4 de ago. de 2006

Teoria dos noventa e nove

Não é preciso ser jornalista para notar que algumas reportagens são recorrentes nos noticiários. E não estou me referindo à corrupção na política, que de tão recorrente já se tornou comum aos olhos da maioria. Mas, por exemplo, quando chega o momento mais frio do inverno brasileiro, sempre tem uma reportagem na região sul. Aparecem as árvores com orvalho congelado nos galhos, entrevistam um velhinho que diz, em 65 anos, nunca ter visto frio como aquele. Passam a mão no gelo sobre o pára-brisa do carro, quebram o lago congelado, filmam turistas maravilhados, exibem o termômetro da praça. Coisas assim.

O mesmo acontece no Natal. No caso, a data é que determina o conteúdo das reportagens, que vão falar sobre a lenda do Papai Noel, o movimento nas lojas, a escolha dos presentes. Na Páscoa, a fabricação de pêssankas, a história de Jesus Cristo e... a criação de coelhos.
Mas existe uma reportagem que costuma ser repetida a cada ano, e que não tem relação direta com estações climáticas ou datas comemorativas. E esta reportagem eu vi no telejornal de ontem. Trata-se do uso comum (e, por isso mesmo, incomum) de números ímpares nos preços de mercadorias. Produtos que, em lugar de custarem R$10,00 custam R$9,99.
Parece uma coisa à toa. Mas o negócio é mesmo violento. Não acredito muito na utilidade desse procedimento, em termos publicitários. Não acho que deixaria de comprar a mesma mercadoria, se custasse um centavo a mais. Ainda assim, sempre existe a questão do subliminar, coisa que a gente não domina.

O problema é que, de subliminar em subliminar, a realidade é apenas uma: não recebo o troco. Nessa jogada de “noventa e noves” a gente sempre sai perdendo. Tudo bem que é coisa de um ou dois centavos. Só que é isso que me deixa pensando... que fim levou as moedas de um centavo??
Se for parar pra pensar, não sei quando foi a última vez que vi uma. Lembro que, há alguns anos, houve uma espécie de campanha para que as pessoas gastassem as moedinhas de um centavo que, segundo especialistas, ficavam perdidas em gavetas e frestas de sofás. Mas aqui em casa não tem nenhuma! Até fizemos uma reforma no sofá...

Então, aqui vai a teoria da conspiração da semana: Será que o Governo não parou de fabricar as moedas de um centavo, e recolheu as que já existiam, numa espécie de acordo com o comércio nacional, que de centavo em centavo acaba lucrando horrores?
E que fim levou as balinhas de troco? Tá tudo escondido com as notas de cem reais?

28 de jul. de 2006

Surge um coqueiro

Manhã de sexta-feira. Entre um gole de café e uma mordida no pedaço de pão com margarina, um coqueiro. Um coqueiro? Não... nada de sardinha no pão com margarina. Acontece que, olhando através da janela da cozinha, vi um coqueiro, ao longe. A árvore se erguia atrás de um prédio onde, há anos, funciona uma creche comandada por freiras. Há tempos costumo ficar olhando naquela direção. Sempre há algo interessante ali.

Houve uma época em que as freiras resolveram criar um carneiro. Daqui de casa eu podia ver o animal pastando, e me sentia como se vivendo numa aldeia distante, onde a tecnologia das máquinas ainda não tinha chegado. E onde as freiras, para poupar o extenso trabalho que seria aparar periodicamente a grama, decidiram criar um carneiro que fizesse o trabalho quase de graça, deixando para trás apenas alguns montes de bolinhas pretas...

Talvez esses montes tenham aumentado gradativamente até que a presença do carneiro passou a ser indesejada. Ou talvez o bicho tenha dado uma cabeçada em uma das crianças que passavam o dia na creche. O fato é que, certo dia, o carneiro não estava mais lá. Sumiu do mesmo modo que apareceu. E deu lugar a um homem com cortador de grama.

Foi também olhando em direção à creche, numa manhã de inverno em que as freiras promoviam sua tradicional festa junina junto às crianças, que eu vi, pasmem, neve. A festa junina seguia com um locutor animando a dança, e colocando as músicas para divertir a criançada. De repente, começou a cair o que parecia ser uma garoa fina, mas que se diferenciava pelo modo como as gotículas caíam, cada uma dançando a seu próprio modo, fazendo ziguezagues no ar. O locutor disse com incredulidade: “Está nevando!? Está nevando aqui na festa junina!” E o fenômeno não durou mais do que trinta segundos. Mas eu vi.

E agora, um coqueiro. Enquanto tomava café, notei aquele coqueiro que eu nunca tinha visto antes. Como era possível? Mágica, como em “João e o pé-de-feijão”? Há anos olhando naquela direção, nunca tinha visto o coqueiro que se erguia por trás do prédio.

_Que estranho... um coqueiro que nunca vi antes. Como pode ser?

Minha mãe veio com a triste suposição:

_Devem ter derrubado uma outra árvore que estava na frente.

Sim, a explicação era plausível. Outra explicação veio em seguida. Percebi que as folhas do coqueiro estavam amareladas, o que o destacava das árvores em redor. Talvez o fato estivesse relacionado à estiagem prolongada.

Pobre natureza... E eu aqui pensando numa mágica em que o coqueiro nasce da noite para o dia. Ou num desenho animado em que trazem o coqueiro na carroceria de um caminhão, para que seja plantado nos fundos da creche.

Lembrei de uma situação bem diferente, mas que deve guardar alguma semelhança. Foi quando, certa manhã, um ladrão entrou na casa de meu amigo e levou o CPU do computador. Quando meu amigo acordou, descobriu o furto. Mas ficou surpreso ao encontrar, junto à porta de entrada, o velho par de sapatos do ladrão.

Naquele dia, eu e meu amigo ficamos imaginando que ladrão engraçado era aquele... Levou o computador e, em troca, deixou seu velho par de sapatos. E essa hipótese permaneceu por algum tempo. Até que descobrimos que o ladrão também tinha levado um par de tênis do meu amigo.

A boa imaginação tem esse defeito. Às vezes oculta o óbvio, fazendo com que a agradável fantasia se sobreponha à realidade implacável. Até que surge um coqueiro.

16 de jul. de 2006

Panorâmica

Há anos ela vivia no mesmo lugar. Um espaço não muito grande para a maioria das pessoas, mas suficiente para ela. Vivia na praça. Nem por isso se considerava pobre. Ao contrário, durante toda a sua vida nada lhe faltou. Teve comida, teve bebida, teve amores. Sua existência foi simples desde o nascimento. Pudera, ela não incomodava quase ninguém, e até agradava à maioria. Isso acontecia, já era sabido, porque ela não era gente. Ela era uma pomba.
Sendo pomba, se acostumou a ver cenas desagradáveis, mas corriqueiras. Não era a única a viver na praça. Havia também pessoas que dormiam ao relento, e precisavam mendigar. A pomba nunca se preocupou com isso, pois sempre teve uma casa na copa de uma das árvores, perto do estacionamento dos táxis. Casa erguida ali há várias gerações, pela prefeitura. Mas a mesma sorte não tinham essas pessoas.

Já tinha acompanhado a mudança que a praça sofrera ao longo dos anos. Lembrava de quando havia um módulo policial na esquina. O módulo tinha sido demolido para dar lugar a um grande monumento de significado enigmático. Mas o ambiente belo durante o dia, se tornou duvidoso à noite. Depois disso, a pomba viu como o lugar se tornou mais perigoso, não para ela, mas para pessoas. Sem segurança, viu assaltos e tentativas de assaltos. Jovens se drogando e pichando muros.
Isoladas, essas coisas sempre pareceram normais a ela. Mas algo, um acontecimento novo talvez, alterou seu modo de perceber o mundo. Pode ter sido a idade avançada. Ou algum novo sabor de pipoca que a pomba experimentou. O fato é que, num instante, ela passou a entender a injustiça e desgraça que havia à sua volta. Conseguiu fazer associações. Em uma palavra... ela passou a raciocinar.

Notou que tinha visto tudo aquilo a sua vida inteira, e jamais tinha se dado conta. Lembrou que tinha sido sua espécie a responsável pelas boas novas bíblicas. A mensagem contida num ramo, segundo a qual as águas haviam baixado e um mundo novo se iniciava. Parecia tão bom, no princípio.
Tomada por grande desespero e um sentimento de impotência, a pomba levantou vôo e começou a sobrevoar a praça, de onde raras vezes havia saído. Passou diante da Igreja do Rosário e pensou novamente: “Como posso ser o símbolo do Espírito Santo, se nada faço para melhorar isso tudo?”

Em velocidade cada vez maior, continuou contornando a praça, o desespero crescendo em seu pequeno coração. Em meio a tantas imagens, uma chamou sua atenção: a estátua de um homem, com a corda envolta no pescoço e as algemas prendendo suas mãos. Sob os pés da estátua, a frase que tantas vezes foi lida e só agora parecia fazer sentido para o pássaro. “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria.”
E num movimento, descreveu um vôo rápido e fatal, rumo à estátua. Pouco antes do impacto de seu pequeno corpo contra a estátua, pensou que sua morte não mudaria nada. Mas, raciocinou, sua vida também não.
A pomba morreu porque pensou como ser humano. Os homens só vivem porque pensam como pombos.

7 de jul. de 2006

Almas condenadas

Há alguns anos existiu em Ponta Grossa um supermercado chamado Real. Mas isso foi na época em que nossa moeda era o Cruzeiro. Porque agora que nossa moeda é o real, no lugar daquele supermercado está o supermercado BIG, cujo slogan mais recente traz a frase: “É mais que preço baixo. É BIG!”
Ora, se é mais que preço baixo, significa que é preço alto, certo? E se é “BIG”, é um preço altíssimo, certo? Então, será que já despediram o autor desse slogan?
A propaganda é a alma do negócio. Mas algumas dessas almas estariam condenadas, caso as pessoas prestassem maior atenção ao seu conteúdo. Antes eu não ligava a mínima pra isso, mas depois de passar várias horas vendo televisão e escutando a rádio do Terminal Central de ônibus, chega um momento em que a gente percebe o quão estúpidas algumas propagandas conseguem ser.

Mas o pior é uma propaganda que estou vendo na televisão há vários dias. A imagem mostra um menino, cabisbaixo, segurando um ursinho. Não lembro exatamente as palavras, mas o narrador diz algo como: “Por ser mal-criada, essa criança sofreu muito. Aos 5 anos apanhou pela primeira vez, aos 9 anos foi queimada pela primeira vez, aos 11 anos foi violentada pela primeira vez. Denuncie a exploração sexual de crianças.”
Como é que pode? Primeiro, repare que a primeira frase tem duplo sentido. Não dá pra saber se a criança foi mal-educada porque os pais e professores eram incompetentes, ou se foi mal-educada porque a própria criança não respeitou pais e professores.
Depois vem essa seqüência de atrocidades, dentre as quais já fiquei suficientemente chocado com as queimaduras. E o narrador diz pra denunciarem a (e apenas a...) violência sexual, como se as barbaridades anteriores não tivessem importância, e só aos 11 anos a criança precisasse de ajuda.

Devia haver protestos contra essa ausência de lógica que domina, não apenas propagandas e anúncios publicitários, mas também as letras de música. Tudo bem que devemos considerar a licença poética dos músicos. Mas tem uma música que toca há tempos nas rádios FM... Uma parte da letra traz a frase: “Você sempre não quis.” O pior é perceber que a frase só foi feita desse jeito para que a rima funcionasse no final da estrofe, porque “você nunca quis” não daria certo.
Já que comecei falando de supermercado, aqui vai outra pérola do comércio ponta-grossense: “Não tem pra ninguém: supermercado é Armazém!” Ora, se não tem pra ninguém, como é que as pessoas ainda vão até lá comprar? Quem foi que criou esse slogan? Engraçado foi há alguns meses... quando assaltaram o tal supermercado. Quer dizer que tinha pra alguém, afinal!

26 de jun. de 2006

O vírus da Copa

O Estádio Germano Krüger não estava lotado. Na verdade, a presença dos torcedores era bem menor que a esperada. Os jornais diziam que a expectativa era de que 8 mil pessoas comparecessem ao jogo entre o Operário e o visitante São José. Mas parece que o São José teve uma crise de identidade, ou de santidade, pois resolveu fazer o trabalho de outro santo: trouxe chuva.
Começou com garoa fina, depois o vento ficou mais forte e, finalmente, a temperatura caiu. Quem não estava com dor de garganta ou com um princípio de gripe preferiu ficar enrolado nos cobertores no sofá da sala, comendo pipoca quentinha e esperando o horário em que começaria mais um jogo da Copa do Mundo (Portugal X Holanda), confortavelmente transmitido pela TV.
No intervalo do jogo do Operário haveria o sorteio de camisetas, rádios, uma bicicleta e dois fuscas (!). Mas esse não foi estratagema suficiente para atrair o público. Uma parcela dos torcedores resolveu ir até a parte mais alta das arquibancadas, onde havia cobertura. Ali, em meio a algumas dezenas de pessoas, estava um sujeito que causaria surpresa, caso fosse reconhecido. Usava um boné marrom, blusa cinza e calça jeans. Dois fones de ouvido conectados a um pequeno rádio de pilha completavam a insólita aparição desse personagem. Não era nenhum ator da TV Globo, nem cantor de funk, nem político. Não era celebridade. Na verdade, estava longe de ser conhecido e, justamente por isso, não era reconhecido. Era, simplesmente, eu, oras bolas. (Decepção?)
Na verdade, minha presença ali explicava a presença da garoa que ameaçava virar chuva de verdade. Quem conhece meus hábitos sabe que não costumo assistir a futebol. Menos ainda num estádio. Menos ainda em tarde gelada como foi nesse domingo. Mas o espírito da Copa tomou conta desse corpo que tremia de frio no cimento das arquibancadas. E, é claro, eu podia ganhar um fusca...
Começou o primeiro tempo. O que não faltou foi falta. Nessa frase, o que não faltou foi “f”. Mas nenhum dos dois times conseguiu mostrar um belo jogo. Destaque para o gandula que, em determinado momento, se atrapalhou com as bolas, e ganhou uma vaia da torcida. E para o menino, de cerca de seis anos, que estava sentado na minha frente. Quando um jogador errou feio o passe, o garoto levantou, apontou para o atleta e soltou uma baita gargalhada. O pai, constrangido, fez sinal para o menino fazer silêncio. “Por que, pai?”, cochichou o moleque. “É que esse jogador é do nosso time...”, explicou o pai, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.
Veio o intervalo. Óbvio que não ganhei um fusca. Nem bicicleta, camiseta ou rádio. Mas ainda tinha a esperança de que o Operário ganhasse a partida. Começou o segundo tempo. A chuva aumentou. As pessoas se espremeram na arquibancada coberta. O São José não tinha muito fôlego para o jogo e dava espaço para o Operário.
O Operário se aproveitava disso. Um dos jogadores conseguiu fazer um drible fantástico, daqueles que merecia replay. Mas deu pra perceber que foi totalmente involuntário. Um cidadão que estava do meu lado resolveu bancar o corvo de Edgar Allan Poe, supondo saber o que se passava na mente do jogador sortudo. “Nunca mais...”, disse o tal rapaz.
A sorte, entretanto, estava longe do time da casa. O comentário era de que haviam enterrado um sapo embaixo do gol onde o Operário devia marcar. Mas, se havia feitiço entre aquelas traves, esse atendia pelo nome de Adir – o goleiro – , que não deixava passar nenhuma bola. Ou seja, fazia seu trabalho.
Apenas por duas vezes a pelota escapou de suas mãos. Numa delas, a bola ainda bateu na trave. O goleiro virou para um repórter que estava ao lado do gol, e disse, em tom filosófico e didático: “Se não tiver sorte, não pode ser goleiro.”
Cartões amarelos. Impedimentos. Machucados. Esse foi o resultado da partida. Porque o placar continuou, como no início, zero a zero. O Operário deixou o campo sob os protestos indignados da torcida, que gritava: “Timinho, timinho, timinho...”
Enquanto voltava para casa pensei que concluiria esse texto assim: “E, pra completar, além de não ganhar o fusca e ver um jogo que terminou sem gols, ainda peguei uma baita gripe.” Mas, que surpresa, não peguei gripe. E ainda cheguei em casa a tempo de ver o Felipão comemorando a vitória de Portugal sobre a Holanda. Que espírito de Copa, que nada. A Copa é um vírus. E, assim como gripe, passa.
Se não virar pneumonia...

8 de jun. de 2006

Introdução à estupidez

Houve uma época em que podiam me considerar bonzinho. Eu, inclusive, concordava. Depois, veio um período em que me chamavam de bonzinho e eu detestava, porque era como ser chamado de idiota. Agora, há tempos ninguém diz que sou bonzinho. E, quer saber, não sinto nenhuma falta disso.
O fato é que estou aprendendo a ser ruim. Ruim, palavra monossilábica com acento agudo na vogal “u”. Esse tipo de aprendizado demanda mais tempo para uns do que para outros. Assim como aprender outro idioma é mais fácil para uns do que para outros. E, nesse caso, o idioma chama-se estupidez. A única forma de linguagem que algumas pessoas entendem.

O problema é que nunca sabemos o momento exato para utilizar esse idioma e, na maioria das vezes, usamos na hora errada, ou com a pessoa errada. Por via das dúvidas, boa parte das pessoas usa o tempo todo. E, assim, o efeito que a estupidez devia ter, acaba se perdendo.
Hoje, pela enésima vez, recebi um telefonema indesejado. Na verdade não era pra mim. Era pra minha mãe. Mas, considerando que eu atendi, não faz muita diferença. É sempre a mesma ladainha: Um rapaz de fala mansa (nada a ver com cantor de forró) diz que deseja falar com minha mãe para fazer um agradecimento. E essa palavra, “agradecimento”, me faz ter certeza de que, na realidade, o cara está telefonando da sede de uma entidade beneficente, com a finalidade de arrecadar (aparentemente, sem fins lucrativos) dinheiro.

Eu conheço a peça porque a história é sempre a mesma. Por isso, não me surpreendi quando minha mãe disse que não ia atender. E procurei transmitir o recado para o cara do outro lado da linha:
_Ela não pode atender.
_A que horas eu posso telefonar, então?
_Ahn... Ok, eu me expressei mal... Ela NÃO QUER atender.
_Não quer atender? Mas, por quê? Ela sabe de onde estou ligando?
_Bem... Se vocês já ligaram pra esse número mais de dez vezes nesse ano, então acho que sim.
_De onde você acha que estou falando?
_Deve ser uma dessas entidades beneficentes que dizem ajudar os doentes com câncer de pulmão, problemas de coração e criancinhas sem pai.

Até eu me surpreendi com minha resposta. Porque, dizendo assim, parece que não ligo a mínima para os doentes com câncer de pulmão, problemas no coração e criancinhas órfãs. Mas, realmente, não menti sobre a dezena de telefonemas que já atendi, provenientes da mesma instituição, à qual já ajudamos algumas vezes.
Certa vez perguntei porque ligavam tanto na minha casa. Me disseram que era uma espécie de escolha aleatória feita a partir da lista telefônica. Fiquei pensando por que não faziam sorteios de prêmios em dinheiro nesse mesmo estilo. Mas nããão... o dinheiro só sai, e não entra nenhum.

Então, é isso. Talvez o mesmo rapaz telefone novamente pra cá, esquecendo de minha última resposta. Ou, mais provavelmente, será outro funcionário fazendo o mesmo serviço. Logo, poderia dizer que não fez nenhuma diferença tratá-lo com grosseria. Pra mim fez... me senti momentaneamente ótimo.
Sei o que você (que já é rúim há tempos) está pensando... “Ele nem foi tão grosseiro assim. Eu teria dito alguns palavrões, pelo menos.”
Pessoas... eu ainda tô aprendendo. Tem gente que até me acha legal!

22 de mai. de 2006

Cara de um, drive de outro...

Um amigo, certa vez, formulou uma teoria bastante interessante. Dizia que os técnicos de informática pensam como computadores. E, de certo modo, deve ser isso mesmo. Explicaria o fato de entenderem as máquinas. Decerto conversam entre si no mesmo idioma: a linguagem binária. Estou lembrando disso porque tive uma experiência que, talvez, sirva para comprovar tal teoria.
Acontece que eu não entendo os computadores. Talvez por isso eles vivam implicando comigo. Há alguns dias resolvi equipar meu CPU com um gravador de CD. Quase ao mesmo tempo comprei uma máquina fotográfica digital. Instalei os dois periféricos e estava feliz da vida, até descobrir que meu scanner tinha, por alguma razão (ciúmes, talvez...), deixado de funcionar.
Tentei reinstalar o aparelho, desinstalar a câmera, e uma porção de outras coisas, mas nada funcionou. Indignado, fui ligar meu joguinho de corrida de carro (adoro esses simuladores), mas o jogo também não funcionou. O computador avisava que não havia CD no drive. Mas, como não havia? Estava lá, sim! Desinstalei e reinstalei o jogo, e nada. Isso, sim, me deixou revoltado...
Não houve jeito, precisei chamar o técnico.
Contei a ele o que estava acontecendo com o scanner, que não ligava. Enquanto ele vasculhava o sistema, ocasionalmente, falei também sobre o meu jogo de corrida de carros que não funcionava. Expliquei que o computador não identificava o disco. Ele achou estranho, e não soube responder o que estava havendo, nesse caso.
Quando ele foi reinstalar o scanner, ficou subitamente desorientado. O monitor mostrava o drive leitor de CD (representado pela letra E) e o drive gravador de CD (representado pela letra D). Mas o técnico não entendia o que significavam as duas letras, até que olhou para o CPU e disse:
_Ah... você tem duas gavetas de CD.
_Sim! – eu disse – Eu já te falei que tinha colocado um gravador de CD.
_Mas acontece que os computadores agora costumam ter apenas uma gaveta. Porque o mesmo drive que grava também serve para ler o CD. Não há necessidade de ter dois.
_Ahn...

Em pouco tempo, o problema do scanner foi solucionado e o técnico foi embora. E eu fiquei ali, apenas tentando imaginar por que meu joguinho não estava funcionando. Até que lembrei como o técnico tinha ficado perdido, quando percebeu que o CPU tinha duas gavetas. Pensei no modo como ele confundia uma gaveta com a outra, enquanto olhava para o monitor. E foi pensando nisso, que fiz a experiência...
Coloquei o disco do jogo no drive gravador de CD. Bingo! O joguinho funcionou normalmente. O problema era que o computador também não estava entendendo a presença de duas gavetas de CD e procurava o disco na gaveta errada.
Moral da história: “Entenda a mente de um técnico de informática, e você entenderá também o funcionamento de um computador.”
Quanto ao scanner... Só teve uma coisa que o técnico fez, e eu não tinha feito: Desligou o plug do aparelho, e depois tornou a ligar. E mesmo isso, tenho quase certeza, eu também já tinha feito. Vá entender...

9 de mai. de 2006

Cuidado com as pedradas

Uma chuva de meteoritos esteve (está?) causando o maior rebuliço aqui no sul do Brasil! Eu não sabia de nenhuma chuva de meteoros se aproximando, de repente ouço a manchete num telejornal regional, dizendo que um objeto estranho foi visto no céu de Curitiba!
Foi no início da semana passada, aproximadamente às dez horas da manhã. Em plena luz do dia, várias pessoas avistaram um objeto luminoso cruzando o céu da capital paranaense. Um dos entrevistados disse que viu o objeto (aparentemente do tamanho de uma bola de futebol) caindo entre dois prédios.
Será que somente depois que o fato chamou a atenção das pessoas o jornal resolveu divulgar o negócio? Eu, pelo menos, não sabia de nenhuma chuva de meteoros se aproximando da Terra. A reportagem concluía dizendo que nenhum objeto foi encontrado no solo, mas que observações como essa estavam sendo comuns na região sul do país. Havia relatos de objetos no céu, explosões e tremores de terra. (!) E os caras falam isso com a maior tranqüilidade...
No mesmo dia o jornal Hoje Centro Sul, com sede em Irati-PR, onde publico semanalmente algumas charges, teve sua impressão atrasada. Houve relatos de um meteorito que caiu numa cidade vizinha e a equipe de reportagem se deslocou até lá, onde também acabou não encontrando nada.
O rádio falou de outras explosões em Santa Catarina. Parece o filme “Guerra dos Mundos”...

A propósito, eu tenho aqui alguns recortes interessantes de jornais. Em 2004 foi identificada uma rocha de 400m que vinha em direção à Terra. Já tinham calculado até a data em que haveria o choque... uma sexta-feira, 13 de abril de 2029. A NASA refez os cálculos e disse que estava descartada a possibilidade de colisão. Também, por que iriam confirmar? Iríamos mudar para a Lua? Quem sabe?
Em 2003, pesquisadores australianos detectaram um asteróide de cerca de 2 Km de diâmetro, vindo em direção à Terra. Seu impacto teria o efeito de 20 milhões de bombas atômicas de Hiroshima. Denominado “2003 QQ47” (os nomes são sempre os melhores), a pedrinha teve a data de colisão calculada. Tchan, tchan, tchan... Anote aí nos lembretes de seu celular... 21 de março de 2014.
Alguém aí faz aniversário nessa data?
Calma... depois de todo esse alarme, nossos amigos cientistas não perdem tempo em dizer que as chances de tal catástrofe acontecer estão na proporção de uma em 909 mil. Talvez seja mais fácil cair um Boeing 747 no telhado de sua casa. Mesmo assim, você pode estar com sorte e ter saído para jantar fora naquele instante. Ou pode estar com azar e ter resolvido viajar... justamente nesse Boeing.

2 de mai. de 2006

Quem tem fé acredita no pé grande

Vi uma reportagem na televisão há alguns dias. Era mais um caso de bebê abandonado, dessa vez em Ponta Grossa. Felizmente a criança foi encontrada por uma família de catadores de lixo, que a alimentaram e levaram até o hospital. O impressionante é que depois desses acontecimentos sempre surgem dezenas de pessoas dispostas a adotar a criança. Normalmente quem a encontra deseja cuidar dela. Por isso tenho uma proposta a fazer:
Sei que existem várias instituições que cuidam de crianças em busca de pais adotivos. A todas essas instituições eu faço uma sugestão. Peguem esses bebês que estão esperando por pais adotivos e abandonem nas ruas. Coloquem um na calçada, outro na lixeira, outro numa caixa de areia. Até agora funcionou com todas as crianças que vi em reportagens.
Óbvio que estou sendo extremista – ao extremo. Mas não é estranha essa febre por adotar crianças abandonadas em lixeiras? Tão estranha quanto a febre por abandonar crianças em lixeiras. Talvez os candidatos a pais adotivos estejam em busca de uma situação criada pelo acaso. Talvez estejam esperando que a criança apareça em seu quintal. Portanto, vamos abolir as instituições que procuram pais adotivos... Vamos distribuir crianças aleatoriamente, que o resultado pode ser mais prático. Funcionou com Superman...

Fiz uma pequena viagem nesse feriado. Em pleno Dia do Trabalho, estive passeando. Sei que essa contradição já foi apontada milhares de vezes. Mas, se ela continua existindo, por que devemos fingir que ela não existe? O fato é que acompanhei dois amigos – Ben-Hur e Alceu – até Irati, onde pretendiam tirar algumas fotografias. Eles são bons nisso. Escolhem o melhor ângulo para cada imagem, e conseguem fazer o comum ficar interessante.
Enquanto saíamos em busca das melhores imagens, o céu azul foi tomado por diferentes tipos de nuvens. E uma delas adquiriu o formato de um gigantesco pé. Ficamos impressionados com a perfeição do desenho. Inclusive, tive vontade de estar com uma máquina fotográfica para iniciar um novo projeto: fotografar nuvens em seus diferentes formatos, e assim fazer um álbum. Aposto que seria interessante. Mas em seguida, ainda olhando para as nuvens, percebi a ironia que o trabalho de fotógrafo pode carregar. Quanto mais bela ou inusitada for uma fotografia, maior será a dúvida quanto à sua autenticidade. Com tecnologias como o programa Photoshop, quem garantiria que não fabriquei uma nuvem em formato de pé, usando apenas meu computador? Mais uma vez, depende da fé de cada um.

25 de abr. de 2006

O Evangelho segundo a vizinha

Há cerca de uma semana fui até uma loja com minha mãe, onde ela pretendia comprar algumas toalhas. Comprou seis.
Dias depois, na última quinta-feira, nossa casa foi invadida por um ladrão, que entrou à noite, enquanto dormíamos. Nenhum de nós viu ou ouviu coisa alguma. Felizmente, o malandro não passou da garagem, de onde só conseguiu levar um par de chinelos, um de sapatos, e algumas toalhas que estavam no varal. Dou um prêmio para quem adivinhar quantas toalhas o meliante levou...
Naquela manhã, minha mãe ficou indignada com o nosso cachorro, que foi repreendido por ela, e nem ganhou os afagos habituais. O animal já está velhinho e uma amiga, certa vez, ao ouvir seu latido, sugeriu imediatamente que eu o levasse ao veterinário, porque ele estava rouco. Apesar disso, seu latido ainda é nosso alarme e, por causa de seu silêncio (devia estar dormindo também na ocasião), o ladrão teve maior tranqüilidade.
Desde então minha mãe conseguiu ficar mais paranóica do que eu. Dependendo da situação, ela tranca cada porta por onde passa. E meu pai está se empenhando na instalação de um novo sistema de alarme.

Bem, nesse fim de semana foi feito um churrasco aqui perto de casa. Um pretexto criado especialmente para reunir os colegas de meu tempo de universidade (pouco mais de um ano). Aqui em casa ficaram hospedados meus amigos Glaydson, Márcio e Fernanda. Foi bom relembrar alguns de nossos velhos hábitos, como o de estabelecer discussões sobre temas variados. Não foi durante um almoço no restaurante universitário, mas foi igualmente interessante.
Num desses debates, Glaydson lançou a pergunta: “O que acharam do Evangelho de Judas”? Eu disse que não mudaria muita coisa em minha vida, mas o Márcio fez questão de lembrar que... “se Judas não fosse visto como o traidor de Jesus, os fatos seriam outros, e a própria História seria modificada.”

De fato, é curioso observar que para qualquer breve relato existem diversas versões. E a prova disso veio um dia depois do roubo das toalhas. Minha mãe e meu pai espalharam para os vizinhos a notícia de que um ladrão entrara em nossa casa, e que todos deveriam ficar alertas. E a cada vez que os acontecimentos eram relatados, nosso cachorro era apontado, direta ou indiretamente, como um dos principais culpados pelo sucesso do bandido. Mas foi num desses relatos que surgiu uma nova versão para os fatos.
Minha mãe disse à vizinha que o cão não latiu e, provavelmente, estava dormindo enquanto o ladrão agia. E a vizinha surpreendeu ao informar que, naquela fatídica madrugada, ouviu os latidos roucos de nosso cachorro. Na ocasião, ela acordou e chegou a perguntar ao esposo: “Por que será que o cachorro da vizinha tá latindo?” E a resposta teria sido algo como: “Vai dormir, mulher... esses cachorros latem por qualquer coisa!”
Depois disso, minha mãe percebeu a injustiça que cometeu com o cachorro. Aparentemente ele fez seu trabalho, mas nosso sono era pesado demais para ser interrompido pelos seus latidos roucos.
Agora ele voltou a ser tratado pelo título de “amiguinho”. Realmente, diferentes versões para um mesmo fato podem alterar o resultado final da História. E o Márcio já sugeriu algo para amenizar a rouquidão de meu cachorro:
“Dá umas pastilhas Valda pra ele...”

12 de abr. de 2006

Mas, será mera coincidência?

Tem gente que não acredita em coincidência. São pessoas que acham que o destino está por trás de tudo. Convido essas pessoas, então, a me ajudarem na tarefa de apontar explicações para aquilo que, aparentemente, é obra do acaso. Eu acredito mais em coincidência do que em destino. Mas admito, por experiências próprias, que há coincidências assustadoras.
Por exemplo, o que a novela Malhação tem em comum com o Jornal Nacional? É incrível, mas existe algo que aproxima essas duas diferentes programações. E como eu assisto a um pouco de tudo, posso dizer o que é... Estou falando de duas personagens que, apesar de habitarem diferentes espaços da programação da TV Globo, são muito parecidas.
A novela Malhação traz a personagem “Dona Vilma”, que é a responsável pela lanchonete Gigabyte. Enérgica, está sempre implicando com funcionários, usando seu tom de voz autoritário.
E o telejornal, quando fala de política, traz “Dona Dilma”. Estou falando de Dilma Rousseff, a ministra da Casa Civil. Alguém já notou a semelhança? Os nomes das duas só sofre alteração na primeira letra! Mas, não basta isso. Visualmente, uma é a cara da outra. Óculos, cabelo, e até a voz! Sim, a voz é parecida! Será que Dona Vilma, personagem da ficção, foi inspirada em Dona Dilma? Ou terá sido o contrário?

E por falar em voz... O que os desenhos animados têm em comum com as músicas mais tocadas nas estações de rádio FM? Bem, eu não aprecio muito a canção, mas o fato é que não dá pra ligar o rádio sem ouvir “Glamurosa”.
Pois então, pare e preste atenção na voz do cantor, no momento do refrão: “Glamurosa... rainha do funk...”, ou algo assim. Reparou como a voz é conhecida? É a voz de um personagem de desenho animado que está fazendo enorme sucesso na televisão brasileira: Bob Esponja!
Sim, tudo indica que Bob Esponja e MC Marcinho são a mesma entidade! A voz é muito parecida... Como se não bastasse isso, os desenhos do primeiro personagem são tão sem-sentido quanto as músicas do segundo. Será coincidência? Ou começa a ganhar significado uma frase de autor desconhecido que diz: “Nós controlamos tudo o que você vê e ouve.”?

Estão dizendo que a viagem do astronauta Marcos Pontes não passa de publicidade brasileira. Outros dizem que as experiências que ele fez no espaço (plantando feijões e observando a capacidade de os vaga-lumes acenderem num ambiente sem gravidade) foi bastante útil. Particularmente, acredito que foi uma injeção de idéias na cabeça dos criativos piadistas brasileiros. E eu aproveito uma coincidência para lançar outra Teoria da Conspiração...

Você deve ter notado que a Globo fez a viagem do astronauta parecer o evento do século. O JN deu destaque especial ao acontecimento espacial (sem trocadilhos). Pois então... E não é uma incrível coincidência que Casseta & Planeta voltou a ser exibido justamente nesse momento?
Acho que a emissora deu todo esse destaque à viagem do astronauta, porque Casseta & Planeta precisava ser exibido, mas o pessoal tava meio sem idéias. Então deram a sugestão de transformar Marcos Pontes em notícia. Assim, não faltariam piadas à turma do Casseta.
Acontece que fugiu ao controle, e as piadas atingiram níveis estratosféricos. Se o astronauta ficasse lá em cima por mais tempo, poderiam ter chegado quase à órbita da Estação Espacial. Proliferaram as charges nos impressos e na TV, aumentaram as ironias no rádio, as conversas em praças e bares ganharam novos toques de humor.
Sei que foram 10 milhões de dólares gastos na viagem do astronauta ao espaço. Mas boa parte desse dinheiro serviu para custear, também, o riso dos brasileiros, já acostumados a rir do próprio ridículo. Quando a gente fica muito tempo de mau jeito... amortece.
Vilma ou Dilma?

7 de abr. de 2006

A cada segundo, 70 mil pessoas deixam de ler o Universo e Afins...

Nunca fui muito fã de estatísticas. Poderia simplificar, dizendo que isso ocorre porque matemática não é meu forte. Entretanto, sei que é mais do que isso. A verdade é que nunca acreditei em dados estatísticos, especialmente aqueles que procuram apresentar dados chocantes. Muitas vezes, são informações tristes, desesperadoras ou revoltantes. Mas não consigo me concentrar em nenhuma dessas três características. Quando procuro entender exatamente o que o cálculo diz, ou de que forma foi elaborado, invariavelmente acabo rindo discretamente.
Dado revoltante: ouvi num comercial de TV algo mais ou menos assim... “A cada 15 segundos, uma mulher é vítima de violência praticada pelo próprio marido.” Minha indignação com o fato não durou muito, porque então meu raciocínio lógico tentou adivinhar de que modo tal estatística foi estabelecida.
É óbvio que existem inúmeros casos de violência contra a mulher. Mas todos sabem que pouquíssimos casos de agressão chegam ao conhecimento, por exemplo, da polícia. A mulher raras vezes decide denunciar o esposo. Na maioria das vezes, a informação não passa da casa da vizinha que, meio sem querer, ouviu a briga do casal.
Teria sido uma enquete? “A senhora apanha do marido? Com que freqüência?” Não acredito que tal pergunta tenha sido feita por aí. E se tivesse sido feita, não atingiria dados como esse. Quinze segundos é o tempo, aproximado, que o tal comercial fica no ar. Imagine se isso for verdade! Não sou bom em matemática, já disse. Mas, faça os cálculos...
Uma mulher espancada a cada quinze segundos. Quatro mulheres agredidas por minuto. Duzentas e quarenta mulheres por hora. Cinco mil e setecentas mulheres em 24 horas! Como é que se chega a esses números?

Outro dia eu ouvi um psiquiatra dizendo que 10% da população possui algum tipo de distúrbio psíquico. Acho que ele se referia à população brasileira. Mas dez por cento não é brincadeira! A pacata cidade de Ponta Grossa possui cerca de 300 mil habitantes. Significaria que temos 30 mil pessoas com distúrbios mentais!
Não saia mais de casa, por favor. É pra sua segurança... Sempre achei que tem um pessoal estranho andando pelas ruas. Uns falam sozinhos, outros falam com qualquer um. E outros param em qualquer praça pública e berram para todos os que por ali passam. A porcentagem explicaria muita coisa. O engraçado é que qualquer um pode estar nessa estatística. Não sabemos o nível de distúrbio psíquico que o cálculo leva em consideração. Eu sei que pode incluir, por exemplo, coisas pequenas como medo de altura ou uma leve depressão.
Será que entre esses 10% de desequilibrados não estão alguns dos homens que batem nas esposas? Uhn... Nesse caso até que a estatística dos espancamentos foi modesta. É claro que existe uma possibilidade um tanto curiosa... Entre esses 10% podem estar incluídos os que criam tais estatísticas. E, nesse caso, os cálculos poderiam estar incorretos. E assim, terminamos no paradoxo de sempre. Estatísticas... ou você acredita, ou não. Depende, também, da fé de cada um.

4 de abr. de 2006

3 de abr. de 2006

Aranhas que voam e carros que pulam...

Eu ia escrever sobre isso no dia 1º de abril... Mas achei que o tema já era, por si só, difícil de acreditar. Então vou escrever hoje: Eu vi uma aranha voando. Na verdade, vi uma aranha planando, mas nem por isso fiquei menos chocado.
Saí da cozinha aqui de casa e vi que alguma coisa passou voando em minha frente. Parecia um cisco sendo levado pelo vento. Mas então focalizei o objeto voador, que logo deixou de ser não-identificado. Uma aranha? Acompanhei o bichinho durante cerca de três metros, até que o vi pousar num pequeno muro onde estavam alguns vasos de flor. E então, enquanto via o cisco caminhando próximo às folhagens, confirmei... era mesmo uma aranha! Minúscula, e que conseguia juntar suas patas até que formassem uma espécie de asa.
Então, cuidado... as aranhas aprenderam a voar. Às vezes parece que não falta acontecer mais nada. Mas sempre surge coisa nova.

Acho, inclusive, que vou lançar uma comunidade do orkut, sobre coisas que acontecem aqui em Ponta Grossa. Espero que não interpretem isso como uma espécie de exaltação à minha cidade natal. Mas é que nesse ponto do planeta acontecem algumas coisas, e existem determinadas personagens, dignas de registro.
Hoje, por exemplo, vi no telejornal uma notícia que merece destaque...

Uma mulher dirigia seu automóvel tranqüilamente pelo centro da cidade. Parece que foi na principal avenida – a Vicente Machado.
Eis que ela ouviu um estouro vindo, aparentemente, da parte de baixo do carro. Quando percebeu, seu automóvel tinha levantado do asfalto e subido em um Fusca que estava estacionado na lateral da avenida.
Algumas testemunhas, entre elas o infeliz proprietário do Fusca amassado, dizem ter ouvido o estouro. Quando olharam em direção ao barulho, viram o automóvel se equilibrando em apenas duas rodas, vindo em direção ao velho Volkswagen. A imagem era a mais insólita possível. Um automóvel “rampando” no outro.
Por isso eu penso que Ponta Grossa deve ser uma espécie de Smallville do interior do Brasil. Nossos meteoros de criptonita devem ter caído onde hoje ficam as misteriosas Furnas – três grandes crateras conhecidas também como “Caldeirões do Inferno”, que tanto atraem os turistas.

Mas digo isso sabendo que coisas estranhas acontecem em toda a parte. Os jornais estão aí pra mostrar justamente isso. Agora não começou uma onda de celulares explodindo? Pois é... Escutei o comentário no rádio: parece que o problema é que muitas pessoas não saber usar corretamente os torpedos.
É até irônico... daqui a pouco os fabricantes terão que efetuar o recall dos celulares. Tem como evitar trocadilhos?
A FIFA está proibindo a comercialização de frangos na Alemanha, devido ao perigo de contaminação por gripe aviária, durante a Copa do Mundo. A FIFA proibindo frangos? É claro que Joelmir Beting, no Jornal da Band, não deixou passar o trocadilho, também.
E agora ainda mandaram um astronauta brasileiro pro espaço! Ainda não entendi o que ele vai fazer lá... O mais ridículo que ouvi até agora é que ele vai fazer no espaço uma experiência com plantas. A mesma experiência que crianças farão em escolas aqui na Terra. Ora, então, por que ele não foi fazer a experiência na escola, ao invés de torrar 10 milhões de dólares entre a saída e a reentrada na atmosfera terrestre?
Aliás... tenho quase certeza de que essa experiência sobre crescimento de plantas eu também já fiz quando estudava no primário.

E quer saber... acabo de criar a comunidade no orkut. Por favor, não me deixe sozinho nessa... http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=11183014&refresh=1

27 de mar. de 2006

Mentira? Imagine só!

Dias atrás um amigo veio dizer que conheceu minha ex-namorada. Engraçado como eu sempre falava para ele a respeito dela, quando ainda havia o namoro. E ele só foi conhecê-la depois que o namoro tinha chegado ao fim. O comentário dele: “Você sempre falava sobre ela... Mas como eu nunca a tinha visto, pensei que ela não existia. Pensei que ela fosse como um amigo-imaginário...” Fiquei pasmo ao notar que ele falava sério.
Durante muito tempo eu tentei compreender por que, raios, algumas pessoas duvidam de coisas que eu falo. Odeio, por exemplo, quando faço um relato e meu interlocutor pergunta: “Verdade?” Dá vontade de esganar a pessoa. “Mas, você jura?” Eu não juro porcaria nenhuma. Ou você acredita em mim, ou então vá pro inferno! Uhn... é isso o que eu deveria responder...

O fato é que, pensando no comentário de meu amigo sobre minha “namorada imaginária” e olhando para algumas de minhas comunidades no orkut, acho que cheguei a uma explicação.
Uma das minhas comunidades diz: “Eu não sei mentir”. E, de fato, se eu tentar mentir, fatalmente vou me sair pior do que se tivesse dito a verdade. Então, procuro não me arriscar. Outra comunidade anuncia: “Eu já vi Óvnis”. Já notei que essa é a comunidade que mais chama a atenção das pessoas, não sei por que motivo. Mas, pensei, interessante como a comunidade número 1 parece entrar em conflito com a número 2. E, finalmente, reparei em outra comunidade logo abaixo: “Minha imaginação me assusta”.
Certo... Refleti sobre essas três frases e cheguei à conclusão: Apesar de eu não mentir, as pessoas sabem que minha imaginação é fértil. Assim, mesmo sendo completamente sincero, como vão acreditar se eu disser algo como: “Ontem vi outro Óvni.”?

Quando eu era criança, acordava cedo e continuava deitado em minha cama. Ficava olhando para a cortina presa sobre a porta. Havia desenhos de flores na cortina. Mas, naquele estado de semiconsciência, eu via que uma das rosas tinha, em seu desenho, traços que lembravam um dinossauro, e que outras pétalas lembravam um soldado. Quando eu menos esperava, o soldado estava tentando matar o dinossauro e uma espécie de desenho animado surgia, sem que houvesse outro movimento que não fosse o da minha imaginação. Sim, eu vivia praticamente no “Mundo de Bobby”.
De lá pra cá, algumas coisas mudaram... A cortina não é mais a mesma. Agora é sem estampa. Mas existem histórias interessantes nos azulejos do banheiro.
Só sei que imaginar não é o mesmo que mentir. E que, na maioria das vezes, as coisas que imagino revelam mais verdade do que mentira. O engraçado é que, recuperando alguns dados de minha memória, percebo que nunca tive amigo-imaginário. Acho que, apesar do elevado grau imaginativo, sou incapaz de inventar pessoas. A menos, é claro, que eu tenha inventado todo mundo, e ainda esteja olhando para a velha cortina estampada.

20 de mar. de 2006

Pelo bem dos manequins

Há poucos dias escutei num anúncio de rádio uma expressão que há tempos não ouvia: “vitrine-viva”.
Na última (e primeira) vez em que escutei a palavra, eu devia ter uns sete anos de idade. Lembro bem, era noite de vésperas de Natal. Eu caminhava pelo Calçadão da Rua Coronel Cláudio – que talvez ainda nem fosse oficialmente um calçadão – junto com meu pai. De repente vi uma multidão de homens reunidos, todos em frente à vitrine de uma loja.
Fiquei curioso. Com tantas vitrines, por que todos resolveram ficar se empurrando diante da mesma? Perguntei ao meu pai sobre o que acontecia ali. Ele esboçou um sorriso e disse apenas “vamos lá também.” Brigando por espaço, pudemos chegar a ver as duas mulheres que, vestindo apenas peças de lingerie, realizavam movimentos robóticos e, em seguida, permaneciam algum tempo paradas, o rosto muito sério, evitando demonstrar reação às cantadas e assobios dos homens ali reunidos. Na ocasião, lembro bem, meu pai explicou que aquilo era uma vitrine-viva.

Mas as pessoas mudam. Umas crescem, outras envelhecem. As mais sortudas conseguem fazer as duas coisas. E agora, conversando com meu pai a respeito, chegamos à conclusão de que a vitrine não é viva. As manequins é que são. Faz sentido.
De lá pra cá eu nunca mais soube que tivesse existido outra vitrine como aquela. Mas eis que na semana passada uma das lojas da cidade anunciou a sua “reinauguração”. Reinauguração é um termo engraçado, também, nesse caso. Afinal, a loja existe há anos e nunca fechou. Já mudou de endereço, mas isso faz tempo. Então, não entendi por que disseram estar reinaugurando.
O fato é que a loja disse que durante a reinauguração haveria uma porção de atrações. Entre elas, uma vitrine-viva! Lembrei de minha experiência quando era criança e pensei: “Hora de rever a vitrine-viva.”
Mas, pra encurtar a história... foi uma grande decepção. As manequins eram bonitas, mas não usavam lingerie. E eu achava que vitrine-viva obrigatoriamente tinha que ter lingerie. Uhn... quem sabe no Natal?

Vitrines são coisas engraçadas. Eu raramente paro a fim de olhar uma delas. Mas, há algumas semanas, um anúncio em uma vitrine me obrigou a parar. Dizia assim: “Vende-se essa vitrine.” Também já vi uma vitrine que anunciava: “Vendem-se manequins.” Parece bem insólito. Como as livrarias que vendem placas de “Aluga-se”.

Coisa estranha são esses manequins. Não há padronização nos modelos. Existem manequins sem pernas, existem os sem-braços, sem pernas e sem braços, e até sem cabeça. Outros têm o corpo bem feito e uma cabeça bem pequena, como se o corpo tivesse sido feito por uma empresa e a cabeça por outra.
Li em algum lugar a respeito de maníacos sexuais que atacam manequins. Fico pensando que talvez esse seja o motivo de muitos desses manequins saírem da fábrica propositalmente mutilados. Talvez haja poucos maníacos dispostos a transar com um manequim sem cabeça. Ou talvez por isso alguns manequins tenham uma cara tão feia. Quem sabe por isso a maioria não tem cabelo? Pelo bem dos manequins. Sei lá, é uma teoria.

13 de mar. de 2006

Gripes e computadores que desafiam a lógica

Finalmente meu computador está trabalhando bem. A assistência técnica teve uma pequena participação, é verdade. Mas o problema principal fui eu mesmo que resolvi. Eles eliminaram o vírus e formataram o CPU. No entanto, o aparelho continuava não conectando à internet. Reclamei com a empresa e enviaram um técnico que é praticamente o clone de meu amigo Glaydson. Só muda o nariz. Vestuário, gestos e voz... tudo igual.
Glaydson Cover conseguiu conectar à internet. Mas, apesar de o sistema indicar a velocidade máxima de conexão (estava lá pelos 50.000bps), a realidade era outra. Nem a página inicial aparecia. Lembrando de como o computador funcionava antes de ser formatado, eu disse a ele que meu CPU funcionava mais rápido se conectasse a uma velocidade menor... Lá pelos 30.000bps. Mas ele disse, com muito cuidado para não me ofender, que isso não tinha lógica nenhuma, pois faria a velocidade de conexão diminuir, não aumentar. E foi embora, me deixando diante de um monitor que avisava: “a página não pode ser exibida.”

Consultei outro técnico e o diálogo foi engraçado:

Eu: Como faço para alterar a velocidade da conexão?
Técnico: Depende... é conexão discada?
Eu: É sim.
Téc.: Ah, então nem vai dar pra alterar muito. Normalmente a velocidade não pode ser aumentada.
Eu: Mas, não quero aumentar a velocidade. Quero diminuir.
Téc.: Você quer diminuir??? – cai na gargalhada, olha para os lados demonstrando incredulidade, depois nota minha expressão e fica sério – Por que você quer diminuir?

Resumindo, ele me disse que reduzir de 50 para 30kbps não tinha lógica nenhuma, corroborando a opinião de Glaydson Cover. Eu já estava cogitando a hipótese de comprar um novo computador. Mas ainda duvidava que isso melhoraria a situação com a internet. Sentei novamente diante do aparelho e fiquei fuçando. Até que encontrei um botão que dizia “conectar somente a...” Selecionei a opção 38400bps. Depois reinstalei o discador. E pronto! A internet está funcionando bem, como antigamente.
Gostaria de mostrar isso para os vários técnicos de informática que me disseram que isso era impossível. Mas tenho receio de que eles queiram dissecar meu CPU para descobrir o que ele tem de sobrenatural. Então, vamos manter isso em segredo... ou quase.
Resolvido o problema do vírus em meu computador, outro acaba de invadir minha casa... Peguei uma gripe das brabas! E desconfio que seja um vírus maluco que se propaga pela linha telefônica, mas não danifica computadores, e sim pessoas. Algo ao estilo de algum episódio do seriado de TV Smallville. Imagino que alterações naturais causadas pela exposição à criptonita, fizeram com que um vírus comum de gripe pudesse se converter em eletricidade, e mover-se a longas distâncias graças à invenção de Graham Bell. Só sei que os sintomas da virose começaram depois que conversei ao telefone com um amigo que teve o sistema imunológico atingido. De lá pra cá, até as pessoas com quem converso por e-mail estão ficando gripadas. Se você também adquirir o vírus da gripe enquanto estiver lendo essas palavras, irá confirmar minha teoria.

6 de mar. de 2006

Pausa para pensar na relação

Estive num café e pedi fricassê (deve ser assim que se escreve...) de frango. Veio um pedaço 25% maior do que o pedaço que comi na última vez em que estive no mesmo estabelecimento. Só posso supor que isso aconteceu porque eu estava ali na noite de quinta-feira, quando o movimento de clientes era pequeno. Talvez os funcionários fossem jogar no lixo o restante daquela comida, que já estava pronta, caso ninguém comprasse. Sei lá! Mas acho que vou começar a ir até lá mais vezes quando o movimento estiver baixo, só pra testar essa minha teoria. “A quantidade de fricassê servida é inversamente proporcional à quantidade de pessoas a freqüentar o estabelecimento no final do dia.”
Naquele mesmo café os guardanapos ficam empilhados no interior de um recipiente quadrado de acrílico, com uma espécie de alça que impede que um possível vento sobrenatural (é um ambiente fechado) desloque as folhas de papel. Olhando aquela peça de acrílico eu pensei, pela primeira vez, na existência de um guarda-guardanapo. Algo que não está no dicionário ainda, mas já está há um bom tempo nas mesas das lanchonetes, também na forma metálica mais tradicional. Uhn... talvez seja um “guardanapeiro”... Vai saber!

O fato é que eu estava comendo aquele belo pedaço de fricassê e tomando uma xícara de café, logo depois de ter saído de uma sessão no cinema do shopping. E isso foi dias antes, parece, de meu computador ter travado... Ou terá sido um dia depois? Bem, o fato é que meu computador travou o Internet Explorer. Aparentemente, depois que recebi algum vírus desconhecido via e-mail.
Eu não sei por que alguém se dá ao trabalho de disseminar um vírus que danifica o meu computador. Tudo bem... os computadores do Pentágono até merecem esse tipo de coisa – promovem guerras. Sabotar os equipamentos da NASA, por que não? Estão tentando importunar os coitados dos extraterrestres. Mas o meu computador... que mal ele faz ao mundo? É meu instrumento de trabalho, pôxa! E agora, aqui estou eu, numa lan house, publicando um texto no blog que, em virtude de uma série de problemas, não é atualizado há um bom tempo.

Minha maior distração é ficar atualizando o Universo e Afins e trocando e-mails! Depois do misterioso vírus que fez com que o Internet Explorer travasse, fui obrigado a levar o aparelho até a assistência técnica que, por razões obscuras, só devolveu o computador uma semana depois.
Eis que liguei o aparelho à internet, e ele não tem nem dez por cento da velocidade de conexão que tinha antes! Raios! Está simplesmente impossível ver sequer a correspondência. A conexão cai a toda hora. Impossível, apenas isso.
Sem computador, durante vários dias eu me senti totalmente perdido, como um náufrago. Aliás, é a melhor metáfora para quem costuma navegar na internet. Depois da fase náufrago, passei a sentir os efeitos da crise de abstinência. De repente me surpreendia caminhando de um lado para o outro, no meio da garagem aqui de casa, com as mãos tremendo.
Agora que o computador retornou, sinto como se estivesse hospedando um parente doente em minha casa. Fica aquela sensação de afeto e desejo de melhoras. Por outro lado, a gente não sossega um instante sequer, imaginando que a qualquer momento ele pode ter um colapso e bater as botas.

Para pessoas como eu, que não curtem o Carnaval, a internet acaba se tornando uma ferramenta indispensável. Aliás, no outro dia ouvi no rádio o comentário de um colega jornalista que dizia: “Às vezes penso que não sou brasileiro... Porque eu não gosto de futebol, não gosto de Carnaval, não gosto de Samba!” E acho que me identifico com esse pensamento. De vez em quando me sinto um estrangeiro em minha terra. Embora seja cada vez mais comum encontrar pessoas que não são fanáticas por esses três elementos, componentes daquilo que se convencionou chamar de cultura nacional.

Então, sem computador, acabei passando uma noite de Carnaval assistindo à partida de pôquer pela TV a cabo. Não significa que eu tenha o recurso em minha casa... Apenas dei seqüência a um hábito criado em 2001, e que há tempos não punha em prática: fui à casa de um amigo que possui TV a cabo, e lá fiquei até altas horas da noite, curtindo a programação. Porque assistir TV a cabo é uma arte que consiste em apertar rápidas vezes seguidas o botão do controle remoto, vendo pequenos trechos de tudo e não acompanhando, realmente, nada. E essa regra raras vezes sofre alteração.

Mas, voltando ao tema “internet”... Na ocasião, estive no cinema para assistir ao filme “A pantera cor-de-rosa”. Uma comédia em que Steve Martin interpreta um detetive atrapalhado. E eu estou precisando muito de comédia ultimamente. Mas não ri tanto quanto gostaria. Na verdade, ri quase nada. Não achei o filme tão bom assim. Mas, eu sou da opinião que todo filme, por pior que seja, apresenta coisas interessantes. Porque o sentido de um filme – assim como o sentido de várias outras coisas, talvez de tudo – depende muito de nossas próprias experiências e formas particulares de ver o mundo.
E nesse filme há um diálogo bastante pertinente. A moça olha para o personagem de Steve Martin e pergunta: “Detetive... você mora sozinho?”
E ele responde: “Não. Eu tenho internet.”
Pois é... Algo para se pensar.

17 de fev. de 2006

Gritos no teto, superstições e trotes automáticos

Algo estranho acontece em minha casa. Há alguns anos era a descarga do banheiro que funcionava sozinha. Já estávamos nos preocupando com o fenômeno, mas com o passar do tempo as coisas voltaram ao normal. Mais recentemente, eu fui fechar uma torneira e ela acabou estourando com o cano PVC e tudo mais.
Na cozinha, a torneira da pia despeja água, sozinha, nos momentos mais estranhos. Normalmente quando a família está discutindo algo durante o almoço ou a janta. Mas agora o negócio extrapolou... A caixa d’água resolveu gritar!
Começou no último dia 13. Meu irmão saiu do banho e a casa foi tomada por aquele ruído medonho. Não fosse a inviabilidade lógica, eu diria que tinha alguém acionando uma buzina de caminhão no teto de nossa residência. Quando notei que a mesma coisa acontecia após o banho de minha mãe, e também depois que eu saía de baixo do chuveiro, deduzi que só podia ser o barulho da caixa d’água enchendo.
Só sei que o barulho era bem esquisito, como um grito de almas vindo diretamente do inferno. E o negócio foi pior à noite, quando o silêncio impera. A situação fez com que eu lembrasse do antigo programa da TV Cultura – o “Castelo Rá-Tim-Bum”. Os personagens ouviam um ruído estranho no teto e nas paredes e alguém perguntava: “Que barulho é esse?” E a resposta, apesar de assustadora, tranqüilizava: “É só o Mal, correndo pelos encanamentos do castelo.”
Subi até o teto e abri a caixa d’água. Tudo parecia comum. Havia apenas um pequeno arame da bóia em posição suspeita. Movimentei o arame alguns milímetros e, ao que parece, foi o suficiente para exorcizar os demônios. O barulho parou... até agora.

Minha avó costuma fazer nhoque – uma deliciosa receita da culinária italiana. Curioso observar que, há pouco tempo, ela resolveu seguir uma simpatia que, parece, ouviu no rádio. Segundo a superstição, é necessário colocar uma nota de dinheiro sob o prato, no qual se coloca sete peças de nhoque. A manobra precisa ser feita a cada primeiro dia de mês. Enquanto a pessoa come o nhoque (detalhe... o indivíduo deve ficar em pé enquanto faz isso), é preciso mentalizar um pedido, que tende a se realizar.
Achei que era para atrair dinheiro, mas minha avó disse que ela não deseja dinheiro. Então, não entendo a lógica da tal simpatia. Afinal, pra quê a nota sob o prato? O que sei é que eu não participei dos rituais, mas meu desejo até agora está se realizando. Desejei que tivesse nhoque pro almoço sempre que eu fosse visitar minha avó, e está dando certo. É só mentalizar!

Superstição é uma coisa engraçada. Gosto de tentar adivinhar o raciocínio que fez com que fossem criadas. Por exemplo, dizem que, se uma vassoura for deixada atrás da porta da casa, o morador não recebe visitas.
Talvez tenha surgido assim... Uma senhora foi visitar o sobrinho e, quando abriu a porta para entrar na casa, a vassoura escorregou e caiu em sua cabeça. A mulher ficou tão indignada, que nunca mais foi visitar o cidadão.
Tem outra boa... As crianças estão brincando de pega-pega, e começam a correr em volta da mesa de jantar. Lá vem alguém pra gritar: “Não presta correr em volta da mesa!” Essa tem lógica... Se você corre em torno da mesa, acaba ficando tonto, cai e bate a cabeça. É o que imagino.
Então, algumas parecem ter razão de existir. Eu, por exemplo, se fosse inventar uma superstição, seria assim: “Não presta jantar embaixo de lâmpada acesa.” Claro... As mariposas, mosquitos e pirilampos ficam voando em volta da luz e acabam caindo na comida.

Nessa semana saí pra comprar um celular para meu irmão. Queria um modelo que não fosse feio e que não fosse muito caro. Encontrei um tal de Nokia 1110 que era uma belezinha. Uma atualização do meu celular, que é um pouco mais antigo. Mas fiquei indignado ao perceber que o celular de meu irmão é mais moderno e bonito, e custa menos. Eu paguei duzentos reais pelo meu aparelho e o do meu irmão custou cinqüenta reais a menos! Tem até sons em mp3, conversor de medidas e viva-voz... Até sugeri que ele ficasse com o meu antigo. Argumentei que o meu aparelho era mais fácil de manusear, mas ele não quis. E isso não foi nenhuma surpresa...
Há uma promoção que permite que ligações entre celulares de mesma operadora sejam mais baratas. A promoção vale para até três números diferentes de celulares. Para isso, basta cadastrar o número do outro celular. Fui fazer o tal cadastro, mas é algo totalmente automático, feito a partir do próprio aparelho. Uma gravação controlada por computador pediu que eu digitasse o número a ser cadastrado. Eu ainda não tinha digitado o número de meu irmão, quando a gravação disse algo como: “Esse número não pôde ser cadastrado. Digite o segundo número.” Segundo número? Bem... Digitei, e lá veio a gravação outra vez: “O número não pôde ser cadastrado. Digite o terceiro número.” Digitei outra vez, e a gravação disse, pela terceira vez, que eu não tinha conseguido e, pior, que tinha feito minhas três tentativas. Em seguida, desligou na minha cara! Assim, meu direito à promoção foi cancelado. Pareceu até um trote. Mas é a primeira vez que uma gravação computadorizada me passa trote.
O pior é que eu acho que fiz tudo certinho. Às vezes eu fico impressionado com a burrice dos computadores. Uhn... Tomara que esse aqui não perceba que estou falando mal dos componentes de sua raça. Tenho medo de uma vingança no estilo Matrix...

5 de fev. de 2006

Os múltiplos lados da piada

Mas, que calor danado faz nesses dias! E olhe que não sou de ficar reclamando do tempo. Acontece que estou evitando enfrentar o sol vespertino, e não sou o único. Anteontem minha mãe pediu ajuda para lavar a calçada em frente de casa, mas estava tão quente que ela preferiu agendar o trabalho para depois das sete horas.
Foi naquele mesmo dia abafado, só que no período da manhã, que minha mãe resolveu que iria aproveitar a promoção em uma das lojas do centro da cidade. E lá fomos eu, minha mãe e meu irmão comprar alguns pares de tênis. Acontece que, além de a loja anunciar a promoção no rádio, ainda colocaram um arco feito de bexigas em frente ao local. Com isso, cada cidadão que passava em frente perguntava: “Ei, o que tá acontecendo aí dentro?” E alguém respondia: “É promoção.”
Foi assim que descobrimos o lugar já entupido de gente. Encontrei a Paula no meio de todas aquelas pessoas, e ela resumiu a situação: “Parece que a cidade inteira de Ponta Grossa está aqui dentro!”
Sei que voltamos com dois pares de tênis e, à tarde, depois das sete, nos determinamos a lavar a calçada. Mas me indignei facilmente com algo absurdamente banal. Todos os conhecidos passavam por mim e faziam a brincadeira mais velha do mundo. Ou uma das mais velhas... (Acho que foi inventada após o advento da calçada.)
“Quero ver tudo bem limpinho, hein?!” (risinhos)
“Depois também pode lavar a calçada lá de casa, tá bom?!” (mais risinhos)
“Vamos, rapaz, use essa vassoura direito!” (outros risinhos)

Até que não dava mais! Cheguei no meu limite e, em meu íntimo, jurei: “A próxima pessoa que fizer piada, vai levar na cabeça...”
O problema é que a próxima pessoa foi a coitada da minha vizinha, Dona Lúcia, que voltava do centro da cidade e não merecia minha resposta mal-educada: “Você é a quarta pessoa que faz essa piada!”, gritei.
Fui repreendido por minha mãe. Mas já estava feito. Acho que Dona Lúcia era uma dessas pessoas que estava no lugar errado e na hora errada. E, claro... que fez a piada errada. Primeiro pensei no lado bom. “Pelo menos essa vai pensar duas vezes antes de repetir a piada.” Depois começou um grande remorso. E, se eu acreditasse em castigo divino, diria que foi o que aconteceu minutos depois.

Faltava uma parte da calçada para terminar o serviço. Minha mãe não conseguia fechar a torneira e eu fui até lá para (em tese) ajudar. Percebi que a torneira parecia estar estragada. Achei que bastaria uma pancadinha sobre o registro, para resolver o problema. Você, provavelmente, já pode imaginar o que aconteceu após a “pancadinha”.
Pois é, quebrei o cano e foi água pra todo lado. Depois de olhares reprovadores de minha mãe e a descoberta de que eu não seria capaz de consertar o encanamento (o que ficaria para o dia seguinte), senti falta de alguém que dissesse: “Tudo bem, isso acontece...” Ou então alguém que fizesse a piada certa, na hora certa.

Pois é, todos cometem erros, e como diz uma amiga: “Você não precisa ser perfeito.” Uhn... esse texto tá ficando cheio de citações. Então, vou aproveitar para comentar as notícias do telejornal.

Vi rapidamente no Jornal Nacional... Durante um encontro entre Lula e o governador do Paraná, Roberto Requião, o presidente começou a falar bem da mamona. Mamona, você deve lembrar, é aquela planta que dá umas frutinhas verdes e que a gente brincava de jogar um no outro quando crianças.
Então o presidente Lula estende um pote de vidro cheio de sementes de mamona, e diz para o Requião: “Olha só, mamona... vocês têm muito disso no Paraná?”
Só que o governador não dá atenção nenhuma ao que o presidente diz. Parece que acabou de desligar o cérebro porque, ao invés de responder à pergunta, ele pega duas ou três sementes de mamona e coloca na boca para saborear.
Nisso, o presidente olha bem pra ele e diz, espantado: “É mamona, pô! Sabia que isso aí tem uma toxina... e que não pode comer?!” Agora, imagina que o governador do Paraná teve que cuspir de volta as sementes. E as câmeras filmando... Não tem como conter o riso numa situação dessas.

Enquanto isso, aumentam os protestos dos muçulmanos contra charges publicadas em vários jornais da Europa, retratando o profeta Maomé. Eu ainda não pude ver as tais charges, mas deve ter sido algo não muito engraçado. Ou, que agora perdeu a graça. Como chargista, fico tentando imaginar o que o autor das tais caricaturas está pensando agora. Acho que aí está o perigo de escrever – ou desenhar – algo, acreditando que não há ninguém prestando atenção. É sempre bom ter em mente que pode haver alguém do outro lado.

E ontem eu estava acompanhando na TV as cenas do momento em que libertaram um empresário seqüestrado no mês passado. Difícil acreditar que o Jornal Nacional conseguiu ir até o local do cativeiro com todo o equipamento e com um repórter, registrando o resgate. Foi sucesso total para a polícia e para a equipe de reportagem. Até o empresário deu entrevista ali, na hora! Parecia uma armação tão grande quanto as fotos da Missão Apollo XI.
Mas tive que dar risada. O empresário parecia relativamente tranqüilo. E o repórter conversou com ele, perguntando detalhes que o empresário tentou responder. Depois, o repórter ainda disse pra vítima: “Ei, amanhã é seu aniversário, não é?” E o cara respondeu: “É sim. Vou festejar com a família! E vocês estão todos convidados!” Nisso, o empresário deu uma paradinha, virou e apontou para os seqüestradores que estavam algemados num canto, e disse: “Menos aqueles ali.”
Depois disso todos riram. E eu ri também, porque me fez lembrar o final dos desenhos do Scooby-Doo, quando todos ficam rindo da situação, e os vilões dizem: “E nós teríamos conseguido se não fosse esse bando de crianças intrometidas e esse cachorro.”
E o cachorro responderia: “Scooby-Dooby-Doo…”

Nessa semana, por razões não muito agradáveis, compareci a um cemitério. Lá encontrei dois amigos (ambos vivos) e, como fazia bastante calor, resolvemos procurar por uma sombra.
_Será que a gente pode sentar no cemitério, ou isso é uma espécie de sacrilégio? – perguntou um deles, apontando para um murinho.
_Acho que não há problema. – respondi – Aqui inclusive tem bancos. – dizendo isso, mostrei um banco de concreto.
Daquele ponto ficamos observando durante algum tempo a vista além dos túmulos (e não além-túmulo). Dava pra ver a catedral da cidade e algumas outras igrejas. Mas acho que não dá pra ficar parado por muito tempo dentro de um cemitério. A gente se sente impelido ao movimento, pra não esquecer da nossa condição de vivos. Assim, algum de nós sugeriu uma caminhada entre os túmulos. E a idéia foi imediatamente aceita.
Paramos diante de uma das antigas sepulturas, onde espiamos a fotografia de uma mulher. E meu amigo soltou essa:
_Mas olha que cara de safada!

Caminhamos mais um pouco e meu amigo parou diante de outro túmulo. Começou a rir enquanto lia algumas palavras sobre a lápide e disse:
_Olha só! Essa é boa: “Família Mortary”...
_Ai meu Deus... Vamos voltar pra sombra, porque com você não tem jeito... – reclamei

Na hora fiz papel de sujeito sério. Mas depois, em casa, confesso que ri ao lembrar dos comentários de meu colega. Só não quis rir na frente dos defuntos. Afinal, é sempre bom ter em mente que pode haver alguém do outro lado.