31 de dez. de 2008

Previsões? O que não se cumpriu em 2008?

O período de virada de ano é mais uma dessas tradições que tornam nossa existência absolutamente estranha. Além de o povo vestir roupas brancas, fazer muito barulho, pular ondas e comer uvas, ainda existe a crença de que é possível prever como serão os 365 dias que se seguem.

Confesso que de vez em quando dou uma olhada no horóscopo. Mas também confesso que acho muito mais divertido ver o horóscopo do dia anterior, a fim de comprovar em que medida a astrologia tem acertado ao prever meu futuro.

Por essa razão tive a curiosidade de verificar quais foram as previsões para o ano que passou. É justo que se verifique o que se cumpriu e o que, a exemplo de promessas políticas, ficou no esquecimento.

No final de 2007, o Jornal da Manhã publicou diversas previsões, a maioria delas apontadas pela cartomante Cristina Rogalski, e pela clarividente Terezinha Tizon. Vamos ver quais foram as previsões:

...segundo Cristina Rogalski:

- “...dificilmente o atual prefeito Pedro Wograu Filho seja reeleito. Aliás, talvez ele nem se candidate à reeleição, mas indique alguém para ser seu candidato.” (nessa ela errou feio, igual o Ibope, pois também disse que Jocelito era o espiritualmente mais cotado para assumir o cargo.)

- “O curso de Medicina da Universidade Estadual de Ponta Grossa não deve ser reativado - pelo menos na gestão do governador Roberto Requião.” (Requião autorizou o curso nesse ano, e já tivemos o primeiro concurso vestibular, com uma porção de gente louca pra segurar o bisturi e desmaiar ao ver sangue)

- “O prefeito vai ter muitas dificuldades de acertar o final do mandato e também vai se deparar com algumas traições de pessoas da sua cúpula” (dependendo do que significa a “sua cúpula”, pode-se dizer que os astros não mentiram nessa. Acusações contra o prefeito não faltaram nesse ano)

- “O Paraná deve voltar ao primeiro lugar em resultados, em volume de produção, em grãos, e isso tudo vai refletir nas nossas vidas” (de fato, foi notícia no JM... A safra 2007/08, encerrada neste mês de dezembro com a colheita das últimas lavouras de trigo na região Centro-Sul do Estado, fechou com um recorde de produção de 32,06 milhões de toneladas de grãos.)

- O setor industrial também deve se beneficiar: duas novas indústrias devem se instalar na cidade. (...) (Na verdade foram mais de duas. Entre as maiores podem ser citadas a Tecnosol Indústria Química Ltda, primeira fábrica de cosméticos da cidade, a fábrica de calçados de segurança, da marca Kadesh, a construção da Contitech, a Lousiana Pacific - que produz painéis OSB e a Planair Indústria Aeroespacial.

Agora vejamos as previsões de Terezinha Tizon:

- A saúde de Ponta Grossa 40% melhor e o deputado estadual Jocelito Canto eleito prefeito. (é difícil quantificar a situação da saúde em PG. Mas Jocelito ficou longe da prefeitura)

- Uma multinacional deve se instalar e trabalhar em parceria com a Cargill. (alguém sabe dessa parceria?)

- Novidade na área de autopeças. (alguém?)

- A cidade perderá empresários em acidentes e por motivos de doenças. Falências também serão decretadas. (nada que eu me lembre de ter visto no jornal..., a não ser a morte do empresário Jorge Demiate, em março)

- Ponta Grossa vai deixar de contar com dois supermercados, uma madeireira e uma empresa de máquina agrícola. (Se alguém lembrar, pode comentar aí... o que lembro é o oposto: dois novos empreendimentos foram anunciados nesse ano, através do Condor Super Center e dos Supemercados Tozetto, que juntos devem gerar 400 empregos diretos. Mas a Planair, de fato, fabrica aeronaves agrícolas)

- A perda de um político local bastante conhecido (Previsão um tanto óbvia, já que políticos bastante conhecidos se vão anualmente. O ex-prefeito de Ponta Grossa, Luiz Gonzaga Pinto, faleceu em fevereiro, aos 87 anos, na Santa Casa de Misericórdia.)

- Papa Bento XVI está doente e não deve viver por muito tempo. O novo pontífice, garante ela, será um brasileiro: “nascido gaúcho e ordenado padre no Paraná.” (premonição bastante detalhista, mas o Papa Bento ainda não dá mostras de precisar de substituto)

- “Também perderemos jogadores em campo. Atores bem conhecidos, artistas de novela, também perderemos” (essa não vale... acontece todo ano)

- Sobre o Operário, a previsão até que foi certeira: “Como é o apelido dele mesmo? Fantasma... Pois o Operário sempre foi e sempre ficará fantasma”, disse a clarividente. (talvez esteja na hora de mudar o apelido do time)

****

Fazendo um balanço geral, digamos que as previsões não foram lá tão precisas. Resultado semelhante poderia ser obtido jogando uma moeda para o alto. De qualquer forma, há quem acredite e se oriente a partir das previsões. Sendo assim, é bom lembrar que o Jornal da Manhã trouxe mais algumas. Clique aqui e confira as previsões para 2009. (é necessário estar cadastrado no site)

*E clique aqui para conferir, na íntegra, as previsões para o ano que passou.

19 de dez. de 2008

Mecê dos qualé?

Dia desses estive na livraria Livros & Companhia, que fica em frente ao Colégio Instituto de Educação, onde estudei até concluir o ensino médio – no meu tempo se chamava Educação Geral. Na livraria eu procurava alguns títulos em específico, mas, parei também para conversar com o proprietário da loja, José Nilson.

O gaúcho é um sujeito meio careca, com óculos de aros grandes e arredondados, bigode espesso e uma inseparável cuia de chimarrão. (Na foto ele está sem a cuia, mas é uma situação atípica). Não é por acaso que duas cadeiras confortáveis ficam diante de sua mesa, à disposição de quem entra na loja. Ele está sempre disposto a conversar e confere significado especial à palavra “companhia” escrita na placa diante da livraria. Tem ótima memória. Já fazia meses que não trocávamos uma palavra, mas ele parecia lembrar de tudo o que já tínhamos conversado. Eu, no entanto, confundia tudo. Achei até que a loja tivera um daqueles sensores de presença que apitam sempre que o cliente entra. José me lembrou que nunca teve isso, porque acha que incomoda, e porque acredita numa relação mínima de confiança entre o vendedor e o cliente.

José comentou que no próximo ano, lá pelo mês de março ou abril (ele foi preciso na data, mas não tenho a memória prodigiosa que ele tem) deve deixar a cidade, e transportar consigo a livraria. Disse que o motivo não é simplesmente financeiro. Está acostumado a não ficar parado em um lugar. “O mundo é tão grande... porque ficar em um lugar só. Há pessoas que nascem em um lugar e passam a vida inteira nesse lugar”, comentou, sem compreender. Afirmou que é importante se deslocar, para conhecer outras culturas e formas de pensar e agir, e assimilar isso tudo.

Ficamos dialogando um pouco, até que chegou outro cidadão, chamado Rogério. Não o conhecia, mas parece ter muitas histórias para contar. Comentou sobre uma viagem que fez a Portugal, narrou rapidamente situações em outras cidades. E, considerando que ele, assim como José Nilson, não é de Ponta Grossa, começaram os dois a divagar sobre a natureza do ponta-grossense. Seu comportamento fechado, principalmente.

José dizia que os vizinhos não se falam, e que é difícil até mesmo cumprimentar alguém. Disse que, depois que chegou na cidade, ele próprio começou a mudar seus hábitos, parando de puxar papo com todos, como costumava fazer antes. Lembrei a ele que esse era o lado ruim de se deslocar de uma cidade para a outra. Hábitos não tão valorosos também são assimilados, junto com os que nos fazem crescer culturalmente.

Expliquei que, tendo nascido e crescido aqui, é muito mais difícil para mim notar essas coisas – os comportamentos tão criticados nos ponta-grossenses. Até porque meu relacionamento com os vizinhos não é tão ruim assim. Mas quem vem de fora costuma fazer esses mesmos comentários – de que as pessoas são muito fechadas, evitam cumprimentar.

Rogério completou, dizendo que o que mais lhe chamou a atenção ao chegar em PG foi o fato de as pessoas quererem saber a que família ele pertencia. Havia uma necessidade de relacioná-lo a outros que fossem da cidade, de famílias cujo nome fosse conhecido.

“Mecê dos qualé?”, perguntei, em tom de brincadeira, lembrando o modo simples com que muitos realmente procuram saber a família a quem alguém pertence, como se fosse obrigação apresentar os antecedentes de boa conduta, para dar seguimento a uma conversa.

O diálogo seguiu por outros caminhos, até que Rogério comentou ter uma chácara na região de Guaragi, que fica a cerca de 27 quilômetros do centro de Ponta Grossa.

“Tenho parentes no Guaragi”, comentei.
“Ah, é? – ele perguntou – “Quem são seus parentes? Qual o sobrenome?”

Foi aí que achei graça, e tornei a brincar: “Mecê dos qualé?



SERVIÇO:

Livros & Companhia
endereço: R: Dr Joaquim de Paula Xavier 585
telefone: (42) 3027 2227
site: http://www.livrosecompanhia.com.br

24 de nov. de 2008

Afinal, o que é original?

Quando ainda estudava na universidade, naquele tempo em que a gente começa a ler de tudo um pouco, especialmente planejando um futuro projeto de Trabalho de Conclusão de Curso, percebi, indignado, o quão difícil é ter uma idéia original.

A humanidade adquiriu tanto conhecimento ao longo dos últimos anos, que tudo parece já ter sido inventado ou pensado. E agora atingimos uma fase em que, mesmo quando temos uma idéia nova, descobrimos que já foi inventada. As pessoas pensam de forma semelhante (está aí a disputa entre Santos Dumont e Irmãos Wright para confirmar o que digo), e agora existe outro fator que contribui para isso: a internet.

No sábado, estava aqui lembrando do Chocolate Surpresa, que fez sucesso na década de 1980, vindo a desaparecer somente no final dos anos 1990, se não me engano. O chocolate, provavelmente você lembre, fazia sucesso porque trazia figurinhas colecionáveis, sobre temas diversos. E aí residia grande parte de sua aceitação no mercado. O brinde fazia com que as crianças, e até mesmo alguns adultos, buscassem o chocolate. O sabor era muito bom, mas deve ter sido a barra de chocolate mais fina da história, sendo que boa parte do preço se justificava apenas pelo brinde.

Conversando dia desses, comentei: por que será que o Chocolate Surpresa deixou de ser fabricado? Era tão divertido juntas as figuras, e o chocolate ao leite era saboroso, como do chocolate Kinder Ovo.

Foi aí que tive um estalo: óbvio... o Kinder Ovo surgiu, e logo depois o Chocolate Surpresa desapareceu. Entre um chocolate que oferecia uma figurinha, e outro que oferecia um brinquedo, qual seria o preferido? O Kinder Ovo condenou o Chocolate Surpresa à extinção. Na época o Kinder Ovo ainda custava um real. Era uma concorrência desleal.

Parecia uma grande revelação. Mas a internet está aí pra me desmentir. A wikipedia já relaciona o Chocolate Surpresa ao Kinder Ovo. Não diz que um condenou o outro ao desaparecimento, mas me parece evidente, tanto que outros blogs fazem a mesma relação.

O google torna ainda mais fácil derrubar idéias pretensamente originais. Um colega, no outro dia, sugeriu fazer ilustração de uma folha de maconha em sua camiseta, e incluir o texto “ERVALIFE”, numa paródia aos produtos Erbalife.

Estava todo animado, planejando como desenhar a folha de maconha, até eu dizer a ele que, muito provavelmente, alguém já havia pensando nisso antes. Sugeri uma visita ao Google e, tadããã! Sua idéia já estava lá, e até mesmo as camisetas com a tal inscrição e desenho, em diversos modelos, e prontas para comercialização. Não perguntei a meu colega, mas acho que desistiu da idéia de fazer a tal camiseta... me sinto até um pouco culpado.

No fim de semana, reparei que meu irmão colocou em seu perfil do Orkut a seguinte frase:

Não sou nada / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Perguntei a ele porque tinha colocado aquela frase em seu perfil, e ele disse que era um trecho do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa. Acontece que existem milhões de poemas no mundo, e outros zilhões de trechos de poemas. E já vi o mesmo trecho em dezenas de perfis no Orkut. Por que isso acontece, pra mim continua sendo um mistério. A não ser pelo seguinte: as pessoas têm pensamentos em comum. E está aí a disputa entre Santos Dumont e Irmãos Wright para confirmar o que digo.

17 de nov. de 2008

Agências bancárias: o cliente tem sempre razão?

Sou cliente de um banco que adota o seguinte sistema: se minha senha é 1983, o caixa-eletrônico me vem com a seguinte informação:

1=0
2=1
3=2
4=3
5=4
6=5
7=6
8=7
9=8
0=9

Ou seja, para fazer um saque, ao invés de digitar a minha senha 1983, eu terei que fazer uma mudança absurda, e digitar 0872. (acho que é isso...) Aí você vem dizer: "é para sua segurança". Ah, claro. O problema é que estou retirando o dinheiro de um caixa eletrônico que pode ser visto da rua, porque todos os bancos tiveram a brilhante idéia de instalar "vitrines" diante dos caixas eletrônicos. O assaltante fica do lado de fora escolhendo suas vítimas, como uma criança escolhe um doce.

Suponho que a idéia da gerência é a seguinte: se acontecer um assalto dentro do banco, qualquer pessoa vê desde a rua, e chama a polícia. Se acontecer assalto a um cliente que acabou de sair de nosso banco, o problema não é nosso. Não podemos ser responsabilizados pelo que acontece fora da agência. Sim... os caras são maus.

Bancos são ótimos motivos para irritação. Já reclamei diversas vezes das malditas portas eletrônicas. Não dá pra entender como coisas que não funcionam direito continuam sendo usadas. Toda a vez que entro na agência da Caixa Econômica, preciso tirar da mala minha agenda. Porque as espirais metálicas disparam o sistema e me impedem de entrar. E o curioso é que cada agência, de cada banco, possui um sistema diferente.

Em alguns eu só preciso tirar do bolso o celular. Em outros preciso tirar o celular e a chave. Em outros o celular, a chave, a agenda e o Halls. Essa vale a pena lembrar... O segurança do banco Itaú me explicou que a embalagem metálica do Halls pode disparar a porta. Pode? Segundo ele, sim.

Voltando à questão das "vitrines"... Com esse sistema de encher de janelas de vidro na frente da agência, os caixas eletrônicos ficam de frente para a entrada, de tal maneira que o cliente fica de costas enquanto opera a máquina. O problema é que as máquinas funcionam com monitores comuns, que refletem a luz que vem do lado de fora da agência. Ou seja, fica muito mais difícil ver o que aparece na tela, se o reflexo da rua incide sobre o monitor.

E por que esses e outros problemas semelhantes persistem? Provavelmente, não há interesse em corrigir tais dificuldades. No banco Mercantil, se seu cartão é bloqueado por um erro de digitação, você precisa esperar, obrigatoriamente, 24 horas para que ele seja automaticamente desbloqueado. Se você precisa muito do dinheiro, não pode simplesmente entrar na agência e solicitar a um funcionário o desbloqueio. Acho que é por isso que colocam escrito, em letras brancas num fundo vermelho, do lado de fora da agência: BANCO 24 HORAS.

Pra não esquecermos o tempo de espera.

10 de nov. de 2008

Um Hussein na Casa Branca

Sempre que uma partida de futebol está quase terminando, e um dos times está prestes a vencer, fico imaginando que o resultado daquele jogo pode mudar a qualquer momento. Enquanto muitos comemoram ou praguejam nos minutos finais, eu permaneço em silêncio observando tudo. E, não raro, o jogo vira. Foi assim com uma partida de futebol há poucos dias. Foi assim quando todos achavam que Felipe Massa era o campeão mundial da Fórmula 1, antes que Hamilton passasse a linha de chegada.

Enquanto a maioria se preocupa, ainda que inconscientemente, com probabilidades, minha preocupação é com as possibilidades. Porque, hipoteticamente, a mesma seqüência numérica pode ser sorteadas duas vezes seguidas pela loteria. E as chances de que isso aconteça são as mesmas de qualquer outro número ser sorteado.

Assim, um dos meus lemas é “qualquer coisa pode acontecer”. E comento isso porque na semana passada, algo que muitos diziam ser impossível, aconteceu. Me refiro à vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

O assunto já foi bastante debatido, mas só agora encontro tempo e disposição para lembrar aqui, diante do monitor, que o cinema já tinha colocado um presidente negro governando os Estados Unidos algumas vezes. De cara, me lembro de duas situações: no filme “Impacto Profundo”, em que meteoros ameaçam destruir a Terra e o presidente luta para encontrar meios de salvá-la, e “Deixados Para Trás”, esse último menos conhecido, por dramatizar o fim do mundo baseado nos relatos da Bíblia.

Mas os exemplos são muitos outros. Lembrei desses dois porque passam a imagem de um presidente sério, e comprometido com o futuro não apenas dos Estados Unidos, como do mundo inteiro.

O curioso é que, quando assisti a um filme desses, lembro de ter ouvido um comentário de alguém que disse: “Isso é que é ficção científica... afinal, quando é que um presidente negro vai governar os Estados Unidos?”

Acho que a frase ilustra bem o modo como todos viam essa possibilidade. Eu próprio me vi surpreso com a vitória de Obama. Imagine o resto do mundo. Se ele será melhor ou pior que George Bush, já não é possível afirmar. Mas o fato de um sujeito chamado Barack Hussein Obama Jr. subir ao poder nos Estados Unidos já é impressionante o suficiente.

Desde que isso não coincida com o fim do mundo ou a queda de meteoritos gigantescos em nosso planeta, tá valendo. Agora é aguardar para ver... qualquer coisa pode acontecer.

3 de nov. de 2008

Conversas bombásticas

“Eu sei fazer 32 diferentes tipos de bombas”.

Ao ouvir a frase, estalei os olhos e virei para meu amigo, perguntando:
- Porque contou isso?
- O quê?
- Por que fez o cálculo do número de bombas que sabe fabricar? – tornei a perguntar.
- Ah... sei lá.

Fazia tempos que não via Jacson. A última grande conversa que tivemos foi ainda em 2000, quando fazíamos cursinho pré-vestibular. Na época, eu repartia o cabelo, e ele tinha cabelo curto. Agora eu desisti do pente, e ele virou praticamente o Primo Itt – da família Adams. Na época ele detestava química. Hoje, ironicamente, é professor dessa disciplina. E foi tratando de química que entramos no assunto das bombas.

Encontrei Jacson por acaso, no último sábado, no shopping. Um daqueles acasos bizarros: a escada rolante enguiçou, e ele teve que usar a escada comum. Me encontrou no andar superior observando as pessoas que subiam a escada rolante parada. “Vamos ali na praça de alimentação, que vou encontrar uns amigos”, convidou.

Seus amigos eram irmãos gêmeos, de óculos com lentes grossas, um que devorava lanche do Bob’s, outro que atacava o lanche do Biba’s. E foi um deles que tocou no assunto de radioatividade, sabendo dos conhecimentos científicos de Jacson. Foi assim que o diálogo passou pelos radioativos urânio e césio 137, o explosivo sódio metálico, a corrosiva Coca-Cola e, finalmente, a declaração de meu amigo, dando conta de que ele é capaz de fazer 32 diferentes tipos de bombas.

O que me chamou a atenção foi sua indiferença ao trazer aquela informação à tona. Apesar de saber que não é intenção de meu amigo explodir a cidade, fiquei me perguntando por que ele havia feito aquela conta.

E lembrei que, há cerca de duas semanas, outro amigo meu, dessa vez especialista em informática, tinha dito que é teoricamente muito fácil burlar o sistema das urnas eletrônicas. Bastaria desviar os equipamentos durante alguns instantes, entre o trajeto que faz do local de votação ao ponto em que é feita a contagem de votos. Assim seria possível identificar, por exemplo, quem votou em cada candidato.

Descobertas fascinantes podem ser feitas ao conversar com especialistas. Algumas podem assustar. E pensar que muita gente teme os profissionais menos especialistas da face da Terra – os jornalistas.

Mudando de assunto... acabo de ver um trailer no Uol de um filme que promete ser muito bom. Operação Valquíria. Sugiro ao leitor que dê uma olhada.

23 de out. de 2008

Eu não sou um maldito spam!

De tempos em tempos surge no noticiário um daqueles casos de pessoas que não morreram, mas precisam provar isso para a previdência social. Embora a pessoa esteja ali, dando entrevista para o repórter, o sistema acusa que ela não existe mais.

O primeiro episódio do seriado “O Sistema” (que foi mais um seriado da Rede Globo que não teve o sucesso que poderia ter alcançado) trazia uma situação parecida. O personagem principal , interpretado por Selton Mello, tratava mal uma atendente de telemarketing (Graziella Moretto) e, em represália, ela fazia com que todo o sistema apagasse a existência do cidadão, que deixava de ter CPF, RG, conta no banco. Enfim, se não constava no sistema, era porque não existia.

A idéia do primeiro episódio foi muito boa, e o roteiro bem explorado. Os seguintes foram gradualmente piorando, até que a história não fizesse sentido algum, e as piadas não tivessem nenhuma graça.

Lembrei do episódio porque, assim como o personagem principal de O Sistema, costumo enfrentar situação semelhante em diversos sites da internet, incluindo o Orkut, e o próprio site no qual estou publicando este texto.

No outro dia, para enviar uma simples mensagem, surgiu aquela maldita tela com letras e números indecifráveis, que devem ser digitados para que você prove que é uma pessoa, e que sua mensagem não é um maldito spam.

Cara... o cidadão que inventou isso deve ser o mesmo desgraçado que inventou o sachê de catchup, que dizem ser mais higiênico, mas que me obriga a usar os dentes para rasgar a embalagem, além de gerar mais poluição (não sei se reciclam aquelas embalagens com restos de catchup).

Voltando ao sistema... Digitei as letras e números que me apareciam, e que eu tentava, com o máximo da concentração humana, decifrar. Mas o sistema informava que eu tinha digitado errado, e oferecia novo conjunto de algarismos. Assim aconteceu de novo, e de novo, e só na quarta tentativa consegui enviar minha mensagem.

Pra que serve isso mesmo? Pra que eu prove que não sou um “spam”, ou para que eu desconfie de minha capacidade mental? Eu sei que fiz logon no site. O sistema não é capaz de notar? Deve ter alguma conspiração por trás disso. No dia em que eu descobrir o que é, vai ter mais gente querendo me matar.

21 de out. de 2008

Alerta: engolir chiclete ficou mais fácil

Em meu tempo de escola tive uma professora de português que tinha verdadeiro ódio ao ver alguém mascando chiclete. Chegou a trazer aos alunos a informação de que o chiclete era feito a partir de osso de boi, julgando que os adolescentes realmente se importavam com os ingredientes daquilo que colocavam na boca.

Nunca soube se era verdade a história dos ossos. Pra mim importava menos ainda. Nunca fui muito fã de chiclete. Recordo ainda que, certa vez, essa professora trouxe um texto de Clarice Lispector, no qual a autora narrava o idêntico asco que sentiu ao experimentar o tal doce pela primeira vez. O conto descrevia o chiclete como uma bala que não se acabava nunca. Mais ou menos como os doces inventados pelo Willie Wonka, na Fantástica Fábrica de Chocolates. Mas o chiclete terminava por ficar sem sabor, e semelhante a uma borracha. Assim o descrevia o tal conto, se me lembro bem.

Se Clarice Lispector experimentasse os novos chicletes, talvez trouxesse algumas informações adicionais ainda mais desanimadoras. Pois olhe que acabo de provar um produto de nome bizarro: “Novo Chiclets Kiwi Super”. A embalagem acrescenta: “com mais tempo de sabor”.

Pois eu rogo aos meus 57 leitores e meio: não comprem essa bela porcaria! O sabor inicial até que não é ruim... mas o estranho é o que vem depois. Passado algum tempo (não sei precisar quanto, pois suponho que depende da velocidade de mastigação e temperatura bucal), eis que o chiclete, além de perder o sabor, se dissolve.

Veja bem, você fica mastigando e espera que ela vire uma borracha como todas as outras, mas isso não acontece. Em lugar disso, o chiclete se dissolve em sua boca, e você nem sequer encontra tempo ou lugar para cuspir o líquido pegajoso e sem gosto.

Quando o cidadão percebe, já engoliu o negócio. Fica o alerta. Já que não temos mais Ploc, nem Ping Pong, sugiro aos leitores que recomendem aqui as marcas de chiclete que julgam realmente boas. Vamos tornar este um blog de utilidade pública.

13 de out. de 2008

Isolamento mais que acústico

Eu estava sentado em um banco circular, diante do balcão da lanchonete Lagalu, quando ela entrou. Uma menina loira, que devia ter entre 17 e 21 anos. Carregava uma bolsa com logomarca de cursinho pré-vestibular. Era bonita, usava roupas discretas, e tinha aquele olhar de mulheres que conhecem a própria beleza, reconhecido pelo fato de não olharem diretamente nos olhos de quase ninguém.

Eu estava na metade de meu salgado, e a xícara de café também estava cheia, ou vazia, pela metade. Pensava em puxar conversa, quando ela abriu a bolsa e tirou dali um par de fones de ouvido. Ligou ao celular, e começou a ouvir as músicas preferidas. Terminei meu lanche, paguei a conta, e fui embora enquanto ela investia em um X-salada, perdida em sons que não eram os que a cercavam.

Há muito tempo se comenta que a tecnologia da internet ou do telefone, que foram criadas para aproximar as pessoas, terminam por distanciá-las. Sou um fã da tecnologia, mas é preciso admitir... com o surgimento dos celulares com rádio ou mp3, isso se tornou mais evidente. Ponta Grossa mantém a fama de ter habitantes “fechados”, que evitam conversar ou cumprimentar. Mas antes bastava que uma das duas pessoas no ponto de ônibus iniciasse a conversa. Só se esperava uma iniciativa.

Agora as coisas mudaram de figura. Os fones de ouvido são um convite à solidão e, se por um lado é ótimo percorrer a cidade com trilha sonora própria, por outro se esquece e ignora o som ambiente, que, de certo modo, é um dos itens que diferencia a vida real de uma produção cinematográfica qualquer.

Muitas vezes é bom fugir do ruído de carros na Avenida Vicente Machado, da campanha política igualmente barulhenta, do som da máquina de café expresso. Mas a fuga não deve ser regra sempre. De óculos escuros e fones de ouvido, seguimos formando uma sociedade de quase autistas, imersos no próprio mundo, sem necessidade de relacionarem-se uns com os outros. Razão pela qual é cada vez mais comum dizer “bom dia”, e receber como resposta um “o que é que tem de bom?”. Ou ver um par de fones de ouvido surgirem de dentro da bolsa, erguendo uma barreira invisível muito maior do que a distância real entre duas pessoas.

28 de set. de 2008

O dia depois da “Semana da Árvore”

Não sei exatamente em que dia tudo começou... Talvez no dia 16 de setembro, logo depois do aniversário da cidade. Ou talvez na última segunda-feira, 22. O fato é que era perto do meio-dia quando um caminhão do Corpo de Bombeiros parou na rua que fica perto de minha casa. Da varanda pude ver o movimento de pessoas que se aglomeravam no local, e fui até lá para ver do que se tratava. Descobri que uma árvore não muito pequena havia caído, quase derrubando o muro de um morador da vizinhança.

Os bombeiros estavam lá para cortar os galhos, liberando o local para o trabalho da companhia de energia elétrica, uma vez que a queda da árvore tinha atingido um poste, deixando os moradores sem eletricidade.

Uma vizinha se queixava com o bombeiro, dizendo que isso já era previsto, e que por diversas vezes pretenderam cortar a árvore, mas ninguém tomava providências. Foi então que apontou para uma outra árvore ainda maior, que se erguia ao lado, e disse que aquela também deveria ser cortada antes que caísse em uma casa.

Era uma nogueira, e uma pequena discussão se formou entre os próprios bombeiros.
-É... parece que já está morta, veja como está seca. – disse um.
-Está seca por causa das pragas presas ao tronco. Só precisa de uma limpeza. – falou o segundo.
-Tinha mesmo que derrubar, antes que caia. – replicou o primeiro.
-O Ibama nunca vai liberar a derrubada desta árvore. – tornou o segundo – aquela outra sim poderia ser derrubada – disse, agora apontando para um eucalipto.
-Mas o eucalipto é árvore nativa.
-Nativa da Austrália...

Aquela discussão só me fez perceber o desconhecimento e falta de concordância entre os que estavam ali. O fato é que a tal nogueira estava lá há muito tempo. Alguns moradores mais antigos falavam em oitenta anos. Mas só estavam cortando a árvore que tinha caído, e não a nogueira. Isso me fez voltar para casa aliviado, porque se cortassem a nogueira... meu pai ficaria possesso.

Não sei como explicar, mas ele nutria verdadeira paixão por aquela nogueira. Algumas vezes já tinha ido ficar debaixo da árvore para apanhar alguns de seus frutos que tinham caído no chão. Sempre defendeu a nogueira, de modo insistente e até irritante. Quem o ouvisse falando daquela árvore iria pensar que fazia parte do Greenpeace ou alguma outra instituição semelhante. Mas aquele comportamento estava quase que totalmente restrito à nogueira, que ele chamava de “castanheira”.

Por isso eu sabia que no dia em que alguém resolvesse cortar aquela grande árvore, o comportamento de meu pai seria preocupante. Por que digo isso? Porque enquanto escrevo estas palavras, ouço ao fundo o som da moto-serra que derrubou, nesta manhã e início de tarde de domingo (28 de setembro de 2008), a enorme nogueira. Desde as 9h ouço este maldito barulho. Ruído que sempre odiei e sempre irei odiar. Também não sou nenhum ativista, mas gostaria muito que um princípio básico funcionasse: derrube uma árvore e plante duas. Infelizmente é algo que parece longe da realidade.

A manhã de hoje foi extremamente tensa. Quando meu pai notou o que acontecia, ficou completamente desnorteado. Primeiro quis ligar para o Grupo Fauna. Eu o lembrei que o Grupo Fauna se propunha a proteger animais, não plantas. Depois conseguiu um 0800 do Ibama, para o qual ligou, e recebeu a resposta de que estavam a caminho. Nada aconteceu e, até a hora do almoço, meu pai já tinha telefonado para o tal 0800 uma dezena de vezes.
-O senhor já não ligou para cá hoje?
-Liguei. E vocês já mandaram a viatura?

Durante o almoço, lembrando do número de ligações que tinha feito, sem obter resposta satisfatória, meu pai comentou: “Se tiverem que fazer uma guerra contra o Brasil, terão que escolher um domingo. Dia em que ninguém faz nada”.

No início da tarde, meu pai perdeu o controle, mais ainda, e gritou para o vizinho, avisando que tinha chamado a polícia. E chamou a polícia. A viatura chegou, e meu pai pôs o chapéu de palha e foi até junto da árvore, ou o que restava dela. A polícia ouviu uma discussão entre vizinhos. Mas havia dois detalhes que complicavam a história: meu pai tinha bebido algumas cervejas, e o sujeito que estava cortando a árvore era policial.

Assim fiquei sabendo, pois não fui participar de um briga que, certamente (desculpem o termo) seria infrutífera. Vi quando meu pai voltou e disse “fui derrotado, de novo”. Tive pena. De meu pai, da árvore, da situação como um todo.

Acho que não vai sobrar muito da árvore e, neste e nos próximos anos, é provável que as crianças não encontrem mais nozes nesta parte da cidade. E haverá menos sombra para deixar o carro. Ali, naquele mesmo lugar, existe um córrego de águas poluídas, porque pessoas resolveram construir casas ao redor e, não bastando isso, jogaram e jogam seus dejetos onde antes se praticava a pesca. Não é invenção minha, encontrei um velhinho no ponto de ônibus que me contou isso e, refletindo sobre a derrubada cada dia maior das árvores nesta região, concluiu: “é o progresso”. E se mostrou favorável à derrubada de todas, para minha incrédula surpresa.

Quem vier pela Rua Padre Nóbrega, na região da Vila Estrela, e estiver com algum tempo sobrando, desça a Rua A. “A”, de “árvore”, e encontrará, lá embaixo, parte do que já foi uma árvore enorme. Não poderão arrancar tudo, porque as raízes certamente já foram muito longe. Então haverá algo do que se lembrar. Uns lembrarão do perigo de uma grande árvore caindo sobre o telhado de casa. Outros, no entanto, lembrarão do sabor de seus frutos. Eu lembrarei que tudo isso aconteceu no dia imediatamente após o que se convencionou denominar “Semana da Árvore”.

*Esclarecimento: a árvore até agora não foi derrubada. Talvez só fique sem galho nenhum.

25 de ago. de 2008

A ‘força mental’ nas Olimpíadas

Enfim, terminaram as Olimpíadas. Foi o assunto do momento, e confesso que vou sentir falta dos comentários que ouvia todos os dias, sobre essa ou aquela competição. Acabei não acompanhando os jogos como poderia. Optei por dormir durante a madrugada, para tentar manter os olhos bem abertos durante o dia. Mas teve gente que se empolgou e acompanhou os jogos pra valer.

Quase todas as informações que obtive sobre as competições chegaram até mim por meio de conversa com amigos, notícias rápidas na internet ou no jornal, e flashes na TV, no momento em que eu passava diante do aparelho.

Foi assim que descobri que existe um alienígena entre nós, que atende pelo nome de Michael Phelps. Também soube que desenvolveram um maiô para natação que melhora a velocidade dos atletas (mas que Michael Phelps – Chuck Norris da natação – não precisa). E foi desse modo que soube do sumiço da vara da brasileira que faria um grande salto (sabotagem?).

As únicas competições que acompanhei, pra valer, foram as partidas de futebol masculino entre Brasil e Argentina (parabéns para a Argentina) e futebol feminino entre Brasil e Estados Unidos (bem mais animador para nós, apesar do resultado não ser o esperado). E foi numa dessas partidas, assistindo pela TV Globo, que percebi qual seria, para mim, a principal marca das Olimpíadas 2008: o narrador Galvão Bueno repetindo, à exaustão, a expressão “força mental”.

Não sei de onde ele tirou o termo. Talvez seja alguma expressão usada em Pequim. Mas, se for assim, com certeza não é banalizada e desprovida de significado como aconteceu na TV brasileira, onde o Galvão disse a besteira incansavelmente, nas poucas vezes em que pude ouvir TV. Numa noite da semana passada, enquanto estava trabalhando, fiquei ouvindo a narração do sujeito. E devo ter ouvido ele dizer “força mental” pelo menos dez vezes, em dois minutos. Mais ou menos assim:

“Nossas atletas merecem essa vitória. Sabem por quê? Por que elas têm uma coisa que costumo chamar de ‘força mental’! É preciso ter força mental para vencer. Não é possível conquistar nenhuma medalha sem força mental...” e blá, blá, blá...

Aí ele vira para a comentarista e pergunta: “Você não concorda?” Ela gagueja um pouco, se esforçando para dar uma resposta tão vazia quanto a pergunta e os comentários de Galvão Bueno: “Ãhn... er... eu acho que todo atleta precisa de um preparo... muito preparo antes da competição...” e por aí vai.

Se tem uma coisa que não vou sentir falta, portanto, é ouvir o Galvão falando em FORÇA MENTAL... Olha só, já estou ficando repetitivo igual a ele. Isso pega!

Outro dia eu estava vendo um jogo de futebol na casa de um amigo, e assistíamos na Band. Alguém chegou e disse: “Ah, muda na Globo, pra gente dar risada do Galvão Bueno!”. E mudamos. Acho que o sujeito assumiu um lugar na TV que não é o de narrador esportivo, mas sim de atração humorística. Realmente, sob esse ponto de vista é correto afirmar: sem Galvão Bueno, o futebol não tem a mesma graça. O ridículo, muitas vezes, dá mais ibope que a qualidade. E sempre haverá alguém erguendo a plaquinha “Galvão, filma eu”, pra comprovar a teoria. Isso é força mental?

27 de jul. de 2008

Bem no fundo do copo de Coca-Cola

Quando finalmente deixei o trabalho, no sábado, já estava escuro. Caminhei em direção ao terminal central de ônibus, pela Avenida Vicente Machado, pisando na areia deixada pelos operários que fazem obras de revitalização, mas que para isso precisam quebrar todas as calçadas.

Quando passava em frente a uma lanchonete, pensei em como fazia tempos que não entrava naquele lugar. E que naquele momento não tinha pretexto algum para tornar a entrar ali. Foi quando vi dois sujeitos tirando de um caminhão caixotes cheios de verduras, ou batatas (estava escuro). Eles conversavam algo sobre um amigo chamado “Eziquiel”, e faziam piada.

Ao ouvir o nome, lembrei de meu amigo Eziquiel, único que conheço com esse nome. Por um segundo pensei que poderiam estar falando dele. “Bobagem, o Universo não é tão pequeno”, refleti, no exato momento em que vi o próprio Eziquiel dobrando a esquina, vindo em minha direção.

Ele ainda não tinha me visto, provavelmente por causa da touca preta que me fazia parecer um assaltante de banco, bem ao lado da Caixa Econômica, e que me deu inspiração para imitar um assaltante. Claro que não sei como se faz isso, então simplesmente imitei um batedor de carteiras, colidindo contra o ombro do colega. Foi o suficiente para que Eziquiel arregalasse os olhos, quase me entregando o celular. Depois eu ficaria com pena de tê-lo assustado. Mas não naquela hora, enquanto esperava que ele me reconhecesse com o gorro preto.

Eziquiel estava indo fazer um lanche, justo naquela lanchonete, e decidi não desperdiçar mais uma bizarra coincidência. Assim, pedi um X-Salada. Tomávamos uma Coca-Cola e conversávamos, quando ouvimos alguém chamando o Eziquiel. Ele olhou para o lado, e viu que o sujeito não falava com ele, e sim com um menino de aproximadamente cinco anos. Incrível... era o terceiro Eziquiel em menos de cinco minutos.

A TV exibia um comercial em que aparecia o Rolando Boldrin segurando um violão. A visão inspirou (ou deprimiu) Eziquiel: “Eu queria ser esse cara”, ele disse. O comentário me fez reparar nas unhas compridas da mão que segurava o copo de Coca-Cola. Evidência da prática musical que ele vinha adquirindo nas aulas iniciadas há poucos meses. “Se eu não puder ser ele, chegando perto do Almir Sater está bom”, completou.

“Eu gostaria de ser o Superman, já que entramos nesse papo”, comentei.
Ele riu: “Acho o Superman muito solitário”, disse, como quem dá um conselho.
“Mas se eu fosse o Superman, não seria solitário”, argumentei.
“Ah... então você não queria ser o Superman. Você queria ter os poderes dele!”, disse.
“E você... Queria ser o Almir Sater, ou queria ter os poderes dele?”

Um curto silêncio de reflexão, um olhar para o fundo do copo de Coca-Cola, e a conclusão:
“É... acho que, bem no fundo, quando a gente diz que quer ser alguém... só quer mesmo poder fazer o que aquela pessoa faz”, concluiu Eziquiel, mais ou menos com essas palavras.

Olhei ao redor. As paredes da lanchonete tinham velhos tijolos à vista. Um banner desbotado mostrava a foto de um prato com arroz, carne e batata-frita. O teto tinha uma porção de bandeirinhas de festa junina (ou julina). Esses e outros elementos me fizeram lembrar da última vez que tinha estado ali, e concluir... Que lugarzinho mais feio.

27 de jun. de 2008

Tenho um Galak nas mãos e não vou hesitar em usá-lo!

Tem algumas tecnologias que eu, honestamente, não consigo compreender. Ontem fui ao banco pagar uma conta e tive uma enorme dificuldade apenas para entrar na agência. Era uma daquelas portas giratórias com sistema de detecção de metais.

Depois que a porta travou, tive que recuar até ficar atrás de uma faixa amarela pintada no chão. O guarda orientou a tirar objetos de metal dos bolsos, revólveres e marcapassos, e depositar naquele espaço que existe na porta giratória, semelhante a uma dessas pequenas bacias com água benta que a gente encontra na entrada das igrejas.

Tive que recuar mais algumas vezes, pois a porta continuava travando. Foi então que o guarda me surpreendeu. Disse para eu tirar balas dos bolsos. Não, ele não estava se referindo a munição, ele se referia a balas mesmo, drops, e especificou: Halls!

Bem, aí me lembrei que estava com minha câmera digital na cinta, que era o que estava me impedindo de entrar. Mas eu já estava tirando até moeda dos bolsos. Uma vez dentro da agência, fui conversar com o guarda, e ele disse que alguns doces são envolvidos em embalagens de alumínio, o que faz disparar a máquina, e travar a porta giratória.

Isso sim é o máximo do ridículo. Estamos vivendo o século XXI, momento em que todos achavam que haveria carros flutuando, e ainda não conseguimos desenvolver uma máquina capaz de diferenciar uma metralhadora de uma barra de chocolate! Não posso acreditar em tal coisa. A máquina não consegue saber qual é a quantidade mínima de metal para se fabricar uma arma de fogo, e qual a quantidade mínima de doces que uma pessoa normalmente carrega nos bolsos?

As máquinas podem até ser “burras”, mas quem desenvolve essas máquinas não! Deve ter um jeito de impedir esse tipo de situação. Sou a favor de portas com detector de armas. Mas não com detector de metais. Droga... não posso nem estar contaminado por chumbo, nem entrar no banco com mais de três moedas? Deve ter uma conspiração por trás disso e, quando eu descobrir o que é... vai ter muita gente querendo me matar, eu acho.

5 de fev. de 2008

A mulher de meias cinzentas

O ônibus segue seu trajeto diário do bairro até o terminal do centro da cidade. De segunda a sexta-feira, entre as 7h30 e 8h, eu estou no mesmo ônibus – o 807, se não me engano. E, assim como a maior parte dos passageiros, também estou indo para o trabalho.

A maioria deles evita conversar, e pretende permanecer imóvel, em uma espécie de semi-consciência, até chegar ao ponto em que desce do ônibus. É claro que existe uma loira esguia, de nariz pontudo, que passa a maior parte do tempo retirando cabelos que caíram em sua roupa. Ainda assim, o restante se refugia apenas em pensamentos, a atenção presa à música do MP3 player ou à paisagem que se move do lado de fora.

Mas então, na metade do caminho, algo ocorre para mudar isso. Depois de uma ladeira em descida e uma curva à esquerda, o ônibus pára diante de outro ponto de ônibus, e um pequeno alvoroço se forma no interior do coletivo. Tal movimento não é tão evidente assim. Apenas um olhar treinado, ou já habituado à essas “viagens” diárias, pode perceber. Uma ou duas senhoras levantam do lado direito do ônibus e sentam-se do lado esquerdo. Os olhos de outras pessoas voltam-se em direção à porta da frente, aguardando a entrada de mais um passageiro. E é quase possível ouvir o pensamento de alguns dos que permanecem sentados, fingindo indiferença.

Uma frase escapa da boca de uma das senhoras menos satisfeitas: “Lá vem a sarna!” E a frase coincide com a entrada da passageira a quem a indignação, os olhares, pensamentos e troca de lugares é dirigida.

Ela está sempre com o cabelo preso, usa óculos de aros grossos, tem movimentos irregulares, e equilíbrio pouco coordenado. A boca quase não se move e, quando se move, não mostra dentes. Costuma vestir uma blusa, e uma saia que vai até as canelas, deixando à mostra suas meias cinzentas, e pés inchados metidos em sapatos sem salto. Sua entrada no ônibus demora mais do que a maioria. E sua passagem pela roleta é sempre mais complicada.

Difícil definir sua idade, pois poderia ter entre 20 e 40 anos. Difícil ser mais preciso. Talvez ninguém saiba seu nome, mas poucos são os que já não conhecem seu comportamento. Eu a vi pela primeira vez há alguns meses, quando entrou desse mesmo jeito no ônibus e sentou ao lado de uma jovem morena. A julgar pelos cabelos ainda úmidos da jovem, ela devia ter acabado de tomar banho e, provavelmente, tinha passado um desses produtos para deixar os cabelos enrolados.

Acontece que a senhora de meias cinzentas sentou-se ao lado da moça, na lateral direita do ônibus, e começou a dizer, com sua voz alta, lenta e um pouco fanhosa: “Que cabelo bonito você tem”. Enquanto repetia várias vezes essas palavras, passava a mão no cabelo da moça. Como o trajeto até o centro leva alguns minutos, e a senhora ficou “empaçocando” o cabelo da moça o tempo inteiro, dá pra calcular como ficou o penteado da coitada.

Aquela situação me fez achar tudo engraçado. Até que percebi que a tal mulher pegava sempre o mesmo ônibus, e agia sempre assim, trazendo algum tipo de incômodo aos demais, falando alto, ou dizendo coisas com pouco sentido. Em resumo, não demorou para que seus hábitos fossem reconhecidos, e ela fosse considerada louca. E, aquilo que me pareceu engraçado em um momento, hoje é uma das coisas mais tristes que presencio diariamente.

Ela entra no ônibus sob os olhares de reprovação. As pessoas já sabem que ela costuma sentar-se do lado direito do ônibus e, ao vê-la, levantam-se para ficar do lado esquerdo. E a mulher de meias cinzentas atravessa a roleta e senta-se, aparentemente, ignorando tudo isso. Certa vez, ficou ao lado de outra moça, e pude ouvir a voz fanhosa dizer algo que me fez ter medo: “Quando não gosto de uma pessoa, eu deixo careca e banguela”. Aquilo podia ser uma ameaça, ou não ter significado algum.

Por outro lado, já notei ao menos um indicativo de boa educação em seus modos. Ela sempre sobe no ônibus, num ponto que fica em uma rua inclinada, que faz com que o ônibus permaneça desnivelado. Um dia, passou a roleta e, sem equilíbrio, praticamente caiu sobre mim, que normalmente fico em pé. “Desculpe, moço”, ela disse.

Quase todos os dias ela sobe no ônibus para despertar, já pela manhã, os mais variados sentimentos, em um mundo particular formado por assentos e passageiros, motorista e trocador: preconceito, pena, medo, repulsa, compaixão, surpresa, riso. E o que me incomoda sou eu mesmo, pois nunca sei exatamente qual desses sentimentos é o que prevalece em mim. Um dos meus maiores defeitos é acreditar, com freqüência, que estou sempre na posição de observador, esquecendo que faço parte do Universo que observo.

Cada um desses sentimentos eu já experimentei, apenas vendo ela entrar e sair do ônibus. E a única certeza que tenho, todos os dias, notando o comportamento dos demais passageiros, é que nenhum de nós pode se dizer melhor do que ela. E que não são todos que pedem desculpas, quando tropeçam nos pés do vizinho.

19 de jan. de 2008

Um mal entendido vale um desconto

No intervalo do almoço aproveitei para ir à relojoaria. Há algumas semanas a pulseira de meu relógio estava arrebentando, e eu temia perdê-lo enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Logo, precisava comprar uma pulseira nova. Mas algo muito estranho aconteceu.

Tirei o relógio e coloquei sobre o balcão da relojoaria, dizendo à funcionária: “Vim trocar a pulseira”. Ela apanhou o relógio e observou atentamente a pulseira. Seu olhar estava concentrado no ponto em que a pulseira se rasgava. Fiquei sem entender sua reação. Ela estava demorando muito naquela análise. Então me perguntou: “Há quanto tempo você colocou esta pulseira?”

Não entendi a relevância da pergunta, mas respondi: “Não sei... mas faz meses”. Ela se deslocou para o lado, onde seu pai (dono da loja) conversava com outro cliente. Mostrou o relógio a ele e disse: “Olha... ele quer trocar a pulseira”. E ele perguntou: “Há quanto tempo ele colocou essa pulseira?” E ela respondeu: “Há dois meses”. O homem olhou para mim e perguntou: “Você comprou essa pulseira aqui?” “Sim”, respondi.

E eu não estava compreendendo onde estava a complicação. Era só colocar outra pulseira. Aí ele disse. “Então vou te dar um desconto. Você pagou dez reais nessa pulseira, pode levar uma nova por cinco reais”. E eu, muito surpreso, disse “Claro... afinal, só rasgou metade”.

Fiquei realmente impressionado. Era a primeira vez que um comerciante me oferecia um desconto sem que eu pedisse. Comecei a tentar formular teorias para aquele fenômeno. Enquanto a funcionária fazia a operação nos fundos da loja, suspeitei que aquela pulseira antiga fazia parte de um lote defeituoso, e que por isso o vendedor achou que eu merecia um desconto.

Foi outra moça quem veio me entregar o relógio com a nova pulseira. Agradeci, paguei os cinco reais, e fui embora. Quando cheguei no trabalho, relatei toda a situação a meu colega Ismael. Descrevi o fato como sobrenatural. Não é todo dia que alguém oferece o desconto de 50% quando você está disposto a pagar o valor integral. Afinal, fazia vários meses que eu usava aquela pulseira.

Mas Ismael parece ter solucionado o mistério. “Sabe o que foi isso? Foi o poder da palavra”, ele disse. “Você disse que queria ‘trocar’ a pulseira. Não disse que queria ‘comprar’ uma nova pulseira”. E, pensando desse modo, acho que foi o que realmente aconteceu. A funcionária achou que eu estava reivindicando uma nova pulseira, de graça.

Se tem uma coisa que me deixa realmente indignado, é quando sou mal compreendido. Ainda estou pensando em ir até lá pagar os outros cinco reais, e desfazer o engano. Mas, todos, inclusive eu mesmo, me achariam um idiota. Vamos apenas buscar maior clareza com as palavras, numa próxima oportunidade.

Obs.: No final das contas, o dono da loja me concedeu apenas metade do que eu reivindiquei.

30 de set. de 2007

A tranqüila semana de PG

A primavera chegou, e com ela vieram... os ventos congelantes. Ponta Grossa voltou a ficar mais cinzenta e fria nesta semana repleta de pequenas histórias confusas, tristes, engraçadas ou simplesmente curiosas. Os fatos foram notas de rodapé, trechos de parágrafos ou mesmo linhas, perdidas entre as páginas do jornal. Por que não reunir tudo isso em um único texto curto?

A nova rodoviária de Ponta Grossa, por exemplo, voltou a ser comentário no jornal. O governo do Estado anunciou a entrega das obras para o fim de novembro. Notícia boa, que partiu do secretário do Desenvolvimento Urbano, Forte Netto. Chama a atenção, no entanto, uma parte específica da fala do secretário: “O estilo arquitetônico [da nova rodoviária] segue as tendências do brutalismo de Le Corbusier, deixando à mostra todos os materiais da construção, como o concreto bruto, a estrutura metálica, os vidros e as pedras do piso”. Pode até ser verdade. Mas, pra quem não entende nada de arquitetura, parece mais piada.

Também parece piada uma ocorrência policial registrada na quinta-feira. Numa das ruas do Núcleo Santa Paula, uma menina conversava com o namorado, quando apareceu um sujeito que exigiu que ela entregasse o celular. O rapaz aparentemente nem estava armado, mas gritou que, se ela não entregasse o aparelho, ele “iria ficar muito louco”. A menina não quis saber o que aquela ameaça significava, e entregou logo o telefone. Com o celular nas mãos, o sujeito se embrenhou num matagal e desapareceu.

Mais dramática foi uma prisão efetuada no início da semana. Tudo começou na sexta-feira retrasada, quando um rapaz, de nome Rone, deixava o Presídio Hildebrando de Souza, graças a um alvará de soltura. Não ficou nem uma semana livre. Foi preso outra vez na última quarta-feira, depois de furtar um cobertor e um edredom para se proteger do frio. Ele alegou que só tinha pego emprestado, e que devolveria em seguida. Mas, não teve jeito. Voltou pro xadrez, autuado por furto, ainda que motivado pelo frio.

A semana também foi marcada por alguns recordes. Ou quase. O jovem atleta Felipe Leal, de 16 anos, ganhou destaque na pista de atletismo do Campus de Uvaranas da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Por um centésimo de segundo ele teria ultrapassado o recorde mundial nos 100 metros rasos. Sua marca de 9s75 causou euforia. Ele quase tinha chegado ao recorde mundial do atleta jamaicano Asafa Powell.

Depois que já tinham tirado até fotos da marca histórica registrada no cronômetro, os árbitros disseram ter se equivocado, e corrigiram para 10s10. O técnico do rapaz considerou o resultado ótimo, mas continuou achando que tinha algo errado na marcação da arbitragem. “É um tempo excepcional, mas impossível”, lamentou. O novo tempo ainda ficou entre os melhores registrados no país.

Outro número que pareceu recorde foi atingido no sábado. Ponta Grossa realizou, em apenas um mês, quatro desfiles na Avenida Vicente Machado. O primeiro foi no dia 7 de setembro (Independência do Brasil), depois foi no dia 15 (aniversário da cidade), em seguida mais um desfile que trancou a avenida em plena tarde de terça-feira, dia 25 (com a abertura do Festival de Arte da Rede Estudantil – o Fera). E, ontem, dia 29, novo desfile com a abertura do Festival Regional de Teatro.

A semana teria sido tranqüila, se não fosse pela PM prendendo Rone, um atleta ponta-grossense quase atingindo recorde mundial, um ladrão muito louco, e a Vicente Machado sendo interditada pela quarta vez em setembro. Coisas de Ponta Grossa.

18 de ago. de 2007

O simples, o complicado e o aeroporto de Carambeí

Nas últimas semanas estive trabalhando em Castro, num jornal chamado Jornal de Castro. Ironicamente, quando digo que estou trabalhando no Jornal de Castro, as pessoas perguntam “qual deles?” E eu tenho que repetir... “Jornal de Castro, ora”. Quando as coisas são simples demais, acabam se complicando.

Portanto, viajei com freqüência para a cidade vizinha a fim de realizar entrevistas, para depois escrever as matérias que iriam compor o 3º número jornal, que é quinzenal. Considerando que eu pegava o ônibus metropolitano (também conhecido como pinga-pinga, porque pára em diversas localidades até atingir seu destino final), o deslocamento foi um pouco cansativo, mas também foi interessante. Acredito que o ônibus é o maior símbolo da sociedade urbana, pois cada situação que se vê ali dentro serve como indicativo do momento que vivemos.

Exemplo:
Há duas ou três semanas, numa dessas viagens, o ônibus fazia sua habitual parada no terminal rodoviário de Carambeí, antes de seguir até Castro. No banco à frente, uma mulher viajava com seu filho. O garoto, com cerca de quatro anos, não parava quieto um instante. Comentava algo sempre que via um caminhão, um cavalo no pasto, ou rebanho de ovelhas. Mas, quando o ônibus entrou na área de estacionamento da rodoviária de Carambeí, o garoto ficou visivelmente transtornado. Depois de um instante de silêncio, com ares de choro, virou-se para a mãe e disse: “Ah, não... Aeroporto não, mãe... Aeroporto não!” A mulher levou algum tempo para entender o que o garoto dizia. Finalmente corrigiu: “Que aeroporto, moleque? Aqui é a rodoviária!”

Não sei se o menino tinha medo de que seu avião caísse, ou de ficar retido no aeroporto por horas inteiras. O fato é que as crianças vêem o telejornal. Antigamente as mães, para assustar seus filhos, diziam que o “homem do saco” ia levá-los embora. Aí as crianças se comportavam. Agora, aqui vai a dica: é só dizer que a criança vai pro aeroporto, que ela treme de medo.

Mas é impressionante como sempre tenho dificuldades na hora de fazer o pedido numa lanchonete! Às vezes é um baita interrogatório para servir um simples café! Em outras ocasiões, a dificuldade é o recheio do risoles. No outro dia havia dois pratos com risoles na vitrine. Perguntei do que era o recheio, e a funcionário disse que só tinha recheio de frango, porque as cozinheiras esqueceram de fazer risoles com carne moída. Comprei um, e era de carne moída.

E nessa semana fui fazer um lanche perto da universidade. Dessa vez, pedi uma coisa diferente, pra ver se não dava problema. Pedi um pão de batata. Aí a funcionária perguntou se eu ia querer molho. Eu disse que sim. Aí ela perguntou se eu ia querer mostarda. Não sei em que momento começou a confusão. De repente a moça teve um chilique, dizendo que o pessoal ia lá e recusava os sachês de mostarda, e que “jogavam” os sachês de volta no balcão... (dizendo isso, jogou o sache na minha frente) Peguei meu pão de batata e fugi para a mesa mais distante do estabelecimento. Cada uma que me acontece...

Então, neste momento, para fazer um lanche qualquer, o diálogo que preciso desenvolver é mais ou menos este:

_Oi! Me dá um risoles.
_De carne ou de frango?
(Frango não é carne?, penso)
_Frango.
_Vai querer molho?
_Sim.
_Mostarda?
_Pode passar pra cá.
_Mais alguma coisa?
_Um café.
_Pequeno ou médio?
(Não vai me oferecer grande?, me pergunto)
_Médio.
_Com leite?
_Ahn... sim. Com leite.
_Açúcar ou adoçante?
_Açúcar.
_Mais alguma coisa?
_Não. Obrigado.

Então, na próxima vez, direi:

_Oi! Eu quero um risolis de frango. Vou querer molho também: dois sachês de catchup, dois de mostarda e dois de maionese. Também quero um café tamanho médio com leite. Vou adoçar com açúcar. Obrigado.

O diacho vai ser se a funcionária olhar bem pra mim e disser: “Pode repetir?”

21 de jul. de 2007

Três dias em Curitiba

Impressões de um ponta-grossense na capital do Paraná

PARTE 1

A poltrona número 23 ficava à janela. Então, procurei não demorar muito para entrar no ônibus, assim não obrigaria alguém a encolher as pernas para que eu chegasse até meu assento. Eu estava indo para Curitiba, sob os pretextos de conhecer um pouco da capital paranaense, procurar um emprego, e visitar meu amigo Glaydson.
Imaginei que seria bom se uma pessoa disposta a conversar sentasse ao meu lado. Poderíamos ir falando o tempo todo, trocando idéias. Sempre surgem boas histórias em conversas assim. Mas o sujeito que parou ao meu lado pareceu carrancudo, e seu cumprimento foi um leve movimento de cabeça, quase imperceptível. Tive a impressão de que seria impossível desenvolver qualquer diálogo com aquele tipo. Minha suspeita se confirmou assim que ele se sentou, e abriu uma revista cheia de fotos, textos, e figuras, que o mantiveram ocupado durante metade da viagem. A outra metade foi ocupada por um cochilo.
Certa vez, durante outra viagem de ônibus, reparei em duas pessoas – um homem e uma mulher – que nunca tinham se encontrado antes. Mas iniciaram uma conversa que se estendeu por toda a viagem. Apesar de terem falado sobre alguns assuntos pouco agradáveis (como acidentes na estrada e pessoas que morreram em decorrência disso), senti uma pequena inveja. É difícil acontecer esse tipo de coisa. O acaso unindo duas pessoas desconhecidas, dispostas a conversar, durante uma viagem de ônibus. A maioria pega uma revista ou dorme, ignorando a pessoa ao lado. Foi o que me aconteceu naquela manhã de domingo.
Mas a distância entre Ponta Grossa e Curitiba não é tão grande assim. Cerca de 100 quilômetros percorridos em pouco menos de duas horas. A gente descobre que está chegando em Curitiba por causa de anúncios publicitários em outdoors, a palavra Curitiba vista em algumas placas de estabelecimentos comerciais, e devido à repentina aparição de grandes prédios, que criam um horizonte diferente daquele ao qual os ponta-grossenses estão acostumados.

Durante a viagem decidi adotar a postura de um curioso que visita uma cidade que lhe é pouco conhecida. Em resumo, seria eu mesmo. O olhar estrangeiro costuma ser mais elucidativo, ou mais provocativo, diante do que está ao redor. As primeiras imagens, acredito, são as que ficam por mais tempo na memória, mesmo que em nível subconsciente.
Enquanto o ônibus cruzava a cidade, vi um homem (um pai, provavelmente) tomar o skate de um menino, em frente ao estacionamento de um condomínio. Ele parecia brigar com o garoto de cerca de sete anos, que ouvia tudo calado. Vi duas mulheres que passeavam com seus cachorrinhos, que se encontravam, e conversavam, talvez sobre o tempo, que estava bom, mas que, segundo os jornais, teria chuva e frio nos próximos dias. E vi um casal de anões que caminhavam na calçada. Aquelas três visões poderiam ser um indício e um resumo de tudo o que eu encontraria nos próximos três dias que passaria na capital.

Três dias é pouco tempo, mas já é alguma coisa. Já tinha ido até a cidade em outras ocasiões, mas não tinham sido boas oportunidades para prestar atenção a esse mundo paralelo que sempre caracteriza a cidade vizinha. A gente tem a impressão de estar mais longe do que realmente está.
Na rodoviária, músicas calmas e sem anúncios publicitários me fizeram esquecer do Terminal Central de ônibus de Ponta Grossa, conhecido pelo rádio com som alto, muita publicidade e músicas estressantes. Ali fiquei esperando até que Glaydson viesse me encontrar, já que eu não sabia chegar até sua casa. “Mas qual é o endereço?”, perguntei ao telefone. “Ah, é perto da rodoviária... Mas nem adianta, você não vai achar”. Não sei se ele pensava no fato de eu não conhecer as ruas da cidade, ou se julgava ser realmente difícil de encontrar seu endereço. Provavelmente as duas coisas.

Quando ele chegou, e começamos a caminhar, minha mala com rodinhas pareceu fácil de ser carregada. Mas bastou que saíssemos da rodoviária, para que a coisa se tornasse mais complicada. As calçadas são bem menos irregulares que as de Ponta Grossa, mas também não foram feitas para essas malas com rodinhas, de modo que a melhor maneira era mesmo segurar a alça. Descobri que a mala era pesada, e que a casa de Glaydson não era tão perto assim da rodoviária.
O conceito de perto e longe, eu logo comprovaria isso, é bem diferente quando se está numa cidade com mais de um milhão de habitantes. Glaydson enumerava alguns dos pontos que, julgava, eu deveria me lembrar. “Tur número 1: O Mercado Municipal”, ele disse, apontando para um estabelecimento em frente à rodoviária. “A gente vem aí, às vezes, para passear. É como um shopping ou uma feira. Tem uma porção de coisas, mas é caro”, explicou. “Nossa...”, eu disse “Vocês fazem compras no Mercado Municipal?”, ironizei, lembrando do Mercado Municipal de Ponta Grossa, praticamente abandonado.

Glaydson ajudou a carregar a mala e, quando viramos uma esquina, chegando à rua em que ele morava, tive uma surpresa. Alguma coisa ali, naquele quarteirão, me fazia lembrar de minha cidade. A disposição dos prédios, uma árvore, os fios de luz ou a calçada. O sentido de movimento dos automóveis ou a largura da rua. Talvez tudo isso junto. O fato é que o ambiente me fazia lembrar um trecho do centro de Ponta Grossa. Mas ali nós estávamos na Rua Marechal Deodoro, no coração, ou numa das principais artérias, de Curitiba.
Em frente ao seu prédio, já vi coisa diferente. Ele encostava o chaveiro em um visor eletrônico, e o portão se abria. Não era magia, era tecnologia. Mas não encarei isso como novidade da capital. Julguei que deveria freqüentar mais prédios, isso sim.
O apartamento de Glaydson, no 5º andar, nº 502, também me fazia lembrar seu antigo apartamento em Ponta Grossa, na Avenida München. Provavelmente a semelhança se devia ao fato de os decoradores serem basicamente os mesmos. Ali também moravam Ericsson (Lelo) e Alisson (Gesuis), irmãos de Glaydson. E havia um quarto elemento, de quem em nunca ouvira falar. Um tal de “Nif”. Seus apelidos renderiam um estudo à parte.
Havia um barzinho no canto da sala, adornado com aquário preenchido por uma lagosta, um camarão, três peixinhos e, é claro, água. Por mais tranqüilo que um aquário possa parecer, ele sempre traz alguma história interessante. Mais tarde soube de alguns desses “causos”. Dizem que, certa noite, a lagosta saiu do aquário (de um jeito que ainda não foi descoberto) e, caminhando pela escuridão, sobre o carpete, quase foi confundida com um escorpião e esmagada pelo Glaydson, com a ajuda de um chinelo.
Outra história afirma que o camarão fez o mesmo, e se deslocou por todo o apartamento até o quarto de um dos moradores. Depois voltou ao aquário, como se nada tivesse acontecido. Mas isso pode ser uma lenda.
A parede da sala exibia o desenho, feito com tinta preta, de uma mulher seminua em atividades de stripper. A obra artística tinha sido feita por um amigo, ex-morador do apartamento, que não quis assinar embaixo. “É a personagem dos quadrinhos Sin City, tá ligado?”, explicou Gesuis. A TV a cabo ficava ligada, normalmente, desde o momento em que o Glaydson acordava. “Não consigo ficar no mais completo silêncio por muito tempo”, disse. Atrás da TV, uma grande janela ocupava quase toda a parede. Tinha uma boa visão da rua, e dos prédios.
“Olha! Um avião!”, exclamei. Glaydson e Gesuis esperavam que tivesse algo errado com o avião. Que estivesse caindo ou pegando fogo, a julgar pelo meu espanto. Mas era só um avião pousando no aeroporto. Visão comum naquela parte do mundo, e estranha se fosse em Ponta Grossa. Em PG, se um avião começa a fazer muito barulho ou voar muito baixo, os vizinhos começam a sair de suas casas, acreditando que o piloto está perdido e a aeronave pode cair a qualquer instante.
Na cozinha senti falta de duas coisas: um lugar para pendurar o pano-de-prato, e gavetas. “No meu guarda-roupa também não tem gaveta. É uma bosta pra guardar cuecas!”, disse Gesuis.
Enquanto eu ainda estava na sala, um barulho medonho pareceu vir da cozinha. Era como se alguém estivesse preso em uma caixa metálica. E essa pessoa batia desesperadamente, tentando se livrar da prisão. “É a lavadora de roupas”, explicou Glaydson.
A torneira da pia da cozinha tinha dois registros. A da pia do banheiro tinha outros dois. E o chuveiro tinha quatro. Aos poucos fui aprendendo aquele modo de vida peculiar. “Fique à vontade na cozinha”, falou Glaydson, como se dissesse “o que você achar é seu”. Mais tarde Nif surgiria à porta da cozinha, perguntando: “Pô... quem foi que tomou meu guaraná?” Meio sem jeito, ergui a mão, enquanto Gesuis e Glaydson mantinham o silêncio. E eu sem entender por que Glaydson tinha me oferecido sua Coca-Cola, quando eu pegava o Guaraná da geladeira. Só o tempo ensina esse tipo de coisa.

*****

PARTE 2

Ainda na manhã de domingo, Glaydson e eu fomos até a casa do Márcio para combinar algum breve passeio à tarde. Enquanto eles conversavam na cozinha, olhei da janela da sala e vi, lá embaixo, uma japonesa em trajes vermelhos típicos, meias brancas e sandálias de sola de madeira, que cruzava a rua. Curitiba é assim, um lugar onde a gente finge que não se surpreende com nada.
À tarde, Márcio dirigia um Ford Ka. Ao seu lado estava seu amigo Rudiney. Atrás íamos eu e Glaydson, joelhos espremidos contra os bancos da frente. O objetivo era encontrar a casa da Heloísa. Márcio tinha o nome da rua, Glaydson lembrava que tinha uma porção de palmeiras em frente ao prédio onde ela morava.
Um pouco antes disso, um automóvel fez um movimento errado e quase foi responsável por uma batida com nosso carro. O motorista tinha invadido uma área exclusiva de táxis. Márcio não poupou a buzina, nem as advertências verbais. Procurei defender o desconhecido: “Coitado do cara... vai ver que ele é ponta-grossense e não conhece Curitiba direito”, comentei.
A verdade é que não é à toa que sobram relatos de visitantes que entraram na canaleta dos ônibus. A capital paranaense tem um trânsito bastante singular. E estar no banco do carona, tendo o Márcio como motorista, servia como uma aula para quem nunca dirigiu no centro daquela metrópole.

A buzina é acessório indispensável. Márcio usou diversas vezes, embora eu não tenha entendido bem suas razões. Às vezes parecia querer apenas dizer aos outros motoristas “olhem, também faço parte do trânsito, e não se esqueçam disso”.
É também importante ter em mente que existem ruas por onde só trafegam ônibus, ruas onde só ficam táxis, e ruas onde só caminham pessoas. E tudo isso não é assimilado imediatamente pelo cérebro comum.
Ser pedestre também é diferente. Glaydson lembrou que pesquisas mostram que o curitibano está entre aqueles que caminham mais rápido no mundo, perdendo apenas para os habitantes de Tóquio. Em Ponta Grossa estou acostumado a ultrapassar pessoas que caminham devagar para meu padrão de velocidade. Em Curitiba só precisei fazer isso duas ou três vezes.
Tenho uma teoria... Talvez a velocidade dos pedestres seja proporcional à largura das ruas, e à quantidade de carros. Por mais que a maioria das esquinas no centro de Curitiba tenha semáforo para pedestres, ninguém fica totalmente seguro enquanto está no meio da rua. Sendo as ruas mais largas (às vezes com cinco vias), essas pessoas sentem a necessidade de cruzar para o outro lado mais rápido, e transferem essa velocidade também para as calçadas. Ou, talvez, só tenham pressa.

Depois de alguma procura encontramos o endereço de Heloísa, e juntos decidimos ir até o shopping Curitiba. Ao entrar na garagem, Márcio apertou o botão de uma máquina, que emitiu ticket com a inscrição “ROTATIVO”. Em seguida iniciou a procura por uma vaga. O estacionamento em espiral descendente parecia nos levar ao centro da Terra. “Já estou me sentindo como Júlio Verne”, disse Glaydson. Perguntei ao Márcio se o estacionamento se chamava “rotativo” porque ficaríamos rodando até que a gasolina acabasse. “Espero que não”, respondeu.
Finalmente surgiram algumas vagas, e o carro pôde ser estacionado ainda com um pouco de combustível.

Enquanto subíamos as escadas rolantes, perguntei à Heloísa o que aquele shopping tinha, que o shopping de Ponta Grossa não tinha. “Sei lá, Danilo, que pergunta...” Na praça de alimentação, encontrei algo diferente. Quem comprasse um copo de refrigerante na lanchonete Burger King poderia enchê-lo quantas vezes quisesse na máquina ao lado. E no banheiro, depois de lavar as mãos, a gente secava com um aparelho que soprava. Mas nada disso era grande novidade. Diferente mesmo era a porta que abria sozinha, que dava acesso ao estacionamento. Heloísa achou que eu estava brincando, mas julguei ser algo diferente, já que em Ponta Grossa só vi tal tecnologia em um dos hotéis da cidade. Depois eu descobriria que aquelas portas eram bem mais comuns em Curitiba.
Ficamos pouco tempo no shopping. Apenas o suficiente para conversar um pouco e engolir um hambúrguer. Márcio precisou sair logo. Heloísa ficou mais um pouco, e foi pegar ônibus numa das estações-tubo, depois que saímos. Quando eu e Glaydson voltávamos para casa, vimos um tumulto uma ou duas quadras adiante. Dezenas de adolescentes corriam em grupos de um lado para o outro, em um movimento que me lembrava cardumes de peixes fugindo de um golfinho.
Um rapaz, que não estava muito longe de nós, foi até uma caçamba cheia de entulhos, e apanhou de lá de dentro uma pedra. Em seguida avançou em direção ao tumulto. Uns vinham em nossa direção, outros seguiam na direção oposta. Logo percebi que se tratava de alguma briga de gangues. “Se não sobrar uma bala perdida pra gente, tá bom”, disse Glaydson. Mais tarde ele sugeriria uma explicação. No domingo, o grupo dos skatistas se encontra com o grupo dos emos e o dos góticos. Um não concorda com o outro, e surgem essas disputas.
Passávamos em frente do Shopping Estação, e resolvemos entrar até que os ânimos se acalmassem lá fora. Ali, no passado, foi a estação de trem da cidade. Hoje, transformada em shopping, a construção abriga uma espécie de museu com parte da história do lugar. Além disso, inspira a decoração do shopping. Há uma locomotiva no saguão, salas e bilheterias preservadas, o antigo horário dos trens, e bonecos engraçados usando as vestimentas da época em que aquele ambiente devia ser, proporcionalmente, tão ou mais movimentado que a atual rodoviária.
Passeando por esse museu, chegamos diante de uma vitrine com várias peças que pareciam pequenos livros em seu formato, mas que na realidade eram amostras de madeira, de diferentes tipos. Cada pedacinho de madeira tinha um número. E junto havia uma lista com a correspondente identificação do tipo de madeira ao qual as peças pertenciam.
Havia dezenas delas. Cem ou mais. Apenas uma chamou minha atenção. Era uma madeira escura e brilhante. Parecia mais bonita que as outras. Seu número: 37. Fui até a lista. Curiosamente, era o único pedaço de madeira cuja espécie não estava catalogada. Lá, no lugar do nome, três asteriscos fazem com que o pequeno (e talvez insignificante) mistério permaneça por diversas décadas.
Depois que a aparente tranqüilidade voltou às ruas em torno do shopping, retomamos o trajeto de volta para a casa do Glaydson, dessa vez sem tumultos. Já era noite. Glaydson quis fazer uma sopa. Juntou batatas, sopa de pacotinho e quatro tipos de restos de macarrão. Eu estava prestando atenção, pra ver se aprendia a cozinhar alguma coisa. Ao final, ele colocou mais um pó para deixar a sopa cremosa, e mexeu mais lentamente com a colher. Depois parou, ergueu a colher, e disse: “Ih... empelotou tudo”. Aprendi que aquele pó deve ser colocado em água fria, nunca em água já quente.

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PARTE 3

Ponta Grossa não me parece fraca no que se refere a lojas de livros usados. Tem pelo menos quatro sebos que merecem destaque, e onde costumo encontrar livros, discos e revistas interessantes. Ainda assim, há coisas que procuro e não encontro, até porque meu nível de exigência às vezes se torna elevado.
Sendo assim, achei que em Curitiba seria pertinente visitar alguns sebos também. Na segunda-feira, pela manhã, Glaydson foi me mostrar onde ficavam algumas dessas lojas que eu poderia conhecer. À tarde ele estaria trabalhando, então a idéia era me mostrar onde ficavam os sebos, para que depois eu fosse sozinho em cada um deles. A pesquisa em sebos exige tempo.
Saímos do prédio e, depois de caminharmos algumas quadras, comecei a olhar para trás. Glaydson percebeu: “Você tá tentando memorizar o caminho de volta?” Confirmei com a cabeça. “Mas a gente tá andando em linha reta. É só seguir pela mesma rua!” E, de fato, estávamos caminhando há diversos minutos, mas continuávamos na Rua Marechal Deodoro, que parecia não acabar mais.
O primeiro sebo que Glaydson apontou consistia em uma pequena porta pouco convidativa: “Eu estive ali uma vez, mas não gostei do atendimento”, falou. Em seguida fomos para outro, não muito longe dali. Os demais eram visualmente mais interessantes. Apenas ali, nos arredores, Glaydson apontou cinco sebos. E foram aqueles que voltei a visitar, com mais atenção, à tarde.

O primeiro sebo marcava seus livros com signos zodiacais, através de carimbos. Cada símbolo do zodíaco, encontrado na última página do livro, correspondia a um preço identificado em tabelas afixadas nas estantes. Não encontrei nada de muito interessante para comprar. Mas achei curioso que uma cliente muito falante, que procurava livros também, comentou com o atendente: “Esse sebo é melhor do que o outro que tem ali na esquina. Lá o funcionário é tão mal-encarado...” Curiosamente, ela estava criticando o mesmo sebo que Glaydson disse ser ruim. Decidi que aquele seria o último lugar no qual poria os pés.
Eu estava procurando alguns títulos bastante específicos e, justamente por isso, corria o risco de não encontrar nada que me agradasse. Diante de um funcionário atencioso, que aos poucos ia perdendo a paciência comigo, expliquei o que procurava:
“O título do filme é ‘Minha Vida é Um Inferno’. É um pouco antigo, deve existir apenas em VHS. O personagem principal é interpretado por um cara chamado Steve Oedekerk. Jim Carrey é ator coadjuvante, e não era famoso na época em que fez o filme. Esse Steve passou a dirigir alguns filmes do Jim Carrey, depois...”
“Nunca ouvi falar”, respondeu.
“E Nick Raider... procuro uma coleção de gibis com o personagem, que é um detetive em Nova York. É um desenho criado na Itália. A Editora Bonnelli estava publicando suas histórias recentemente aqui no Brasil. E a Record publicou dez números na década de 1990. Eu tenho sete edições, faltam três para fechar a coleção...”
“Não...”
“Spirou e Fantasio... são dois personagens de quadrinhos europeus. Apenas um álbum deles foi publicado aqui no Brasil...”
O funcionário agora se limitava a balançar a cabeça de um lado para o outro. Acho que começava a suspeitar que eu tinha inventado todos aqueles nomes. Outra vez na rua, continuei a peregrinação, e aproveitei para observar alguns detalhes que, desde que eu tinha chegado, chamavam minha atenção em Curitiba. Por exemplo, o número de muros e prédios pichados. No centro da cidade, você dificilmente encontra um lugar de onde não seja possível visualizar ao menos uma dessas manifestações de vandalismo. E, muitas vezes, os estranhos hieróglifos (feitos com spray, pincel, ou rolo de tinta) são encontrados em lugares de difícil acesso, como a sacada do terceiro andar de um prédio, ou mesmo a parte mais alta do edifício.

Quanto às pessoas, é interessante fazer comparações com Ponta Grossa. Em PG é difícil cumprimentar alguém na rua, mesmo sendo conhecido. Excetuando pessoas muito amigas, ou senhoras bastante falantes, a maioria se cumprimenta de um modo tão discreto que, na maioria das vezes, nem se percebe. Um leve movimento de cabeça, ou de sobrancelha. As pessoas não são muito sociáveis, e parecem ter medo de cumprimentar de uma maneira excessivamente visível, e receberem depois um semblante carrancudo ou, pior, o silêncio como resposta.
Já em Curitiba, é ainda mais curioso. As pessoas não olham umas para as outras. Tudo o que vêem são carros, prédios e calçadas. Às vezes sapatos. Mas não dá pra dizer que o curitibano seja “fechado”. Assim como tal generalização não deve ser feita acerca do ponta-grossense ou de qualquer habitante de outra cidade. Uma mulher no supermercado aceitou desenvolver breve conversa sobre o tamanho da fila. E o porteiro do prédio até disse um simpático “Seja bem-vindo a Curitiba”, quando soube que eu não era dali.
Talvez essa seja uma das razões que fazem Ericsson, o irmão de Glaydson, querer morar ali mesmo. Ele até já passou a torcer pelo Coritiba, ficando realmente indignado quando o time perde uma partida.

Mas é verdade que o ambiente influencia o ser humano (assim como o contrário também acontece), e a explicação para o distanciamento entre as pessoas pode estar num detalhe facilmente perceptível: o centro da capital possui elevado número de mendigos. Não é possível caminhar dois quarteirões sem que um deles venha pedir uma moeda. E todos se parecem uns com os outros. Pior, muitos deles estão caídos em becos e esquinas, bêbados, drogados, doentes ou mortos. Como se vai saber? O fato é que o curitibano habituou-se a desviar deles, ou a ignorá-los. Talvez essa seja uma das explicações para o fato de as pessoas não olharem umas para as outras, enquanto caminham pelas calçadas ou esperam que o semáforo permita a travessia da rua.
Enquanto estive na rodoviária de Curitiba, notei que o rádio servia para outras coisas, além de anunciar a chegada e partida dos ônibus. Servia também para dar uma série de avisos de utilidade pública e serviços. Entre esses avisos está o “Não dê esmolas”. A recomendação é que as pessoas façam doações a entidades beneficentes, caso queiram fazer uma boa-ação.

Eu já tinha passado por todos os sebos que o Glaydson tinha mostrado. Só restava um. Aquele que ele tinha criticado logo no início. Descobri que era um dos maiores. Curioso que as estantes tinham os mesmos símbolos do zodíaco que eu tinha encontrado no primeiro sebo. Como as duas lojas ficavam praticamente em frente uma da outra, deduzi (e acho que não estou errado) que pertencem ao mesmo proprietário. A mulher que falava mal do atendimento podia estar fazendo uma reclamação ao próprio dono, talvez, sem o saber.
Ao fundo, na sessão de quadrinhos, foi que encontrei algumas coisas interessantes. Entre elas, um livro com tiras do personagem Hagar, e outro com a história de um detetive chamado Jack Palmer, publicada em Portugal, o que dava um efeito especialmente cômico à sua leitura (devido às diferenças entre nosso português e o lusitano). Foi lá que acabei comprando os livros. Por mais que aceitemos a opinião dos outros, é sempre bom esperar até termos a nossa.

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PARTE 4

Algumas experiências vividas em Curitiba fizeram com que eu chegasse à seguinte conclusão: se eu realmente tenho o poder de atrair estranhas coincidências, isso com certeza é uma habilidade que não se restringe aos limites de Ponta Grossa.
Pouco antes de viajar à capital, encontrei na Internet informações a respeito de uma empresa, chamada Estúdio Openthedoor, especializada em criações publicitárias com desenhos e animações. Enviei um currículo para a empresa, e pensei em visitar o endereço quando estivesse em Curitiba.
Na manhã de terça-feira, Glaydson sugeriu que fôssemos ver os quadros artísticos expostos no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (o MAC), que fica não muito longe do prédio onde o Glaydson mora, e na mesma rua. Aceitei a idéia imediatamente, e saímos.
Não tínhamos caminhado nem mesmo uma quadra, quando um carro parou por alguns instantes diante de nós, na preferencial, antes de atravessar o cruzamento. Chamou minha atenção o rapaz que estava no banco do carona. Parecia ser... “Glaydson”, eu disse “Aquele não é o irmão do Márcio?”, perguntei enquanto o carro se distanciava. Mas o Glaydson não tinha visto. De qualquer modo, não devia ser. Eu só conhecia o sujeito porque tinha visto uma foto sua na casa do Márcio um dia antes, num porta-retrato. Mas, se fosse ele... seria uma grande coincidência. A primeira de uma série...

Enquanto caminhávamos rumo ao museu, lembrei de minha intenção de visitar o Estúdio Openthedoor. Mas percebi, um pouco contrariado, que tinha esquecido de anotar o endereço da empresa. Não era um grande problema, afinal. Bastaria acessar o site na Internet, como eu havia feito na primeira vez.
Ainda me concentrava nesses pensamentos, quando vi uma menina sair de dentro de um prédio, e caminhar ao nosso lado, carregando alguns envelopes de correspondência. Paramos na esquina, esperando que o semáforo ficasse verde.
Acontece que a menina era bonita, e fiquei tentando imaginar qual seria seu nome. Talvez, se eu desse uma espiada no envelope em sua mão, poderia descobrir... Bem, a idéia era válida. Mas impossível de ser realizada. De onde eu estava, só podia ler a etiqueta que continha nome e endereço do destinatário. Para meu espanto, a inscrição era a seguinte: “Estúdio Openthedoor, Rua Presidente Faria, nº 51”.
“Glaydson...”, falei “Você sabe onde fica a Rua Presidente Farias?”
“Por quê? Você leu na correspondência da moça?”
Depois de quatro anos estudando juntos na mesma universidade, Glaydson me conhece um bocado...

Mas ele não sabia onde ficava o endereço. De qualquer modo, aquela estranha coincidência, dadas as dimensões daquela cidade estranha com pessoas e lugares ainda desconhecidos, aumentou meu desejo de conhecer o tal estúdio.
No museu, vimos muitos quadros estranhos, cujo significado original não pudemos identificar. Muitos eram interessantes. Mas teve um que chamou minha atenção e, querendo ou não, esse é que ficou na minha memória. Era uma reprodução do famoso quadro de Monalisa, de Leonardo Da Vinci. Mas havia uma particularidade curiosa: um raio vermelho saía dos olhos de Monalisa. O título era “Passado”. Mas poderia ser “Monalisa With Lasers”, caso o artista fosse assíduo freqüentador do Orkut.

Depois de sairmos do museu, Glaydson disse que precisava pagar uma conta em uma loja de roupas ali perto. A loja era mais uma, entre muitas, onde a porta abria automaticamente com a aproximação do cliente. Todavia, seu sistema de pagamentos era menos eficiente. Devia ter pelos menos cinqüenta pessoas naquela fila, e Glaydson preferiu caminhar mais alguns quarteirões, até o Shopping Müller, onde, segundo ele, havia outra filial daquela loja.
Assim fiquei conhecendo um pouco mais do centro da cidade. Descobri onde ficava a Igreja Matriz, por onde passamos enquanto seus sinos badalavam. Encontrei a popular “Praça do Homem Nu”, e mais tarde conheci o caminho para o Passeio Público. Duas pessoas passeavam pelo lago artificial com um daqueles pedalinhos flutuantes. “Aqui nós temos esportes radicais”, ironizou Glaydson. “Afinal, se você mergulhar seu dedo nessa água, tira apenas o ossinho depois. É ácido”. O sorriso em seu rosto denunciava a brincadeira em suas palavras, mas a aparência da água confirmava a verdade nelas.
Quando chegamos ao Shopping Müller, encontramos uma fila bem menor. Menos de dez pessoas, talvez. E uma funcionária simpática mostrou que toda a operação de pagamento poderia ser feita em um dos terminais de auto-atendimento da loja. Isso reduziu ainda mais nosso tempo de espera.

Na hora do almoço, enquanto Sandra Annemberg anunciava no telejornal o “Dia da Pizza”, eu coincidentemente estava comendo uma pizza. Enquanto isso, explicava ao Glaydson minha intenção de procurar o estúdio Openthedoor naquela tarde. Glaydson estaria no trabalho, enquanto eu iria me aventurar mais um pouco pelas ruas de Curitiba.
Conforme planejado, à tarde procurei um mapa de Curitiba no apartamento de Glaydson. Não foi difícil achar. Estava no barzinho. Gesuis, mais tarde, se admiraria ao saber que encontrei um mapa ali. Talvez fosse mais difícil que achar o endereço do Estúdio Openthedoor. Mas ali eu localizei a Rua Presidente Faria. Ficava mais perto do que eu imaginava. A cerca de sete quadras de distância. Peguei um papel e anotei a seqüência de ruas pelas quais deveria passar, até chegar ao endereço final. E lá fui eu...

As indicações me levaram até um grande prédio. Mais um com portas automáticas. O porteiro olhou para mim como quem diz “desembucha!” “Estou procurando o Estúdio Openthedoor”, desembuchei.
“Mudou-se”, ele disse.
Então senti uma grande decepção. Achava que o acaso estava me incentivando, por algum motivo, a conhecer o tal estúdio. Mas essa inesperada alteração nos planos me fazia duvidar das intenções do acaso.
“Eu tenho o novo endereço aqui...”, falou o porteiro, enquanto colocava um papel e uma caneta sobre o balcão, para que eu copiasse a informação. Anotei, mas tinha certeza de que aquilo não ia adiantar muito. Eu praticamente não conhecia nada de Curitiba. Encontrar o novo local seria bem mais complexo, sem pontos de referência.
“Fica perto?”, perguntei.
“Sim... fica perto do Shopping Müller”.
Salvo! Eu estava salvo! Por coincidência, eu tinha conhecido o Shopping Müller há poucas horas. Bastaria lembrar do caminho que tinha feito com Glaydson, e eu chegaria ao local. Outra vez passei pela Igreja Matriz (que, outra vez, tocou seus sinos, como se confirmasse sua existência), depois pela Praça do Homem Nu, e poucos minutos depois eu chegava ao shopping. Seguindo a indicação do porteiro, caminhei mais algumas quadras. Mas imaginei que não seria fácil encontrar a tal Rua Senador Xavier da Silva.
Mas foi fácil! A rua simplesmente surgiu diante de mim. E eu, inclusive, já estava no quarteirão certo. Só que era tarde de terça-feira, e por pouco ninguém me atende, pois a equipe do Estúdio Openthedoor estava atolada em trabalho. Grupos em computadores, outros ao telefone, outros na forma mais rudimentar do desenho (lápis e papel).
Felizmente, Marli, para quem eu tinha enviado o currículo uma semana antes, me recebeu e dedicou cinco minutos de seu tempo e simpatia para mostrar o ambiente de trabalho, e alguns dos produtos que tinham desenvolvido recentemente.
O acaso me levou até lá, mas não foi ali que consegui trabalho. Pelo menos não dessa vez. Ao final, agradeci e caminhei de volta em direção à casa de Glaydson, passando outra vez pelo Passeio Público, onde um velhinho fazia movimentos e ruídos engraçados, provocando um pelicano. Quando me viu, ficou um pouco sem jeito. “Que bicho mais feio, não é?”, perguntou, rindo. Talvez o objetivo do acaso fosse apenas me levar até aquela cena, curiosa e bizarra, de um velhinho imitando um pelicano.

*****

PARTE 5

Mas, quando chegou a manhã seguinte, achei que já estava na hora de voltar para casa. Tinha saído de Ponta Grossa com a idéia de voltar na quarta-feira, e eu dificilmente mudo meus planos.
Evitei pedir desculpas por causa do guaraná alheio que retirei da geladeira. Dei uma última olhada na TV a cabo (onde assisti, pela primeira vez, a uma luta de sumô), e falei “até mais” para Gesuis e Ericsson. Ergui minha mala com rodinhas e voltei para a rodoviária, em companhia de Glaydson. Alguns minutos depois, eu estava na fila para subir no ônibus que me levaria outra vez para minha cidade.
Um rapaz e uma moça, que estavam logo à minha frente, não paravam de conversar. Pelo tom do diálogo pude perceber que já se conheciam antes, e que tinham se encontrado por acaso na rodoviária.
A moça sentou ao meu lado, na poltrona número 10. O rapaz, do outro lado do corredor, um pouco para trás, na poltrona 15. Apesar disso, continuavam conversando, até o momento em que o ônibus começou a deixar a rodoviária. Então, finalmente, ambos tiveram que ficar em silêncio. Não seria elegante ficarem gritando através do corredor. Como o acaso não os tinha colocado lado a lado, resolvi dar um empurrãozinho.
“Moça, será que ele não quer sentar aqui?”, perguntei. “Não sei”, ela disse.
“Ei, você quer se sentar aqui?”, perguntei ao rapaz do outro lado do ônibus.
“Se não tiver problema”, ele respondeu.
Foi assim que troquei a poltrona número 9 pela número 15. Pra mim não fez grande diferença. Quanto àqueles dois... Foram conversando de Curitiba até Ponta Grossa, durante duas horas, com quase nenhum intervalo. Achei que tinha feito uma boa-ação. E só me arrependi do favor quando a moça começou a contar histórias sobre pessoas ensangüentadas. Descobri que ela era enfermeira, e que falava alto demais.

O fato é que naquela quarta-feira, quando eu saía de Curitiba, uma frente fria chegava a esta região do Paraná. A prova disso era a garoa fina que começava a cair na capital. As janelas do ônibus estavam embaçadas, e foi essa a fonte de diversão das crianças que viajavam no mesmo veículo, fazendo desenhos e escrevendo no vidro úmido. Quando chegava a Ponta Grossa, decidi que tentaria assumir a mesma estratégia usada quando cheguei a Curitiba. Seria um curioso numa cidade pouco conhecida. Quais seriam as minhas impressões, ao ver a cidade pela primeira vez? Quais seriam as primeiras imagens?
Esfreguei o vidro com a mão. Não tinha jeito... a primeira coisa que vi foi algo que não encontrei em nenhuma esquina de Curitiba. De uma só vez, três cachorros sentados na calçada, como que para dar as boas vindas a quem passava de ônibus por ali. Ruas menores no centro da cidade. Pessoas encasacadas, e em menor número. O chuvisco constante obrigava algumas senhoras a usar guarda-chuvas. Finalmente, quando o ônibus ainda cruzava o centro da cidade, vi o primeiro rosto conhecido. Sim, eu estava de volta à cidade de pouco mais de 300 mil habitantes, onde vivia há mais de vinte anos. Na rodoviária, ou no galpão que servia de rodoviária provisória, enquanto a nova rodoviária é erguida, encontrei meu pai:
“Bem-vindo à capital do frio!”, disse, rindo, e devolvendo as mãos aos bolsos.


A Rua Marechal Deodoro, em Curitiba

7 de jul. de 2007

Transtornos trazidos por três letras extraviadas
Tenho pouco dinheiro no banco. Talvez por isso tenha ficado tantos meses sem comparecer diante de um caixa-eletrônico. Ou talvez porque eu seja econômico. Uma economia compatível com o pouco dinheiro que tenho no banco.

O fato é que, depois de cerca de quatro meses sem ver a máquina da caixa econômica, precisei tirar um extrato, e não pude. O computador pediu a senha numérica. Eu digitei. Depois pediu a senha de 3 letras. E eu... Senha de 3 letras? Eu não lembrava. Recordava apenas que, quando criei a conta, tinha a senha numérica e uma palavra-chave. A palavra foi fácil de memorizar: SIRENE.

Mas, de fato, na última vez em que tinha utilizado o terminal de auto-atendimento, a máquina tinha trocado a palavra-chave por uma seqüência de 3 letras. Eu lembrava de ver a máquina emitindo um papel amarelo que continha as tais letras.

Procurei pelo papel em minhas gavetas, no meio da agenda, dentro da mala e entre os livros. Não encontrei. Numa tentativa com poucas chances de sucesso, digitei qualquer coisa e, claro, a máquina não aceitou. Não tive escolha senão falar com o gerente.

Não foi difícil. Eu ainda lembrava a senha numérica. Ele apenas conferiu minha identidade, digitou algo num computador ao seu lado, e disse: “Pronto! Da próxima vez em que for usar o caixa-eletrônico, a máquina vai criar uma nova senha de acesso para você”.

Agradeci. Voltei ao caixa-eletrônico, não sem antes reclamar com o gerente, dizendo que era mais fácil memorizar a palavra SIRENE do que uma seqüência de letras aleatórias.

A máquina cuspiu nova seqüência de letras. Tirei o extrato e fui para casa, prometendo me esforçar mais para guardar na memória as letras da senha.

Menos de uma semana se passou, fui à biblioteca municipal, onde não ia desde o começo do ano. Queria emprestar “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway (ótima leitura, por sinal). Já estava saindo com o livro nas mãos, quando a bibliotecária chamou. Algo tinha caído do meio da carteirinha. Um pequeno papel amarelo contendo três letras: ZLU.
Era a senha antiga.

Possível moral da história: Se estiver procurando algo, desista de procurar, que você acha.

Paralelamente... Contei os fatos para um amigo, que começou a rir ao meu lado:
“Imagine só...” – ele disse “Imagine se você fosse seqüestrado por assaltantes, que te obrigassem a sacar o dinheiro do banco. Você diria ‘Eu esqueci a senha... Era mais fácil lembrar de SIRENE’. Será que eles iriam entender?”