18 de abr. de 2007

Boato causa rebuliço no supermercado

Possível reciclagem de leite confunde consumidores

A boa Teoria da Conspiração é aquela que não pode ser provada, nem desmentida com facilidade. Mas, muitas dessas Teorias começam com simples boatos, que se espalham com velocidade assustadora, e nem dão tempo para serem desmentidos.

Há pouco mais de um mês fui ao supermercado e, quando ia apanhar uma caixa de leite, tive que esperar a indecisão do sujeito que estava à minha frente. A maioria das pessoas simplesmente olha a marca e o preço do produto. Outros, mais atentos, reparam na data de validade. Mas esse cidadão fazia mais que isso... tirava uma das caixinhas de leite de dentro do pacote ainda lacrado, e olhava com extrema atenção o fundo da embalagem.
Quando me viu ao seu lado, procurou justificar a atitude:

_Está vendo esse número aqui embaixo da caixa de leite? – perguntou, apontando para um número 5 – Significa que o leite voltou para a fábrica 5 vezes, foi reciclado, e trazido de volta até a prateleira do mercado.

E, depois da explicação, devolveu o leite com número 5, e levou outro que tinha número 2 embaixo da embalagem.

Eu jamais tinha ouvido falar naquela história. Leite reciclado? Seria possível? Só mesmo falando com um técnico para saber se era verdade. Mas, desde então, comecei a reparar que as caixas de leite traziam sempre um número (entre 1 e 5) no fundo da embalagem. Podia ser verdade. Eu podia estar bebendo leite “velho” sem saber.

O fato é que essa informação foi se espalhando depressa. Tão rapidamente, que deve ter chegado até a gerência da empresa que fabrica embalagens de leite longa-vida. E, nos últimos dias, as caixas de leite começaram a ser vendidas junto com um folheto que desmente, de forma quase irritante, o boato que se espalhou pelos supermercados.


O panfleto explica que a numeração contida na embalagem serve apenas para identificar de qual trecho da bobina de papel saiu a caixa que o consumidor tem nas mãos. Seria um meio para garantir o controle de qualidade das embalagens.

O folheto termina dizendo que “O Leite Longa Vida é inspecionado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e pela Vigilância Sanitária e NÃO pode, por lei, ser reprocessado”.

Continuei desconfiado e, para sanar a dúvida, tive que ver pessoalmente uma dessas bobinas de papel, de onde saem as embalagens. E, não é que é verdade! Cada bobina possui vários números que, aparentemente, não têm relação com o conteúdo da caixa.

Essa história me fez lembrar de outra Teoria, surgida no final da década de 1980. Quando lançaram o videogame Atari, alguém espalhou o boato de que o brinquedo estragava o aparelho de televisão.

Não fiquei sabendo de nenhum televisor que pifasse por causa do videogame. Mas sei de inúmeros jovens que só puderam jogar pacman em televisores antigos, porque “na TV nova da sala, nem pensar”, diziam os pais.

Também existe a teoria que diz que a tecnologia do Atari foi trazida do espaço por alienígenas. Mas essa ainda não foi desmentida.

31 de mar. de 2007

Há mais mistérios entre o céu e a terra...

Não muito longe do centro da cidade de Ponta Grossa fica a Rua Padre Nóbrega, que se estende por diversos quarteirões, desde o colégio Instituto de Educação, passando em frente ao Estádio Germano Krüger – o Operário, para terminar diante do Colégio Professor Colares, numa região conhecida popularmente como “Curva do diabo”.

Se medíssemos a distância entre uma extremidade e outra da rua, minha casa estaria localizada aproximadamente na metade desse trajeto. Gosto de viver aqui. Não é região muito movimentada, nem monótona demais – o ônibus passa em frente. Não é rua de asfalto, mas também não é de terra – é de calçamento. E, de vez em quando, o lugar não foge à regra e, como no resto da cidade de Ponta Grossa, coisas estranhas acontecem.

Aliás, assim como este local da rua pode ser considerado ponto de encontro entre suas duas extremidades; do mesmo modo a região serve como ponto de encontro de outros extremos. Daqui posso ver a creche administrada por irmãs religiosas, e também uma casa suspeita onde a polícia já esteve diversas vezes fazendo apreensões e verificando denúncias.

Foi aqui que vi uma gaiota se desprender de um carro, e quase atropelar duas mulheres e uma criança parada na esquina. Aqui, ao alcance da vista estão árvores altíssimas e, por trás delas, acho que existe um heliporto, porque já vi uma dessas aeronaves pousando naquela direção. Há crianças brincando de bicicleta, marrecos gritando e (até pouco tempo) galos brigando.

Aqui já teve incêndio, suicídio, atropelamento, macumba, briga. Já acompanhei shows pirotécnicos, explosão de transformador em poste da rede elétrica, já vi neve caindo. Também foi daqui, de meu quintal, que acompanhei o movimento de pelos menos três OVNIs, um dos quais ficou planando em cima da casa de minha vizinha.

Ainda assim, nada me preparou para aquilo que presenciei ontem à noite...

Aproveitando o pretexto do calor que fazia à noite, fiquei em frente de casa olhando as estrelas (hábito antigo), no local exato em que dois postes servem para encobrir a claridade das lâmpadas de outros dois postes. Único ponto em que as luzes artificiais permitem que eu veja melhor as estrelas.

Então, um barulho distante começou a aumentar. Um ronco. À medida que o som se tornava mais intenso, também o chão começava a tremer. “Um caminhão se aproxima”, pensei. Mas o ronco foi ficando mais forte. “Um trator”, pensei de novo. Mas aumentou o barulho. “Um tanque de guerra?”, pensei, chegando mais perto.

Então surgiu uma camionete saveiro branca. Calma... não era ela que fazia esse barulho, e sim o veículo que vinha logo atrás. Com cerca de três metros de altura (quase encostando na fiação elétrica) e ocupando os dois lados da Rua Padre Nóbrega, o monstro passou lentamente diante de meus olhos. Nada menos do que uma colheitadeira!

Fiquei bobo. Devo ter ficado de boca aberta por um tempo, até decidir ir ao portão e rever aquilo, para ter certeza de que meus olhos não se enganavam. E ainda estava lá.

A máquina agrícola foi se afastando em direção à avenida que dá acesso às rodovias, e devagar o ruído foi desaparecendo. Olhei ao redor. Nenhum vizinho com quem eu pudesse comentar o assunto mais tarde. Até agora fico me perguntando, o que, em nome de Deus, uma colheitadeira fazia aqui? De onde ela veio e para onde iria? É isso o que me perturba. Não moro assim tão perto da área rural, apesar das galinhas e marrecos.

O vulto de três metros se afastava, a traseira sinalizada apenas por duas pequenas luzes vermelhas perto da cabine. Aquele rolo que parecia um bobs gigante atravessando os dois lados da rua e, não sei como, sem tocar as laterais do meio-fio.

Minutos depois, passava o ônibus, vindo da direção oposta. Teriam se encontrado os dois veículos? Qual dos dois teria recuado? Mais de dez anos vivendo nesta região, e eu já vi algumas coisas estranhas. Entretanto, esquisito mesmo é perceber que acreditei mais na visão dos três OVNIs do que na visão da colheitadeira.

22 de fev. de 2007

Borboletas com três asas

As coincidências me perseguem. Pelo menos é nisso que acreditam alguns de meus amigos. Pessoalmente, acho que sofro de uma capacidade anormal para observar detalhes que a maioria não percebe. As coincidências estão sempre lá, só falta alguém para enxergá-las.

Por exemplo, aluguei um filme para assistir no domingo: “Efeito Borboleta”. Várias pessoas já tinham dito para eu assistir, então resolvi obedecer. O filme começa enunciando a Teoria do Caos. Segundo essa teoria, o menor detalhe pode determinar grandes acontecimentos. Não lembro da frase de forma exata, mas o exemplo do filme diz que o vôo de uma borboleta pode causar uma tempestade do outro lado do mundo. Ou algo parecido.

Eu já tinha ouvido falar na idéia. Mas meu irmão, que via o filme junto comigo, disse que nunca soubera de tal teoria. Vimos o filme pela manhã e, à tarde, fomos assistir “Jurassic Park”, que estava sendo exibido na TV Globo. E não é que o personagem do filme de dinossauros cita, e explica, a mesma teoria?!

Muita coincidência. Eu já tinha visto Jurassic Park, mas não lembrava disso.

Outra... Como não sou fã de carnaval, passei esses dias lendo um livro: “007 – Cassino Royale”. Quis ler o livro para comparar com o filme que foi lançado no cinema há mais de um mês. Descobri que havia várias diferenças em relação ao filme. Mas, é claro, assim como no filme, o espião James Bond também passa boa parte do tempo jogando cartas, mais precisamente um jogo chamado “bacarat”.

Eu não gosto muito de jogar cartas e, pra falar a verdade, nem sei jogar. Mas achei muito interessante a explicação que o livro traz, sobre como funciona o jogo. O fato é que agora, quando fui iniciar esse texto para o Universo e Afins, descobri, meio que por acaso, que meu carnaval de 2007 não foi muito diferente da mesma época em 2006.

No período de carnaval do ano passado (e isso eu sei porque escrevi neste blog) eu estava na casa de um amigo assistindo TV a cabo. E adivinha o que eu estava assistindo? Um campeonato de pôquer! Portanto, passei os dois últimos carnavais envolvido em jogos de cartas.

Quem vê pensa que sou viciado no jogo.

*****

E continuam acontecendo coisas bizarras na sala 36 do Edifício Dr. Elizeu, onde funciona a modesta redação do site Super OW! Ontem, logo após a chuva que caiu à tarde, eu estava sozinho na sala, publicando mais uma matéria e ouvindo o som da TV, que apresentava a votação das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Houve uma queda de energia, meu computador apagou, a TV desligou e a energia estava de volta um segundo depois. Mas não consegui religar o CPU. Tive receio de que o aparelho tivesse queimado algum circuito.

Entretanto, o que realmente me deixou intrigado foi o comportamento do televisor. Quando a energia voltou ele ligou outra vez, e permaneceu fora do ar, com aquele chiado irritante. Fui reduzir o volume do áudio, mas o botão não funcionava. Tentei mudar de canal, e nada. Tentei mexer na antena, nenhuma mudança. Aí veio o mais assustador...

Apertei a tecla on/off... e o aparelho não desligava! Peguei o controle remoto, tentei a mesma coisa, e nada. Fui desligar da tomada e... Ah, aí sim... Se não desligasse, aí seria algo realmente extraordinário.

Liguei de novo à tomada, e o aparelho continuava com os mesmo sintomas estranhos. Então, deixei desconectado da tomada. Quando Seu Flávio chegou ao escritório, expliquei a ele o comportamento dos aparelhos. O CPU ele conseguiu reativar por meio de uma chave que tinha na parte de trás do equipamento. Tudo bem...

E a TV... ele só ligou na tomada e o televisor funcionou normalmente. Depois do expediente, quando eu saía da sala, fui desligar o televisor. Apertei a tecla, e o aparelho desligou, normalmente.

Por isso é que eu não duvido de mais nada. Já vi maçaneta dando choque, televisor que não desligava, água virando cachaça e descarga de banheiro funcionando sozinha. Que tipo de borboleta pode ser responsável por esse tipo de coisa?

13 de fev. de 2007

Do alambique ou do Ribeirão?

Parem as prensas!
Não sei se algum jornalista já gritou isso de verdade, ou se é apenas coisa de Hollywood. Afinal, Sherlock Holmes também nunca disse “elementar, meu caro Watson”. A expressão só existe em filmes e desenhos animados.

No meu caso, ordenar que parem as prensas está ainda mais complicado. Trabalhando num site de notícias, no início do século XXI, nem há prensa. Na verdade, até mesmo os furos de reportagem de antigamente estão difíceis de serem descobertos, ficando difícil achar um pretexto para o grito.

Mas uma coisa continua igual... “Parem as prensas” continua sendo uma frase genuinamente jornalística, mesmo que os filmes tenham sido os responsáveis por isso. E sendo assim, me sinto no direito de berrar essa exclamação quando coisas absolutamente anormais acontecem diante dos meus olhos ou, no caso, de meu olfato e paladar.

Sim, porque ontem algo estranho aconteceu. Não renderia furo de reportagem, a menos que fosse no antigo Programa do Ratinho (não no novo “Jornal da Massa”, apresentado no SBT por um tal de Carlos Massa). Se fosse num desses programas sensacionalistas, o Padre Quevedo seria chamado para dizer que “Esto nô ecxiste!”

Na ausência do desmistificador do paranormal, a coisa toda permanece obscura. O fato é que ontem, ao chegar na redação, depois de alguns minutos de conversa com o Rodolfo, programador do site, ele veio com o comentário:
_Nossa... e esses dias, que eu fui tomar um gole d’água ali e senti gosto de cachaça!

Ralph estava na sala também. Nós dois olhamos para o filtro de água, com sua aparência azul-inocente, e soltamos uma boa gargalhada.

O filtro de água é novidade para mim. Na semana passada eu não conseguia tirar água dali. Comecei a pensar que era exigido algum tipo de técnica especial, como para ordenhar vacas. Na ocasião, Seu Flávio deu risada: “Mas vocês jornalistas, tá louco viu... Só sabem escrever, mesmo! Tem que dar uma sacudida no filtro. A água foi trocada há pouco tempo, deve ter entrado ar, ou algo assim”.

E, realmente, bastou uma sacudida e a água voltou a escorrer para o copo de plástico. Aos poucos comecei a perceber que o filtro de água, assim como um computador, um carro ou um grampeador, possui suas esquisitices e particularidades. Mas nada comparado ao que aconteceu no início da tarde de ontem.

Depois do almoço, eu e Ralph voltamos à redação. E resolvi tomar um pouco d’água. Mas só depois do primeiro gole é que eu senti que algo estava errado. Porque na escola a gente aprende que a água é insípida, incolor e inodora. E aquela ali só estava incolor. Cheiro e sabor estavam muito mais próximos da aguardente. Sim, cachaça!

De imediato pensei em algum tipo de sabotagem. Alguém devia ter misturado cachaça à água mineral. Mas parecia não haver como. Colocar aquele filtro já é complicado, porque alguém se daria ao trabalho de fazer isso? E com que objetivo?

Depois pensei que algum produto na água poderia tê-la feito fermentar durante estes sete dias. Mas, que produto? Estamos falando de água... engarrafada.

Sendo assim, o mistério permanece, ao menos por enquanto. Como a água pôde virar cachaça? Milagre? O fato é que cheiro e sabor parecem ficar mais fortes a cada momento. Fica registrado apenas o comentário de Ralph: “Esperar mais alguns dias, daí a gente vai dar uma festinha...”

*****

...Depois de terminada esta crônica, estava me preparando para publicá-la, quando Seu Flávio entrou na sala, e aproveitei para falar a ele a respeito do fenômeno da transmutação da água em cachaça:

_Seu Flávio, já viu o que aconteceu com a água?
Ele olhou em direção ao filtro:
_Não vi nada. O que aconteceu?
_Tá com um gosto meio estranho... – falei
_Ah, é...? Ah, sim, claro... Deve ser porque eu lavei o filtro com álcool na semana passada, antes de trocar o garrafão.
_Lavou com álcool?
_Foi. A água deve ter pego o gosto e o cheiro.
_Mas, então porque o gosto demorou tanto pra chegar à água? Na semana passada a água ainda estava boa.
_Ah, bom... aí já é outro mistério...


7 de fev. de 2007

Me recuso a respirar menos

Essa história de aquecimento global já está enchendo... e não estou me referindo ao aumento do nível dos oceanos. Todos os dias os jornais bombardeando informações catastróficas sobre ilhas que vão desaparecer, animais que vão entrar em extinção, calor abrasador e geleiras derretendo.

Dizendo assim, parece que não ligo a mínima, e que nem acredito em tais previsões. Mas minha indignação tem outra razão. Não tenho nem dinheiro pra ficar gastando com desodorante aerossol, então nem posso liberar muito CFC. Não tenho o suficiente para comprar um automóvel movido a energia solar ou biodiesel e, se tivesse a grana, seria uma complicação encontrar tal veículo. Não é qualquer concessionária que exibe esses carros nas vitrines. E a maior parte do gás carbônico que jogo na atmosfera vem de minha respiração.

Aí vem o noticiário e fica dizendo que a culpa é minha, que eu – o homem – libero muito gás carbônico, que fico fazendo queimadas na floresta, que não respeito o meio ambiente e blá blá blá...

Raios... Essas informações deviam sair do relatório e ir direto para o legislativo de cada país. Deveria obrigar os fabricantes a reduzir a poluição liberada pelos automóveis, tornando as fontes de energia alternativa uma alternativa, de verdade. Porque até agora são uma alternativa inalcançável.

Minha cidade só possui ônibus que liberam fumaça preta altamente poluidora. De que adianta saber quais são os combustíveis menos prejudiciais?

O noticiário, nesse sentido, só está servindo para espalhar o terror na mente de pessoas mais simples. Minha vizinha, há poucos dias, revelou sua preocupação com a segurança da filha. “Ela vai morar em Blumenau, e eu vi no jornal que a cidade vai ser inundada com o aumento do nível do mar”, disse.

E quanto tempo vai durar essa insistência no tema? Um mês? Dois meses, no máximo. Depois os jornais param de falar a respeito. Os presidentes que nunca fizeram muito sobre o meio ambiente, vão continuar fazendo pouco. Não é agora que vão mudar de atitude. Num tempo em que guerras são provocadas por causa de petróleo, quem vai se preocupar com a emissão de poluentes pela queima de derivados desse produto?

Quando eu estava na escola fiquei feliz ao saber que o petróleo era uma fonte de energia não-renovável. Significava que logo acabaria, e todos estariam obrigados a usar carros movidos a água (tenho certeza que já ouvi falar sobre isso, não é ficção). Mas, admitindo o acerto do relatório das catástrofes, o planeta vai acabar antes do petróleo.

Não é conformismo... só estou numa situação que pouco pode melhorar na preservação ambiental. O terreno de minha casa tem mais árvores que a maioria da vizinhança. Nosso carro fica a maior parte do tempo na garagem, porque combustível também não é barato. O escritório onde trabalho nem tem ar-condicionado.

Enquanto isso, mesmo com a instalação de lixeiras novas no centro da cidade, muitas pessoas preferem jogar o lixo nas ruas. Sobre isso, que é bem mais simples, não se fala, nem se faz muita coisa. Raios...

15 de jan. de 2007

Sorte que não apostei!

Na semana passada muita gente falou a respeito da mega-sena acumulada. E muita gente participou do sorteio. Eu, mesmo sabendo que não tinha participado sequer com um bilhete, dei graças a Deus porque não ganhei.

É verdade que, por duas ou três vezes, já me senti atraído por bingos, especialmente quando o prêmio era um carro. Mas, ainda assim, os jogos nunca exerceram sobre mim aquele fascínio que consegue motivar as pessoas a fazerem volume nas filas de lotéricas em véspera de sorteio de mega-sena.

Mas, dessa vez, um fato específico me fez ficar ainda mais longe das filas: o sujeito que ganhou o segundo maior prêmio da mega-sena foi assassinado no domingo, dia 7 de janeiro. E até quem não costuma fazer jogos pode apostar que o motivo foi o dinheiro. Por coincidência, o prêmio que o cidadão havia conquistado (em 2005) era de cerca de R$ 52 milhões, um valor muito próximo daquele que foi o prêmio da semana passada.

Agora surgem várias reportagens na televisão a respeito do homem assassinado. Por acaso, ou não, o nome da vítima era René Sena. Teria ele mudado o sobrenome depois de receber o prêmio, ou era coisa do destino?

O fato é que os jornais passaram a semana inteira divulgando que a mega-sena estava acumulada. Os telejornais me faziam perder tempo com suas reportagens, nas quais os entrevistados falavam sobre suas esperanças de ganhar todo aquele dinheiro. Um dizia que sempre apostava no número do próprio sapato, outro falaria sobre a data do aniversário... Outro dizia que, com mais de cinqüenta milhões, compraria uma casa. Um ótimo exemplo de como a entrevista pode ser desprovida de informação útil.

O Jornal Nacional trouxe a reportagem sobre René Sena. Mas a história só foi exibida no dia 10 ou 11, não lembro bem. Por que será que o jornal demorou tanto para divulgar a notícia? O jornal mais assistido no país aguardou quatro dias para noticiar um assassinato!? Mais uma estranha coincidência: a matéria sobre René foi ao ar justamente depois que o prêmio da mega-sena foi conferido a um apostador de Goiás que, sozinho, ganhou a fortuna.

Teorias da Conspiração à parte, só sei de uma coisa: cinqüenta milhões é muito dinheiro. Ganhar um carro já é motivo para o surgimento de muita inveja, imagine uma quantia como essa. Eu queria ver um repórter perguntando a um apostador se ele não tinha medo de ser morto depois de ganhar na mega-sena. Se ele não tinha receio de ser perseguido pelos próprios familiares, por causa do dinheiro. Eu devia ter feito tal reportagem, mas às vezes idéias como essa só surgem num momento em que não podem mais ser colocadas em prática. Mas, outras mega-senas acumuladas virão, aguardem...

Na terça-feira meu pai veio me dizendo que queria um favor: “faça pra mim uma aposta na mega-sena”, disse. E completou: “...o problema é ter coragem de enfrentar a fila”.
“O problema é ter coragem de jogar”, respondi. Pode ser maluquice, mas eu realmente tinha receio de ganhar o maldito sorteio, e não fiz a aposta.

No dia seguinte fui ao supermercado e, como tinha recebido uns cupons para sorteio de prêmios, participei de um pequeno jogo. Consistia em enfiar a mão numa máquina, e retirar de lá um bilhete que traria uma inscrição qualquer. E não é que ganhei uma batedeira de bolo?!

Recebi o prêmio e fui pra casa. Só algum tempo depois é que pensei: puxa vida, sorte que não apostei na mega-sena...

2 de jan. de 2007

Meia culpa

Continuo achando que a vida é mais interessante graças a alguns pequenos mistérios que teimam em existir. Coisas que, boas ou ruins, insistem em acontecer por razões aparentemente inexplicáveis. Um elemento, por exemplo, é praticamente imutável: a cada ano, no período do Natal, fatalmente alguém me presenteia com meias.

Fico me perguntando por que, raios, isso é uma constante. Aliás... Se for analisar meu histórico, não será difícil descobrir que já ganhei meias durante aniversários e, num passado um pouco mais distante, no Dia da Criança. Talvez venha dessas épocas mais longínquas essa minha aversão às roupas, como presente.

Mas, por que meias? Lembro de quando era ainda criança e esperava ganhar um carrinho ou video-game. Mas abri uma caixa de papelão e dei de cara com uma camisa verde-escura linda, mas desinteressante. Na ocasião eu nem queria usar o presente, nem saber se servia ou não. Por insistência de meus pais, acabei vestindo a camisa, para satisfação das visitas que tinham se preocupado em comprar a peça de vestuário. Hoje, observando aquele dia com o olhar crítico e exterior do cientista (que não sou), acredito que minha conduta deveria ter sido outra.

Talvez a culpa seja minha, ao menos em parte. Quem sabe, se eu tivesse recusado o presente e dissesse, com todas as letras, que esperava ganhar algo bem mais simples, barato, com o que eu pudesse brincar... Bem, talvez assim eu parasse de ganhar meias. Eu devo ter cara de quem precisa de meias. Será que alguém já me viu usando uma meia furada, ou suja, ou velha?

Só que depois que a gente cresce, percebe que o presente tem outro significado, além daquele que conhecemos como crianças. É mais do que um item utilitário ou divertido. É um símbolo, uma indicação de que aquela pessoa gosta de você, e lembrou de comprar alguma coisa para te agradar. Ainda assim, sempre tive certo receio quando essa pessoa opta por comprar uma roupa.

Por dois motivos principais: primeiro, porque é um risco. A gente nunca sabe ao certo a preferência da pessoa, o tamanho da calça, a cor da camisa, a marca da meia. Segundo, porque há muitas outras coisas mais originais, e que tornam mais interessante a tarefa de adivinhar o conteúdo do embrulho colorido.

A época de Natal pode ser um período de muitos risos. Mas boa parte deles, tenho certeza, são amarelos e forçados, devido a um pacote bonito com um presente pouco interessante. Nesse sentido, as festas de amigo-secreto são o exemplo perfeito. Servem para demonstrar o quanto uma pessoa pode desconhecer totalmente a outra, ou reduzi-la a apenas uma informação.

Entre colegas de trabalho, amigos de universidade ou parentes a coisa é sempre muito parecida. Uma vez, numa dessas brincadeiras, eu tinha a difícil tarefa de presentear um amigo, gente-fina, mas com quem eu raramente conversava. Por acaso, descobri que ele gostava de jazz. Comprei um livro em cuja história tinha um sujeito que tocava jazz. Pronto! Uma pessoa e um presente, reunidos por uma única informação. Nunca soube se ele gostou de verdade.

Dia desses, conversando com colegas, chegamos à conclusão de que nós homens gostamos basicamente de ganhar aparelhos eletrônicos e seus derivados: CDs, DVDs, MP3 e coisas parecidas. Mas, independente disso, é preciso conhecer um pouco sobre a pessoa.

Eu gosto muito de ler e escrever. Mas poucas foram as pessoas, até hoje, que parecem ter percebido isso. Quase posso apontar nos dedos de apenas uma mão o número de pessoas que me presentearam com livros. A maioria também não sabe que eu gosto de ganhar coisas simples e baratas, como revistas em quadrinhos.

Mas o Natal já passou, chegou o ano de 2007 e, por que devo me preocupar com isso? Ora, porque daqui a pouco é Natal de novo... E eu vou ganhar meias outra vez! Me dá um gibi com 14 páginas, ao custo de um real (na verdade, se parar pra pensar, os gibis estão cada vez mais caros), e eu vou sorrir que nem o Sílvio Santos.

Justiça seja feita, já ganhei roupas muito boas. Mas justamente de pessoas que não precisavam dar presente nenhum. Pessoas cuja presença já é um presente, ideal, com a cor e a medida certa. Felizmente, essas pessoas existem.

Quanto às meias... Puxa vida, até a palavra parece estar pela metade!

20 de dez. de 2006

Só com os botões

Solidão é uma palavra que está sempre no aumentativo. Há! Pensei nessa frase ontem, e achei bem legal. Mas, como diz meu amigo que não acredita na originalidade, alguém já deve ter pensando nisso. E, pra ser sincero, já devo ter lido isso - ou quase isso - em algum lugar. Meu conceito de solidão é o seguinte... estar entre muitas pessoas, e ainda assim se sentir só.

Acho que o porteiro deve ter uma das profissões mais solitárias do mundo, apesar de sempre haver pessoas entrando e saindo dos prédios. O comportamento deles quase não varia. Lêem o jornal, ouvem rádio, assistem a uma televisão de poucas polegadas, cochilam, desenvolvem hábitos curiosos. Uns são mais simpáticos do que outros, mas é só. Nem consigo imaginar um porteiro com a família. A esposa e os filhos do porteiro...

*****

No Edifício Dr. Elizeu existem dois porteiros, que alternam turnos. Numa tarde de sábado cheguei no prédio e encontrei o porteiro. Parecia tão ansioso por encontrar alguém, que me reteve no saguão para contar uma piada que, disse, ele tinha divulgado numa das diversas rádios da Rua XV. “Vão colocar na internet”, me contou, orgulhoso.

Ouvi a piada, ri, e peguei o elevador. Quando voltei, ele me reteve outra vez para contar pelo menos outras três piadas, que fiz questão de esquecer depois, considerando seu conteúdo obsceno ou preconceituoso. No dia seguinte, antes que eu entrasse no elevador, ele veio outra vez. “Ei, me diga uma coisa, como funciona esse negócio de piada na internet?” Primeiro ele comemora o feito, depois quer saber o que fez.

Ao lado do Edifício Dr. Elizeu existe um outro prédio, e outro porteiro. Costuma sair e ficar ao lado da porta, ele em seu uniforme cinza. Eu só o vi fazendo o gesto uma vez, mas tenho quase certeza de que é um hábito... Ele tem o costume de empurrar a dentadura para fora da boca. Fico pensando se ele sabe que faz isso.

Imagino que seja um tique desenvolvido enquanto permanecia esperando pela próxima pessoa que entraria pela porta.

*****

No outro dia cheguei para o trabalho um pouco cedo demais. Ainda não tinha ninguém na pequena sala que serve de redação. Como chovia do lado de fora, permaneci na entrada do prédio, esperando que a chuva passasse, ou que o chefe chegasse.

Enquanto nenhuma das duas coisas acontecia, percebi que o porteiro esfregava com insistência um guardanapo na lente dos óculos. Finalmente, parou e olhou mais uma vez os óculos contra a luz. Com expressão de assombro, virou para mim e disse: “Parece que tem um número na lente do meu óculos! Veja aqui!!”

Obedeci e, depois de uma rápida inspeção, concordei. Talvez fosse a indicação do ângulo das lentes, ou algo assim, opinei. Mas o porteiro parecia maravilhado. Era como Indiana Jones encontrando a Arca do Pacto. A importância que ele dava ao pequeno detalhe impresso na lente me deixou surpreso. Até a mim, que sou acostumado a dar importância a detalhes.

Por causa disso, há algum tempo, já cheguei a pensar que poderia ser porteiro. Mas não levei a idéia adiante. Por duas razões básicas: primeiro, porque não gosto muito de ficar sozinho. Segundo, porque não me entendo com a classe. Parece que não nos interessamos pelas mesmas coisas.

Dia desses, enquanto estava no elevador, reparei nos botões que ninguém aperta: “P.O.”, “Luz”, “Emergência” e “Alarme”. Quando saí do elevador, não me contive, precisei perguntar ao porteiro:

_Já reparou nesses botões do elevador? O que quer dizer “P.O.”?
_P.O., espere aí, eu já lembro... É... “Parada Obrigatória”.
_Ahn... E quando eu uso isso?
_Ora, quando você tiver uma emergência!
_Ué? Então quando é que eu uso o botão “Emergência”?
_Quando... quando...
_E entre “Alarme” e “Emergência”, qual a diferença?
_É... é... Ah, sei lá! – perdeu a paciência e saiu.

Desde então, não me contou mais piada. E eu fiquei aqui, sozinho, pensando com meus botões.

9 de dez. de 2006

Nenhuma certeza aqui também

Na quinta-feira, a praça Duque de Caxias parecia repentinamente suja como nunca foi. Com a terra sobre a calçada, o capim crescendo entre as pedras, a estátua encardida e os bancos vazios. A coisa mais clara ali era uma folha vermelha que caiu do alto de uma das árvores, e que só continuou limpa porque não ficou ali.

Ao longo do final da semana, situações embaraçosas pareciam me perseguir. No banheiro do shopping, dois sujeitos brigavam por algo idiota como uma toalha. Talvez o funcionário da limpeza e um dos clientes. Lavei o rosto e saí rápido, antes de ver como terminaria a discussão.

Na rua, um japonês discutia com uma senhora morena que bateu num menino loiro. O Brasil é um país de união das raças. Onde está a união se todas elas brigam? “Fala pra ele que não bati em você”, disse a mulher para o menino. “Ela não bateu...” balbuciou o garoto, enquanto começava a chorar, sabendo que apanharia mais se dissesse o contrário.

A mulher que entrou no elevador olhava diretamente para o espelho, parecia enxergar a si mesma, mas fingiu não me ver, talvez para evitar um cumprimento cortês. Estava, com certeza, aborrecida.

O porteiro do prédio, um pouco acima do peso, foi até a porta e ficou ali, sem perceber que me aproximava. A porta é estreita. Sua presença interrompia minha passagem. De repente ele se virou, e percebeu que eu esperava a liberação do caminho:

_Opa! Estou trancando a porta! – disse, constrangido.
_É seu trabalho. – respondi, ácido, pra me arrepender depois.

“Quando algo está ruim, o pior vem logo atrás”. Ouvi alguém dizer enquanto passava em frente ao Café XV, logo depois de sair da redação. Aquela frase, proferida lá pela hora do almoço, me fez sentir uma vontade louca de provar o contrário.

Mas, de algum modo, a frase é verdadeira. Não que as coisas realmente piorem quando algo dá errado. Mas, quando algo dá errado, temos a tendência a enxergar outras coisas também erradas. O aborrecimento se expande, e parece atrair situações desagradáveis. Só que o desagradável somos nós mesmos. Do contrário, tenho certeza, nem teria ouvido a frase dita no café.

Porque quando tudo está certo, à noite, a Lua foge à lógica e parece maior e mais brilhante. E quando uma coisa está ruim, o próprio Sol fica súbita e constantemente encoberto, com a explicação científica do tempo nublado. E ao redor as pessoas falam palavras ruins, e acontecem situações chatas.

Tudo isso é porque algo deu errado, lá, no começo do dia, ou no final do dia anterior. Talvez porque não dormi direito ou não jantei quase nada. Talvez porque deixei de ver aquele filme engraçado, ou porque deixei de ver aquele sorriso.

Se acordássemos sempre pensando em algo bom, certamente os dias seriam melhores. E esse texto não seria tão genérico, com pequenas coisas desconexas sem início meio e fim.

Falaria a respeito da praça Barão de Guaraúna, que nunca esteve tão iluminada para o natal e, mesmo em silêncio, parece tocar alguma música. Ou sobre a moça da locadora de vídeo, que vestia um capuz de Papai Noel e disse, simpática, “temos apenas DVDs, as fitas de vídeo nós já vendemos todas”.

Lembraria mais da menina que sorriu para mim, ao entrar no elevador, logo que a mulher aborrecida saiu. Pensaria na risada que deixei escapar, quando o colega me contou como derrubou o celular dentro de uma pia cheia de água.

A observação do que acontece ao nosso redor depende do que acontece dentro de nós. Depende dos diálogos que temos, do filme que vemos ou do livro que lemos. Estou lendo um cujo título é “Nenhuma Certeza”, de um sujeito chamado Michael Larsen.

Ontem li um trecho que dizia assim: “Às vezes uma coisa fica na consciência da gente como uma luzinha incômoda. Em estoque. Pode ser uma coisa que a pessoa diz, ou a maneira como ela se comporta. Os jornalistas se habituam a observar, a ver, a reparar nas coisas. Às vezes, mais do que gostariam”.

Eu devia parar de ler textos que fazem tanto sentido. Eles me obrigam a escrever coisas menos significativas, para os outros. E detesto escrever para mim mesmo.

30 de nov. de 2006

Mundo cão!


Existe algo de especialmente estranho no Universo. Talvez só aconteça comigo (é possível...), mas já reparei que muitas vezes surgem situações que guardam, entre si, alguma relação indireta, porém perceptível.

Ontem me aconteceu algo assim. Na reunião de pauta do início dessa semana, eu tinha me proposto a escrever uma matéria sobre como e quando uma criança pode ter um animal de estimação. Se existe uma idade certa para isso, uma raça de cachorro mais adequada, por exemplo...

Pois bem, à tarde marquei uma entrevista com a veterinária, e estava indo para sua clínica. No caminho, pensava na ironia da situação... Estava indo a uma clínica para consultar uma veterinária. Se dissesse isso em voz alta, soaria engraçado.

Mas fui arrancado desse meu pensamento pelo ruído de um carro que freava bruscamente, na Rua do Rosário, ao lado da praça. Quando olhei para a direção de onde vinha o barulho, enxerguei uma cachorrinha bassê, preta, que já tinha se batido contra o pára-choque, e que rolava embaixo do automóvel.

Em seguida, a bichinha já corria outra vez em direção à praça. O carro voltava a entrar em movimento, e outro ruído ganhava destaque... o choro de uma criança. Era um menino, de cerca de cinco anos, que corria sem rumo e berrava com toda a força. Teria se lançado no meio da rua, talvez com o mesmo destino do animal, se eu e um motoqueiro (agora eles preferem ser chamados de motoboys) não tivéssemos barrado a passagem do guri.

Depois, veio a mãe do garoto. Quando chegou perto, perguntou: “Pra onde ela foi, Luizinho?” Entre soluços, a resposta: “Ela foi... atropelada!”

Minutos depois, conversando com a doutora Larissa Garcia, eu soube que não há uma idade certa para que uma criança tenha um animal, desde que ela tenha a noção de que um cachorro é um ser vivo, e não um brinquedo. Também soube que essa história de que cada ano canino equivale a sete anos humanos é mentira. O envelhecimento do cachorro é irregular, e depende, entre outras coisas do tamanho do bicho. Não sei qual a lógica, mas, quanto maior o cachorro, mais cedo ele envelhece.

Mais tarde, quando cheguei em casa, encontrei sobre o sofá um panfleto que tinham deixado na caixa de correio. Dizia: “ADESTRAMENTO DE CÃES - Obediência Básica, Avançada e Guarda”. O papel mostrava a foto de um Pitbull chamado Kiron (disponível para acasalamento), e finalizava com uma frase que me fez rir: “Lembre-se: quem ama, adestra”.

Pra terminar, no final da tarde meu pai chegou do serviço e encontrou nosso cachorro dormindo tranqüilamente à porta da sala. Logo depois, minha mãe prendeu o cão (que só fica solto no quintal de vez em quando), e meu pai resolveu iniciar uma discussão por causa do modo como tratamos o bicho.

Terminou reclamando porque eu estava me omitindo da conversa. Se soubesse que eu estava pensando em cachorros desde o começo da tarde, talvez ele colaborasse falando sobre gatos ou periquitos.

Enfim, se cada dia tivesse um tema, como num seriado de TV, ontem teria sido um dia para falar de cães. Qual será o episódio de hoje?


Existe algo de especialmente estranho no Universo. Talvez só aconteça comigo (é possível...), mas já reparei que muitas vezes surgem situações que guardam, entre si, alguma relação indireta, porém perceptível.

Ontem me aconteceu algo assim. Na reunião de pauta do início dessa semana, eu tinha me proposto a escrever uma matéria sobre como e quando uma criança pode ter um animal de estimação. Se existe uma idade certa para isso, uma raça de cachorro mais adequada, por exemplo...

Pois bem, à tarde marquei uma entrevista com a veterinária, e estava indo para sua clínica. No caminho, pensava na ironia da situação... Estava indo a uma clínica para consultar uma veterinária. Se dissesse isso em voz alta, soaria engraçado.

Mas fui arrancado desse meu pensamento pelo ruído de um carro que freava bruscamente, na Rua do Rosário, ao lado da praça. Quando olhei para a direção de onde vinha o barulho, enxerguei uma cachorrinha bassê, preta, que já tinha se batido contra o pára-choque, e que rolava embaixo do automóvel.

Em seguida, a bichinha já corria outra vez em direção à praça. O carro voltava a entrar em movimento, e outro ruído ganhava destaque... o choro de uma criança. Era um menino, de cerca de cinco anos, que corria sem rumo e berrava com toda a força. Teria se lançado no meio da rua, talvez com o mesmo destino do animal, se eu e um motoqueiro (agora eles preferem ser chamados de motoboys) não tivéssemos barrado a passagem do guri.

Depois, veio a mãe do garoto. Quando chegou perto, perguntou: “Pra onde ela foi, Luizinho?” Entre soluços, a resposta: “Ela foi... atropelada!”

Minutos depois, conversando com a doutora Larissa Garcia, eu soube que não há uma idade certa para que uma criança tenha um animal, desde que ela tenha a noção de que um cachorro é um ser vivo, e não um brinquedo. Também soube que essa história de que cada ano canino equivale a sete anos humanos é mentira. O envelhecimento do cachorro é irregular, e depende, entre outras coisas do tamanho do bicho. Não sei qual a lógica, mas, quanto maior o cachorro, mais cedo ele envelhece.

Mais tarde, quando cheguei em casa, encontrei sobre o sofá um panfleto que tinham deixado na caixa de correio. Dizia: “ADESTRAMENTO DE CÃES - Obediência Básica, Avançada e Guarda”. O papel mostrava a foto de um Pitbull chamado Kiron (disponível para acasalamento), e finalizava com uma frase que me fez rir: “Lembre-se: quem ama, adestra”.

Pra terminar, no final da tarde meu pai chegou do serviço e encontrou nosso cachorro dormindo tranqüilamente à porta da sala. Logo depois, minha mãe prendeu o cão (que só fica solto no quintal de vez em quando), e meu pai resolveu iniciar uma discussão por causa do modo como tratamos o bicho.

Terminou reclamando porque eu estava me omitindo da conversa. Se soubesse que eu estava pensando em cachorros desde o começo da tarde, talvez ele colaborasse falando sobre gatos ou periquitos.

Enfim, se cada dia tivesse um tema, como num seriado de TV, ontem teria sido um dia para falar de cães. Qual será o episódio de hoje?

23 de nov. de 2006

A expansão do Universo depende do tempo disponível ao seu criador

Ao longo desses quase dois meses em que o Universo e Afins permaneceu sem atualização, tive a comprovação de que o número de leitores é bem menor do que eu imaginava. Não lembro de ninguém, além de mim, cobrando novos textos. Lembro apenas de uma mensagem no orkut, que perguntava se eu ainda moro nesse planeta.

Resposta: sim, porém com menos tempo. Eis que surgiu um trabalho, e agora escrevo (e também reescrevo) algumas matérias no portal emergente de notícias Super OW! (www.superow.com.br). Não chega a ser o Planeta Diário, mas é realmente diário, talvez até mais.

Se o Universo diminuiu sua expansão, é porque o tempo dedicado às crônicas também foi reduzido. Site de notícias é a maior correria, e dez minutos depois de eu ter publicado uma matéria, ela já está embaixo de uma lista de outras cinco publicadas logo em seguida.

Conseqüências imediatas dessa minha nova empreitada: adquiri o costume de iniciar os parágrafos sem colocar espaço antes da primeira palavra (coisas da internet). Estou me tornando mais amigo do telefone. Passei a acordar mais cedo. E me acostumei a usar elevador!

O edifício Dr. Elizeu, na Rua XV de Novembro, onde está situada a pequena redação do Superow, possui um elevador antiqüíssimo. Não sei se é o mais antigo da cidade, mas há quem diga que é aquele que mais fede. Talvez seja o cheiro do óleo lubrificante que permite que uma máquina tão antiga continue funcionando.

Hoje o elevador fez um barulho estranho na lateral esquerda, ou talvez tenha sido em cima, enquanto eu descia o prédio. Lembrei de um episódio do desenho dos Simpsons, em que o Bart tenta avisar aos colegas que tem um Gremlin sabotando os pneus do ônibus escolar.

Parecia que algo tinha enroscado na parede do elevador. Por um instante fiquei alerta, e pensei em usar a escada com maior freqüência. Mas a escada possui degraus tão estreitos, que o risco pode ser ainda maior.

Portanto, se o Universo e Afins ficou sem novos textos por algumas semanas, não significa que situações bizarras deixaram de acontecer ao meu redor. Continuam acontecendo... só que o registro escrito ficou um pouco comprometido.

Alguns mistérios permanecem sem solução:

Existe um banco (instituição financeira) do centro da cidade, que costuma deixar suas cortinas erguidas durante a noite. Quem olha através das janelas, encontra cada faixa de cortina suspensa por meio de um nó. Alguns dizem tratar-se de superstição.

No meio da Praça Barão do Rio Branco ainda existe um “monumento ao nada”, sem forma definida, sem placa de bronze com indicação de homenagem. Apenas um bloco vertical de concreto, com mais de 2m de altura, onde velhinhos se apóiam para chupar picolés de morango.

Vez por outra podem ser avistadas figuras caricatas no centro da cidade. Como o homem que se parece (bastante) com o Pingüim, vilão do Batman. Inclusive se veste parecido, e caminha de forma semelhante, carregando sua misteriosa bolsa preta de couro. Ele pára numa esquina, e fica olhando ao redor como se procurasse por alguém. Batman, provavelmente.

E ontem fui abordado por um sujeito que se auto-intitulava “Zé-do-pão”. Perguntou se eu já tinha ouvido falar dele. Respondi na mesma hora, pra rimar com o nome: “não”.
“Eu vendo rosquinhas, mas não dou a rosca... entendeu?”, ele disse, rindo sozinho enquanto tirava um pacote de rosquinhas da sacola. Fiquei imaginando se sua tática de vendas era a mesma com homens e mulheres. Acabei comprando as rosquinhas do Zé-do-pão, não graças à sua propaganda, mas porque eu tinha fome naquela hora.

Situações bizarras não faltam. Continuo recebendo choques elétricos na maçaneta da porta da sala. Mas agora chego a ter dois ou três déjà vus por dia. E conheci uma menina que me ensinou uma série de verdades impressionantes: Djavan não canta no grupo Cidade Negra; Mahicari está mais para filosofia do que para religião; e existe protetor-solar em pó!

E o mundo continua girando... talvez ainda mais rápido.

P.S.: Curiosidade retirada do Aurélio... “déjà vu: Neur. Psiq. Ilusão epiléptica durante a qual o indivíduo interpreta mal objetos que, entretanto, vê bem e que passam a ter, para ele, características anormalmente familiares.” Quem lê isso, pensa que eu saio tremendo e desmaiando por aí. Que horror!

4 de out. de 2006

Quantas colheres... quantas perguntas!

_Então, na sexta-feira passada resolvi comer uma empadinha. Mas dentro da empadinha tinha uma azeitona, e dentro da azeitona tinha um caroço.
_Uhn... – disse o dentista. – Quebrou o dente?
_Bem, não. Mas trincou. E estou preocupado porque é o dente da frente... Não quero ficar sem ele. É como um cartão de visitas.
_Sim, sim... Vamos dar uma olhada. Qual deles?
_É o da direita. Ahn... você cobra o orçamento?
_Não! Que é isso... você é de casa!
_Ah, então, por que não me serve um cafezinho?
_Com bolachinha? – perguntou enquanto mexia o espelhinho.
_Uhum! E uma escova de dente pra eu não fazer feio, né?
_Hum... hum... Olha só... seu dente tá bem. Só afetou o esmalte.
_Ah! Que alívio. Agora olha o dente da esquerda... porque eu mordi um osso hoje...
_Mas, você, hein!? Tá precisando se benzer!

E talvez eu realmente esteja precisando de algo assim, pois não estou enfrentando apenas problemas com empadinhas. Até porque, me disseram, toda empadinha possui azeitona com caroço. E só eu não sabia disso. Se bem que está ficando bem complicado fazer qualquer lanche no centro da cidade.
Ontem fui comer um risolis e a funcionária me perguntou se eu queria de frango ou de carne. Como se frango, no caso, também não fosse carne. Ela deve pensar como aquelas pessoas que insistem em dizer que passarinho não é animal. Se não é animal, é o quê? Vegetal? Mineral?
E em outra ocasião resolvi pedir uma xícara de café médio, com chantilly por cima. Fiz questão de frisar o “médio”, para restringir o número de perguntas que a garçonete faria, mas não adiantou muito.

_Com leite?
_Ahn... sim. Com leite.
_Vai querer que eu adoce?
_Não... tudo bem, eu mesmo adoço.
_É que... por causa do chantilly, as pessoas costumam adoçar demais.
_Ah... certo. Então, pode adoçar.
_Com açúcar ou adoçante?
_Açúcar.
_Duas ou quatro colheres?
_Pôxa! Mas eu pensei que você soubesse! – falei, ficando vermelho de indignação. _É que uns preferem bem doce, outros nem tanto.
_Eu quero menos doce. Coloque duas colheres de açúcar. Ok?

(Resposta mais adequada: “Mudei de idéia... Me traz um chá de camomila.”)

Acho que preciso começar a carregar no bolso um caderninho com minhas preferências anotadas. Um interrogatório desses só pra tomar um café?! E no domingo fui comer uma pizza. Apesar de estar acompanhado, imaginei que não daria conta da pizza grande. Pedi pizza média. Descobri que a pizza média é enorme. Acho que só tem esse nome porque ninguém agüenta comer mais do que metade.
E na saída da pizzaria, quando fui pagar, o sujeito veio me perguntar se eu tinha tomado vinho no copo ou na taça. Fiquei imaginando qual seria a diferença, mas minha resposta o deixaria bem surpreso:

_Cara... – eu disse – Eu tomei limonada. Hoje é dia de eleição, vocês nem podem servir vinho!
_Ah, é... Onde é que estou com a cabeça?
Era a lei-seca fazendo mais uma vítima.

29 de set. de 2006

O melhor do debate

Bons tempos aqueles em que a gente passava horas assistindo a programas como Passa ou Repassa, TV Animal e Torta na Cara. Mas, para quem, como eu, sente falta desse tipo de programação, o debate entre candidatos a Presidente da República, exibido ontem à noite pela TV Globo, até que foi uma diversão e tanto.
Foi bom também para conhecer melhor o modo de pensar e falar de cada presidenciável. Mas, vamos observar o programa sob outro enfoque... Há tempos não se via uma discussão tão divertida, porque nenhum dos três candidatos que compareceram deixou de lançar frases merecedoras de registro. Então, que isso aqui fique para a posteridade.

Começou com Cristovam Buarque. O candidato usou uma frase tão bonita, por que não dizer poética, que eu até esqueci qual era o assunto político em questão no momento. Disse ele: “Quando duas solidões se encontram, elas se anulam.” Foi a frase que me fez saltar do sofá para apanhar o caderno de anotações e prestar maior atenção àquilo que os demais candidatos diziam.
Depois veio a Heloísa Helena que, ao falar sobre corrupção, fez referência a dólares escondidos “nas peças íntimas do vestuário masculino.” Mais tarde ela ainda iria falar a respeito da “estrutura anatomo-fisiológica” do ser-humano. Acho que homens usam cuecas... E alguns seres humanos, com suas estruturas anatomo-fisiológicas, usam peças íntimas do vestuário masculino. Minha nossa! Nunca uma cueca foi tão complicada.

Enquanto faziam perguntas um para o outro, Geraldo Alckmin e Cristovam Buarque perceberam que tinham, em seu discurso, alguns pontos em comum. Geraldo disse que, de certa maneira, eles estavam do mesmo lado. E Cristovam veio com uma ótima pérola filosófica: “Interessante que nós estamos do mesmo lado, e ao mesmo tempo não estamos. Tanto que estamos de lados opostos. Senão seríamos o mesmo candidato.”
Heloísa Helena parecia menos surpresa com a corrupção, do que com a quantidade de riqueza que ainda existe para ser sugada dos cofres públicos (credo! Já estou falando igualzinho a ela...). No meio do debate ela disse: “É inaceitável que no Brasil roubam, roubam, roubam... e o país ainda tenha dinheiro!”

Quando pensei que tinha acabado, veio o ato falho de Geraldo Alckmin. Ele não percebeu, mas quando falava a respeito dos elevados impostos que incidem sobre as mercadorias, declarou que “40% do açúcar é esgoto.” Isso mesmo, esgoto!
Depois que Heloísa começou a criticar, além do Governo Lula, também o Governo FHC, Geraldo veio com a confusa declaração: “É preciso dizer que não estamos discutindo o futuro, estamos discutindo o que vamos fazer nos próximos quatro anos.”

Cristovam e Heloísa estavam com a garganta irritada e na segunda metade do programa a situação se agravou. Quando Heloísa foi fazer uma pergunta a Cristovam, começou dizendo qual seria o tema da questão: “É sobre a saúde... COF! COF!”

Uma novidade interessante nesse debate... Diante da ausência do candidato Lula, os demais participantes poderiam dizer, em quarenta segundos, a pergunta que fariam para o candidato, caso ele estivesse ali. Foi assim que surgiu o seguinte diálogo entre William Bonner e Geraldo Alckmin:

WILLIAM: Candidato, o senhor pode escolher para quem fará a pergunta.
GERALDO: Escolho o candidato Lula.
(Aparece a cadeira vazia)
WILLIAM: O candidato Lula não veio, o senhor tem quarenta segundos.
GERALDO: Minha pergunta é... por que o candidato Lula não veio ao debate?

É de embolar o cérebro!

O debate foi, portanto, um festival de frases e situações curiosas. Só não foi mais engraçado porque Lula não apareceu. Mas vale a pena lembrar da frase que ele proferiu em sua última entrevista exclusiva à TV Globo, no início da campanha: “A única coisa que cai em nosso país é o salário. Ahn... a inflação!”
Fica a certeza: independente de quem seja a próxima pessoa a ocupar o cargo de presidente, não faltarão frases engraçadas a alimentar o riso, mesmo em situações de crise. Que Deus nos ajude!

Por último, é bom lembrar que o cenário do debate também colaborava bastante para que tudo ficasse mais cômico. Como se não bastasse a cadeira vazia de Lula, a produção fez questão de colocar o nome do candidato em uma espécie de palanque. A propósito... o dicionário Aurélio traz uma informação no mínimo curiosa. Sabe o que quer dizer a expressão “de palanque”? Significa “presente à discussão sem, contudo, nela se envolver”. Terá sido coincidência?

15 de set. de 2006

Bafômetros e quilômetros

Sabe aquela frase... “Se beber não dirija”? Pois, então... Eu acredito, de verdade, que seja pura retórica. E digo isso não apenas porque o negócio não funciona na prática. Digo isso, principalmente, porque ninguém toma medidas para que funcione.
Vou ainda mais longe... Deve existir alguma espécie de convênio secreto entre as empresas de bebidas alcoólicas e as fabricantes de automóveis. Sim, porque para que mais automóveis sejam vendidos é necessário que:
a) O consumidor melhore sua situação financeira;
b) O número de carros já existente diminua.

Sabemos que está bastante difícil uma melhora considerável na economia, especialmente a brasileira. Agora, pare pra pensar... Quantos automóveis viram sucata por dia? Dezenas? Centenas? Milhares? E a bebida colabora para isso.
Por que a polícia não fica com um bafômetro, à noite, em frente aos bares? Porque sabe que todo motorista sai de lá embriagado, óbvio. Aqui na cidade de Ponta Grossa nós temos, anualmente, um evento chamado Münchenfest. A “festa do shopp escuro”. Pode imaginar como as pessoas ficam na saída? Agora, pense na ironia... Tem um enorme estacionamento do lado. Nem tem tanto bafômetro assim no mundo, pra testar em todo bêbado que sai do evento.

Outra causa de acidentes, dessa vez nas estradas, é o excesso de velocidade. Sempre me perguntei por que não fabricam os carros com velocidade máxima de 100 Km/h. Seria a solução para esse problema. Alguém veio me dizer que era impossível, pois a rotação do motor não permite, blá, blá, blá...
Pois, sabe que meu carro, um Voyage ano 1990, acaba de provar que é possível, sim! Ultimamente eu tenho dirigido bastante no centro da cidade, de modo que a velocidade não ultrapassa os 60 Km/h. Mas no final de semana fui viajar e, na rodovia, descobri que o carro não passava dos cem por hora. Não importava o quanto eu pisasse no acelerador.
Uma consulta com o mecânico revelou que o motor possui dois estágios de rotação. O problema é que, de tanto dirigir no centro da cidade, o segundo estágio do motor de meu carro emperrou, e não estava funcionando.
Parem as prensas! Avisem as revendedoras de carros! Todas elas precisam fazer o maior recall da história. E para salvar uma porção de vidas basta fazer um pequeno ajuste – emperrar o funcionamento do segundo estágio de rotação do motor. Não deve ser muito difícil fazer algo parecido com os automóveis que possuem injeção eletrônica também.
Pra finalizar... já reparou que o número de motocicletas está aumentando de um modo impressionante? Estou aqui fazendo a contagem regressiva... Quanto tempo será que vai demorar, para que lancem a frase “Se beber, não pilote”? Que porre...

8 de set. de 2006

Pelos anéis de Saturno

O som de gargalhadas tomou conta do pequeno café. Três amigos estavam reunidos em torno de uma mesa, mas apenas dois riam. O terceiro permanecia sério, e encarava a garçonete para ter certeza de que pelo menos ela não riria. Finalmente, ele colocou a xícara de café outra vez sobre o pires:
_Não tem graça nenhuma... É verdade. Desde que publiquei aquele texto sobre Plutão, minha namorada não quis mais falar comigo e meu computador pifou, em seqüência, o mouse, a internet e o gravador de CD.
Gradualmente, os outros dois diminuem o riso. Élvio é o primeiro a falar:

_Desculpe aí, cara. Mas é muito engraçado... Acredita que Plutão trouxe para você uma maré de azar?
_Não. Plutão, não... O texto que escrevi sobre Plutão.
Nova seqüência de risadas, e é a vez de João:
_Cara, você não pode imaginar que maldições controlam sua vida. Coisas ruins acontecem. Olha só, eu sigo uma filosofia de vida, baseada em três simples sentenças: “Não mexer demais no celular, não mexer demais no carro, não mexer demais no computador.” Você vive instalando porcaria em seu CPU. Até que demorou pra dar problema...
_Com computadores pode ser, mas e quanto a minha namorada?
_Ora... – diz Élvio – com as mulheres também não dá pra mexer muito, não. Há! Há! Aliás, acho que dá pra traçar um link entre computadores e mulheres. Minha teoria é de que os computadores têm a mentalidade de mulheres. Veja, eles foram criados por homens. Mas foram homens nerds que não pegavam mulher. Que nem o Bill Gates! E fizeram com que a mentalidade das máquinas fosse parecida com o que mais desejavam. Assim chegamos à criação do Cpu que sempre dá problema e pelo qual a maioria dos homens é viciado e passa horas e horas em frente. Complicado e viciante, existe melhor definição para a mulher?

_Caracas... Eu acho que você pôs alguma substância ilegal nessa sua xícara de café. Tudo bem... acreditar na influência dos astros pode ser bobagem. Mas inventar uma teoria estúpida que nem essa, é ainda pior!
_Ah, olha aqui, eles têm aqui o jornal da semana passada. Sempre deixam em cima do balcão e demoram a limpar isso aqui. – João pega o jornal da sexta-feira anterior – Olha só... não tem nada demais aqui nesse seu texto. Aliás, você me diz que Plutão tá ferrando com a sua vida, mas você cita todos os planetas do Sistema Solar aqui! Qualquer um deles pode estar te azarando. Olha só: “Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno...”
_Você pulou Saturno.
_Saturno? Aqui não fala de Saturno.
_O quê? Dá aqui esse jornal... – corre os olhos rapidamente pelo texto – Eu esqueci de citar Saturno... Putz!

Levanta da cadeira, sai correndo com o jornal na mão.
_Ei! – grita Élvio – Aonde você vai?
_Preciso dar um pulo no jornal. Escrever uma errata.
O café é tomado outra vez... por gargalhadas.

1 de set. de 2006

Os trailers, Click, e Os Jetsons

Na história dos amantes de cinema eu sou uma figura recente. E não sou o tipo do cara que assiste a qualquer filme; nem sou aquele que detesta quase todos eles – duas características comuns a quem realmente “aprecia” a sétima arte. Mesmo com meu pouco conhecimento, tenho a impressão que os trailers estão ficando cada vez melhores. Por conseqüência, os filmes estão se tornando decepcionantes.

Foi o que aconteceu em “O Todo-poderoso”, com Jim Carrey. O filme traz uma comédia legal, na qual o personagem tem os poderes de Deus, mas todas as melhores cenas eram mostradas no trailer, de modo que eu tinha desperdiçado a maioria das minhas risadas na sinopse, e não experimentava a agradável surpresa que é preciso ter no cinema. Afinal, ao longo dos anos, os diretores pararam de fazer pré-estréia dos lançamentos no cinema justamente para que, com a internet e o desenvolvimento dos outros meios de comunicação, o efeito surpresa continuasse a existir.
O mesmo não aconteceu em “Click” – a história de Michael Newman (Adam Sandler), um sujeito que vai comprar um controle remoto universal, e descobre que o aparelhinho “mágico” permite que ele controle a própria vida. Avançando, retrocedendo, colocando na pausa ou no slow motion. Quando vi o trailer, dei boas risadas, e achei que novamente o filme não superaria aquela sensação. Felizmente, me enganei. Ao contrário de Carrey, Adam Sandler usa e abusa dos poderes que tem nas mãos.

A história não é muito original. Na verdade, parece bastante com uma porção de outras histórias. Isso inclui “Uma canção de natal”, escrito por Charles Dickens; o próprio filme “O Todo-poderoso”, a respeito do qual escrevi no parágrafo acima; e um antigo episódio do desenho “Os Jetsons”, no qual George Jetson consegue um controle remoto muito parecido. Só que no desenho o aparelho se chama “repetiola”.
O filme abusa dos efeitos especiais, de um jeito que faz com que a gente esqueça que já tinha visto o trailer. Enquanto o personagem brinca com o controle remoto, o espectador ri se imaginando no lugar dele, podendo sacanear com o chefe sacana, solucionar o problema masculino da perda de memória, e resolver qualquer falta de tempo.

Mas, depois de tanto riso, o filme repentinamente se transforma num grande problema, que chega a assustar alguém como eu, que foi ao cinema para ver uma comédia. Ainda bem que o final clichê (no qual lembramos que a família vem em primeiro lugar) salva a comédia, do contrário a classificação do filme teria que ser alterada para drama.
Recomendo. Mas eu sou suspeito. Sou o cara que gosta de assistir Sessão da Tarde.
E que sabe que o filme Click se baseia num desenho dos Jetsons...

25 de ago. de 2006

Plutão e nossas vidas

Ele, trabalhando no jornal, saía sempre mais cedo, quando ela ainda não havia acordado. Ela, trabalhando numa loja de vendas de celular, só precisava levantar uma hora depois. E assim, o momento do reencontro era quase sempre a hora do almoço, em algum restaurante do centro da cidade. Mas, naquele dia, o silêncio da mulher fez com que ficasse preocupado. Finalmente ela falou.
_Hoje tive tempo de ler o seu jornal.
_“Meu jornal”... essa é boa! – ele sorriu.
_Você me entendeu. – ela disse, de cara fechada.
_Ahn... e achou algo interessante?
_Não gostei de seu texto.
_Qual deles?
_Aquele artigo que fala sobre Plutão ter deixado de ser planeta.
_Ora, o que tem de errado?
_Você escreveu que se sente enganado porque no colégio te ensinaram os nomes de nove planetas. E agora só há oito.
_É... foi o que escrevi. Já tentou dizer os nomes dos planetas do Sistema Solar, agora que retiraram Plutão? “Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Urano, Netuno e...” Fica sempre um “e” no final. Uma espécie de vácuo na memória. Como se Plutão tivesse explodido como aconteceu com Krypton.
_Você está desviando do assunto.
_Não tô não... Tô falando de Plutão. – ele disse, colocando mais salada no prato. Olhou pra mulher e viu que continuava aborrecida – Ahn... por que não gostou do texto?
_Você disse que a culpa dessa desinformação é dos professores, que ensinaram que o Sistema Solar tem nove planetas, sem deixar qualquer chance de questionamento.
_Não. Eu escrevi que eles têm uma parcela da culpa. Mas, é claro... Com essa mania de considerar a ciência uma coisa exata, sempre me disseram que existem nove planetas. Uma vez até me disseram que, com o tempo, poderiam descobrir outros planetas. Mas nunca disseram que um deles poderia desaparecer. Não falaram que isso podia mudar, de acordo com a vontade dos astrônomos. Os professores deviam deixar claro para os alunos, como uma informação pode mudar com o tempo. E mostrar que devemos desconfiar e duvidar das coisas. Mas não fazem isso.
_Acontece que, se os professores fizessem isso, seria o caos. Os professores colocam a ciência como verdade, para que os alunos consigam se apoiar em alguma coisa. Do contrário, as crianças cresceriam sem acreditar em nada. Desconfiando de tudo, seriam tão chatas quanto você. – ela disse, aumentando o tom de voz na última frase
_Mas... o quê...
_Eu sei disso, porque minha mãe foi professora.
_Ah... agora caiu a ficha! Eu tinha esquecido desse detalhe.
_Esquecido, uma ova! Você escreveu aquele texto de propósito, só porque odeia minha mãe.
_Mas, eu não odeio sua mãe! Eu apenas não vou muito com a cara de minha sogra. – brincou.
_Você fez aquele texto pra me provocar!
_Não... espera aí, eu nem lembrei que sua mãe foi professora... Eu não...
_Pois fique aí comendo sua salada, que eu vou almoçar em outro lugar! – gritou a mulher, enquanto arrastava a cadeira, acompanhada pelo ruído do talher que caía sobre a borda do prato.
O ruído de sapatos femininos foi se distanciando, até que a porta da frente se fechasse. As pessoas, que tinham parado de comer a fim de prestar atenção à cena, voltaram ao almoço tranqüilo.
Ele ficou sem entender muita coisa. Imaginou que a mulher tinha enfrentado um dia ruim no trabalho. “Como eu podia saber?”, pensou.
Um garçom, velho conhecido, saiu da cozinha sem saber o que tinha acontecido. Passou pela mesa do jornalista e parou ali por um instante:
_Ei, como vai?
_Tudo certo... (suspiro)
_Eu li seu texto hoje.
_Qual deles?
_Aquele que fala sobre Plutão.
_Ahn...
_Achei muito bom.
_É mesmo?
_Claro. Gostei mesmo do final... como era mesmo?
_“...afinal, se Plutão é ou deixa de ser um planeta, isso jamais vai afetar nossas vidas aqui na Terra.” – lembrou o jornalista
_Isso! Muito bom. Uma grande verdade.
_Uhn... Pois eu nunca desejei tanto escrever uma errata.
E voltou ao almoço.

22 de ago. de 2006

Outro guardamento

De repente eu estava com o carro estacionado diante do cemitério. Aquela manhã era fria para quem estivesse na sombra e quente para quem ficasse no sol. Eu estava na sombra, minha prima estava sentada no banco do carona, ao sol. E nenhum de nós estava satisfeito, principalmente lembrando que estávamos diante do cemitério.
E foi de repente, como costuma ser com qualquer pessoa que se aproxima de um cemitério, sejam quais forem as circunstâncias. Minha prima tinha passado a noite lá em casa e, pela manhã, logo depois de eu ter acordado, o telefone tocou. Enquanto eu ainda tomava minha caneca de café, ela entrou na cozinha e veio trazer a notícia. Algo mais ou menos assim: a madrinha da mãe dela tinha falecido, e eu devia levar minha prima até o cemitério onde, às dez horas, ocorreria o sepultamento.
Assim, chegamos ao local com cerca de dez minutos de antecedência. E minha prima, falante e agitada como sempre foi, começou a contar histórias a respeito do sobrenatural, e me convidou a fazer o mesmo. Felizmente já não sou tão impressionável quanto fui no passado. Depois que a gente vê luzes estranhas no céu, ruídos macabros no teto, fantasmas atravessando a rua, descargas de banheiro funcionando sozinhas... Enfim, a gente se acostuma.
Enquanto conversávamos, apenas uma coisa me deixou realmente intrigado: um homem que estava parado diante do cemitério, ao lado de um automóvel. Ele parecia impaciente. Olhava para o relógio, contemplava o grande eucalipto que já se tornou um símbolo daquela parte da cidade. Depois esticava o pescoço, a fim de olhar ao longe se o cortejo fúnebre já estava chegando. Mas não estava.
E, de fato, havia uma certa demora. Depois de quinze minutos de atraso minha prima já estava se tornando insuportável. Queria que eu a levasse para casa. Parecia querer dizer algo como: “eles não vêm.” Para mim, só havia três explicações possíveis: ou o cortejo tinha se atrasado, ou ela tinha se enganado a respeito do horário, ou estávamos no cemitério errado. E, conhecendo minha prima, eu estava começando a dar excessivo crédito às duas últimas alternativas.
Para solucionar a questão, e mostrar pra ela que eu fazia algo a respeito, telefonei para sua mãe. Bastou que o telefone fosse atendido do outro lado, para que eu visse no espelho retrovisor o cortejo fúnebre que se aproximava. Uma porção de carros foi estacionando nos dois lados da rua.
Minha prima ficou brava comigo. Parece que não estava muito animada para assistir à cerimônia, e esperava que eu já a tivesse levado para casa. Mas essa sua indignação sem motivo não chegou a me preocupar, porque enquanto os vários automóveis estacionavam, eu via o misterioso senhor correr de um lado para outro, denunciando a razão de sua presença no lugar.
Para cada um dos motoristas ele falava alguma coisa, e fazia uma confirmação com a cabeça. E não estava dando seus pêsames. Ele era um guardador de carros. Ou flanelinha, como prefiram chamar.
Jamais gostei de guardadores. Para mim, no quesito chateação, eles estão empatando com distribuidores de panfletos e operadoras de telemarketing. Não tenho nada contra eles, mas sim contra o serviço deles, que várias vezes (senão todas) me pareceu inútil.
Por um pequeno espaço de tempo me concentrei na figura daquele senhor que atravessava de um lado para outro, tentando falar com o maior número de motoristas. Aposto que só conseguiu falar com cinco ou seis daquelas pessoas. Imaginei de que modo ele organizava seu trabalho. Provavelmente ouvia no rádio o horário de sepultamento e corria até o local no horário indicado, a fim de cuidar dos automóveis estacionados. Isso explicava sua impaciência, aguardando pelo cortejo. Devia ter uma agenda com os horários em cada cemitério.
Quando percebi, minha prima já tinha saído do carro e caminhava em direção à pequena multidão que entrava no cemitério. Reclamou sobre não conhecer ninguém. Seria o enterro certo? Não sei quem de nós perguntou, nem lembro se ela respondeu. Enquanto se afastava do veículo, minha prima se virou mais uma vez, fez uma careta pra mim. Talvez tenha mostrado a língua. Me concentrei na direção. Saí com o carro antes de ser detectado pelo flanelinha. Mas, pela primeira vez, desejei que ele ganhasse algumas moedas com o serviço. Sair numa manhã de domingo, para esperar cortejo fúnebre... não é pra qualquer um.

8 de ago. de 2006

Sonhos e água benta

7 de agosto de 2006

Certa vez vi num livro uma ilustração. Acho que era de uma pintura surrealista. Mostrava uma mulher nua, sob a mira de uma espingarda que flutuava e saía de dentro da boca de um tigre que, por sua vez, saía da boca de um peixe dourado. Ao fundo existia um elefante cinza com patas finas e muito longas, como as de uma girafa. E tudo isso parecia sair de dentro de uma romã, em torno da qual havia uma abelha. E a legenda era, se bem me lembro: “Sonho causado por uma abelha sobrevoando uma romã, um segundo antes do despertar.” Ou algo parecido.
Era bem mais complexo, na verdade. Mas é isso o que de vez em quando vem à minha memória. E sempre me pergunto se significa exatamente aquilo que penso: que o autor da obra dormiu à sombra de uma árvore de romãs, e foi acordado pelo zunido de uma abelha que voava perto de um dos frutos. Pouco antes de acordar, o artista fixou na memória as imagens que tinha visto em seu sonho, e transportou para a tela aquilo que não teria sentido nenhum na realidade. Mas essa pintura serve, no meu entender, para demonstrar o funcionamento dos sonhos. Funcionamento que, apesar de confuso, segue uma lógica própria, normalmente baseada na realidade de nosso cotidiano.

Digo isso porque hoje, poucos segundos antes de acordar, sonhei que meu carro tinha cinco limpadores de pára-brisa no vidro dianteiro. E, de algum modo, sei que um dos responsáveis por essa visão maluca é um padre. Porque ontem, por ocasião da Festa de São Cristóvão, e a pedido de meu pai, levei o automóvel para a tradicional benção.
Os automóveis passavam ao lado do sacerdote que, após proferir algumas palavras, jogava sobre o carro a tal água benta, usada pela igreja católica desde o século IV, para benzer e exorcizar. (Li isso no dicionário) Depois que passei por essa experiência – que acredito não ter sido um exorcismo – vi que o vidro da frente tinha ficado um pouco molhado e, bem mais por brincadeira do que por necessidade, acionei o limpador de pára-brisa. Mas eu não esperava que faria tamanha sujeira.
Qualquer dia desses vou perguntar a um padre o que eles colocam naquela água benta. Já vi, durante missas dominicais transmitidas pela TV, o padre dizer para colocarmos um copo d’água sobre o televisor, que assim a água se tornará benta. Logo, sempre pensei que a água benta nada mais fosse do que uma água... benta. Mas não pode ser só isso. No mínimo tem sal naquela água, porque depois de secar ela deixou o vidro manchado de branco.

Isso serviu como um pretexto para limpeza, porque há vários dias o carro não via água de nenhum tipo. Assim, ontem à noite fui dormir pensando que hoje, pela manhã, teria que levá-lo até o posto de combustível para fazer uma lavagem. E foi por isso que tive o sonho maluco com os limpadores de pára-brisa.
O engraçado é que, no sonho, logo depois de perceber o milagre da multiplicação dos limpadores, eu também perdia o controle da direção do carro, que caía num barranco e ficava encalhado. Talvez fosse uma referência à frase que meu irmão disse ontem à noite, também a respeito da benção dos carros: “De nada adianta uma benção, se o que o motorista bebe não é água benta.”
Eu quase não bebo. Mas tendo sonhos como esse... preciso?