão quase chegando em São Paulo! Terão que voltar 20 quilômetros, passar novamente pelo pedágio. Ai vão encontrar o caminho, que já deixaram para trás.

Tomamos uns refrigerantes ali, e a Pri ligou para a dona da Pousada, e explicou que estávamos perdidos. Somando as orientações da lanchonete e da pousada, tivemos que retornar 20 quilômetros e passar outra vez o pedágio, onde nos informaram que o caminho mais curto, naquele momento, para Guaraqueçaba, era pela Estrada da Graciosa.

***

Um lindo caminho que eu preferia evitar

A Estrada da Graciosa é conhecida por ser apenas subida, ou apenas descida. Depende de quem vai ou de quem vem. O que todos concordam é que é um trajeto que “judia” do carro, do motor, dos freios. Nosso Palio estava pedindo sossego, depois de tantas incursões à oficina. Por essa razão, eu havia planejado viajar através de outros caminhos, e evitar a Estrada da Graciosa. Mas terminamos chegando até ali e, como já estávamos muito atrasados, decidi arriscar uma vez mais. Descemos a Estrada da Graciosa.

Pelos caminhos estreitos de paralelepípedos, entre arvoredos de hortênsias, percorremos a Estrada com tranquilidade, apenas um pouco tensos com a aparente chuva que se aproximava, depois de uma manhã de intenso calor. Chuva naquela estrada não é bom, porque as pedras ficam ainda mais lisas. Mas, alguns minutos depois, havíamos concluído mais essa etapa, encontrando uma placa que indicava as direções de Morretes, Antonina e, finalmente, Guaraqueçaba. Era a primeira vez que líamos aquele nome numa placa, desde que saímos de casa.

Seguimos por mais uns vinte quilômetros, até que encontramos uma entrada à direita, que indicava o caminho para Guaraqueçaba. Agora estamos perto, pensei. Tínhamos que estar. Afinal, fazia seis horas que estávamos na rodovia. Eu nunca tinha dirigido tanto. Dez metros depois, acabou o asfalto, e teve início uma tenebrosa estrada de terra, buracos, e muita, muita pedra. Não confundir com cascalho... cascalho é uma coisa legal perto daquilo.

Vinte quilômetros depois, encontramos algo que parecia ser um boteco. Apenas uma menina de uns dez anos estava em frente. “Guaraqueçaba é por aqui mesmo. São 70 quilômetros”, ela informou, e reafirmou diante de minha incredulidade. Mais 70 quilômetros numa estrada em que a velocidade oscilava entre 20 e 40 quilômetros por hora. Nunca mais que isso.

Mais dez quilômetros de muitas pedras, e começou a cair a chuva. Pense numa “CHUVA”...

***

Vá de celta pra Guaraqueçaba!

Ao nosso encontro vinham jipes, trollers, tanques de guerra... O carro mais comum que veio em nossa direção devia ser um corsa ou um celta... e estava sendo trazido por um caminhão-guincho. A essa altura do campeonato eu até já esquecia da temperatura do motor. Até porque, se houvesse qualquer problema, nem teria como acionar o seguro que eu tinha feito. Celular não tinha sinal ali. Estávamos vários quilômetros isolados da civilização. Comecei a me preocupar com o combustível. A previsão era de que chegaríamos ao destino com a gasolina quase na reserva.

Surgiu uma caminhonete. Fiz sinal para que parasse. Um sujeito simpático abriu o vidro, em meio a toda aquela chuva.

- Falta muito para Guaraqueçaba? – perguntei

- Mais uns 60 quilômetros. – ele disse

- Lá tem posto de combustível?

- Em Guaraqueçaba tem.

- Será que o Palio aguenta esse trajeto?

- Acho que sim... só vai devagar e cuidado com as pedras.

De posse do conselho, persistimos no caminho. E água que vinha do céu! Muita água! Paramos um instante, quando nem o limpador de pára-brisas vencia o volume pluviométrico. A Pri estava num nível de tensão bem pior que o meu. Uma mão agarrada ao assento do banco, a outra agarrada firmemente à porta. Olhos fixos na estrada, sempre me alertando para as pedras e buracos maiores.

Tanto alerta me cansou, e passei o carro para que ela dirigisse um pouco, algo que achei que a tranqulizaria. E assim fomos, com a Pri desviando um pouco dos buracos e rochas gigantes, até que chegamos a uma encruzilhada. Novo boteco. Os caras que bebiam cerveja (onde quer que você vá, sempre tem caras bebendo cerveja...) informaram que o caminho era o da esquerda, por mais 40 quilômetros. Só então vi uma placa, já encoberta pela vegetação da Mata Atlântica, que dizia: “Guaraqueçaba”. E apontava, de fato, para o caminho da esquerda.

Retomei a direção, e seguimos pacientemente o trajeto indicado. Já tinha me acostumado a desviar das rochas, mas ainda me surpreendia com algumas pessoas que, de vez em quando, víamos passando a pé, no meio do nada. Já devíamos estar quase concluindo os 40 quilômetros indicados, quando um grupo de três ou quatro pessoas passou, e um ou dois sujeitos gritaram alguma coisa. Me distraí olhando para o retrovisor, e passei rapidamente por uma das pedras que deveria ter desviado.

Paramos o carro para dar uma olhada. Mas tudo parecia normal. O pobre Palio realmente não era fraco. Todas aquelas pedrinhas espirrando para todo o lado e as pedras maiores a ameaçá-lo. A Pri dizia que nosso Palio era uma Troller disfarçada.

***

É aqui que é aqui?

Enfim, depois de três horas de estrada de pedras e buracos, e outras seis horas de rodovias, chegamos a um pequeno povoado, onde várias casas de madeiras tinham placa de vende-se.

Paramos diante de uma delas, que tinha uma inscrição que fiz questão de fotografar:

“VENDE-SE. DUVIDO QUE VENDA. SE VENDER, NÃO ACREDITO”.

Eu ainda tirava a foto com meu celular quando uma menina de cerca de sete anos se aproximou, e a Pri aproveitou para pedir informação.

- Estamos muito longe de Guaraqueçaba?

- Vocês já estão em Guaraqueçaba. – a menina respondeu, enquanto eu ria da resposta.

A menina foi precisa ao indicar o caminho da pousada. Apenas mais umas três quadras. Começava a escurecer quando chegamos diante de uma pequena placa que dizia “Pousada Flor da Serra”.

A casa parecia uma mansão. Ao menos a viagem tinha valido a pena! Subi a rampa de acesso e dei duas buzinadas diante da construção de dois andares. “Já que demoramos tanto, os donos da pousada devem estar nos esperando”, pensei.

Um casal surgiu na sacada. Foi aí que, depois de comentários da Pri, me dei conta de meu erro. Ali era terreno particular. O casal me orientou a dar ré e continuar mais alguns metros. Foi então que vi que a placa que eu havia lido estava parcialmente encoberta pela vegetação (aparentemente, algo comum na região). Havia uma seta indicando que a pousada era mais adiante.

***

Uma decisão quase imediata

Paramos diante da tal pousada. Um sujeito estranho apareceu quando descarregávamos a mala. “Até que enfim chegaram”, ele disse. Seu nome era Odyr, e já começou fazendo uma revelação que não me agradou. Embora eu achasse que tinha conversado ao MSN com sua esposa, Carmen, era ele quem falava comigo pela internet. Perdi a confiança nele naquele momento.

Ele nos mostrou o caminho até nosso quarto e, no caminho, vi a piscina que não aproveitaríamos. Simplesmente chovia demais. Há tempos eu não via tanta chuva.

Estávamos suados, cansados, grudentos e famintos. O Pingo d’Ouro tinha sido a refeição do dia. Mas, quando perguntamos por comida, veio a informação ruim: a pousada só oferecia o café da manhã.

“Mas tem restaurantes para vocês fazerem uma refeição. Servem pizza”, disse Odyr. A informação nos tranqüilizou. Mas ele, em seguida, eliminou nossos planos de apenas tomarmos banho e irmos à procura de alimentação. “Tomem um banho, acomodem suas coisas, depois voltem aqui [na recepção]. Vocês ficarão mais dois dias, então precisamos traçar um roteiro para que vocês possam fazer o melhor aproveitamento do período que ficarão aqui”.

O quarto era pequeno. Tinha velhas persianas na janela. Uma cama, um criado-mudo e um ventilador. Ao entrar, quase caímos, tal era o desnível do assoalho, que tinha quase o formato côncavo. Logo de cara, notei teias de aranha nos cantos do teto, e antipatizei com todo o resto.

Deixei que a Pri fosse tomar um banho, enquanto eu ia ligar para nossos pais, apenas para avisar que havíamos chegado bem. Sim, embora o celular não funcionasse ali, havia telefone fixo. Depois voltei e também tomei um banho. O box tinha uma cortina de plástico que ficava grudando na pessoa que estivesse tomando banho. O chão estava empoeirado, e sujei o pé assim que saí do banheiro.

De posse de profunda reflexão e intensa aversão ao lugar, anunciei uma tomada de decisão para minha namorada:

- Olha, Pri. O lugar é péssimo. Veja essas paredes como estão sujas! O chão é desnivelado e não tem TV, nem frigobar! Além do mais, com tanta chuva, como vamos aproveitar o passeio? Eu proponho que a gente saia, faça uma refeição num restaurante, passamos a noite aqui, e amanhã de manhã vamos embora. Pegamos toda essa estrada ruim de volta e vamos para a praia de Caiobá ou Guaratuba, e ficamos em outra pousada por lá.

A Pri concordou imediatamente. Havia bastante lucidez nos meus argumentos. Voltaríamos no dia seguinte.

***

Fooooooome!

Mas, embora estivéssemos decididos a ir embora no dia seguinte. Ainda estávamos com fome. Não tínhamos almoçado, e era mais do que hora de comer alguma coisa. Fomos buscar informações sobre onde jantar.

Antes de nos dar a informação, Odyr quis mostrar o que poderíamos fazer no dia seguinte. Sugeriu um passeio até a Ilha do Superagüi e sua praia deserta, onde poderíamos ver o mico-leão dourado. Ou uma incursão a uma cachoeira não muito longe dali. As duas sugestões nos pareceram pouco convidativas. A Ilha exigiria o pagamento de R$ 160 numa travessia de barco, e visitar uma cachoeira não é o melhor programa para um dia de chuva, como parecia prometer o tempo naquela noite.

“O passeio de barco pode sair mais barato se vocês dividirem o valor com o outro casal que está hospedado conosco”, comentou, acrescentando “...apesar de que existe um limite de peso e o barco pode virar com muita gente”. O sujeito tinha a mania de destruir as próprias sugestões que fazia.

Insistimos no roteiro para o lanche, já que a Pri estava ficando verde de fome. Finalmente, Odyr rabiscou em um pedaço de papel um breve roteiro. Segundo ele, havia uma rua principal à beira-mar, onde três restaurantes ou lanchonetes nos esperavam. E um outro local no caminho para lá, onde poderíamos comer pizza. Ao ouvir a palavra pizza, vi os olhinhos de minha namorada brilhando.

Foi mais ou menos neste momento que surgiu diante de nós um sujeito de poucas palavras chamado Álvaro. Ele era o outro hóspede da pousada.

- Como está a esposa? Mais calma? – perguntou Odyr, ao que Álvaro deu a entender que a digníssima mulher, por algum motivo, não estava boa da cara.

Nisso, algo bizarro aconteceu. Querendo tornar mais agradável a estada do casal, Odyr ofereceu carona aos dois, até a rua principal, onde eles poderiam fazer um lanche. Nada de mais, só que ele ofereceu carona no nosso carro!

- Eles estão indo de carro fazer uma refeição... você e sua mulher podem ir junto... – disse, na maior cara de pau.

Eu e a Pri não tínhamos intenção de oferecer carona a ninguém. No entanto, como a oferta tinha sido feita diante de Álvaro, não ficava de bom tom recusar. E assim, aguardamos a esposa do hóspede, Cléa, que afinal se revelou pessoa agradável, e juntos seguimos pelas ruas cobertas de poças d’água, rumo a algum restaurante.

***

As alternativas vão se esgotando...

Seguimos o mapa esboçado por Odyr, e no caminho descartamos duas opções de restaurantes, incluindo o que oferecia pizza. Ambos estavam fechados. Seguimos até a tal rua que ficava à beira-mar. Era uma grande praça, com uma mureta diante da baía. Do lado esquerdo estava o único posto de combustível, nossa oportunidade de ir embora, e que naquele momento estava fechado. Do lado direito, dois restaurantes e uma lanchonete, dos quais apenas a lanchonete estava aberta.

Naquele momento a chuva voltou com intensidade. Terminamos optando pela única alternativa possível: a lanchonete. Álvaro e Cléa nos acompanharam, e foi durante esse tempo que soubemos um pouco mais sobre o casal. Ambos vinham de Manaus, e estavam acostumados a fazer viagens, mas ficaram surpresos com Guaraqueçaba, assim como nós.

Antes de chegarem àquele fim de mundo, onde só era possível chegar após 40 minutos de voadeira (uma espécie de barca), três horas (sofridas) de automóvel, ou sabe Deus quanto tempo em um sacolejante ônibus, os dois estiveram em Paranaguá. Lá encontraram, ao menos, lugar para fazer uma refeição, e puderam ver o fandango, dança típica local.

Mas, Guaraqueçaba sequer abria suas portas aos domingos. Encontramos uma cidadezinha fantasma, onde a salvação de nossos estômagos foram os salgados daquela simples lanchonete, que também poderia ser chamada de boteco, única aberta da lista contida no mapa feito pelo dono da pousada.

Enquanto conversávamos, trocávamos impressões a respeito da pousada Flor da Serra. Sem saber, Odyr havia unido dois casais insatisfeitos. Em lugar de nos convencer a irmos juntos para um passeio até a Ilha do Superagui, ele fez com que ampliássemos nosso desejo de ir embora.

Cléa nos contou que estava mais indignada porque, ao chegar, Odyr a advertiu sobre as cobras que poderiam estar dentro do quarto. E que ela deveria dar uma boa olhada antes de entrar. Aliás, foi algo que ele não nos alertou.

- Em Manaus existem cobras... mas são todas domesticadas! – brincou Cléa.

De fato, as portas dos quartos estavam todas abertas quando chegamos de viagem. Nem sequer olhamos embaixo das camas. Haveria soro antiofídico naquele lugar onde muitos tentavam, sem sucesso, vender suas casas?

A Pri devorou rapidamente uma coxinha, enquanto eu comia outro salgado. Segundo ela, era a melhor coxinha do mundo. Com certeza a opinião era reflexo da fome. Ela resolveu pedir mais uma, e descobriu que aquela tinha sido a última coxinha da casa. Confesso que tive pena dela. Mas, estávamos no mesmo barco. Felizmente, em terra firme. Ainda esperamos para ver se algum dos restaurantes abriria. Como a resposta foi negativa, compramos mais um refrigerante, um salgadinho, um pedaço de torta de limão, e retornamos os quatro para a pousada.

Eu e a Pri voltamos com certeza ainda maior de que íamos embora pela manhã. Cléa e Álvaro estavam avaliando se ficariam mais um dia apenas.

Ao chegar à pousada, Odyr perguntou se íamos fazer o passeio no dia seguinte.

- Acho que não, hein... – disse a Pri

- A previsão para amanhã é de tempo limpo – ele comentou, enquanto procurávamos ir para o quarto, e fugir da chuva que não parava de cair.

“Acho que não, hein...”, pensei.

Ao longe, o barulho de coiotes se fazia ouvir. A Pri me disse que, na verdade, eram motosserras. Uma boa olhada sob a cama confirmou que não havia serpentes ali. Os pernilongos não nos atacaram. O ventilador deve ter espantado boa parte deles. Um ruído se fez ouvir no teto. Acendi a luz. Não vi nada, a não ser o vulto de uma lagartixa, mais tarde. Numa noite abafada, após um dia cansativo, dormimos com o barulho da chuva que não parava, esperando um novo dia para ir embora.

***

Carpimos o trecho!

Acordamos e deixamos a mala semipronta para irmos embora. Atravessamos rapidamente sob a chuva que caía e fomos tomar o café. Isso, ao menos, era servido na pousada. Logo depois de nós, Álvaro e Cléa também chegaram. Em relativo silêncio, ainda com sono, comemos um pãozinho com queijo e um pedaço de bolo.

Odyr nos cumprimentou com um bom dia, e emendou: “Dia de chuva é complicado, porque não dá pra fazer nada”. Lá vinha ele trazendo mais argumentos para irmos embora. Terminado o café, fui até ele e revelei que estávamos de partida.

Nada falei sobre o fato de não ter gostado muito da pousada. Mas mencionei outra grande verdade: “gosto de natureza, mas nem tanto a ponto de viver sem um pouco da agitação urbana, uma TV e um frigobar”.

Ele aceitou muito bem, até eu dizer que queria de volta o dinheiro referente à diária da qual não iríamos usufruir. Me disse que teria que ligar para a esposa para ver se ela iria deixar. Fiz questão de lembrar que eu tinha feito negócio com ele por MSN, revelação essa (surpreendente) que ele mesmo me fez quando chegamos. Depois de um princípio de discussão, consegui arrancar metade do valor de volta. “Assim dividimos o prejuízo”, argumentou, dizendo que teria que pagar pela limpeza dos quartos, que já estava contratada. Espero que tenha sido verdade, porque tinha muita poeira lá dentro.

Nos despedimos de Álvaro e Cléa, e voltamos ao Palio, antes que a chuva, então mais calma, nos molhasse em demasia. Segundo Odyr, havia apenas um trecho que da estrada que podia estar alagado. Mas, conhecendo o caminho tortuoso, foi mais fácil guiar. E também mais tranquilo. Eu e a Pri estávamos menos tensos e, pra falar a verdade, à medida que nos distanciávamos de Guaraqueçaba eu me sentia melhor. Mal esperava para ver novamente meu celular com sinal de torre.

Como disse minha namorada... alguma coisa muito ruim deve estar aprisionada em Guaraqueçaba, para que tenham tornado tão difícil chegar até lá. As três horas de viagem pareceram apenas uma. Num instante chegamos até Morretes, a tempo de eu comer o barreado que desejava, e a Pri comer o peixe que queria.

Enquanto almoçávamos, no restaurante à beira do Rio Nhundiaquara, que corta a cidade, nos surpreendíamos com a altura das águas, que deviam ter subido pelo menos três metros. Um coqueiro inteiro passou flutuando, carregado pela correnteza. Tudo isso fotografei com meu celular, sem saber que mais tarde eu o perderia. Mas aí é outra narrativa. Na verdade é a mesma. Mas é melhor parar por aqui, senão essa história não termina nunca.

Basta dizer que tenho pouquíssimas fotos da viagem, pois meu celular é que estava com a maior parte dos registros da viagem até Guaraqueçaba. Depois de Morretes, fomos a Caiobá e Paranaguá. E, se não há fotos para provar, ainda assim há muito para lembrar.

De volta das minhas férias, meu colega Alan, que trabalha na diagramação do Jornal, perguntou como eu tinha aproveitados as férias. Respondi que fui para Guaraqueçaba, achando que ele não compreenderia o alcance de minhas palavras, já que a maioria das pessoas não sabe onde fica isso, e apenas pensa que se trata de algum lugar em São Paulo. Em lugar disso, ele arregalou os olhos e perguntou: “Você conseguiu chegar?”

Sim, ele sabia do que eu estava falando...

30 de nov. de 2010

Conspiração ‘Tropa de Elite’

“Eu não sei o que é... mas alguma coisa está errada”. As palavras são de um cidadão acostumado a ver as ruas da área do Morro do Alemão, antes atulhadas de gente, agora vazias. Os olhos dele não demonstravam tranquilidade, paz ou satisfação com a repentina proteção da polícia e do exército. Era um ar de incredulidade e indignação.

O sujeito foi apenas um dos muitos entrevistados pelas inúmeras reportagens exibidas na televisão desde que um exército tomou conta daquele que agora é apontado como o maior abrigo da criminalidade no Rio de Janeiro. Antes, era apenas um lugar sobre o qual se evitava falar.

Me identifiquei com o sujeito entrevistado. Se é verdade que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”, terei de ser canonizado um dia, tal é o nível de meu desconfiômetro neste momento.

Tenho nojo quando vejo qualquer reportagem sobre o tema na televisão ou onde quer que seja. Enviaram os repórteres para onde as balas estão sendo disparadas, para testar até que ponto eles demonstram sua competência ou pavor. Enquanto isso, continuam perguntas que irão demorar muito tempo para serem respondidas, pois as respostas não estão na linha do front.

“Por que só agora levar o policiamento a um lugar que, aparentemente, todos sabiam ser um covil de ‘marginais’”?

“Como, com tantas equipes cercando o Morro, os maiores traficantes são justamente os que fogem?”

E, uma boa observação feita por Eugênio Bucci no site Observatório da Imprensa: “Como os traficantes têm tantas granadas, e nenhuma camisa?”

Tem algo de muito errado em tudo isso. E aqui eu aponto mais uma teoria da conspiração, porque estou inclinado a não acreditar em coincidências. As hipóteses explicativas envolvem futebol, cinema e política.


1º ponto: O futebol, como todos sabem, é uma máfia tão grande quando a fórmula 1. Esta foi desmascarada por Rubinho Barrichello, há vários anos. Os imbecis de plantão continuam acompanhando as corridas, como se fosse possível para um piloto chegar ao topo do pódio graças apenas à performance na pista.

Assim como os vencedores de cada campeonato de corrida são conhecidos antes mesmo de começar a competição, no futebol não é diferente. Sendo assim, vamos admitir como verdade que FIFA e governo já sabiam que o Brasil seria escolhido como país sede da Copa do Mundo de 2014. E que o governo precisaria tomar medidas para garantir o sucesso na realização do evento.


2º ponto: Todos sabem que o Rio de Janeiro jamais ofereceu a segurança para a realização de um evento dessa magnitude. Mas era preciso mostrar ao mundo que não há o que temer vindo ao Brasil. Assim, foi iniciada a maior campanha publicitária antecipada da história. ‘Nunca antes nesse País’ se viu melhor produção cinematográfica do que Tropa de Elite. O primeiro filme apresentou ao mundo aquilo que muitos acreditavam [alguns ainda acreditam] não existir: policiais honestos e incorruptíveis.

A sequência do filme, lançada há poucos meses, se estendeu para a política, revelando a forma como candidatos se elegem para importantes cargos tendo o apoio de traficantes do Rio de Janeiro. Neste segundo filme, um maior policiamento consegue acabar com os traficantes, mostrando que, sim, a segurança existe. O problema agora é a corrupção na política. Ao fazer isso, os filmes procuram mostrar que é possível confiar na polícia brasileira, e que o Rio de Janeiro pode ser um lugar seguro, embora governado por ladrões.


3º ponto: O policial Rodrigo Pimentel, cuja história deu origem ao personagem Capitão Nascimento no filme Tropa de Elite, é largamente entrevistado, atestando como verdadeiras muitas das coisas que são mostradas pela ficção. Ao mesmo tempo, defende o governo do Rio, assegurando que o governador Sérgio Cabral tem feito o possível para melhorar a segurança, mas que ainda há muito para fazer.

Poucas semanas depois, é dada a ordem para invasão do Morro do Alemão. Mesmo com toda a megaoperação montada, justamente os maiores traficantes escapam, a pé, ainda que filmados e perseguidos até mesmo com helicópteros. A mídia colabora, apontando a possibilidade de terem escapado pelo esgoto, e trazendo textos poéticos que inspiram paz e harmonia, mas que não esclarecem nada. Apenas uma grande publicidade sobre o sucesso da operação.


HIPÓTESE: Tudo isso faz parte apenas de um grande teatro montado para exibir ao mundo o que está sendo feito para que o Rio de Janeiro esteja seguro para a realização da Copa de 2014. Certamente foi feito um acordo com os traficantes, que saíram muito antes de começar qualquer operação. Quantos policiais morreram? Quantos traficantes morreram? Quantos foram presos? Segundo o site IG de notícias, apenas 20 pessoas foram detidas no domingo. Vinte, dos 600 ligados ao tráfico que se esperava encontrar. O que demonstra que houve um acordo para que os "peixes grandes" pudessem escapar.

Enquanto a população assiste um reality show tão falso quanto qualquer outro reality show, os traficantes escaparam [sozinhos?], se espalhando por aí. E agora, é só aguardar Tropa de Elite 3.

18 de nov. de 2010

A insuperável RED original










Nesta semana pude ir ver no cinema o filme “RED”, traduzido para o português como “Aposentados e Perigosos”. Mais uma adaptação dos quadrinhos para a sétima arte. Considerando alguns trabalhos interessantes feitos recentemente, a exemplo de Batman (‘Begins’ e ‘Dark Knight’) e Watchmen, fui com a cara e a coragem ver a produção. Não sem antes procurar pela HQ que deu origem ao filme.

Embora tenha ficado sabendo que a história (de 2003) foi relançada, a um preço simbólico, por ocasião do filme, não encontrei livraria ou banca de revista que comercializasse a obra. Terminei encontrando o material para download nessa inacreditável fonte de conhecimento e total desrespeito aos direitos autorais que é a internet.

Se por um lado a internet é vilã, ao oferecer de graça algo que mereceria ser pago, por outro ela auxilia pessoas como eu, que não têm acesso ao produto por questões puramente logísticas.

A HQ “RED” é dividida em três capítulos, curtos, para serem lidos de uma vez só. Mas com uma impressionante riqueza nos diálogos, nos traços e no uso das cores, aplicadas sem excessos,
combinando assim com a narrativa sem piadas e que apresenta algumas horas na vida do ex-agente da CIA, Paul Moses. Aposentado, ele vive sozinho tentando esquecer atitudes suas das quais não se orgulha, mas que foram necessárias ao seu país (EUA) em épocas passadas. A nova direção da CIA passa a considerá-lo uma ameaça, devido às informações que possui, e aí se inicia uma caçada ao “herói”.

Seus perseguidores não têm nenhuma chance. Mais ou menos ao estilo “Rambo” (de forma, talvez, mais convincente), ele se livra de todos, um por um, contando com pouquíssima ajuda. Tudo o que ele queria era tranquilidade em sua aposentadoria. A partir da sua caça, ele só quer alcançar aqueles que ordenaram sua perseguição.

Sem poupar sangue entre os quadrinhos, a narrativa é extremamente movimentada, mas boa parte da história é mostrada com silêncios, e grandes sacadas. Entre elas, um flashback no qual Moses recorda de algumas das suas missões, incluindo a participação no dia do assassinato do então presidente John F. Kennedy.

A história termina sem uma conclusão fechada, embora o final implícito seja praticamente evidente ao leitor. Mas, bem poderia ter uma continuação. Além disso, em meio à roteirização, vários fatos são apresentados, sendo compreendidos, mas não totalmente explicados. Por essa razão, criei uma expectativa em torno do filme homônimo, que poderia preencher as lacunas deixadas pela HQ.

Mas o que aconteceu no cinema foi uma decepção. Em Watchem, a adaptação para o cinema fez com que todo o aspecto visual e vários trechos de diálogos fossem reaproveitados. Com isso, pode não ser a perfeita adaptação da HQ para o cinema, mas... quem quer isso? O que se espera é o mínimo.

Os dois últimos filmes de Batman, por exemplo, souberam explorar o que torna o personagem mais realista: como o uso da tecnologia, de sua condição de milionário, e sua habilidade na luta corporal.

Enquanto isso, “RED” nada tem da história em quadrinhos tão bem elaborada por Warren Ellis no roteiro e Cully Hammer nos desenhos. A começar pelo título. Nos quadrinhos, “RED” se refere ao código vermelho originado com as reações de Moses em sua perseguição. No filme, não passa de uma sigla boba para “Retired Extremely Dangerous” (Aposentados Extremamente Perigosos). O nome Moses é trocado, e de Paul ele passa a ser Frank. Sua amiga Sally, que tem participação reduzida na HQ, no filme passa a se chamar Sarah, e protagonizar em excesso a história.

O roteiro e desenho da HQ trazem o drama vivido por Moses, que não consegue esquecer seu passado, e ainda precisa lidar com o fato de ser perseguido. No filme, ele encontra com antigos colegas de trabalho, um dos quais participa da trama quase que exclusivamente para fazer piadas. O próprio Moses, que é um sujeito durão, que fala entre dentes e quase não sorri nos quadrinhos, no filme é interpretado por um Bruce Willis que lembra em muito o policial de “Duro de Matar”, e apaixonado por uma funcionária do “INSS”. Isso anula por completo a personalidade criada no roteiro original.

Pra finalizar, as cenas de ação perdem em muito para as apresentadas pela história original. Há pouquíssimas semelhanças entre os dois trabalhos e, se não fosse o mesmo nome dado ao filme, dificilmente haveria um processo por plágio ou algo assim. Algumas ideias são utilizadas mas, quem não conheceu a HQ, indiscutivelmente irá aproveitar melhor a sessão no cinema. Do contrário, é provável que fique uma sensação de vazio, a esperança inútil de uma guinada em meio à exibição da película, e a certeza de que “RED” é, de fato, uma obra-prima das HQs.

Download RED - capítulo 1

Donwload RED - capítulo 2

Download RED - capítulo 3

31 de out. de 2010

Viagem a Rio Azul – parte 3

"O Michelângelo de Rio Azul"

Gostaria de ter escrito sobre a conclusão de nossa viagem a Rio Azul no mesmo dia em que eu e minha namorada retornamos para Ponta Grossa. No entanto, vários dias se passaram, voltamos ao trabalho logo após o feriado prolongado do Dia da Padroeira do Brasil. E tivemos uma semana de apenas três dias para fazer, no jornal, o que fazemos em cinco. Chegamos a um novo final de semana exaustos e a uma nova semana repleta de tarefas. Agora, enfim, posso narrar o que houve no último dia de nossa estada no pequeno município de Rio Azul.

“Vocês atravessam a rodovia na saída da cidade, reto, em direção a uma estrada de cascalho. Dirija por cerca de nove quilômetros, e você irá chegar a um vilarejo. Ali você vai ver um boteco e uma rua mais estreita que leva à igreja. Se as portas da igreja estiverem fechadas, voltem para falar com o dono do boteco, que ele entrega a vocês as chaves. Digam que foi a Regina, minha esposa, quem sugeriu que vocês fossem conhecer o lugar”.

Minutos depois, iniciávamos o percurso rumo ao tal vilarejo, cujo nome esqueci de perguntar. A estrada não era tão ruim, mas descobri que havia várias pequenas aglomerações de casas, o que me levava a questionar se já não teríamos deixado para trás o tal vilarejo. Decidi perguntar.

Vi um galpão nos fundos de um terreno, e estacionei ao notar dois sujeitos no local. Saí do carro e cumprimentei os dois de longe, perguntando se eles sabiam onde ficava a tal igreja. Estranhamente, os dois vieram em minha direção, fazendo com que a Pri, ainda no carro, julgasse que eu seria imobilizado. Especialmente considerando que um deles veio enrolando uma blusa nas mãos. Mas, se limitaram a dar a informação. Ainda devíamos seguir em frente por mais alguns quilômetros. O nome do lugar para o qual nos dirigíamos era “Cachoeira dos Paulistas”.

Dirigindo um pouco mais, chegamos até um boteco que parecia ser aquele descrito por Marcos, o dono da pousada. Virando à direita, a rua estreita levou não apenas até uma, mas a duas igrejas. Uma antiga, de madeira, e outra nova, feita de tijolos, e ainda em cimento cru.

Não víamos quase ninguém nas ruas. Fomos até a frente da igreja, e descobrimos que as portas estavam fechadas. Então, de fato, voltamos para falar com o dono do boteco, que atendia a alguns clientes em uma janela, já que o estabelecimento estava fechado naquele feriado de 12 de outubro.

O cidadão pareceu indiferente, mas nos entregou um molho de chaves, dizendo “esta aqui abre a porta lateral”. Enfim, voltamos até a igreja e giramos a chave para encontrar algo bem diferente do que eu imaginava.

A igreja era inteira erguida em madeira. E as paredes e o teto tinham sido todos pintados de forma ricamente detalhista, e em cores fortes. Nas paredes laterais, uma pintura feita a pincel dava a ilusão de que a tinta havia escorrido. Nas paredes de trás. O pincel tinha sido tocado repetidas vezes com tinta azul, criando vários pontos, em meio a ilustrações de flores, algo que me fez lembrar de Van Gogh. As colunas que sustentavam a igreja receberam vários desenhos que, feitos em sucessão, lembravam azulejos. E nas partes superiores, mais perto do teto, ilustrações ricas em detalhes mostravam cenas descritas pela Bíblia. Entre elas, a Santa Ceia. No teto, desenhos simétricos impressionavam por sua precisão.

Tudo isso maravilhou a Pri e eu, que não parávamos de tirar fotos. Eu com meu celular, ela com a câmera. Havia vários papéis picados no chão, talvez por conta de algum evento recente. Ali ficamos por cerca de dez minutos. Jamais pensei que pinturas como aquelas seriam encontradas em paredes de madeira.

Depois, trancamos novamente as portas, e retornamos até o boteco. O proprietário estava em frente à casa dele, quando paramos para entregar as chaves. “Uma parte da população quer derrubar a igreja, para dar lugar à nova. Espero que isso não aconteça”, nos disse. “E, onde está o homem que fez essas pinturas?”, perguntei. “Mora aí em Rio Azul, mas não tem família. E acho que está vivendo no asilo, já está bem velho”. “E onde fica o asilo?”, perguntei. “Perto da pousada”, ele disse.

- O que acha, Pri... Vamos procurar o velhinho?

- Vamos. – ela disse.

Assim, seguimos de volta até a pousada. Ali perto encontramos o tal asilo. Um interfone coberto por teias de aranha parecia dizer para não entrarmos, enquanto dezenas de velhinhos tomavam sol diante do asilo, que ficava no alto de uma espécie de colina. “Podem subir, o interfone não funciona!!”, alguém gritou.

Subimos uma escadaria. No topo, duas mulheres junto da janela pareciam as cozinheiras do lugar. Ou talvez eu tenha pensado isso por estar perto da hora do almoço. Os fogos de artifício tinham acabado de ser lançados, como acontece tradicionalmente ao meio-dia, no Dia da Padroeira do Brasil.

Não sabia o nome do pintor. Mas, quando citei a igreja decorada, uma das funcionárias logo disse “Ah, eles
estão falando do Petreski!”. Nos levaram até um senhor em uma cadeira de rodas. Os lábios não se moviam direito enquanto ele falava bem baixinho conosco. Antonio Petreski tem cerca de 90 anos. Está no asilo há alguns meses. Sua memória está fraca, mas quando perguntamos se foi ele quem fez a pintura da igreja, não teve dúvidas. “Mas, é claro!”.

Surpreso eu fiquei quando a funcionária nos perguntou: “Qual das igrejas vocês conheceram?” Só então soubemos que Petreski não decorou apenas uma igreja, mas várias da região. Ela nos mostrou o topo de uma outra igreja, vista dali no centro da cidade. Apenas mais uma das que ele havia pintado.

Em meio a um discurso confuso, Petreski deu a entender que ainda queria concluir a obra iniciada em outra igreja, e que precisava corrigir uma pintura que fez e que não ficou perfeita como ele esperava. Mas então voltava a divagar, e dizia coisas difíceis de serem entendidas.

“Ele costumava pintar as igrejas à noite. Quando terminava a obra, deixava tinta e pincéis, tudo no local”, contou a funcionária. Foi triste saber que ele estava lá, ignorado em um asilo. O “Michelangelo de Rio Azul” corre o risco de ser esquecido. A esposa de Marcos, segundo ele nos explicou, tenta através de um videodocumentário mostrar a importância do trabalho de Petreski. Para que, ao menos a igreja que conhecemos, não seja derrubada.

Fomos embora sabendo que tivemos uma experiência única. O saldo da viagem: um simpático agricultor dedicado às amoras. Um parque com cachoeira que vale a pena conhecer. E uma obra de arte escondida em um vilarejo desconhecido... perto de onde vive seu autor... num asilo, em uma cadeira de rodas. Fica no blog Universo e Afins a homenagem e registro a Antonio Petreski. Certamente um dos maiores artistas que existem e, como costuma acontecer, vive sem o sucesso e reconhecimento merecidos. Quem for a Rio Azul, visite os locais e pessoas aqui mencionadas. Descobrirá que viagens interessantes não se resumem à praia ou a grandes pontos turísticos. Às vezes as descobertas mais interessantes estão onde a maioria não procura. Em pequenos lugares como Rio Azul ou... ‘Cachoeira dos Paulistas’.

11 de out. de 2010

Viagem a Rio Azul - parte 2

Conhecendo a produção de amoras

Para fazer uso da internet wireless aqui da pousada, precisei de ajuda. Inicialmente, acreditei que poderia fazer isso sozinho, peguei o telefone e liguei para o Marcos. “É bem simples...”, ele disse. Mas a rede não foi detectada, e precisei levar o netbook até o sujeito para que ele configurasse. Enquanto caminhava pela trilha de pedrinhas que conduzia à casa do cidadão, notei que a rede tinha, enfim, sido detectada. Mas aí o Marcos já estava vindo ao encontro, então aproveitei para pedir a ele um “T” emprestado.


Foi assim que pude recarregar a bateria do computador...

Bom, isso foi ontem. Hoje, o plano era irmos até a tal fábrica de framboesas que existe na cidade. Ao pedir informação ao Marcos sobre como chegar lá, o início da resposta foi “É bem simples”. Aí vi que podia ser um pouco mais complicado. Mas, segundo ele explicou, não ficava longe. Bastava seguir o asfalto até o trevo na saída do município, e então seguir por outros seis quilômetros por uma estrada de cascalho.

Íamos entrar no carro, quando notei que um passarinho saía voando rapidamente, da frente do espelho lateral do Palio. No dia anterior, havíamos percebido que o pardal gostava de ficar se olhando no espelho, e parecia acreditar estar vendo outro animal da mesma espécie. Ontem dissemos “que bonitinho...” Hoje dissemos “que cagada!” O bichinho riscou o espelho, parte da lataria e ainda cagou em toda a parte superior do retrovisor!

Deixando o pardal para lá, seguimos rumo ao caminho indicado por Marcos. Chegamos ao trevo e pegamos a primeira estrada de cascalho que encontramos pela frente. A Pri ficou com medo depois que vimos que a estrada levava apenas a um pequeno barracão, com uma fornalha acesa.

Voltamos, e somente então encontramos outra estrada de cascalho. Um casal que empurrava carrinho com bebê nos informou... era realmente aquele o caminho para a indústria Framora. Cerca de seis quilômetros depois, em uma estrada com alguns buracos, chegamos a um local onde uma placa, à direita, anunciava: “FRAMORA”.

Entrando com o carro, vimos que um senhor estava na varanda da casa, e imaginamos que deveria ser o proprietário. Guilherme Gurski é descendente de poloneses, e natural de Rio Azul. A sua fazenda, no lugar onde está hoje, ele possui há cerca de 30 anos. Há cerca de 15, depois de levar um prejuízo de cerca de R$ 200 mil com a plantação de batatas, decidiu investir em outra coisa. Optou pelas frutas vermelhas: framboesas, amoras e morangos.

O início, ele conta, foi difícil. Mas depois de cerca de dois anos pegou o jeito do novo trabalho, mesmo com muita gente dizendo que não daria certo. “Aqui em Rio Azul a grande maioria das pessoas planta fumo. Mas eu já disse que é um erro, porque vai chegar um momento em que vai ser proibido. E aí os agricultores precisam estar preparados, tendo uma cultura diferente para o sustento”, comenta.

De fato, Guilherme é um homem à frente de sua época. Enquanto todos diziam que as amoras não dariam retorno, ele arriscou e obteve êxito. Em cerca de um hectare, ele produz aproximadamente 12 toneladas de amoras por ano. Ainda tenta formar uma cooperativa. Com 200 toneladas seria possível exportar a produção. Por ora, serve para gerar renda para a família, e para pagar cerca de quatro funcionários contratados por ele na época da colheita.

Parte das amoras é vendida in natura. Mas muito do que é colhido, Guilherme industrializa em sua propriedade. No lugar onde ele chama de “fabriqueta”, ele nos mostra os equipamentos que adquiriu através de financiamento. São máquinas de fazer sucos e câmaras frias. Numa delas, boa parte da produção de 2009 continua armazenada, entre itens industrializados e amoras em caixas.

“Comecei guardando todas as amoras em freezers. Eram oito freezers e ainda faltava lugar”, explica Guilherme, que não viu saída senão trabalhar com os derivados das frutas. Numa sala ele guarda, em prateleiras, geleias, vinhos e licores das frutas que produz. Tudo cuidadosamente envasado, etiquetado, e já com os preços à mostra, para os visitantes que vêm conhecer sua propriedade e o trabalho com amoras.

No entanto, ele reclama da falta de apoio para o trabalho. A burocracia para manter a propriedade e a produção é muito grande. A venda das amoras se complica para alguns mercados, porque, apesar de ser produto totalmente orgânico, a obtenção do selo que atesta isso também exige burocracia. Ele já buscou apoio também em Curitiba. Verba para isso existe, já que o governo incentiva ao produtor a procura por culturas alternativas ao fumo. Mas, por razões puramente políticas, segundo ele, esse incentivo financeiro não chega.

Quando ele diz isso, não se refere apenas à produção e venda de amoras, mas também ao turismo rural. Depois que seu trabalho ganhou destaque em algumas reportagens na televisão, até mesmo pessoas de outros estados, como do Rio de Janeiro, estiveram em sua fabriqueta. Mas as estradas para chegar ali são ruins, não há sinalização nem propaganda, salvo a parceria com a Pousada Villa Vitória, que nos indicou a visita ao local.

Enquanto isso, a produção de fumo continua em alta na região. Até o momento que, de uma hora para a outra, o plantio de fumo não for mais permitido. “Aí todos vão correndo ter que aprender a plantar outra coisa. Esse é o momento de buscar uma alternativa”, ensina Guilherme Gurski que, além de dar o pontapé inicial no plantio de algo diferente na região (apenas mais um agricultor trabalha com amoras nos arredores), também tem consciência ambiental.

Toda a área onde, no passado, ele desmatou para o plantio de feijão, batata e milho, hoje ele está reflorestando. “Estou quase saldando minha dívida com a natureza”, ele diz, mostrando uma nova mata que se ergue atrás de sua casa, onde antes só havia campo.

Deixando de lado o aspecto mais mercadológico da produção de amoras, Guilherme Gurski vive bem em sua terra. A casa é confortável, e a hospitalidade dos donos (ele e sua esposa, Maria, nos receberam muito bem com um delicioso suco de frutas vermelhas com laranja) é inquestionável. Eles têm vocação para se relacionar com as pessoas.

Mas já passava de 11 horas, e o assunto estava rareando, de modo que compramos dois litros de licor e um pote de geleia, e partimos de volta para a pousada, onde almoçaríamos em seguida.

***


Almoçamos na pousada. Macarrão ao molho branco. Apenas mais um casal no restaurante. Nada do Dedé... talvez ele não tenha vindo para cá. Fomos, enfim, até a tal pedreira. Não fica muito longe também. A entrada não é cobrada. É um lugar até bem cuidado. Talvez porque não tenha tanto público, ou porque estivemos no local em plena tarde de segunda-feira. Caminhamos por uma trilha. Nenhum bicho à vista, a não ser os malditos mosquitinhos “porva”, que insistem em me atacar. Mas não é possível chegar junto da cachoeira. Não há grandes espaços com areia, apenas pedras. A água não é tão cristalina. Fica mais num tom verde, embora não pareça poluída.

A lanchonete do local estava fechada. Ficamos ali por algum tempo, até os ataques de insetos se intensificarem contra a minha pessoa. Depois demos olhada em uma gruta na qual havia uma imagem de Nossa Senhora e algumas velas acesas.

Retornamos à civilização, onde compramos gêneros alimentícios antes de retornar à pousada. Não pude formar uma opinião sobre as pessoas daqui. Marcos e Guilherme são pessoas voltadas para o turismo. Em algumas lojas onde estivemos, as funcionárias me pareceram atenciosas com a clientela. Um bêbado andava pela rua ameaçando assaltar duas mulheres, que faziam piada dele. A principal rua do centro não é muito movimentada. Vi agências do Sicredi, Banco do Brasil e Itaú. Um bom supermercado. Uma carroça. Alguns ciclistas. Parece ser lugar tranquilo. Bom para passar alguns dias, mas não consigo me imaginar vivendo assim. Preciso de barulho, poluição, agito... correria. E cinema... “Tropa de Elite 2” está em cartaz.

Amanhã devemos voltar a Ponta Grossa, e talvez tenhamos tempo de ver o filme. Mas, primeiro, veremos se conseguimos permissão para visitar a tal Igreja do Michelangelo de Rio Azul. Veremos...

10 de out. de 2010

Viagem a Rio Azul - parte 1

Conhecendo a região

Vai ser bom quando
todas as tomadas do Brasil forem padronizadas. Quem sabe aí poderei ligar o netbook normalmente, sem me preocupar com o "T" que esqueci de trazer. Sorte que me emprestaram um. Estou em Rio Azul... cidade pequena, mas com banco, posto de gasolina, lanchonetes. Há civilização, enfim. Eu e minha namorada, Pri, decidimos aproveitar o final de semana prolongado viajando a algum lugar próximo de Ponta Grossa. Escolhemos Rio Azul depois que vimos na internet informações sobre uma pousada, que descrevia algumas das atrações locais, entre elas uma pedreira com cachoeira e uma fábrica que trabalha com amoras.

A viagem até aqui foi tranquila. A única surpresa foi quando, já bem perto de nosso destino, três sujeitos montados em cavalos cercavam um automóvel estacionado à beira da rodovia. Eu me concentrei em desviar dos cavalos, e não pude dar atenção ao fato em si. Mas a Pri disse ter visto o momento em que o motorista do carro era obrigado a entregar a carteira. Seria um assalto à diligência, no estilo faroeste? Seria Rio Azul uma terra sem lei??

Algo para descobrir mais tarde. É curioso pensar que a viagem que fazemos hoje, de certo modo, começou a ser planejada há dez anos...

Eram meados do ano 2000, e não era uma “odisseia no espaço”. Eu ainda estava concluindo o ensino médio, e tinha decidido fazer vestibular para o curso de jornalismo. Era a primeira vez que eu fazia uma prova de vestibular, e ainda não sabia que os candidatos eram reunidos nas salas seguindo a ordem alfabética de seus nomes.

Quando me dei conta, eu estava numa fileira de carteiras que reunia quatro Danilos. Bem perto estava um outro Danilo, sujeito que parecia despreocupado. Faria prova para Direito, mas estava bastante calmo. Numa rápida conversa antes de iniciar as provas, ele disse que não era de Ponta Grossa. Era de uma pequena cidade chamada “Rio Azul”. Ninguém que estava ali tinha ouvido falar antes na localidade. “É... ninguém conhece mesmo...”, ele disse.

Eu não consegui uma vaga na universidade naquela edição do vestibular. Então, precisei fazer nova prova, dessa vez no campus central da universidade. Na entrada, quem eu encontro é o mesmo Danilo, que também não tinha conseguido passar no primeiro vestibular. Novamente, estávamos na mesma sala.

Antes de fazer as provas, cada um dos candidatos precisava se apresentar à frente e assinar um documento. Quando meu colega Danilo foi chamado, aconteceu algo impressionante. Sua mão tremia tanto, que ele não conseguia assinar o próprio nome. “Fique calmo”, disse a monitora. “É que dessa vez eu estudei”, ele respondeu. Uma narrativa para ilustrar o quanto um vestibular pode atacar os nervos até mesmo do mais tranquilo candidato, desde que ele realmente esteja se dedicando para ser aprovado.

Sempre associei essa história ao nome da cidade de Rio Azul. Por isso achei que seria interessante conhecer o lugar, quando olhava o mapa do Paraná, nesta semana, em busca de um destino para este domingo...

Depois de cerca de duas horas de viagem, chegamos facilmente ao local. Ambiente agradável. Pousada Villa Vitória. O Diogo, que trabalha conosco no jornal, estava saindo com sua namorada da pousada, para um passeio, naquela hora. Ele soube que vínhamos para cá, e decidiu vir também...

O dono da pousada, Marcos, é um sujeito simpático, como deve ser o proprietário de qualquer pousada. Nos mostrou os chalés, e ficamos no de número sete. Segundo ele, estamos com uma celebridade como nosso vizinho. Dedé, o humorista que fez parte dos saudosos Trapalhões, está hospedado aqui, porque seu circo está na região.

Ele também nos contou que aqui existe uma igreja cujos desenhos da pintura interna foram todos feitos à mão por um único artista. Um homem de cerca de 90 anos, que ocupou pelo menos 20 para concluir sua obra. É o Michelangelo de Rio Azul. Se o encontrássemos poderia ser algo interessante. Ou talvez pudéssemos apenas visitar a igreja, embora tenham nos dito que o acesso é restrito.

Neste momento a Pri está tirando um cochilo. Cansou da viagem. Curioso, pois eu que dirigi não cansei desta vez. Acho que o simples fato de me afastar um pouco do trabalho já fez com que me sentisse mais descansado. O plano para amanhã é visitarmos a tal pedreira e, talvez, a fábrica de produtos de amoras e framboesas.

Já estamos planejando almoçar por lá. O Marcos nos disse que a proprietária do lugar é descendente de italianos, e excelente cozinheira...

5 de out. de 2010

A megalópole princesina no 'Observatório'

Às vezes eu gostaria de ter mais tempo para refletir sobre a profissão dos jornalistas. Mas, como sou um deles, não tenho tal tempo.

A maioria dessas reflexões são breves, normalmente relacionadas a fatos curtos ou, às vezes, apenas imagens. E um item que sempre acho interessante no jornal, e especificamente no Jornal da Manhã, onde trabalho como repórter (de cultura, agronegócios, comportamento, saúde, além de editar colunas sociais e textos sobre automóveis) é uma seção chamada "Observatório".

Assim como os blogs foram se simplificando até se transformarem no que é hoje o Twitter, o Observatório é a inevitável evolução [?] de algo que tínhamos entre 2007 e 2008 chamado "Ensaio".

O Ensaio era um espaço dedicado exclusivamente aos fotógrafos do JM, onde um tema era escolhido e as imagens buscavam ilustrar esse assunto. Várias imagens interessantes chegaram a ser publicadas, sempre aos domingos.

Depois que o Ensaio deixou de fazer parte dessas edições, chegou um momento em que surgiu o "Observatório". Ao invés de várias imagens publicadas em uma página de domingo, o Observatório publica uma única imagem a cada edição diária.

A beleza disso reside no fato de essa imagem ser extremamente atual e reveladora, ao sintetizar muitas vezes um contexto histórico, cultural, social ou econômico. Muitas vezes, seu real significado passa até mesmo despercebido.

Dia desses, o fotógrafo Rodrigo Czekalski fez o registro de um morador de rua, dormindo na escadaria da igreja. Ao seu lado, apenas um cachorro. Moradores de rua sempre têm ao menos um cachorro.

O clique era a perfeita junção de uma série de elementos, que poderiam ser elencados da seguinte forma: religiosidade, miséria, abandono, cansaço ou fidelidade (no caso do cão). Mas foi mais que isso.

Um ou dois dias depois, Rodrigo recebeu um telefonema no jornal. Uma mulher queria saber mais detalhes acerca da foto. O morador de rua era seu parente, pelo qual há tempos ela procurava.

Rodrigo não pode ajudar muito no sentido de encontrar o cidadão. Apenas disse a ela que, como morador de rua, ele deveria estar na rua. E que seria preciso circular pela cidade para encontrá-lo.

Foi quando ele desligou o telefone que percebeu o alcance daquela imagem. O que era para ser apenas um exemplo, uma curiosidade, acabou se tornando uma pista. E, quem sabe, uma forma de auxiliar a família a encontrar um ente querido.

Essa percepção demorou um pouco demais. Quando nosso editor-chefe [Mário Martins] perguntou ao Rodrigo o nome e telefone da mulher, ele não sabia. Por conta disso, não pudemos realizar o reencontro dos familiares, tal qual um programa do Gugu, talvez menos sensacionalista. Mas, tudo bem... Basta saber que a imagem, em toda a sua síntese e aparente inocência, teve um poder maior do que aquele que supunha até mesmo seu autor.

Uma imagem, às vezes, parece ter um grande significado e não passa de um registro factual. E, em outras ocasiões, quando parece ser apenas um registro, pode estar carregada de intensa importância.

Hoje, uma dentadura foi encontrada ao lado da sede do Jornal da Manhã, bem no centro da megalópole princesina, Ponta Grossa. Rodrigo não perdeu tempo. Apanhou a câmera para fazer o registro. Uma dentadura em plena avenida.

Houve quem tirasse uma onda com o fato. Que importância poderia ter uma dentadura jogada ao chão? Talvez nenhuma. Por outro lado, por que a dentadura não está com o dono? Disseram que ele atirou o objeto, extensão do próprio corpo, de um carro em movimento.

Em Ponta Grossa, cidade onde o possível esquece de acontecer, isso pode ser nada. Ou pode ser alguma coisa.

Vai saber...